Quando dou aula de produção de textos pros matemáticos, me dou conta de como gosto do mundo maravilhoso da Física. Quando dou essa mesma matéria pros alunos de Letras, percebo como gosto do fabuloso mundo da Filosofia. Minha área não é nem uma nem outra, muito menos produção de texto. Passei os últimos sete anos da minha vida estudando preposições. Desde que os caminhos de grande Renato e pequena Lou se bifurcaram, não tenho mais parceiro de conversa sobre problemas linguísticos.
Agora busco bons parceiros de conversa em outra esfera: no cinema. O cineclube da Unir me deu amigos e vontade de pesquisar sobre filmes, temas e a linguagem do cinema. O resultado dos projetos de extensão ainda não saiu, mas mesmo que o cineclube deLÍRIO não seja aprovado, ele vai continuar acontecendo toda quarta-feira no auditório do Núcleo a partir das 17:00.
Quero comentar um filme que não está na lista dos filmes do cineclube, mas não me sai da cabeça.
O filme se chama 'Up in the air', mas poderia muito bem se chamar 'Ups and downs', porque eles fazem a progressão do filme. George Clooney interpreta Ryan, um cara que passa a maior parte do ano viajando. Conta, orgulhoso, que no ano anterior tinha voado 323 dias e confessa que os 42 dias restantes em casa tinham sido maçantes. Ryan é um sujeito que gosta daquela parte que nós mal e mal suportamos numa viagem: check-in, avião, mala, recepção de hotel, cama de hotel, saguão de hotel, fast food, gente indo e vindo. O que pra gente é 'down', pra ele é 'up'. Ele é inalcançável.
O emprego dele igualmente compreende uma atividade que consideramos detestável: ele é contratado para demitir as pessoas. Assim o chefe da pessoa demitida não precisa ouvir baboseiras, choradeiras, ameaças. Down, down, down. Ryan não é o cara que pode ser responsabilizado pela demissão (porque não é o chefe) nem serve de alvo de descarrego de frustrações (porque ele pega a mala dele e vai embora no mesmo dia). Para o alto e avante!
Ryan é um homem desapegado: sua casa não é uma raiz, ele não tem esposa, namorada ou interesse pela família, e ganha dinheiro se livrando de pessoas pros outros. Up, up and away.
Duas mulheres entram na vida desse lobo solitário: Alex, sua versão feminina e Natalie, a garota nova que quer revolucionar o sistema da empresa. Pela Alex ele se apaixona, já a Natalie ele precisa domar. Down to the ground.
Natalie chegou anunciando um sistema de demissões via videoconferência que era mais barato. Isso significaria que Ryan não precisaria mais viajar. Ele tenta mostrar como demitir alguém in presentia é mais humano que in absentia. Ele leva a mocinha junto com ele, pra mostrar à novata como é que se faz o serviço. No meio do caminho, o noivo da Natalie termina com ela via mensagem de celular. Ela fica na fossa, lá embaixo. Ele paira acima dela, tranquilo e apaixonado.
Alex parece ser a mulher ideal para ele. Ela é bonita, independente, viajada, tem bom gosto e é estilosa. Com essa mulher, ele vai visitar a família, pensa no futuro e faz planos de envelhecer. Com essa mulher ele quer criar laços. Num ataque repentino de saudades, vai até a casa dela, para visitá-la. Quando a porta se abre e ela atende, vê-se duas crianças correndo pela casa. A voz do maridão no fundo pergunta quem é. Tudo se transforma. A bolha estoura, o balão cai, a leveza vira chumbo e seu peso esmaga os sentimentos do nosso herói.
Um belo filme, em que altos e baixos se entrelaçam. Quando Ryan acha que encontrou a fórmula para ser feliz e independente, se apaixona. Quando acha que seu emprego está seguro, uma novata ameaça a sua estabilidade e ascenção na carreira. Quando a novata acha que tecnologia é igual a progresso, seu noivo usa da tecnologia para acabar com o relacionamento. Quando o noivo da irmã do Ryan entra em crise antes do casamento, Ryan é chamado a convencê-lo de que o casamento é uma coisa boa. Quando Ryan está pronto para assumir o relacionamento com a Alex, percebe que ela já está enraizada.
terça-feira, 30 de março de 2010
domingo, 28 de março de 2010
Fotografia
Foto: Mohamed Somji
Entendo que a geração de 50 tenha ficado com medo da fotografia. Um dos textos que sintetiza essa ansiedade é "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica", de Walter Benjamin. A obra de arte de repente não precisava mais ter o seu valor pelo fato de ser única. Pra entender essa coisa do único e exclusivo, pense na Mona Lisa que está pendurada no Louvre. Esta (e não outra) é a obra que vale, não as suas cópias.
Com a fotografia, a coisa muda de figura: mesmo podendo ser reproduzida em grande escala, a fotografia - enquanto obra de arte - continuava tendo o seu valor. Outra coisa que muda é o trabalho do artesão: pintar um quadro demanda tempo, esforço, nervos. Leia a biografia de qualquer pintor e verá que trabalhavam por anos num mesmo quadro. Anos. Esculpir uma forma a partir do mármore demanda ainda mais tempo, esforço e nervos. Recomendo a biografia do Miquelangelo ou da Camille Claudel, que me fascinaram pacas. Um fotógrafo vai lá, aperta um botão e pronto. Acabou.
Recentemente vi Salvador, de Oliver Stone. Lá pelas tantas, um fotógrafo morre convencido de que sacrificou a vida pela foto perfeita. Entendo esse papo de "foto perfeita", porque sei que algumas fotos, como as acima, provocam emoções. Arte pra mim é revolução. Alguma coisa é remexida. Ou algum sonho é despertado, ou a realidade é apresentada de maneira pouco convencional, ou as emoções são sacudidas.
Com a fotografia, a coisa muda de figura: mesmo podendo ser reproduzida em grande escala, a fotografia - enquanto obra de arte - continuava tendo o seu valor. Outra coisa que muda é o trabalho do artesão: pintar um quadro demanda tempo, esforço, nervos. Leia a biografia de qualquer pintor e verá que trabalhavam por anos num mesmo quadro. Anos. Esculpir uma forma a partir do mármore demanda ainda mais tempo, esforço e nervos. Recomendo a biografia do Miquelangelo ou da Camille Claudel, que me fascinaram pacas. Um fotógrafo vai lá, aperta um botão e pronto. Acabou.
Recentemente vi Salvador, de Oliver Stone. Lá pelas tantas, um fotógrafo morre convencido de que sacrificou a vida pela foto perfeita. Entendo esse papo de "foto perfeita", porque sei que algumas fotos, como as acima, provocam emoções. Arte pra mim é revolução. Alguma coisa é remexida. Ou algum sonho é despertado, ou a realidade é apresentada de maneira pouco convencional, ou as emoções são sacudidas.
Plantinhas
A pitanga anda sofrendo com o sol escaldante, mas fiz um telhado pra ela e tenho esperança que consiga se desenvolver pra cima.
O maracujá está crescendo: faça sol, faça chuva. Sobreviveu aos ataques predatórios das formigas e o fio de nylon da máquina de cortar grama.
Abacateiro que não deu no copo, mas deu pra se desenvolver na composteira selvagem, quando eu já o havia descartado.
Tenho limão e laranja. As mudinhas parecidas, sendo que uma tem as folhas maiores que a outra.
Eu tava crente que tinha dado abóbora na nossa composteira selvagem, e pedi pro Davi (nosso intrépido cortador de grama e contador de estórias de furto de bicicletas) poupar os novos vegetais. Voltou dando risada e dizendo que aquilo não era abóbora, mas melão.
Bom, pode ser melancia também... O tempo dirá.
O maracujá está crescendo: faça sol, faça chuva. Sobreviveu aos ataques predatórios das formigas e o fio de nylon da máquina de cortar grama.
Abacateiro que não deu no copo, mas deu pra se desenvolver na composteira selvagem, quando eu já o havia descartado.
Tenho limão e laranja. As mudinhas parecidas, sendo que uma tem as folhas maiores que a outra.
