sexta-feira, 29 de maio de 2009

Pedalar é perigoso?

Tirinhas do Yehuda Moon

Qual é o problema? Vou pedalar pra escola. Como isso pode ser perigoso? Carai! Esse era o pai do Dave! Ei, ei, tem gente na calçada aqui! Ôu! Aquele era o pai da Sue. E aí, pronto pro teste? Depois do pedal pra cá, tô pronto pra qualquer coisa. Quer me ajudar a riscar portas de carros com chaves depois da escola?

Cada dia vejo mais ciclistas nas ruas. Talvez seja porque presto mais atenção neles hoje que quando eu não circulava tanto de bicicleta. Talvez seja porque o trânsito em São Paulo está cada vez mais lento, devido ao excessivo volume de carros nas ruas. É possível que alguns usuários de transporte coletivo tenham migrado para o modal bicicleta, porque se encheram de ficar em pé, apertados e suados em ônibus parados. Não está descartada a possibilidade que alguns motoristas tenham abandonado o carro em favor da bicicleta.

O grupo dos ciclistas nas ruas de São Paulo não é homogêneo. Alguns pedalam na calçada, outros na rua, poucos pedalam na minha contramão, outros me ultrapassam, uns usam capacete, outros não, poucos usam roupas esportivas, a maioria usa roupas de trabalho. De noite, percebo que muitos priorizam luzinhas vermelhas piscantes atrás de si e não têm farol branco na frente. Em dias de chuva, continuo vendo alguns gatos pingados pedalando com capa de chuva.

Mesmo que o número de ciclistas tenha aumentado, continua o mito de que pedalar na cidade é perigoso. Digo que é um mito, porque quem me alerta dos perigos de pedalar nas ruas não pedala e não sabe qual é a paisagem que eu vejo quando estou na Amarilda.


Certo, suba aqui. Como está o selim? Ele não devia estar usando capacete? Só estamos verificando a posição dele na bicicleta, minha senhora. Não vamos a lugar algum por enquanto. Ele vai ficar bem. Ele precisa do capacete. (suspiro) Ok. Tão pesado! Eu te disse! Bicicletas são perigosas!

Me alertam do perigo de assalto. Já fui vítima de tentativa de roubo da minha bicicleta amarela. Fiquei balançada por um tempo, sentia um frio na espinha quando passava pelo local onde o fato tinha acontecido, mas agora creio ter entendido que o objeto de desejo do outro é a minha bicicleta, não qualquer coisa pendurada em mim: bolsa, mochila, colar, brinco. E pra conseguir a minha bicicleta, o outro vai precisar usar de violência física. É muito diferente enfiar a mão numa janela aberta e arrancar um colar, relógio, celular ou brinco, ou mesmo quebrar o vidro de um carro e agarrar uma bolsa do que derrubar um ciclista pra pegar a bicicleta.
Meu campo de visão numa bicicleta é bem maior que num carro, e posso antecipar saias justas e ocupar outro espaço antes da corda apertar o pescoço.
Um dia eu estava pedalando na Água Espraiada. O farol estava fechado e me aproximei devagar da faixa de pedestres. Eu andava pela direita, entre a guia e uma fila de carros. Ouvi o barulinho de uma trava de porta descendo dentro do carro pelo qual estava passando. Dei risada: o passageiro daquele carro se trancou dentro do carro ao me ver chegando. Ter medo de ciclista beira os limites aceitáveis da paranóia de cidade grande.

Me alertam do perigo que são os motoristas. Isso eu acho impressionante. Motoristas me alertam do perigo que os motoristas representam. De fato, a falta de respeito dos motoristas é o maior complicador no trânsito. Motoristas de ônibus não têm paciência de trafegar atrás de um ciclista quando estão se aproximando do ponto de ônibus. Muitos preferem me ultrapassar pra me fechar logo em seguida, quando encostam no ponto. Outros motoristas não têm noção da minha velocidade e entram na via em que estou quase em cima de mim. Outros, ainda, entram sem olhar. Depois pedem desculpas.

Ok, agora resuma pra mim a essência do sentimento do motorista para com o ciclista. Na verdade não passa de esperanças e desejos. Metade dos motoristas espera não bater em ciclistas. E a outra metade deseja poder bater em ciclistas.


Thistle! O que você está fazendo? Você vai ser atropelada! Hein? Maureen? Ei, olha que legal! ... Espera - o que você disse? Nóis na bicicleta com caixa. Eu disse que você vai ser atropelada. Tem carros em todo lugar, não é seguro! Vamos ficar bem. Aqui não é Copenhagen, Thistle. Americanos não gostam de compartilhar a via. E como você sabe disso?


Eu me esforço para ser vista. Nos faróis, paro no campo de visão do motorista. Nas ruas, dou sinal de que vou mudar de direção e de que vou continuar seguindo reto numa bifurcação onde muitos viram à direita. Ocupo o meu espaço na faixa, forçando o motorista a me ultrapassar, não a me passar, tirando fina.

Me alertam do perigo que é pedalar de noite. Eu respondo que tenho luzinhas. Que piscam!

Agora um perigo que ninguém prevê - justamente porque não pedala em condições adversas - é a chuva torrencial. A visão de todo mundo fica embaçada pelo véu branco da chuva forte e eu fico menos visível. Usando a capa de chuva, meu campo de visão fica mais limitado, porque a visão periférica é obstruída pela capa. O vento transforma a capa numa vela. A água que não consegue se infiltrar na terra por causa do asfalto de junta e forma rios com correnteza e tudo. Nessas horas, é melhor parar num posto e esperar, ou continuar a pé, empurrando a bike.

Eu bem que avisei que hoje o vento estava forte demais pra usar a capa de chuva.

Viver é perigoso. Um trânsito em que as pessoas não conhecem as leis de trânsito, não sabem quais são as regras do jogo, é perigoso. Muitas pessoas encaram o trânsito como um campo de batalha, em que vale tudo pra chegar rápido. Espero que essa mentalidade mude.

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