sábado, 11 de outubro de 2008

Vermelho sangue

No primeiro dia em que a menstruação atrasou, ela calculou que tinha terminado com o namorado havia três dias. Teve sonhos vermelho escuros nesta noite.

No segundo dia, voltou ao calendário e demarcou todo o ciclo menstrual dos quatro meses anteriores. Era preciso considerar ainda aquela vacina contra a rubéola que tinha tomado depois de assinar uma declaração de que não estava grávida nem pretendia engravidar nos 30 dias seguintes à aplicação da vacina. Notou que tinha tomado a vacina 13 dias antes de fazer sexo em pleno período fértil. Tinham usado camisinha, mas o ciclo estava desregulado. Adormeceu segurando a barriga e sonhou em tons de preto.

No terceiro dia foi pega pelo terror de gerar gêmeos deformados e pesquisou formas de aborto na Internet. Não queria ser posta nessa situação de decidir sobre a vida de outro ser. Depois de passar a última peça de roupa, percebeu uma vibração no tecido da camiseta por dobrar. Investigou e viu que uma mariposa, passada e amassada, se debatia dentro da camiseta. Matou a mariposa sem dó, achando que tinha tomado a melhor decisão pela mariposa deformada. Voltou a estudar métodos abortivos e descobriu que existe um medicamento contra artereosclerose que tem efeito abortivo se tomado no período das primeiras 9 semanas de gestação. O medicamento é vendido em farmácias, mas é preciso ter receita para comprá-lo. Como o aborto é ilegal no Brasil, nenhum médico lhe receitaria o medicamento. Era preciso, antes de mais nada, confirmar a gravidez. Foi à farmácia, comprar um teste de urina. Na fila que se alinhava no balcão, um homem insistia em alto e bom som que não tinha receita médica porque era médico, e que era um absurdo nenhuma das 5 farmácias em que já tinha ido lhe vender o medicamento que precisava tomar. Foi dormir rezando e adormeceu pensando em rios de um líquido viscoso e escuro.

No quarto dia o teste informou que não estava grávida. Aliviada, pôde voltar a existir sem pensar em aborto ou gravidez indesejada. As espinhas começaram a aparecer no rosto, teve cólicas e entrou na TPM. Recebeu mensagem de uma amiga descrevendo sua gravidez (a moça está no quinto mês e feliz da vida), viu um convite para um chá de bebê com uma imagem de ultrasom do feto, e ouviu estórias de meninas de 14 anos dando à luz crianças sem pai. Ao chegar em casa, recolheu um pássaro morto na frente de casa e o jogou no lixo. Foi dormir fazendo força pra acreditar no resultado do teste e não teve nenhum sonho.

No quinto dia voltou a imaginar como uma gravidez desestabilizaria a sua vida e a do ex-namorado. Não era uma visão alegre. Com um gosto metálico na boca, altamente irritada e de mau humor, voltou à farmácia atrás de outro teste de gravidez. Adormeceu apreensiva, com receio de ser decepcionada com duas linhas cor de rosa no teste que faria com a primeira urina do dia seguinte.

Na manhã do sexto dia o teste insitiu em informar que ela não estava grávida. Algumas pendências de sua vida se resolveram ao longo do dia. A que mais lhe afligia se desenroscou à noite, num fluxo forte de vermelho sangue.

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