Eu tava crente que tinha dado abóbora na nossa composteira selvagem, e pedi pro Davi (nosso intrépido cortador de grama e contador de estórias de furto de bicicletas) poupar os novos vegetais. Voltou dando risada e dizendo que aquilo não era abóbora, mas melão.
Bom, pode ser melancia também... O tempo dirá.
sábado, 27 de março de 2010
Meu herói
Quando entrei nessa casa, a área de serviço tava mofada e com goteira. Troquei a calha e fiquei com o mofo e as goteiras. Rosivaldo, Jair & Jailson e José fizeram orçamentos de material e mão-de-obra pra essa reforma. Compramos as coisas. O carro passou a pesar 400kg e só saímos da garagem no subsolo da loja de construção na segunda tentativa.
Liguei pro Jair e ele disse que vinha. Não veio e nunca mais atendeu nenhum telefonema meu. Liguei pro José e ele disse que tinha sofrido um acidente no trabalho e tava se recuperando. Liguei pro Rosivaldo, mas quem atendeu foi o Telmo, o pintor mais truculento que eu já vi na vida. Esperei duas semanas e voltei a ligar pro José. Tava melhor e disse que viria. Não veio nem nunca mais atendeu o telefone. Minha última carta era o Berg. Mas o Berg não veio nem quando eu disse que tava com o cano do banheiro furado e jorrando água.
Miyuki chamou o seu Antônio. Ele veio, olhou e deu outro preço e disse que faltava material. Disse quando vinha, ligou na véspera remarcando a data e veio pontualmente pra fazer a reforma. Em 4 dias o seu Antônio eliminou as goteiras, consertou o meu banheiro e fez a reforma na área de serviço.
Madrugada e sua recompensa
Acordei às 5:15 com o barulho chato do despertador impertinente. Foi difícil manter os olhos abertos, mesmo com a luz ligada. Acordei a Miyuki e a vi correndo pela casa, desesperada. Dei um 'boa noite' remelento pro guarda, ele me devolveu 'bom dia' sorridente. No farol do trevo da Eletronorte parou um ônibus da Eucatur. Corri pra chegar antes desse ônibus na rodoviária. Atravessei a cidade escura e deserta e me espantei com a quantidade de ciclistas a caminho de sabe lá o que. Entreguei a Miyuki às 5:55 na rodoviária e cruzei com o ônibus dela na volta.
O dia foi clareando devagarzinho. Olhando pra essa alvorada, todo sono se esvaiu. Será que eu apreciaria essa alvorada daqui tanto se a visse todo dia?
quinta-feira, 25 de março de 2010
Chuvas de março
No dia 14 de março, um domingo, choveu forte. Foi mais uma daquelas chuvas tenebrosas que começam de noite, arrancam telha do lugar, inundam a casa dos meus ex-vizinhos na Rua Venezuela em poucos minutos e custam a passar. Ouvi relatos de pessoas que estavam na rua durante a chuva forte, vendo carros sendo abandonados em ruas que tinham se transformado em rios. Uma colega disse que, vendo aquele aguaceiro todo na cidade, lembrou dos meus relatos de casa alagada.
Aqui em casa, tivemos uma goteira - bem em cima da minha impressora. Percebi a tempo, porque eu sou noiada com chuvas torrenciais e fiquei checando todos os cômodos durante todo o temporal. Lembro que os gatos tinham ficado agitados: era a primeira grande chuva deles em que a casa não fica debaixo d'água.
Anteontem o seu Antônio subiu no telhado, levando consigo as 20 telhas que eu tinha comprado. Foi jogando telha quebrada lá de cima que foi uma barulheira só. Não contei as telhas espatifadas no chão, mas me dei conta que deveria ter comprado 100 telhas. Quando, depois de três horas, o seu Antônio ainda tava no telhado, resolvi conversar com ele. Ele explicou que tava trocando as do beiral pelas do meio e que trocar telha era que nem coceira: quanto mais coça, mais dá vontade de coçar.
Ontem de madrugada caiu outra dessas chuvas. Não dormi direito a partir das 3:00 da manhã. Levantava, andava pela casa, ligava as luzes e procurava goteiras. Akari vinha miar quando eu tinha encostado a cabeça no travesseiro. Quando a chuva parou, às 8:00, tive certeza da qualidade do trabalho do seu Antônio: nenhuma goteira.
terça-feira, 23 de março de 2010
Redações
Dou aula de Produção de Textos prumas 90 pessoas que não lêem nem escrevem quase nada. Contam nos dedos os livros lidos por ano, e a Bíblia quase sempre consta na lista dos livros lidos. O pouco que escrevem, escrevem pra mim. Toda semana entregam uma estória, um fichamento e futuramente um texto argumentativo.
Eu passo a semana toda corrigindo essas belezuras e devolvo os textos com bilhetes longos. Marco os erros de ortografia, concordância, pontuação, paragrafação etc. em cor de rosa. Com a caneta verde, eu chamo atenção pra ambiguidades, incoerências, frases feitas, redundâncias e outros disparates. É um putz trabalhão que eu me dou, porque eu não consigo admitir que os alunos universitários da Unir escrevam tão mal.
Semana passada as minhas ex-alunas tavam sem aula. O professor delas tinha faltado e pediram pra entrar na minha aula. Participaram da atividade e produziram uma redação. Eu tinha distribuído mapas (minha biblioteca de mapas é bem boa) e pedido que transformassem o gênero 'mapa' no gênero 'projeto'. Imaginaram o que fariam nesse lugar, como iriam pra lá e a quem pediriam patrocínio pra executar o projeto. Quando todos tinham uma boa ideia de como iriam pra esse lugar, onde dormiriam, o que fariam na cidade etc., pedi que escrevessem um 'relato de viagem', outro gênero. Acharam que eu tava viajando, porque ninguém conseguia imaginar Porto Alegre, Barcelona, Roma, Andradas, Barra do Una, São Paulo etc.
Essas minhas duas alunas escreveram os melhores relatos de viagem. Quando elas eram minhas alunas, os textos delas não eram excepcionais. Quero crer que as minhas aulas durante o semestre passado tenham feito a diferença entre as redações delas e as dos calouros.
Eu passo a semana toda corrigindo essas belezuras e devolvo os textos com bilhetes longos. Marco os erros de ortografia, concordância, pontuação, paragrafação etc. em cor de rosa. Com a caneta verde, eu chamo atenção pra ambiguidades, incoerências, frases feitas, redundâncias e outros disparates. É um putz trabalhão que eu me dou, porque eu não consigo admitir que os alunos universitários da Unir escrevam tão mal.
Semana passada as minhas ex-alunas tavam sem aula. O professor delas tinha faltado e pediram pra entrar na minha aula. Participaram da atividade e produziram uma redação. Eu tinha distribuído mapas (minha biblioteca de mapas é bem boa) e pedido que transformassem o gênero 'mapa' no gênero 'projeto'. Imaginaram o que fariam nesse lugar, como iriam pra lá e a quem pediriam patrocínio pra executar o projeto. Quando todos tinham uma boa ideia de como iriam pra esse lugar, onde dormiriam, o que fariam na cidade etc., pedi que escrevessem um 'relato de viagem', outro gênero. Acharam que eu tava viajando, porque ninguém conseguia imaginar Porto Alegre, Barcelona, Roma, Andradas, Barra do Una, São Paulo etc.
Essas minhas duas alunas escreveram os melhores relatos de viagem. Quando elas eram minhas alunas, os textos delas não eram excepcionais. Quero crer que as minhas aulas durante o semestre passado tenham feito a diferença entre as redações delas e as dos calouros.
segunda-feira, 22 de março de 2010
A presença da Morte
Amanhã sai o resultado sobre a seleção dos projetos de extensão na Unir. Ninno, Robson e eu submetemos um projeto de cineclube universitário. Queremos não apenas rodar filmes no espaço universitário, mas promover debates sobre os filmes assistidos, produzir resenhas e discutir temas nos quais os filmes são encaixados. Escolhemos 10 temas e para cada tema 4 filmes. O primeiro tema era justamente Eutanásia & Morte. Enquanto o cineclube universitário deLírio não é oficializado, seguimos com as atividades monitoradas pelos alunos Paulo e Guilherme.
