quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Magellan

Um terço da minha mudança é composto por livros. Muitas caixas de livros ainda estão fechadas, embaixo do fogareiro, da louça limpa, dos mantimentos, do som. Abri algumas caixas à procura dos meus dicionários (me sinto mais eu olhando pra eles) e livros técnicos, porque eu planejava ler ‘A teia da vida’ do Capra. Achei um livro de Stefan Zweig intitulado ‘Magellan’. Ignorei a ilustração de um navio na capa e fui lendo as primeiras páginas. Sentei na rede virando páginas, deitei, e quando procurei um marcador de páginas, já estava tomada pelo estilo apaixonado do autor que relata o que provavelmente aconteceu na época das grandes expedições náuticas, dando vida a este ilustre argonauta: Magalhães.

Fernão Magalhães foi um português que em 1519 finalmente conseguiu zarpar para o ocidente para alcançar as Índias (e suas especiarias) pelo oriente. Muito mais interessante que colonizar as Américas distantes era obter cravo, canela, pimenta, gengibre, noz moscada. O que valia agora era desbravar outros caminhos até as especiarias que aquele aberto por Vasco da Gama.

Os mapas mundi mudavam toda vez que um capitão aventureiro voltava para contar das terras que tinha descoberto. Em 1513 Nuñez de Balboa foi o primeiro europeu a avistar o Oceano Pacífico do alto de uma montanha no Panamá. Mas não havia abertura para navios passarem de um oceano a outro. Baseado num folheto alemão, em relatos de navegantes arquivados em Lisboa e nos cálculos mirabolantes de seu amigo cosmólogo, Magalhães acreditava na existência de um ‘paso’ ao sul do Brasil.

A agonia para conseguir financiamento com os reis de Portugal e Espanha; o desafio de suprir cinco navios de tamanhos diferentes com mantimentos para um período de tempo indeterminado e inestimável; a dificuldade para conseguir marujos dispostos a embarcar nessa viagem ao desconhecido; a frustração de perceber que o La Plata é um rio e não o desejado ‘paso’; o frio crescente e a paisagem cada vez mais desértica; o motim dos espanhóis; a deserção do maior galeão a poucos metros da saída do Estreito de Magalhães; a explicação para os nomes Montevideo, Patagônia, Terra do Fogo e Oceano Pacífico fazem com que este livro me faça companhia nesses últimos dias.

E no final das contas, o escravo malaio de Magalhães, Enrique, foi o primeiro a completar a volta ao mundo, maior feito daqueles tempos idos, sonho irrealizado de Critóvão Colombo.

Magellan é o meu consolo por nunca ter comprado nenhum dos livros sobre (ou de) Shackelton, Amundsen ou Scott e porque esse sujeito sofreu muito mais incertezas que eu aqui, esperando pra ser contrata numa terra inóspita.



Um comentário:

Juliana disse...

Rico mui rico essas ilustrações!