sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Labirintos

Quando o livro do Jorge Luis Borges (Ficções) chegou pelo correio, ganhei dois parceiros de diálogo: Heloisa e Júlio. Heloisa dedicou um mestrado e um doutorado ao bom velhinho. Já o Júlio é apaixonado pelo escritor que conduz seu leitor por labirintos. E os labirintos borgianos são de diversas naturezas, o que lhes dá um encanto perturbador: são fantásticos - nos dois sentidos. Porém, por mais que meus interlocutores me ajudem a achar a saída dos labirintos borgianos, sempre me perco na erudição do autor.

Quando achei que eu precisava dar um tempo pros contos do argentino decantarem, escolhi um livro de um italiano que me tinha sido dado pelo Ferrone, muito tempo atrás: O castelo dos destinos cruzados. Esse labirinto atravessou o outro, que deixei na estante, suspenso. Ítalo Calvino teve - isso é evidente - forte influência de Borges. Ferrone lê os dois, inclusive traduziu um conto do Borges, que eu revisei. Era certo que estes labirintos estavam ligados.

A melhor parte dos destinos cruzados não são as estórias que os personagens, de repente mudos, contam através das cartas de tarô que têm à mão. Não, a melhor parte é a nota no final, em que o autor conta como arquitetou aquelas estórias, arranjou as cartas e inventou estórias insólitas a partir do mapa de cartas disposto na mesa. Influenciada pelo Castelo (ou talvez tenha sido pela taverna?) dos destinos cruzados, escrevi aquela estorieta que ninguém entendeu, três posts atrás. Talvez agora, que atesto a influência de Calvino nos Sentidos cruzados, o labirinto que inventei fique mais abstrato e fechado em si, descolado da minha vida.

Terminei o Calvino, mas ainda não quis retomar o Borges. Retomei o Paul Auster, emprestado pelo Renato, que eu tinha interrompido depois da segunda estória da Trilogia de Nova Iorque. Suspendi porque "os livros da estante do Renato são para se ler com as vísceras, não com os olhos". Enfim, suspendi porque as estórias são labirínticas e os elementos são retomados na estória seguinte e revestidos de outras roupagens. Como as cartas de tarô do Calvino. A Torre de Babel, o trabalho de detetive, as andanças sem rumo e os labirintos simbólicos são pistas de influência de Borges em Auster, mas não posso provar nada.

2 comentários:

Amurim disse...

Não li quase nada de J. L. Borges. Mas, gosto desse verso:

"UNA ROSA Y MILTON"
"De las generaciones de las rosas
que en el fondo del tiempo se han perdido
quiero que una se salve del olvido,
una sin marca o signo entre las cosas
que fueron. El destino me depara
este don de nombrar por vez primera
esa flor silenciosa, la postrera
rosa que Milton acercó a su cara,
sin verla. Oh tú bermeja o amarilla
o blanca rosa de un jardín borrado,
deja mágicamente tu pasado
inmemorial y en este verso brilla,
oro, sangre o marfil o tenebrosa
como en sus manos, invisible ROSA.

Mônica disse...

Boas leituras, bons autores.

E a república? Miyuki já mudou?