Ann é uma moça que descobre que tem um tumor e pouco tempo de vida. Elabora uma lista de coisas para fazer antes de morrer e decide não contar ao marido, às filhas, à mãe, ao novo amante, à vizinha, à colega e ao pai da morte anunciada. Poupá-los do sofrimento antecipado e das idas ao hospital é o presente que Ann dá às pessoas em sua volta.
No dia anterior, eu tinha lembrado de uma indicação de filme feita pela Olga e depois reiterada pela minha mãe. Só não lembrava direito se era 'Hanami' ou 'Hanabi'. Baixei os dois e o do Takeshi Kitano veio primeiro.
É um filme que envolve a yakuza (máfia japonesa), ex-policiais, uma esposa com uma enfermidade terminal e muitas mortes. Hana-bi: Fogos de artifício.
Na quinta-feira assisti, então, o filme que tinha sido indicado pela Olga e pela minha mãe: Hanami - Cerejeiras em flor.
A mulher idosa que acompanha o marido ao médico é chamada para uma conversa. Os médicos dizem que o marido dela tem poucos meses de vida e que talvez devessem aproveitar esse pouco tempo restante com alguma viagem ou aventura. Ela não revela ao marido idoso que ele está marcado pra morrer e urge para que façam viagens. Visitam os filhos em Berlim, o mar e de repente ela morre no hotel. Tinha faltado visitar o filho preferido que estava no Japão. O Japão sempre tinha sido a fascinação dela. Mas não deu tempo.
A morte dela traz o filho do Japão e leva o marido com esse filho de volta ao Japão. Lá, o marido enlutado entra em contato com todas as coisas que a falecida apreciava tanto. Lá no Japão o marido consegue se despedir da esposa e morrer em paz.
Na sexta-feira de manhã enterrei o Shaoran.
Na quarta-feira passada, eu conduzi o debate sobre o último filme desse tema, Minha vida sem mim.
Ann é uma moça que descobre que tem um tumor e pouco tempo de vida. Elabora uma lista de coisas para fazer antes de morrer e decide não contar ao marido, às filhas, à mãe, ao novo amante, à vizinha, à colega e ao pai da morte anunciada. Poupá-los do sofrimento antecipado e das idas ao hospital é o presente que Ann dá às pessoas em sua volta.
No dia anterior, eu tinha lembrado de uma indicação de filme feita pela Olga e depois reiterada pela minha mãe. Só não lembrava direito se era 'Hanami' ou 'Hanabi'. Baixei os dois e o do Takeshi Kitano veio primeiro.
É um filme que envolve a yakuza (máfia japonesa), ex-policiais, uma esposa com uma enfermidade terminal e muitas mortes. Hana-bi: Fogos de artifício.
Na quinta-feira assisti, então, o filme que tinha sido indicado pela Olga e pela minha mãe: Hanami - Cerejeiras em flor.
A mulher idosa que acompanha o marido ao médico é chamada para uma conversa. Os médicos dizem que o marido dela tem poucos meses de vida e que talvez devessem aproveitar esse pouco tempo restante com alguma viagem ou aventura. Ela não revela ao marido idoso que ele está marcado pra morrer e urge para que façam viagens. Visitam os filhos em Berlim, o mar e de repente ela morre no hotel. Tinha faltado visitar o filho preferido que estava no Japão. O Japão sempre tinha sido a fascinação dela. Mas não deu tempo.
A morte dela traz o filho do Japão e leva o marido com esse filho de volta ao Japão. Lá, o marido enlutado entra em contato com todas as coisas que a falecida apreciava tanto. Lá no Japão o marido consegue se despedir da esposa e morrer em paz.
Na sexta-feira de manhã enterrei o Shaoran.
Obrigada!
Pessoas,
muito obrigada pelo apoio, pela amizade e pelas conversas telefônicas. Detesto chorar no telefone, mas ajuda a soltar essa bolota inominável que estava aqui dentro. Escrever sempre foi terapia pra mim, e está me ajudando a processar as informações. Falar sobre a morte do Shaoran e jogar a terra sobre ele foram as partes mais difíceis. Agora as lágrimas correm serenas quando converso com a Akari sobre o Shaoran. Ela procura pelo companheiro, não se afasta da casa, senta em cima do pé de pitanga e mia muito.
Por um tempo, achei estranho eu sofrer tanto e tão convulsivamente com a morte de um gato, se comparado ao sofrimento causado pela morte do meu vô ou do Leo. Tem a coisa da convivência e tem o lance do Shaoran ter sido um belo substituto de filho. Estou com quase 32...
muito obrigada pelo apoio, pela amizade e pelas conversas telefônicas. Detesto chorar no telefone, mas ajuda a soltar essa bolota inominável que estava aqui dentro. Escrever sempre foi terapia pra mim, e está me ajudando a processar as informações. Falar sobre a morte do Shaoran e jogar a terra sobre ele foram as partes mais difíceis. Agora as lágrimas correm serenas quando converso com a Akari sobre o Shaoran. Ela procura pelo companheiro, não se afasta da casa, senta em cima do pé de pitanga e mia muito.
Por um tempo, achei estranho eu sofrer tanto e tão convulsivamente com a morte de um gato, se comparado ao sofrimento causado pela morte do meu vô ou do Leo. Tem a coisa da convivência e tem o lance do Shaoran ter sido um belo substituto de filho. Estou com quase 32...
sábado, 20 de março de 2010
Conforto
Somos seres de estórias. Contamos e ouvimos estórias o dia todo, todo dia. Buscamos conforto em estórias.
Para alguns, é difícil imaginar que vivemos num planeta muito antigo que gira em volta de um sol a uma velocidade incrível; e que existe mais vazio que matéria no universo. Simon Singh formulou isso melhor que eu, mas a ideia é que o planeta plano e quadrado é uma estória confortante. Que fomos criados por um Deus de Amor também é um conforto para aqueles que não conseguem imaginar que somos fruto do acaso, da coincidência, de uma explosão. Os mitos de origem são um conforto para os humanos que procuram um sentido para as suas existências.
Os mitos de morte também. A morte do meu gato ainda pesa em mim. Shaoran não vai mais pisar o meu travesseiro de manhã, caçar borboletas, atormentar a Akari, dormir na cozinha, desfiar as calças das visitas, mastigar redações de alunos, correr e pular pela casa, se equilibrar nas cordas retesadas da rede, esfregar o seu nariz no meu, morder a minha mão, ronronar bem alto e dormir na minha cama. Agora Shaoran se transforma em terra que vai alimentar uma árvore. Essa árvore vai crescer, mas não vai sair do lugar.
Para alguns, é difícil imaginar que vivemos num planeta muito antigo que gira em volta de um sol a uma velocidade incrível; e que existe mais vazio que matéria no universo. Simon Singh formulou isso melhor que eu, mas a ideia é que o planeta plano e quadrado é uma estória confortante. Que fomos criados por um Deus de Amor também é um conforto para aqueles que não conseguem imaginar que somos fruto do acaso, da coincidência, de uma explosão. Os mitos de origem são um conforto para os humanos que procuram um sentido para as suas existências.
Os mitos de morte também. A morte do meu gato ainda pesa em mim. Shaoran não vai mais pisar o meu travesseiro de manhã, caçar borboletas, atormentar a Akari, dormir na cozinha, desfiar as calças das visitas, mastigar redações de alunos, correr e pular pela casa, se equilibrar nas cordas retesadas da rede, esfregar o seu nariz no meu, morder a minha mão, ronronar bem alto e dormir na minha cama. Agora Shaoran se transforma em terra que vai alimentar uma árvore. Essa árvore vai crescer, mas não vai sair do lugar.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Shaoran ist tot
Shaoran está morto. Foi estraçalhado pelos 3 cachorros do vizinho. Meu filhote não chegou a completar 6 meses de vida. Toda morte de seres jovens é trágica.
