terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Burocracia e violência

Era madrugada quando Luis e eu compramos a minha passagem de volta de Cachoeiro para o Rio (onde eu pegaria o avião para Porto Alegre, de onde eu pegaria outro ônibus para Santa Maria). Junto com o RG, guardei a passagem no bolso da calça - que foi pra máquina de lavar na manhã seguinte. Enquanto a máquina trabalhava, consegui pescar o RG. Mas a passagem não foi localizada.

Voltamos na rodoviária, explicamos que a máquina de lavar desintegrara a passagem e pedimos uma segunda via. O supervisor me disse que me daria uma segunda via se eu apresentasse um BO em que constasse o código da passagem extraviada. Pra facilitar, ele indicou o endereço da delegacia online em que eu podia fazer o boletim de ocorrência.

Fiz o boletim de ocorrência e relatei que a passagem tinha sumido na máquina de lavar. Recebi resposta por e-mail afirmando que o meu BO foi indeferido, "pois não houve perda, mas dano". Deu vontade de responder que os farelos de papel que consegui encontrar nas roupas não configuravam exatamente uma passagem danificada. Respirei fundo e decidi não apelar para a violência verbal.

Fomos até a delegacia de polícia, prestar BO. A delegacia que Luis conhecia tinha fechado e fomos, debaixo de chuva e trânsito lento, até o outro lado da cidade. O homem sentado atrás do computador não sabia onde estavam os formulários de BO, digitava como quem se depara com um teclado pela primeira vez, estudava a procedência do RG do Luis e acompanhava com muito mais interesse todos os casos circundantes: os três presos que tinham chegado e estavam enfileirados na parede, aguardando uma decisão; a mulher que vinha prestar queixa do genro que bateu na filha e levou a neta embora; o casal de turistas que tinha sido roubado, sabia que a moto estava no pátio aguardando perícia e tinha passagem de volta marcada naquele dia; a mulher que queria levar o BO impresso, feito no dia anterior.

O nosso caso parecia tão banal e irrelevante perto dos outros todos. Pedindo que constasse o código da passagem no relato do BO, Luis adotou uma postura de militar diante do burocrata que paulatinamente descobria as teclas do computador - e como se preenche um BO. Ficamos uma hora naquela delegacia, expostos à violência com que são tratados os cidadãos pobres e mal informados. Ficamos chocados com a burocracia anestesiada que se traduzia em machismo e impedia qualquer gesto de empatia.

Voltamos na rodoviária com o BO na mão. A moça que emitiu a segunda via no guichê me perguntou se eu tinha perdido a passagem ou se eu tinha sido assaltada. Expliquei que tinha perdido a passagem na máquina de lavar e ela concluiu, aliviada: "então não houve violência".

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