quinta-feira, 27 de março de 2014

Cota e quinhão

Cota significa, na linguagem técnica que os rondonienses aprenderam a usar nos últimos meses: o nível da água do rio. O mesmo Rio Madeira tem diferentes cotas em lugares diversos.

 No mapa se vê, na fronteira com a Bolívia, Abunã. Seguindo o curso do rio, vê-se a UHE Jirau (antes de Jaci-Paraná), a UHE Santo Antônio que fica a 7km de Porto Velho e Humaitá, já no estado do Amazonas.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), as cotas estão subindo a cada dia nos diversos pontos:
       
             Abunã   Jirau  Santo Antônio Porto Velho  Humaitá
18/02     23,68   88,33      69,89           17,76          23,95
19/02     23,77   88,33      69,93           17,82          23,58
20/02     23,88   88,55      69,88           17,87          23,61

21/03    25,29    89,22      69,47           19,36          25,14
22/03    25,38    89,36      69,48           19,41          25,58
23/03    25,49    89,51      69,52           19,47          25,18
24/03    25,53    89,51      69,55           19,53          25,24
25/03    25,54    89,54      69,55           19,60          25,26
26/03    25,52    89,53      69,44           19,63          25,29
27/03    25,50                                       19,66          25,33  

A partir desses dados, pode-se observar que em um mês as cotas dos reservatórios de Jirau e Santo Antônio não sofreram grandes alterações, ao passo que houve um incremento de quase dois metros na cota dos outros pontos do rio (Abunã a montante de Jirau, Porto Velho e Humaitá a jusante de Santo Antônio). Pode-se observar também uma leve queda da cota em Abunã nos últimos 3 dias e também uma leve queda nas duas UHEs nos dois últimos dias em que houve divulgação de dados.

Na cidade de Porto Velho, o trânsito é constantemente remodelado: rotas antigas estão sendo tomadas pelos igarapés, novas rotas são desbravadas. Moradores que usam a Estrada de Santo Antônio como única via de acesso estão prevendo o isolamento. As águas que entram pelo rio Madeira ou pelos igarapés estão contaminadas (não há saneamento básico na cidade: cada casa tem sua fossa, cada prédio/condomínio tem seu córrego). Nos abrigos (escolas e igrejas) só tem cesta básica e os desabrigados, que já se sentem menos gente, ficam sem mistura. Ouvi relatos de crianças pedindo frango em supermercado.

Será que nada disso era previsível? Em Jaci-Paraná, todas as obras de compensação erigidas pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (ESBR), responsável pela usina de Jirau, estão embaixo d´água. Todo asfalto que está submerso agora está se dissolvendo e precisará ser refeito. Todas as casas alagadas estão condenadas. Ambos os consórcios investiram em compensações antes e reparos agora. Pode ser que tenham gastado muito (para os nossos padrões pedestres), mas as usinas ganharam muito com a cheia.
Pelo gráfico publicado no boletim diário da ANA, pode-se observar a linha pontilhada que indica a cota de emergência segundo a CPRM de 16,68m e a linha preta que indica a cota do rio ao longo dos meses. Observa-se claramente a variabilidade do rio conforme o regime de chuvas na Amazônia e um pequeno detalhe: a partir de fevereiro, a linha preta disparou.

Em fevereiro, a UHE Santo Antônio desligou 11 turbinas e deixou de vender sua mercadoria (megawatts) para o governo (que paga R$ 78,87), para quem 70% da energia gerada é repassada. Continuou operando com 7 turbinas, que geraram energia para ser vendida no mercado livre (em que o mw/h está custando por volta de R$ 828,00). Na última semana de fevereiro, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou que todas as turbinas de Santo Antônio fossem desligadas.

Agora, as usinas simplesmente não estão ganhando rios de dinheiro, mas tiveram o seu quinhão quando a cota estava alta nos reservatórios devido à retenção de água.

Um comentário:

Mônica disse...

Aqui em SP, por outro lado, "cota", daqui a pouco, vai significar o quanto de água poderemos gastar por dia.

A situação de falta de água nas represas está cada vez pior.