Ouvi latidos e gritos. Me acalmei quando vi a Akari, mas continuei andando. Saí da casa. A faxineira da vizinha já estava na porta, amassando as mãos. Perguntou se o gato amarelo era meu. Disse que estava sozinha e não soube o que fazer. Ainda se ouvia o rosnar raivoso e os latidos nervosos dos cachorros.
Abri o portãozinho que dava pro quintal dos cachorros, mas não tive coragem de entrar. Chamei com a voz fresca pelo Shaoran. Tenho medo de cachorro, ainda mais de cachorro com sangue nos dentes. A faxineira me conduziu à sala. De lá dava pra ver, através da janela, o pequeno Shaoran estendido no chão. Dois vira-latas diputavam o corpo do gato. A faxineira falava, eu olhava pros cachorros enfiando os dentes no couro do meu gatinho.
Voltei pra casa, chorei até ficar sem ar, cavei um buraco no meu quintal e liguei pra minha mãe. Shaoran ist tot. Difícil dizer isso. Difícil acreditar que ele não volta nunca mais. Peguei uma camiseta e voltei na casa da vizinha. Pedi que a faxineira embalasse o corpo do gato na camiseta e me devolvesse o corpo dele.
Senti o peso do Shaoran pela última vez. Akari arregalou os olhos quando viu seu companheiro. Desceu do ar-condicionado e acompanhou o enterro. Acho que ela entendeu que agora está sozinha de novo. Plantei uma muda de pitanga em cima do Shaoran. Espero que cresça.
A vizinha chegou em casa, ouviu o relato da faxineira e veio pedir desculpas. Me ofereceu outro gatinho, disse que entendia que eu tava abalada. Não consegui dizer uma palavra. Não consegui dizer que ela criava assassinos no quintal da casa dela. Os três cachorros dela nunca saem nem pra passear. Vivem em três, amontoados e isolados no quintal. Os cachorros servem para proteger a casa e atacar tudo que for estranho. Infelizmente, no Brasil é normal que os cachorros sejam mantidos como armas.
Não consigo comer nada, muito menos corrigir redações. Minha cabeça dói, soluço e choro constantemente. Sinto os meus olhos inchados. A casa ficou vazia. Akari vem de vez em quando me cutucar, mas ela não é de colo.
Ouvi latidos e gritos. Me acalmei quando vi a Akari, mas continuei andando. Saí da casa. A faxineira da vizinha já estava na porta, amassando as mãos. Perguntou se o gato amarelo era meu. Disse que estava sozinha e não soube o que fazer. Ainda se ouvia o rosnar raivoso e os latidos nervosos dos cachorros.
Abri o portãozinho que dava pro quintal dos cachorros, mas não tive coragem de entrar. Chamei com a voz fresca pelo Shaoran. Tenho medo de cachorro, ainda mais de cachorro com sangue nos dentes. A faxineira me conduziu à sala. De lá dava pra ver, através da janela, o pequeno Shaoran estendido no chão. Dois vira-latas diputavam o corpo do gato. A faxineira falava, eu olhava pros cachorros enfiando os dentes no couro do meu gatinho.
Voltei pra casa, chorei até ficar sem ar, cavei um buraco no meu quintal e liguei pra minha mãe. Shaoran ist tot. Difícil dizer isso. Difícil acreditar que ele não volta nunca mais. Peguei uma camiseta e voltei na casa da vizinha. Pedi que a faxineira embalasse o corpo do gato na camiseta e me devolvesse o corpo dele.
Senti o peso do Shaoran pela última vez. Akari arregalou os olhos quando viu seu companheiro. Desceu do ar-condicionado e acompanhou o enterro. Acho que ela entendeu que agora está sozinha de novo. Plantei uma muda de pitanga em cima do Shaoran. Espero que cresça.
A vizinha chegou em casa, ouviu o relato da faxineira e veio pedir desculpas. Me ofereceu outro gatinho, disse que entendia que eu tava abalada. Não consegui dizer uma palavra. Não consegui dizer que ela criava assassinos no quintal da casa dela. Os três cachorros dela nunca saem nem pra passear. Vivem em três, amontoados e isolados no quintal. Os cachorros servem para proteger a casa e atacar tudo que for estranho. Infelizmente, no Brasil é normal que os cachorros sejam mantidos como armas.
Não consigo comer nada, muito menos corrigir redações. Minha cabeça dói, soluço e choro constantemente. Sinto os meus olhos inchados. A casa ficou vazia. Akari vem de vez em quando me cutucar, mas ela não é de colo.
terça-feira, 16 de março de 2010
Professora, professora!
Na Unir, as pessoas me cumprimentam: "Bom dia, professora", "oi, professora", "tudo bem, professora?" No supermercado, a moça do açougue me atende: "oi, professora". Na loja de roupas, meu aluno me cumprimenta: "e aí, professora, já tem o cartão da loja?"
Meu nome foi esquecido. Agora atendo por "professora". E atendo cada urgência...
Estamos em sala de aula. Proponho uma atividade em grupos, distribuo material e vou passeando de grupo em grupo. Um aluno chega perto de mim e quase me sussura que quer conversar comigo lá fora. Eu vou, né. Lá fora, ele me pergunta o que é mesmo que é pra fazer naquela atividade. Pacientemente, expliquei como ele poderia acompanhar o seu grupo.
* * *
Continuamos na mesma aula. Todos estão entretidos na atividade em grupo. Eu estou sentada no degrau do professor (da parede da lousa até 1,5m sala adentro o chão é mais alto. Coisa de status do professor). Um dos alunos senta do meu lado e diz que está muito triste porque todos receberam a camiseta da turma (tem o símbolo da Unir, o nome do curso e o ano) no tamanho certo, e a dele veio no joelho.
- Como vai ficar agora, professora, só eu sem uniforme pra vir pra escola?
Não lembrei o menino que ele estava na universidade e que a camiseta não exercia a função de uniforme. Sugeri que fizesse a barra da camiseta.
* * *
Chego de bicicleta na Unir. Solto o alforge, começo a tirar o cadeado do bagageiro e sou cumprimentada por um guarda da Unir.
- Bom dia, professora, a senhora entende de coluna?
- Não, não entendo de coluna.
Tranco o cadeado.
- Ah, é que eu estou com umas dores aqui, porque eu malhava, né, daí ontem a dor voltou, aí eu achei que era algum exercício que eu tava fazendo errado, né.
- Puxa, não sei como te ajudar.
Tiro o velocímetro e a garrafinha de água da bicicleta.
- Mas a senhora não faz esporte, não dá aula de Física?
- Não, a minha bicicleta é o meu meio de transporte e eu sou professora de português.
Guardo a chave e o velocímetro na pochete.
- A senhora não é professora de Física?
- Não, de português. Quer saber? Vai num médico, que é isso que as pessoas fazem quando sentem dor.
Pego o alforge e vou embora dali.
- Tá.
* * *
Era dia de devolver redação dos alunos. Eu já tinha implicado, via bilhete, com o Felipe, que em outro momento tinha escrito uma redação cheia de redundâncias, tautologias e pleonasmos. Só pra ser ter uma ideia, o título era "Cotidiano diário do dia-a-dia" e no meio eu lembro de um "suicídio contra a própria vida". Fazendo alarde, Felipe reclamou da minha correção na sala.
Hoje, quando fui coletar as redações pra devolver que eu tinha deixado em cima do sofá ontem, vi que Shaoran estava em cima delas. Olhando mais de perto, vi que o gato tinha amassado e arranhado uma delas: a do Felipe.
Em sala de aula, expliquei a todos (com a pilha de redações na mão) que havia acontecido um acidente doméstico.
- Ah, professora, seu filho babou em cima da redação.
- Quase. Meu gato quase comeu uma redação.
- Uma só?
- Por incrível que pareça.
- De quem, professora?
- Do Felipe.
- Ave Maria, é marcação comigo, professora!
Pedi milhares de desculpas, mas não adiantou. Agora sou a professora que amassa as redações dos alunos. Felipe me entregou a redação de hoje dizendo:
- Vê se não amassa essa, hein!
