sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Da margem ao centro

Foi por causa da disciplina de editoração de texto. Foi por causa da disciplina de editoração de texto que comecei a atentar para o que tem em volta do texto. Foi por causa dessa disciplina que eu comecei a me interessar por editoras, edições, impressoras, impressões, impressos e digitais. E foi por causa desse meu interesse baseado na necessidade de ensinar sobre o que eu não sabia, que Luis, que sabia que eu não sabia aquilo que eu tinha que ensinar, que o Luis que se interessa pelo que me aflige, que o Luis me apresentou à literatura marginal. Foi por causa da disciplina. Foi por causa da disciplina de editoração de texto que entrei no universo da literatura marginal. Foi assim.

Eu já tinha lido um conto do André Sant'Anna, publicado no Essa história está diferente. Na verdade, eu já tinha lido literatura marginal antes da disciplina de editoração de texto entrar na minha vida. O conto se chama Brejo da Cruz e é inspirado na piração que é a canção do Chico. Mas eu não sabia que aquilo que eu lia era literatura marginal. E quando não se sabe, não se pode dizer o que é. Fiquei impressionada com a oralidade, com a forma espiral de progredir. Repetia para seguir. Voltava para continuar. Como um bêbado contando estória. Conta e reconta. E se ninguém rir, conta de novo. Mas eu não sabia que lia literatura marginal. Foi só quando comparei o texto que ele me trouxe com o que a minha memória ainda retinha do Brejo da Cruz, que entendi que a Companhia das Letras tinha publicado literatura marginal. Aí eu entendi que a literatura marginal estava entrando no centro. Porque a Companhia das Letras é mais centro que a Intrínseca que é mais centro que a Livros do Mal que provavelmente não existe mais.
Daí eu fui na aula de editoração de texto com um livro do Ferréz na mochila. E com outro do Plínio Marcos. Nenhum meu, todos do Luis. O Luis que me trouxe da metrópole os livros que eu leria no interior. Isso é que é doido: os livros de literatura marginal vieram do centro para a margem. Santa Maria é centro pras cidadezinhas em volta, mas não é centro em comparação com Porto Alegre ou Rio de Janeiro, que um dia já foi capital do país. Com os livros de literatura marginal na mão, eu queria falar de editoras. Queria falar do Brejo da Cruz de André Sant'Anna publicado pela Companhia das Letras, queria falar do Capão Pecado de Ferréz publicado pela Objetiva, queria falar do Inútil canto e inútil pranto pelos anjos caídos de Plínio Marcos publicado por ele mesmo, pela editora Lampião. A editora Lampião não tem ficha catalográfica ou ISBN. Tem endereço e telefone. E ponto.

Um dos alunos, um cara que lê, um sujeito que curte literatura, que conhece literatura marginal, um rapaz que tem discernimento, esse aluno arregalou os olhos. Ficou surpreso quando folheou o Capão Pecado da Objetiva que o Luis tinha trazido do centro. Ficou surpreso quando entendeu que o livro publicado pela editora mais central que a Labortexto não era mais tão marginal. Ficou surpreso quando viu que as arestas tinham sido polidas, que as imagens tinham sido lavadas, que as interferências tinham sido apagadas. Na aula seguinte, me trouxe a sua edição de Capão Pecado. Não dá pra dizer que é o mesmo livro, porque foi publicado por outra editora. A editora que publicou o livro dele é a Labortexto. A Labortexto publicou o texto do Ferréz e as imagens e as intervenções. A edição da Labortexto tem 23 páginas a mais que a edição da Objetiva. Objetivamente, isso corresponde a 37 fotografias, um agradecimento, 12 estrofes da dedicatória, a segunda parte da dedicatória, a epígrafe e as intervenções de Mano Brown, Cascão e Conceito Moral. A edição da Objetiva tem, enquanto a da Labortexto não tem, uma intervenção do Ratão e outra do Garrett. E por fim, o que era prefácio virou posfácio. Enfim.

Quanto à prosa do Ferréz, o Luis, que leu o livro de novo antes de me entregar o livro, ele me ouvia enquanto lia os diálogos da periferia:
"- E aí, Zeca! Quer uma cerva gelada?
- Não, Burgos, eu tô a pampa. Porra, o bagulho tá cheio hoje, hein, mano!
- É, o bar do Polícia é o point agora, cê tá ligado? Também, o lava-rápido lá perto da igreja fechou; lá dava umas duas mil pessoas, mano.
- O que pegava lá, Burgos, é que o som da equipe tinha uma puta qualidade, aqueles manos da Thalentos são foda, além do equipamento eles agitam o pessoal pra caramba."
(p. 42 - Labortexto, p. 29 - Objetiva)
Quando eu li o livro, reconheci as gírias paulistas e tudo mais, mas eu não me ouvia. Eu não falo assim, tá ligado? Eu ouvia o Esteves, figura que saiu da Favela Monte Azul e falava assim, cê tá ligado, bicho?
"- Vixe, nem te falo, mano, o filha da puta só acorda depois das cinco da tarde, nem adianta colá lá agora, é mais fácil vocês irem à casa do Panetone, pois ele é um dos pouquíssimos que acorda cedo.
- Certo, então nós tamo indo lá, depois a gente se cruza, tá ligado?"
(p. 44 - Labortexto, p. 31 - Objetiva)
A periferia, a marginalidade, a vida hardcore, núcleo duro do Capão Redondo (SP) está nos diálogos. Isso alertou o Luis quando reclamei que na prosa, na parte descritiva, Ferréz abusa dos advérbios e sinônimos imperfeitos de verbos, quase escreve como os meus alunos que mal fazem malabares com as palavras:
"Rael dormiu tranqüilamente e no dia seguinte trabalhou como sempre, atendendo os clientes com muito carinho e atenção. (...)
Rael se despediu de Marcão e Celso, que eram irmãos e donos da padaria, subiu a rua Ivanir Fernandes e depois passou pela Falkemberg. De lá ele avistou a escola Maud Sá e ainda pensou em passar na quadra pra ver se tinha uns colegas jogando bola, mas deu prioridade em achar a metalúrgica. Prosseguiu e chegou na rua da feira, avistou a padaria São Bento (...)."
(p. 58 - Labortexto, p. 44 - Objetiva)
A conclusão está na mão. O texto que foi publicado por uma editora menos marginal que a anterior centralizou-se. A centralização é a submissão ao padrão, à norma que é texto e não imagem, prosa e não poesia num texto de prosa. Marginal é o misturado, o colado, o de difícil classificação. A conclusão é uma só. O escritor de literatura marginal apresenta o mundo marginalizado pela sociedade, mas tenta ele mesmo inserir-se no centro através da prosa descritiva que mal descreve a crueza da vida no Capão Redondo, que procura adornos linguísticos que cintilam, mas ficam fora de tom. Tipo as sandálias que vejo brilhando coloridas, estampadas e escandalosas nas vitrines. A conclusão é que em Capão Pecado eu vejo a literatura marginal querendo ser centro. Querendo escrever bonito, sem assumir por completo a linguagem corrente. Em comparação, Plínio Marcos é mais representativo da literatura marginal porque transita melhor entre margem e centro e assume a postura da margem numa linguagem que o centro entende.

2 comentários:

William Pereira disse...

Gostei muito de ler esse texto, Lou. Me fez querer conhecer de verdade o Plínio Marcos, e não só pelas adaptações da sua obra.

E por falar em filme, vc já viu o Brother, escrito pelo Ferréz. Bem bom.

Abraços.
:)

iglou disse...

Valeu a dica, vou ficar atenta!