quinta-feira, 5 de maio de 2011

O caminho, o sucesso e o acaso

Quando eu ia nas livrarias grandes, boas e especializadas, eu costumava seguir uma certa trilha que me conduzia pelo estabelecimento. O caminho que eu fazia passava pela estante da linguística, literatura estrangeira e nacional, quadrinhos, livros de arte e viagem e ocasionalmente filosofia, dicionários e top de vendas da loja. Meu caminho não passava pelos esotéricos, auto-ajuda, religião, direito, saúde ou culinária.

Quando eu parava na frente da estante de linguística, costumava ficar intrigada com o que as lojas colocavam ali. Havia sempre muitas gramáticas, manuais de redação, livros sobre como falar em público (tudo receitas para se atingir um certo ideal de desempenho linguístico). O Curso de Linguística Geral estava lá, assim como algumas introduções à Linguística (e desconfio que estivessem lá por causa do título que continha a palavra-guia que categorizava a estante), mas metade dos livros era sobre linguagem (comunicação, manuais, dicas, guias e congêneres), não linguística (a ciência sobre as línguas humanas).

Nas livrarias de Porto Velho não consta a estante dedicada aos livros de linguística (seja lá o que isso for). Nas livrarias de Porto Velho, o meu caminho pela loja se assemelha ao “andar do bêbado”. Em primeiro lugar isso acontece porque ainda não identifiquei claramente as seções que me interessam. Em segundo lugar, as seções todas são misturadas. Ao lado do livro de história estão os de auto-ajuda, ao lado do livro de filosofia estão os de religião, ao lado do de literatura estão os esotéricos, vampíricos e biografias de pessoas de sucesso (medido em termos financeiros). Como uma molécula que se choca aleatoriamente com outras moléculas em seu caminho imprevisível, caminho pela livraria. É impressionante o que se publica – e consome hoje em dia. Grande parte dos livros que eu considero junk books gira em torno do sucesso; e isso num tempo e lugar em que a escola forma pessoas incapazes de ler, escrever, pensar e criticar.

Terminei de ler O andar do bêbado, de Leonard Mlodinow, sobre aleatoriedade. Recortei uma passagem que encaixa com o tema:

“(...) assim como os autores devem ser julgados por seu modo de escrever e não pelas vendas de seus livros, os físicos – e todos os que tentam ser bem-sucedidos – devem ser julgados mais por suas habilidades que por seus êxitos.
                A linha que une a habilidade e o sucesso é frouxa e elástica. É fácil enxergarmos grandes qualidades em livros campeões de vendas, ou vermos certas carências em manuscritos não publicados, vodcas inexpressivas ou pessoas que ainda estão lutando pelo reconhecimento em qualquer área. É fácil acreditarmos que as ideias que funcionaram eram boas ideias, que os planos bem-sucedidos foram bem projetados, e que as ideias e os planos que não se saíram bem foram mal concebidos. É fácil transformar os mais bem-sucedidos em heróis, olhando com desdém para o resto. Porém, a habilidade não garante conquistas, e as conquistas não são proporcionais à habilidade. Assim, é importante mantermos sempre em mente o outro termo da equação – o papel do acaso.” (p. 229 – 230)

Recebi ontem uma prestação de contas da Editora da Unicamp pelo capítulo (da preposição, claro) de que sou co-autora do último volume da Gramática do português culto falado no Brasil. Recebi, pelos direitos autorais, R$ 49,55 referentes às vendas do ano anterior. Se as vendas tivessem sido maiores, eu teria recebido mais. Durante o período do ano anterior (não sei estabelecer os limites), foram vendidos 101 exemplares da GPFCB. Em tempos em que o que vale é o sucesso, o certo, o escrito, quem é que se interessa por um catatau de 1167 páginas sobre a organização da oralidade? A GPFCB não é exatamente um sucesso de vendas, mas pela habilidade dos meus colegas, eu ponho a mão no fogo.

Um comentário:

bill disse...

Ao ler o trecho que fala sobre acaso, lembrei do Paul Auster.

E também achei engraçado esse papo de biografia. Eu só leio biografia de gente que se fodeu na vida, talvez por isso eu não vá pra frente.

hahahah,
será que tá na hora de ler A Estrada do Futuro, do Bill Gates??