* * *
Chega um e-mail em que a moça do cadastro nota que eu não preenchi o campo em que se pede pra colocar os anos de ensino no Magistério. Respondo que não coloquei nada porque esse emprego na Unir é o meu primeiro emprego. Adiciono ainda a informação de que antes de ser professora, sempre fui estudante. Ela volta a me escrever, perguntando se eu não dei aulas nem no Ensino Médio.
Meu nome foi esquecido. Agora atendo por "professora". E atendo cada urgência...
Estamos em sala de aula. Proponho uma atividade em grupos, distribuo material e vou passeando de grupo em grupo. Um aluno chega perto de mim e quase me sussura que quer conversar comigo lá fora. Eu vou, né. Lá fora, ele me pergunta o que é mesmo que é pra fazer naquela atividade. Pacientemente, expliquei como ele poderia acompanhar o seu grupo.
* * *
Continuamos na mesma aula. Todos estão entretidos na atividade em grupo. Eu estou sentada no degrau do professor (da parede da lousa até 1,5m sala adentro o chão é mais alto. Coisa de status do professor). Um dos alunos senta do meu lado e diz que está muito triste porque todos receberam a camiseta da turma (tem o símbolo da Unir, o nome do curso e o ano) no tamanho certo, e a dele veio no joelho.
- Como vai ficar agora, professora, só eu sem uniforme pra vir pra escola?
Não lembrei o menino que ele estava na universidade e que a camiseta não exercia a função de uniforme. Sugeri que fizesse a barra da camiseta.
* * *
Chego de bicicleta na Unir. Solto o alforge, começo a tirar o cadeado do bagageiro e sou cumprimentada por um guarda da Unir.
- Bom dia, professora, a senhora entende de coluna?
- Não, não entendo de coluna.
Tranco o cadeado.
- Ah, é que eu estou com umas dores aqui, porque eu malhava, né, daí ontem a dor voltou, aí eu achei que era algum exercício que eu tava fazendo errado, né.
- Puxa, não sei como te ajudar.
Tiro o velocímetro e a garrafinha de água da bicicleta.
- Mas a senhora não faz esporte, não dá aula de Física?
- Não, a minha bicicleta é o meu meio de transporte e eu sou professora de português.
Guardo a chave e o velocímetro na pochete.
- A senhora não é professora de Física?
- Não, de português. Quer saber? Vai num médico, que é isso que as pessoas fazem quando sentem dor.
Pego o alforge e vou embora dali.
- Tá.
* * *
Era dia de devolver redação dos alunos. Eu já tinha implicado, via bilhete, com o Felipe, que em outro momento tinha escrito uma redação cheia de redundâncias, tautologias e pleonasmos. Só pra ser ter uma ideia, o título era "Cotidiano diário do dia-a-dia" e no meio eu lembro de um "suicídio contra a própria vida". Fazendo alarde, Felipe reclamou da minha correção na sala.
Hoje, quando fui coletar as redações pra devolver que eu tinha deixado em cima do sofá ontem, vi que Shaoran estava em cima delas. Olhando mais de perto, vi que o gato tinha amassado e arranhado uma delas: a do Felipe.
Em sala de aula, expliquei a todos (com a pilha de redações na mão) que havia acontecido um acidente doméstico.
- Ah, professora, seu filho babou em cima da redação.
- Quase. Meu gato quase comeu uma redação.
- Uma só?
- Por incrível que pareça.
- De quem, professora?
- Do Felipe.
- Ave Maria, é marcação comigo, professora!
Pedi milhares de desculpas, mas não adiantou. Agora sou a professora que amassa as redações dos alunos. Felipe me entregou a redação de hoje dizendo:
- Vê se não amassa essa, hein!
* * *
Chega um e-mail em que a moça do cadastro nota que eu não preenchi o campo em que se pede pra colocar os anos de ensino no Magistério. Respondo que não coloquei nada porque esse emprego na Unir é o meu primeiro emprego. Adiciono ainda a informação de que antes de ser professora, sempre fui estudante. Ela volta a me escrever, perguntando se eu não dei aulas nem no Ensino Médio.
domingo, 14 de março de 2010
Estória de pescador
O pirarucu é o 'gigante amazônico'. Chega a ter uns 3m de comprimento e é a base alimentar dos ribeirinhos da região amazônica. Por ser desse tamanho e ter um aparelho respiratório complexo (as águas da bacia amazônica têm baixos índices de oxigênio, por isso esse peixe também respira ar. Subir à superfície o torna vulnerável), é presa fácil pra pesca predatória. Assim sendo, é uma espécie ameaçada.
Numa mesa de bar, depois de muitas cervejas, um professor da Filosofia prendeu a nossa atenção com estórias do pirarucu. Disse que o peixe tem uma carne nóóóóóóóbre, muito apreciaaaaaaada na região. Disse também que a criação de pirarucu dá muito dinheeeeeeeeiro, mas que dá trabalho.
Porque o pirarucu, quando junta com uma pirarucoa, é fiel a ela até o fim da vida. Essa fidelidade é muito difícil de você ver na Natureza. Mas é assim: quando a pirarucoa acasala com um pirarucu, ela não vai com outro, só com aquele, e dão muitos filhotes de uma vez. Por isso dá dinheiro criar pirarucu. Mas a parte trabalhosa é você identificar o casal de pirarucus. E pra isso existem profissionais que identificam casais de pirarucu. Eles cobram caro, mas vale a pena. Um amigo meu comprou um casal de pirarucus identificados, e está feliz da vida, ganhando rios de dinheiro com os peixes que se reproduzem feito coelho.
Na outra ponta da mesa estava sentado um biólogo que lembrou que a reprodução dos peixes é externa: a fêmea bota os ovos, o macho passa nandando por cima, joga o sêmem e fecunda os ovos. Não tem essa coisa de fidelidade, casal. O peixe está ameaçado de extinção por causa da pesca predatória, não por causa da dificuldade de identificar um casal de pirarucus.
Até hoje eu não sei se o filósofo tava tirando uma com a nossa cara, contando estórias de pescador, ou se o amigo desse filósofo foi enganado e pagou caro pelo serviço de um identificador de casal de pirarucus e pelo casal de pirarucus identificados.
Numa mesa de bar, depois de muitas cervejas, um professor da Filosofia prendeu a nossa atenção com estórias do pirarucu. Disse que o peixe tem uma carne nóóóóóóóbre, muito apreciaaaaaaada na região. Disse também que a criação de pirarucu dá muito dinheeeeeeeeiro, mas que dá trabalho.
Porque o pirarucu, quando junta com uma pirarucoa, é fiel a ela até o fim da vida. Essa fidelidade é muito difícil de você ver na Natureza. Mas é assim: quando a pirarucoa acasala com um pirarucu, ela não vai com outro, só com aquele, e dão muitos filhotes de uma vez. Por isso dá dinheiro criar pirarucu. Mas a parte trabalhosa é você identificar o casal de pirarucus. E pra isso existem profissionais que identificam casais de pirarucu. Eles cobram caro, mas vale a pena. Um amigo meu comprou um casal de pirarucus identificados, e está feliz da vida, ganhando rios de dinheiro com os peixes que se reproduzem feito coelho.
Na outra ponta da mesa estava sentado um biólogo que lembrou que a reprodução dos peixes é externa: a fêmea bota os ovos, o macho passa nandando por cima, joga o sêmem e fecunda os ovos. Não tem essa coisa de fidelidade, casal. O peixe está ameaçado de extinção por causa da pesca predatória, não por causa da dificuldade de identificar um casal de pirarucus.
Até hoje eu não sei se o filósofo tava tirando uma com a nossa cara, contando estórias de pescador, ou se o amigo desse filósofo foi enganado e pagou caro pelo serviço de um identificador de casal de pirarucus e pelo casal de pirarucus identificados.
sábado, 13 de março de 2010
Ganhou o Oscar
Resolvi assistir o filme que ganhou o Oscar. É um filme de guerra. Não gosto de filmes de guerra.
