quinta-feira, 19 de maio de 2011

Um dos meus irmãos

Um dos meus irmãos gostava de me levar pro seu trabalho. Assim que chegava, sumia. Num canto escondido, abria a sua grande maleta quadrada. Tirava um espelho (daqueles que vende em mercearia), passava gel extra fixador no cabelo e, equilibrando a imagem no espelho, passava maquiagem no rosto. Transformado em Jerônimo, se apresentava - e eu tentava registrar seus movimentos com a câmera.

Um dos meus irmãos ensaiava números de circo na garagem lá de casa. Houve vezes em que a banda, que ainda precisava aprender a tocar (e a ouvir), se instalava na sala. Não importa se na sala ou garagem, os ensaios ocupavam a casa inteira e era preciso sair pra se ouvir o próprio pensamento.

Um dos meus irmãos tocava instrumentos inusitados. Quando se encantou com os objetos de cozinha, fiquei sem louça. Quando aprendeu a tocar sanfona, a vizinhança toda acompanhou seus progressos. Quando aprendeu a tocar serrote, perambulávamos por uma casa assombrada. Quando tocava violão, a gente cantava junto.

Um dos meus irmãos viajou com o teatro fazendo circo. Me levou no circo do Sol que fazia música, me chamou pra participar duma oficina de Barbatuques, me pediu pra revisar seus escritos e me explicou que ser palhaço é coisa séria.

Um dos meus irmãos é o meu palhaço preferido.

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