terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O som que atravessa

O som ao redor
Santa Maria tem cinema. Tem, mas os filmes que queríamos ver só passam em Porto Alegre. Luis já tinha visto no Rio o filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho e tinha reparado na reação do público de classe média descolada ao ver um filme que se passa em Recife. Estava curioso em relação ao comportamento do público gaúcho. A surpresa, no entanto, veio de outro lugar: o som da sala de cinema (Centro Cultural Mário Quintana) estava ruim e pelo menos duas cenas foram cortadas.

"O som ao redor" é dividido em três partes: 1) cães de guarda, 2) guardas noturnos e 3) guarda-costas. A questão da segurança na metrópole pode ser identificada como um fio condutor do filme que conta com vários personagens que vivem/ transitam na mesma rua. O espaço que guardas e guardados dividem é o mesmo, com a diferença de que os guardas ficam fora da casa e os guardados se trancam dentro. Por isso mesmo o espaço é disputado. O som ampliado no filme, tanto aquele que causa incômodo aos personagens como aquele que ressalta a vingança de outros, costura a narrativa solta e fragmentada.

A narrativa atravessa o tempo: a primeira cena é uma foto antiga de uma família na frente de um engenho de açúcar. Todas as cenas seguintes se passam na Recife atual. No tempo do engenho de cana, uma autoridade central detinha o monopólio (tanto dinheiro como força a seu serviço). No tempo atual, cada um se defende contra o mundo como pode: o poder está fragmentado e milícias fazem o papel da polícia. E um dos fragmentos volta para cobrar seu preço: "O senhor não se lembra? Pois eu tinha seis anos - e eu lembro."

A narrativa atravessa o espaço: o dono de metade dos imóveis daquela rua chama a trama da cidade para o engenho. Na cidade, o espaço privado é pouco pra tanta gente, mas a rua é vazia. E ainda assim, aquela rua é um simulacro do engenho: a família do coronel continua mandando no pedaço.

Por fim, a desigualdade social atravessa os personagens: um dos netos do coronel herda o ofício de administrar os bens da família enquanto agente imobiliário, o outro herda a truculência, o poder desmedido de quem não deve explicações. O filho do coronel acha um absurdo pagar a um grupo de seguranças para que façam a vigilância da rua, afinal de contas, aquela rua é herança sua. Do outro lado da linha social estão os rapazes que oferecem o serviço de segurança; o rapaz que, em troca de uns trocados, tenta ajudar a madame com suas bolsas, é repelido e risca seu Audi; a empregada que entra na casa de um morador daquela rua com o segurança que tem a chave (porque ficou incumbido de regar as plantas) e quer "na cama"; e a vizinha invejosa que ataca a outra que recebe em sua casa uma TV algumas polegadas maior que aquela que a ressentida conseguiu comprar. No meio, entre os muito ricos e os pobres, está a mãe de família de classe média que deixa que seus filhos decidam sua rotina infantil: paga um curso de inglês pros filhos, depois muda pra chinês quando a filha argumenta que já têm aula de inglês na escola. Essa mulher que naturalmente vive entre grades, paga ao guarda o que ele pede sem se perguntar se isso é necessário e passa o filme inteiro incomodada com o cachorro do vizinho (que existe  para garantir a segurança do lar) representa a classe média.

O medo de ser invadido permeia o filme todo: o coronel de engenho tem medo de perder o monopólio, a criança de classe média tem um pesadelo em que a casa é tomada por infinitos assaltantes, o agente imobiliário ouve passos acima de si quando mostra o porão do antigo engenho pra namorada e se sente incomodado ao ver que a empregada traz as netas e o genro (ou filho?) que se espalham na casa. O agente imobiliário, o personagem mais pacato de todos, é atormentado por um rio de sangue que nem faz parte de sua memória, mas define o passado de seu avô, ou seja, o medo é herdado pelas gerações mais novas.

O som ao redor não se fixa num enredo, num espaço ou tempo. O filme mostra o "mapa sonoro" do cotidiano que nos atravessa: o som do ambulante, do cachorro que late para todos os pedestres, das bombinhas que estouram em cadeia, da máquina de lavar, do aspirador de pó, do grito catártico, do menino que pede a bola, do carro que bate, das pessoas que cantam parabéns, dos que pulam o muro.

Lamentando que o som da sala de cinema não estava à altura da exigência do filme, recorto um trecho de Sacks (Alucinações Musicais, p. 148):
A genuína percepção em estéreo, seja ela visual ou auditiva, depende da capacidade do cérebro para inferir a profundidade e a distância (...) com base nas disparidades entre o que está sendo transmitido pelos dois olhos ou ouvidos individualmente - uma disparidade espacial no caso dos olhos, e temporal no dos ouvidos. São minúsculas as diferenças envolvidas: disparidades espaciais de alguns arcsegundos para a visão, ou de microssegundos para a audição. Isso permite a alguns animais, especialmente predadores noturnos como as corujas, construir um verdadeiro mapa sonoro do ambiente. Nós, humanos, não estamos à altura desse padrão, mas ainda assim usamos disparidades biaurais, tanto quanto indicações visuais, para nos orientar, para julgar ou formar impressões sobre o que nos rodeia. 
Por uma questão de honestidade acadêmica, preciso dividir os créditos desse texto com Luis Fernando Novoa Garzon.

2 comentários:

William Pereira disse...

Que bom que vc curtiu o filme, Lou!

Vi aqui em Campinas. No início fiquei em incomodado, quase fui reclamar pq o som tava baixo. Mas, na segunda parte, o som do filme quase explode nossos ouvidos. Incrível. Fui conversar depois com um funcionário do cinema, e ele me disse que muita gente vai embora no início do filme pq reclama que o som está ruim. Mas, o que me pareceu, é que isso é proposital. A primeira parte é toda sussurrada.

Vc já viu o Recife Frio, do mesmo diretor?:

http://www.youtube.com/watch?v=U9mu2TJ0scY

iglou disse...

Oi, William

sim, já vi outros filmes do Kleber e fiquei impressionada como o cenário é sempre o mesmo, o estilo é parecido e o autor se faz reconhecer claramente. Tanto, que se eu tivesse visto os curtas e médias antes de ver O som ao redor, não teria valorizado tanto o longa.