quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Frutos do ócio


Não, eu não preciso de mais cestas. Eu preciso de uma ocupação. Um emprego, por exemplo, seria bom. Daquele tipo que eu faço o que gosto de fazer e ainda por cima ganho salário no fim do mês.

Mas veja como a minha habilidade para fazer cestas evoluiu. Na primeira cesta, não soube lidar de maneira elegante com as rebarbas. Na segunda cesta este dilema foi resolvido, mas a técnica de levantar as bordas ainda me era um mistério. Na terceira cesta, consegui enterrar as rebarbas e subir as bordas. Programa de índio, hein...

Enquanto as minhas mãos estavam ocupadas, minha mente passeou por sítios arqueológicos, em que são desenterrados inúmeros vasos e jarros. Será que eles de fato usavam isso tudo pra armazenar mantimentos – se pergunta o aprendiz de arqueólogo. Imaginei a seguinte cena:

O homem chega todo sujo de barro, trazendo para dentro da cabana suas pegadas de lama. A mulher, amamentando uma criança, olha para a figura que se aproxima com um sorriso de orelha a orelha, estourando de alegria e orgulho.
- Veja mulher, fiz um vaso perfeito.
A mulher, com mais senso prático que estético, responde:
- Ãghm. Mais um? Não precisamos de mais vasos. Vá plantar coquinho, homem!
Ela pensa que assim consegue despachar o companheiro.
- Ahm. Mas este é perfeito.
Diz, com os olhos arregalados de surpresa pela falta de atenção da parceira.
- Ponha-se daqui pra fora, seu inútil!
Vocifera a mulher enfurecida.
Magoado, enquanto caminha de cabeça baixa até sua oficina, o homem tem uma brilhante idéia:
- Humpf. Inútil. O vaso é perfeito... E plantar coquinho não me parece nada útil. Quê que eu posso fazer agora, que já dominei a arte de fazer vasos perfeitos? Já sei! Vou pintar o vaso. Vai ficar bonito, você vai ver. Vou retratar você e eu, você vai gostar.

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