E acho os filmes de guerra altamente complicados, porque sempre tomam partido. Na guerra, ninguém tem mais razão. Mesmo quando o diretor tenta mostrar os dois lados da moeda, como Clint Eastwood fez em Flags of our fathers e Letters from Iwo Jima, o espectador sabe de que lado Clint Eastwood está e quer te colocar. Outro filme que me vem à mente é o In the Valley of Elah (No vale das sombras, com o Tommy Lee Jones invertendo a bandeira americana no fim do filme). Por fim, Inglorious basterds retrata um movimento clandestino e revolucionário que surge no cenário da guerra contra os estrelas da guerra.
Lendo poucas resenhas sobre The hurt locker, percebo que este filme parece abrir brechas para os dois lados. Há quem escreva sobre heróis de guerra e quem escreva sobre os viciados em guerra. Como eu não gosto de guerra ou filmes de guerra, não acredito em heróis de guerra do tipo comum. Um herói de guerra, pra mim, é um tipo como o personagem de Roberto Benigni em La vita è bella. O que fica, então, é o vício da guerra (adrenalina, testosterona, endorfina, serotonina, barulho). No filme, um dos personagens conversa com o psiquiatra da equipe sobre a droga (merda) que é a guerra. Nas horas vagas, joga video-game em que mata os adversários com tiros na cabeça (que droga!).
O nome que botaram em português 'Guerra ao terror' é muito diferente do título original. O armário da dor evoca imagens claustrofóbicas e obscuras. A meu ver, não é um título que toma partido por uma nação, mas descreve o estado de espírito do combatente. Já o título em português remete diretamente ao eixo do mal. Quem são os terroristas? Os muçulmanos. Quem combate terroristas? Os cowboys estadunidenses. Onde o conflito se faz mais presente? Iraque. Pronto.
Esse não é um filme sobre a guerra no Iraque. Apenas é ambientado lá. Não se trata, portanto, de uma crítica aos Estados Unidos cavalgando a besta que cospe ouro preto. Não é um filme que demonstra ou desperta consciência política sobre esta guerra no Iraque. Assim como Tropa de Elite era sobre o Capitão Nascimento (e não era sobre a favela), Guerra ao Terror é sobre William James, um cara que é tão bom no que faz, que não sabe fazer outra coisa.
Não vi todos os filmes indicados ao Oscar, mas entre Avatar, Up, The hurt locker, District 9 e Inglorious basterds, fico com o Tarantino.
E acho os filmes de guerra altamente complicados, porque sempre tomam partido. Na guerra, ninguém tem mais razão. Mesmo quando o diretor tenta mostrar os dois lados da moeda, como Clint Eastwood fez em Flags of our fathers e Letters from Iwo Jima, o espectador sabe de que lado Clint Eastwood está e quer te colocar. Outro filme que me vem à mente é o In the Valley of Elah (No vale das sombras, com o Tommy Lee Jones invertendo a bandeira americana no fim do filme). Por fim, Inglorious basterds retrata um movimento clandestino e revolucionário que surge no cenário da guerra contra os estrelas da guerra.
Lendo poucas resenhas sobre The hurt locker, percebo que este filme parece abrir brechas para os dois lados. Há quem escreva sobre heróis de guerra e quem escreva sobre os viciados em guerra. Como eu não gosto de guerra ou filmes de guerra, não acredito em heróis de guerra do tipo comum. Um herói de guerra, pra mim, é um tipo como o personagem de Roberto Benigni em La vita è bella. O que fica, então, é o vício da guerra (adrenalina, testosterona, endorfina, serotonina, barulho). No filme, um dos personagens conversa com o psiquiatra da equipe sobre a droga (merda) que é a guerra. Nas horas vagas, joga video-game em que mata os adversários com tiros na cabeça (que droga!).
O nome que botaram em português 'Guerra ao terror' é muito diferente do título original. O armário da dor evoca imagens claustrofóbicas e obscuras. A meu ver, não é um título que toma partido por uma nação, mas descreve o estado de espírito do combatente. Já o título em português remete diretamente ao eixo do mal. Quem são os terroristas? Os muçulmanos. Quem combate terroristas? Os cowboys estadunidenses. Onde o conflito se faz mais presente? Iraque. Pronto.
Esse não é um filme sobre a guerra no Iraque. Apenas é ambientado lá. Não se trata, portanto, de uma crítica aos Estados Unidos cavalgando a besta que cospe ouro preto. Não é um filme que demonstra ou desperta consciência política sobre esta guerra no Iraque. Assim como Tropa de Elite era sobre o Capitão Nascimento (e não era sobre a favela), Guerra ao Terror é sobre William James, um cara que é tão bom no que faz, que não sabe fazer outra coisa.
Não vi todos os filmes indicados ao Oscar, mas entre Avatar, Up, The hurt locker, District 9 e Inglorious basterds, fico com o Tarantino.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Bactéria velha
O cara que veio limpar o sótão da casa ficou assustado com a sujeira que viu lá em cima. Não achou os morcegos nem a casa deles, mas limpou toda a sujeira produzida por eles. Além de passar aspirador de pó no sótão, limpou também a caixa d'água. A caixa tava com um cantinho da tampa quebrado.
O cara me mostrou o que tirou da caixa d'água:
- Tinha merda de morcego e um monte de bactéria velha.
Daí, pra finalizar o processo de limpeza, jogou veneno nas paredes da casa. Fiquei preocupada com os gatos. Ele me tranquilizou:
- Esse veneno aqui só mata bicho que não tem osso.
É quase um biólogo!
O cara me mostrou o que tirou da caixa d'água:
- Tinha merda de morcego e um monte de bactéria velha.
Daí, pra finalizar o processo de limpeza, jogou veneno nas paredes da casa. Fiquei preocupada com os gatos. Ele me tranquilizou:
- Esse veneno aqui só mata bicho que não tem osso.
É quase um biólogo!
quinta-feira, 11 de março de 2010
Cine velharia
Andei correndo atrás do tempo perdido e dos filmes não vistos. Veja o que a equipe do cineclube fez comigo: despertou-me para o gênero cine velharia.
Papillon é de 1973 e muito massa. Meus amigos Ninno e Robson arquitetam, assim como Louis Dega e Papillon, um plano de fuga desde o momento em que chegaram na Amazônia.
Metropolis, do Fritz Lang, é de 1927, quando o cinema ainda era mudo. Nossa, que genial. O final é bem patético, mas o começo é impressionante. O tema principal é a relação entre homem e máquina (os operários/ a Maria-robô) e a cidade vazia de gente, mas cheia de máquinas.
Eu lembrava de Mad Max, do Mel Gibson e da Tina Turner cantando djubi djubi, mas não lembrava da trama. São 3 filmes, sendo que o primeiro foi lançado em 1979. Vi um por noite. O primeiro é horrível. Atuação péssima do Mel Gibson, só ronco de motores, estrada, loucura e perseguição. Asqueroso. O segundo é, no mínimo, interessante. Mais bem produzido, usando alguns artifícios próprios da linguagem cinematográfica, salta da estrada para o cenário geral de um mundo desértico em que o que vale é a gasolina (e não a água, a vegetação ou a vida em geral). O terceiro tem trilha sonora bem presente, Tina Turner, reencontros, mas um final besta. Não gostei de nenhum deles, mas isso não importa.
Lawrence da Arábia, de 1962, é a prova cabal de que ver o filme na tela do cinema é muito melhor que vê-lo na tela do computador. Sentada no sofá da sala, sofri muito por não conseguir entrar lá, no deserto imenso.
Papillon é de 1973 e muito massa. Meus amigos Ninno e Robson arquitetam, assim como Louis Dega e Papillon, um plano de fuga desde o momento em que chegaram na Amazônia.
Metropolis, do Fritz Lang, é de 1927, quando o cinema ainda era mudo. Nossa, que genial. O final é bem patético, mas o começo é impressionante. O tema principal é a relação entre homem e máquina (os operários/ a Maria-robô) e a cidade vazia de gente, mas cheia de máquinas.
