Quando eu olhava pra coroa da Caloi 10 em movimento, eu tinha a impressão de que o pedivela todo tava mal encaixado. Como um ovo, ele girava pra frente.
Passei na bicicletaria e tentei negociar um horário em que ele olhasse pra minha bicicleta, consertasse o problema e eu pudesse voltar pra casa pedalando. Deixar a bicicleta pra pegar em outro dia eu acho complicado aqui: a bicicletaria fica a 7 km de casa. Eu teria que pegar 2 ônibus pra chegar lá, outros dois pra voltar e além do mais nem sei quais ônibus são esses. O mecânico disse que se eu chegasse às 8:00, eu seria a primeira da fila e ele se ocuparia da bicicleta na hora.
Acordei tão atrasada, que não deu pra tomar café da manhã; mas cheguei na bicicletaria às 8:04. O mecânico tava tomando café e comendo pão. Dei o meu diagnóstico do problema da Caloi 10 e fui na padaria, tomar café. Quando voltei, a bicicleta e o mecânico estavam na calçada. Ele estava lavando a bichinha. Perguntei se ele tinha detectado o problema, ele respondeu que o disco da coroa estava empenado e que dava pra endireitar com um alicate.
Lavada a bicicleta, ele colocou a magrela pra dentro e começou a desenroscar os parafusos da mesa. Perguntei se ele ia tirar o guidon. Respondeu que como a bike tinha ficado parada por um ano, ele queria ver se precisava lubrificar as juntas. Tudo bem, eu pensei: o melhor mecânico de bicicletas de Porto Velho sabe do que a minha bicicleta precisa.
Foi chegando gente que foi se acomodando nos banquinhos e atrás do balcão pra botar o papo em dia. Conversaram dos campeonatos, das quedas nas trilhas, das bicicletas, dos eventos de bicicleta. Fui sacando os nomes das pessoas, rindo com as estórias e acompanhando a revisão da Caloi 10. Quando o Bezerra tava desenroscando o movimento central, tocou o telefone. Conversou com o cliente e disse que estaria disponível dali a duas horas. Voltou pra Caloi 10 e limpou o movimento central com querosene.
Foi chegando gente que foi se acomodando nos banquinhos e atrás do balcão pra botar o papo em dia. Conversaram dos campeonatos, das quedas nas trilhas, das bicicletas, dos eventos de bicicleta. Fui sacando os nomes das pessoas, rindo com as estórias e acompanhando a revisão da Caloi 10. Quando o Bezerra tava desenroscando o movimento central, tocou o telefone. Conversou com o cliente e disse que estaria disponível dali a duas horas. Voltou pra Caloi 10 e limpou o movimento central com querosene.
Quando os assuntos se desviaram da bicicleta, tive a impressão de estar numa barbearia. Eu era a única mulher ali. Um estava aposentado, o outro de férias, outro veio pedir uma chave 14 emprestada e acabou ficando, o último tinha vindo pra dar uma olhadinha na revista esportiva. Foi na bicicletaria que fiquei sabendo que a greve dos bancários tinha terminado e foi lá que ouvi a desculpa mais esfarradapa pra votar num candidato a presidente e não em no outro. Bezerra era o centro das atenções: envolvido na conversa, desempenou a coroa com alicate e martelo, abriu os rolamentos das rodas, examinou as esferas, trocou algumas, engraxou tudo, recebeu a bicicleta de um cliente que tinha se acidentado na última competição, tirou os cabos dos freios, brigou com o conduite na hora de colocar outro cabo, desenrolou a fita do guidom, atendeu o telefone e disse que estaria disponível em breve, regulou a marcha e cobrou metade do que estou acostumada a pagar por uma revisão completa de bicicleta.
3 comentários:
Muito bom.
Bommmmm! Que conto leve e legal sobre o cotidiano, sua linguagem é tão natural que é como se eu estivesse ao seu lado durante todo o transcorrido, pela descrição das percepções do ambiente, o decorrer do tempo.
Boa...
abraço
Márcio Campos
Muito bom, bem mão na roda!
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