domingo, 6 de julho de 2014

O livro e a mensageira

Da Bolívia, Luis e eu fomos para Campinas. Como eu ficaria mais tempo na cidade (para participar do GEL), me hospedei na casa de Telmo e Milena; Luis seguiu para Cachoeiro de Itapemirim (ES). O Telmo eu conhecia desde os primeiros anos em que morei em Barão Geraldo: foi co-fundador do Campinas Cicloviável e sempre se interessou por mobilidade e acessibilidade urbana, cicloativismo e bicicletas. A Milena eu sabia descrever em poucas palavras: companheira do Telmo, dança no grupo Excaravelhas, muito simpática.

Todas as manhãs, era a Milena que estava de pé, fazendo café, indo pra aula, sentando pra conversar. Foi numa dessas conversas na cozinha que ela me contou a história do pai.

Seu pai, Luiz Antônio de Figueiredo, era escritor. Foi aluno e colega de grandes nomes na Crítica Literária e seus livros contam com prefácios e posfácios de autoridades no campo das Letras. Morreu faz um mês aproximadamente e Milena estava ainda engajada no trabalho de separar seus livros e discos, além de avisar as pessoas que o pai tinha falecido. Quando ainda estava na casa do pai, chegou uma carta endereçada a Luiz Antônio. Era de Antônio Cândido. Milena abriu a carta e leu que Antônio Cândido se desculpava por demorar a dar um retorno sobre a última obra de Luiz Antônio, porque afinal estava com 100 anos de idade e a leitura se tornava uma tarefa difícil. Milena sabia que o pai tinha morrido esperando por essa carta de Antônio Cândido.

Descobriu o telefone do remetente da carta, juntou coragem e ligou. Foi ele mesmo quem atendeu. Ela estava nervosa, ansiosa por falar com Antônio Cândido sobre a morte do pai. Conforme a conversa ia sendo fiada, ela foi se sentindo mais à vontade, até perceber que o telefone, que antes a separava de seu interlocutor, agora os unia. Desligou o telefone confortada e encantada com a candura e cortesia de Antônio Cândido.

Terminou a história dizendo: "agora só preciso encontrar mais um professor que escreveu um posfácio no último livro do meu pai e ainda não tem um exemplar do livro. Por acaso você conhece o Ataliba?" Dei risada, porque eu tinha almoçado na mesa ao lado da dele no dia da abertura do GEL. Conferimos a programação e Milena se programou para ir ao Gel depois de uma mesa-redonda em que Ataliba Castilho mediava a fala de uma professora portuguesa que tinha acabado de lançar os dois primeiros volumes de uma Gramática do Português.

Naquela noite Milena estava cansada. Avisou por mensagem que não viria. Na plateia, localizei Rodolfo Ilari, que em seguida lançaria uma reedição de seu primeiro volume da Gramática do Português Falado - Classes de Palavras (em que há, no segundo volume, um capítulo sobre a preposição escrito por Ataliba, Ilari, Maria Lúcia, Renato e eu). Tanto Ilari como Ataliba me olhavam como se soubessem que sabiam que tinham esquecido quem eu era. Depois de tê-los cumprimentado, lembraram. Contei pro Ataliba da Milena, do pai e do livro posfaciado. Ficou muito triste com a notícia e perguntou como ele poderia entrar em contato com a Milena. Respondi que ela lhe escreveria um e-mail.

Torço para que Milena e Ataliba se encontrem face a face. Assim o mundo das Letras/palavras se concretiza na língua-viva, como diria Bakhtin.

2 comentários:

Anônimo disse...

Apresentação para esse livro de encontros póstumos melhor não há que essa que escreveste, mensageira!

iglou disse...

Obrigada, marido

fico muito feliz com o seu elogio!