Eu lembrava de Mad Max, do Mel Gibson e da Tina Turner cantando djubi djubi, mas não lembrava da trama. São 3 filmes, sendo que o primeiro foi lançado em 1979. Vi um por noite. O primeiro é horrível. Atuação péssima do Mel Gibson, só ronco de motores, estrada, loucura e perseguição. Asqueroso. O segundo é, no mínimo, interessante. Mais bem produzido, usando alguns artifícios próprios da linguagem cinematográfica, salta da estrada para o cenário geral de um mundo desértico em que o que vale é a gasolina (e não a água, a vegetação ou a vida em geral). O terceiro tem trilha sonora bem presente, Tina Turner, reencontros, mas um final besta. Não gostei de nenhum deles, mas isso não importa.
Lawrence da Arábia, de 1962, é a prova cabal de que ver o filme na tela do cinema é muito melhor que vê-lo na tela do computador. Sentada no sofá da sala, sofri muito por não conseguir entrar lá, no deserto imenso.
terça-feira, 9 de março de 2010
Fragmentos
Caminhando pela Unir, pesquei uns fragmentos de conversa:
O único problema de Platão é que ele era uma BESTA.
* * *
Me olhei no espelho hoje de manhã, e sério mesmo, se eu fosse mulher, eu me agarrava.
* * *
Ai, eu tô com medo de tirar o aparelho, porque eu acho que vai ficar feio. Já acostumei a não ver os meus dentes.
O único problema de Platão é que ele era uma BESTA.
* * *
Me olhei no espelho hoje de manhã, e sério mesmo, se eu fosse mulher, eu me agarrava.
* * *
Ai, eu tô com medo de tirar o aparelho, porque eu acho que vai ficar feio. Já acostumei a não ver os meus dentes.
domingo, 7 de março de 2010
O pote de ouro
Você não sabe o que faria com 500 milhões de reais. Você não tem nem mesmo noção de quanto é essa quantia. Você não consegue imaginar quanto espaço esse dinheiro ocuparia se estivesse separado em notas de 100. Você joga na loteria sem nenhuma preocupação com a defesa, proteção ou segurança desse dinheiro todo, porque você sabe que a possibilidade de ganhar sozinho é remota. Os 500 milhões são um valor abstrato, por isso você não chegou a considerar as dimensões do cofre. Você, que tem limite de saque de 600 reais no caixa eletrônico, só sabe que 6 notas de 100 ocupam menos espaço que um montão de notas de 20 ou 10. O grosso do dinheiro que você movimenta é abstrato: entra na conta e sai dela mediante digitação de senha.
Vanderson, no entanto, sabe muito bem o que são 500 milhões. Ele sabe quanto espaço esse montante ocupa em notas de 100, 50, 20 e até 10. Vanderson trabalha no ramo da segurança. Não é a segurança de pessoas ou imóveis, mas do dinheiro. Ele trabalha armado de um rifle, pra proteger o dinheiro alheio. Ele sabe qual é a tensão que envolve tanta responsabilidade. Ele sabe como o ar fica curto dentro do carro-forte. Ele conhece o cheiro do dinheiro dos outros misturado ao próprio suor.
Vanderson joga na loteria toda semana. Sabe que já investiu o salário de um ano no sonho de ganhar sozinho na loteria. Continua jogando porque acredita que sabe qual é a combinação secreta dos números sortudos. Continua jogando porque acredita que o prêmio vai lhe resolver a vida. Continua jogando porque sabe sobre dinheiro. Continua jogando porque não sabe fazer outra coisa.
Continua sonhando com a possibilidade de se libertar do aperto que o monte de dinheiro dos outros lhe causa. Sabe que terá que defender esse prêmio com a vida. Sabe que não é saudável, mas acha que é o preço que deve pagar pela felicidade. Vanderson, assim como tantos outros, acredita na felicidade monetária.
sábado, 6 de março de 2010
Sem descendentes
Shaoran foi ao veterinário pra tomar vacina e voltou castrado. Ficou completamente grogue (chapado, sem forças, com as pupilas dilatadas e sem se alimentar) por uma tarde e uma noite. Porém, mesmo baqueado desse jeito, resistiu ferozmente ao antibiótico que eu quis lhe dar. A operação segura-abre-a-boca-e-enfia-a-pílula-goela-abaixo me deixou esgotada. De onde surgiu essa força toda?
Ainda falta uma cartela de antibiótico. Preciso bolar um jeito mais eficiente e menos sangrento de administrar as pílulas pro meu pequeno herói. Esconder na carne, sei lá.
O veterinário disse que não haverá tantos jatos de mijo nas paredes da casa. Não houve nenhum até agora. Disse que ficará mais calmo. Hm. Os momentos de Pilha Duracell eram engraçados quando ele não se metia com a Akari. Ele dava saltos incríveis, do nada, direto pro alto.
Não sei bem se fiz certo, mas é irreversível. Nenhum dos meus gatos deixará descendentes.
Ainda falta uma cartela de antibiótico. Preciso bolar um jeito mais eficiente e menos sangrento de administrar as pílulas pro meu pequeno herói. Esconder na carne, sei lá.
O veterinário disse que não haverá tantos jatos de mijo nas paredes da casa. Não houve nenhum até agora. Disse que ficará mais calmo. Hm. Os momentos de Pilha Duracell eram engraçados quando ele não se metia com a Akari. Ele dava saltos incríveis, do nada, direto pro alto.
Não sei bem se fiz certo, mas é irreversível. Nenhum dos meus gatos deixará descendentes.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Mostre-me tuas telhas
... e te direi onde moras.
O pedreiro que subiu no telhado voltou dizendo que precisa trocar umas 10 telhas. Resolvi comprar logo umas 20, pra garantir. Levei uma telha na loja, pra não ter erro.
Ih, essa Carmelo aí é telha antiga, não vende mais. Vinha lá das Minas Gerais. Telha boa, mas aqui não trabalha mais com ela, não. A senhora mora na Vila da Eletronorte, né? Só lá que tem casa com telha de barro, ainda mais dessas antigas. Faz o seguinte, talvez a senhora acha essa telha ali na esquina. Mas vai ser usada, viu? Porque nova não tem mais aqui em Porto Velho. Mas daí é só lavar e tá novo de novo.
Fui lá, na esquina, perguntar se tinha. Disse que quando parasse de chover, teria. Por enquanto, só tinha uma que era parecida, mas não era igual. Me explicou que quando o sujeito resolve trocar as telhas do telhado, ele aceita as telhas velhas como parte do pagamento. Mas quem vai trocar telhado vai esperar a época de chuva passar, pra não correr risco. Me vendeu 20 telhas das semelhantes à Carmelo. São tão largas quanto, mas mais curtas. Se colocar essas daí no beiral, não tem problema.
O pedreiro que subiu no telhado voltou dizendo que precisa trocar umas 10 telhas. Resolvi comprar logo umas 20, pra garantir. Levei uma telha na loja, pra não ter erro.
Ih, essa Carmelo aí é telha antiga, não vende mais. Vinha lá das Minas Gerais. Telha boa, mas aqui não trabalha mais com ela, não. A senhora mora na Vila da Eletronorte, né? Só lá que tem casa com telha de barro, ainda mais dessas antigas. Faz o seguinte, talvez a senhora acha essa telha ali na esquina. Mas vai ser usada, viu? Porque nova não tem mais aqui em Porto Velho. Mas daí é só lavar e tá novo de novo.
Fui lá, na esquina, perguntar se tinha. Disse que quando parasse de chover, teria. Por enquanto, só tinha uma que era parecida, mas não era igual. Me explicou que quando o sujeito resolve trocar as telhas do telhado, ele aceita as telhas velhas como parte do pagamento. Mas quem vai trocar telhado vai esperar a época de chuva passar, pra não correr risco. Me vendeu 20 telhas das semelhantes à Carmelo. São tão largas quanto, mas mais curtas. Se colocar essas daí no beiral, não tem problema.
quarta-feira, 3 de março de 2010
Esperneadores
Logo que cheguei aqui, saquei que as pessoas curtem jogar processo um em cima do outro. Percebi que aqui é faroeste, e que como ninguém entende de lei, ela intimida.
