terça-feira, 26 de agosto de 2008

Sexo frágil

Mulher aqui ainda é tratada como se fosse frágil, precisasse de proteção, resguardo, mais segurança que homem. Tenho exemplos na memória:


Mulheres a pé na rua

Eu tava caminhando pra Unicamp, tomando um atalho pelo qual não passa carro. A rua estava deserta, como sempre, exceto por alguns peões de obra escorados num alambrado. Era evidente pelas suas vestimentas que os homens eram pedreiros e estavam descansando ali. Quando eu estava passando por trás do Pão de Açúcar, uma mulher gordinha, cabelo maltratado, chinelo Havaianas e uma criança em cada mão, e me parou. Queria saber se lá em cima ainda tinha aqueles hôme lá. Sim, tem uns homens descansando. Ah, então eu vou dar a volta aqui por baixo, que eu tenho medo de passar ali. Obrigada, viu!

* * *

Eu estava voltando a pé da natação na Unicamp. Atravessei o farol da Sta. Izabel pra entrar no bairro aqui e notei que uma mulher vinha correndo na minha direção. Baixinha, magrinha, calça fuzô e oclinhos. Pensei no motivo da corrida dela: não tem ponto de ônibus aqui, não tem ninguém correndo atrás dela, deve estar com pressa de entregar o conteúdo da sacola que tem na mão. Ela esboçou um sorriso e anunciou que aproveitaria a carona. Não entendi, ela se pôs a caminhar ao meu lado. Entendi que eu era a carona. Ah, hoje em dia Barão Geraldo não é mais um lugar seguro à noite. Você faz quê na Unicamp? Lingüística? Sei. A minha filha estuda na Puc, vai formar esse ano, graças a Deus. Você vai pralí? Boa noite e obrigada, viu?

Mulheres na bicicleta

Ana Lu e eu estávamos descansando num posto em Pinhal. Na mesa ao lado, um sujeito que atende pelo apelido de Perigoso quis ser gentil: se eu tivesse com a minha pick-up, eu levava ocêis em Andradas. Explicamos que estamos pedalando porque gostamos de pedalar, e que se quiséssemos ir a Andradas de outro meio de transporte, teríamos ido de carro ou ônibus. É, mas se eu pudesse, eu levava ocêis, pcêis num cansá muito.

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Na volta, estávamos descansando num posto em Mogi Guaçu, ao lado dos motociclistas barulhentos. Chegou o carro do Javier com dois homens dentro. Um dos motociclistas exclamou: chegou o resgate! Não, este não é o resgate. É o apoio moral. Não precisamos de resgate.

Mulheres no carro

Eu estava caminhando pelo bairro e notei que um cachorro estava pra fora do portão de uma casa. Parecia esperar que alguém abrisse o portão. Tinha coleira e parecia bem tratado. O portão abriu e vi uma mulher saindo do carro. Na mão, ela segurava o controle do portão eletrônico. Imagino que esta pessoa não tenha uma outra chave que este controle para abrir o portão eletrônico de sua casa. Entrar e sair de casa sem sair do carro é mais seguro.

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O chão do vestiário na academia de natação nunca fica seco. Toda vez que eu chego, os meus passos podem ser retraçados da porta até a poça emporcalhada em que estão os meus calçados. Fico me perguntando por que só eu deixo rastros no chão. A resposta pode estar no fato de que todas as outras mulheres vêm ou de carro ou não caminham os 3km que eu caminho pra chegar na academia.


Um comentário:

Carlos Teixeira disse...

Lu, resolvi dar uma passada pelo seu blog. Já estava com saudades das suas críticas ácidas... Também bateu uma vontade de fazer outra cicloviagem!