terça-feira, 19 de maio de 2009

O que impressiona

Passo algumas horas, por quatro dias seguidos, dentro de uma empresa. Meus caminhos lá dentro não são longos: garagem, elevador, corredor, sala de beber água, banheiro, sala de reuniões, corredor, elevador e garagem.

Nos primeiros dias, algumas bicicletas no bicicletário me impressionavam: olha, o cara deixa todos os acessórios (luzinha, velocímetro, bolsinha) pendurados na bike dele; uau, uma Cannondale pendurada aqui; ahá, uma bike nova! Mas depois de 3 semanas já conheço todas as bicicletas e seus lugares de estimação. Algumas já juntam poeira de estacionamento e parecem ter sido esquecidas pelos seus donos.

Minha curiosidade era em relação aos ciclistas. Seriam eles guardas, faxineiros ou recepcionistas? Ou são os caras que perdem cabelo de tanto se estressar, ganham peso de tanto trabalhar sentados e não têm tempo para lembrar que a esposa, os filhos e o cachorro também querem um pouco de sua atenção? Um dia vi um ciclista chegando quando eu estava saindo de manhã. Todo suado, parecia intrigado ao ver uma mulher no bicicletário. Aproveitei o interesse dele e fui satisfazer a minha curiosidade: cê vem da onde? Mooca. Pedalei 20km. Cê faz isso todo dia? Não, todo dia não dá, mas 3 vezes por semana e venho pedalando. O cara era careca e barrigudo, portanto imagino que seu local de trabalho seja um escritório.

Quando reparo nas mulheres que trabalham em escritório, tenho a impressão de que elas se esforçam para chamar atenção através do som que os seus saltos altos fazem no chão. Quanto mais barulho, melhor. Não importa que andem de um jeito estacado, numa marcha dura, sem leveza e sem curvas. Compensam seu andar pouco feminino nos cabelos longos e sempre soltos, nas unhas pintadas e nos olhos maquiados.

Quando penso nos homens, lembro dos meus alunos me mostrando o novo modelo de celular que ganharam da empresa (Samsung), e que ainda não sabem usar. Lembro da alegria pueril nos seus olhos, quando um colega deles coloca o seu celular novo na mesa. Esticam a mão e tratam aquele aparelho como se fosse um brinquedo. O que parece impressioná-los é a tecnologia.

O que me impressiona é como essa tal tecnologia transforma o nosso mundo. Não só os prédios que brotam na Berrini, a Marginal parada, com um luminoso informando que são 180km de congestionamento às 18:30 de uma terça-feira, ou o espanto na cara das pessoas quando digo que não tenho nenhum telefone celular (agora a moda é ter 2). São também os nossos novos vícios de sempre receber mensagens, notícias, imagens, números. É o corpo da pessoa de escritório, deformado pelo sedentarismo, é a auto-afirmação das mulheres no barulho do salto alto. É a violência contra o próprio corpo que acorda antes do dia clarear e se deita moído. É o mito de que andar de bicicleta é perigoso, acampar não é mais pra minha idade, e que 'aproveitar a vida' só vai acontecer quando os filhos saírem de casa.

Sei que eu impressiono as pessoas por não usufruir dos últimos avanços da tecnologia e por não aparentar a idade que tenho. Demonstram sua admiração me chamando de 'crazy teacher'.

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