quinta-feira, 15 de março de 2012

A pele

Quando a gente tava lá no igarapé, me chamou atenção que todo mundo entrava na água de roupa. Que os homens entrem de bermuda na água, estou acostumada a ver, mas as mulheres de camiseta/ regata e short? Havia gente usando a parte de cima do biquini mais um short. Lembro de ter visto uma moça de maiô, mas ninguém de biquini. Comentei essa observação com o Ninno e ele disse que os amazonenses tinham vergonha do corpo. Minha intuição me dizia que o problema das mulheres no igarapé eram os pêlos, não as curvas ou celulites.

Outra coisa que me chamou atenção foi a competição feroz em torno do som. As pessoas traziam caixas de som enormes para impor sua música aos outros. Um do lado do outro, havia pelo menos três poluidores sonoros tocando a todo vapor. E tudo coisa ruim!

Em casa, dei uma folheada no Gesten, do Flusser. Esse é um livro sobre a fenomenologia de diversos gestos (de escrever, fotografar, amar, telefonar, procurar, fazer etc.) segundo o que ele define como "gestos". Li dois capítulos: o gesto de se barbear (Die Geste de Rasierens) e o gesto de ouvir música (Die Geste des Musikhörens).

Rasieren tem mais a ver com o instrumento usado para cortar pêlos do que com o tipo de pêlos a serem eliminados (que é o caso de barbear, em que os pêlos da barba são cortados). Do mesmo modo, depilar não diz sobre quais pêlos serão retirados da superfície da pele. Mas o texto não era sobre depilação, como eu deveria ter imaginado. Na Europa, ao menos na de Flusser, as mulheres não têm mesmo o costume de se depilar. E assim rasieren assume as feições de barbear. Achei uma pena Flusser não falar das modas depilatórias a que tanto mulheres como homens estão sujeitos (em Porto Velho, muitos homens tiram a sobrancelha, por exemplo) - dependendo do tempo e do espaço. No tempo e espaço de Flusser, apenas a barba é objeto direto de rasieren.

Para Flusser, o gesto de barbear-se não é um ato de mostrar o rosto, de expor o queixo ao sol e vento, de limpar a cara. Para ele, barbear-se é um gesto de evidenciar os limites entre o eu e o mundo. A pele é o órgão que agrupa nossa identidade corpórea, separando-nos do mundo exterior. Misturar-se com o meio seria natural (barba), ao passo que barbear-se seria artificial.

O outro capítulo, sobre ouvir música, igualmente trata da pele. Existe um órgão específico para a audição, mas quem absorve as ondas sonoras é o corpo como um todo. Segundo Flusser, quem ouve música concentra as ondas sonoras no seu corpo e então a música toma o corpo. A pele funciona como uma membrana permeável e a massagem sonora promove a união entre o espírito do ouvinte e de quem envia a mensagem musical. A pele, que no capítulo anterior funcionava como divisa entre eu e o mundo, agora funciona como órgão do conexão, que permite ao ser humano transcender seus limites.

Seria interessante saber o que Flusser teria a dizer sobre todos aqueles que impõem sua música aos outros (celular ou rádio tocando no ônibus, som de carro no igarapé, evagélicos cantando no microfone etc.) e por que eu tenho sempre a sensação de estar sendo violentada quando sou obrigada a ouvir músicas que eu não quero ouvir. Seria interessante estudar a relação entre o tipo de ambiente (igarapé, balneário em que se paga entrada, clube, piscina de natação) de banho na Amazônia e os trajes de banho das mulheres amazônidas. É possível que haja uma relação entre ambientes naturais e pêlos. Mesmo entre os homens que se depilam deve haver uma relação com ambientes naturais e urbanos: os metrossexuais vivem na cidade, não no mato.

2 comentários:

Anônimo disse...

Bom mesmo o seu blog. Sou protestante e respeito o direito dos outros assim como gostaria que respeitassem o meu. Não ponho as musicas q gosto pra ninguém ouvir,isso é falta de educação, não é por que a pessoa é "evangélic'a E o nome não é "evangélica", estamos tão ignorantes que esquecemos que o termo correto é protestante.Moro num bairro de classe média e a maioria não é protestante e ouço música alta dos outros quase todos os dias. Cuidado com o preconceito. Ele derruba a gente.
Beijos tchau Adélia

iglou disse...

Adélia, a palavra 'evangélico' aqui funciona para referir a todos os cristãos não-católicos. Esta, aliás, é a acepção corrente e usual. No norte, o dia 18 de junho é feriado: dia do Evangélico.

A distinção entre protestantes, carismáticos e pentecostais é uma subdivisão dentro do grande grupo dos evangélicos. Os usuários de microfone estão entre os evangélicos.

Abriu uma igreja evangélica perto de casa que me causa muito sofrimento. Não é preconceito: é pós-conceito. Sei do que estou falando.