Hoje acabou a última fase do processo seletivo pro mestrado em Letras. O edital foi lançado em outubro, a inscrição foi em dezembro, as provas aconteceram em fevereiro, a leitura dos projetos se deu em seguida e em março foram as entrevistas. Desde que entrei na Unir, já estou envolvida no processo seletivo, porque nós é que co-elaboramos, revisamos e lançamos o edital.
Depois de cada etapa, o candidato tinha o direito de se manifestar contrariamente a qualquer decisão da comissão, no prazo de 3 dias. Essa manifestação-protesto se chama 'recurso'.
Quando as inscrições foram homologadas, recebemos 3 recursos. Pudemos reverter a decisão sobre duas inscrições porque uma candidata enviou a documentação faltante e o Sedex de Humaitá finalmente chegou, depois de ficar 15 dias em trânsito.
Quando divulgamos o resultado das provas, recebemos mais 3 recursos. Queriam revisão da prova, queriam questionar, usavam palavras pesadas como chumbo. Uma candidata, por exemplo, só tinha respondido 3 das 5 cinco questões. Mesmo se ela tivesse acertado todas as questões que respondeu (sua pontuação máxima seria 6), não teria alcançado a média 7.
Havia 77 candidatos para 25 vagas, mas apenas 16 candidatos foram aprovados. Coincidentemente, o Mestrado conta com 16 docentes. Calcularam (eles, que eu não sei quem são) um orientando por orientador e acharam que todos os projetos fossem aprovados, já que os números fechavam. Reprovamos dois projetos. As duas candidatas reprovadas entraram com recurso. Uma pedia a revisão do projeto, a outra se oferecia para modificar o projeto. Uma argumentava que, por ter passado nas provas, tinha demonstrado capacidade para acompanhar o curso de mestrado. Esqueceu que o projeto também era uma fase eliminatória. A outra se defendia dizendo que sua nota não tinha sido de todo insuficiente, afinal 5 não está tão longe de 7. Esqueceu que 6,9 continua sendo insuficiente.
Entrevistamos 14 candidatos tensos que confessaram que não tiveram tempo pra elaborar um projeto decente. Uma saiu chorando, botando a culpa na TPM (tensão pré-mestrado). Todos foram aprovados, mas não tivemos tempo para respirar ou comemorar. De repente caiu uma bomba na nossa mão: um ofício do Ministério Público querendo barrar o Mestrado em Letras. Daí descobrimos que o Ministério Público não tem o direito de acusar nada porque não estava envolvido no processo. Se um candidato tivesse nos acusado, teríamos dor de cabeça. Como não é o caso, temos mais um motivo pra rir dessa gente que gosta de espernear.
Hoje acabou a última fase do processo seletivo pro mestrado em Letras. O edital foi lançado em outubro, a inscrição foi em dezembro, as provas aconteceram em fevereiro, a leitura dos projetos se deu em seguida e em março foram as entrevistas. Desde que entrei na Unir, já estou envolvida no processo seletivo, porque nós é que co-elaboramos, revisamos e lançamos o edital.
Depois de cada etapa, o candidato tinha o direito de se manifestar contrariamente a qualquer decisão da comissão, no prazo de 3 dias. Essa manifestação-protesto se chama 'recurso'.
Quando as inscrições foram homologadas, recebemos 3 recursos. Pudemos reverter a decisão sobre duas inscrições porque uma candidata enviou a documentação faltante e o Sedex de Humaitá finalmente chegou, depois de ficar 15 dias em trânsito.
Quando divulgamos o resultado das provas, recebemos mais 3 recursos. Queriam revisão da prova, queriam questionar, usavam palavras pesadas como chumbo. Uma candidata, por exemplo, só tinha respondido 3 das 5 cinco questões. Mesmo se ela tivesse acertado todas as questões que respondeu (sua pontuação máxima seria 6), não teria alcançado a média 7.
Havia 77 candidatos para 25 vagas, mas apenas 16 candidatos foram aprovados. Coincidentemente, o Mestrado conta com 16 docentes. Calcularam (eles, que eu não sei quem são) um orientando por orientador e acharam que todos os projetos fossem aprovados, já que os números fechavam. Reprovamos dois projetos. As duas candidatas reprovadas entraram com recurso. Uma pedia a revisão do projeto, a outra se oferecia para modificar o projeto. Uma argumentava que, por ter passado nas provas, tinha demonstrado capacidade para acompanhar o curso de mestrado. Esqueceu que o projeto também era uma fase eliminatória. A outra se defendia dizendo que sua nota não tinha sido de todo insuficiente, afinal 5 não está tão longe de 7. Esqueceu que 6,9 continua sendo insuficiente.
Entrevistamos 14 candidatos tensos que confessaram que não tiveram tempo pra elaborar um projeto decente. Uma saiu chorando, botando a culpa na TPM (tensão pré-mestrado). Todos foram aprovados, mas não tivemos tempo para respirar ou comemorar. De repente caiu uma bomba na nossa mão: um ofício do Ministério Público querendo barrar o Mestrado em Letras. Daí descobrimos que o Ministério Público não tem o direito de acusar nada porque não estava envolvido no processo. Se um candidato tivesse nos acusado, teríamos dor de cabeça. Como não é o caso, temos mais um motivo pra rir dessa gente que gosta de espernear.
terça-feira, 2 de março de 2010
Funny sense of fun
Na segunda semana de aulas, pensei que o calor da calourada já tivesse se dissipado. De fato, dei aula normal na Matemática. Continua aparecendo gente nova na turma, mas não há mais veteranos assediando os calouros.
Quem me boicotou na aula pra Letras, no entanto, foi o meu próprio departamento. Cada aula tem quase 4 horas de duração e se concentra num só dia. Letras tem aula de tarde, o que, na Sociologia do séc. XIX, é a explicação contundente para a baixa qualidade dos trabalhos em Letras. Quando eu soltei os meus alunos pro intervalo, apareceu uma professora do meu departamento na sala. Se espantou que eu não estivesse sabendo que ia oficialmente apresentar o curso aos ingressantes.
Depois que todos tinham voltado do intervalo, essa professora trouxe consigo o chefe de departamento e seu vice. Pra sorte dela, eu tinha trazido o meu computador e conseguido o data show. Botou um pen drive no laptop e abriu uma apresentação em power point. E agora começa o freakshow.
Tinha lá uma imagem bobinha, com um sol sorrindo, umas flores e cores. Comentário da professora: pegamos essa imagem da internet porque ela é bem alegre.
Em seguida, falou que é preciso vestir a camisa. A imagem seguinte era do Cristo Redentor vestindo o uniforme do Flamengo. Deu risada da proeza de fotoshop e remendou que é preciso vestir a camisa da Educação. Se o curso fosse de Pedagogia, tudo bem, mas ela tratou os meus alunos como se estivessem no Maternal.
Os veteranos (reconheci ex-alunos da Física e outros cursos) começaram a tumultuar. Apareciam cartazes nas janelas. Mostravam tesouras, acenderam velas, depositaram tintas e bexigas cheias de água no parapeito.
O chefe de departamento falou longamente enquanto os veteranos aumentavam o volume. Quem tinha se cansado de ler os lábios dele, fixava o olhar na janela. Uma aluna veio me agarrar, dizer que tava morrendo de medo que cortassem seu cabelo. A menina estava gelada.
O vice do chefe também teve a sua vez e aproveitou a chance para recitar os quatro primeiros versos dos Lusíadas. Fazia gestos de político fazendo promessa ou acusação no palanque.
Os veteranos entraram com suas tintas, bexigas e tesouras. Foram ocupando os espaços no fundão e quando o vice confessou que não sabia o resto do poema, progrediram até a frente. Mandei que saíssem, por medo de melecarem datashow, computador, caixas de som. Disseram que não era pra eu me preocupar e esperaram eu desmontar tudo. Três alunos espertos vieram me oferecer ajuda pra carregar tudo. Distribuí as caixas de som, o datashow e os meus alforges, o que lhes garantiu passe livre pra fora da sala.
Quem me boicotou na aula pra Letras, no entanto, foi o meu próprio departamento. Cada aula tem quase 4 horas de duração e se concentra num só dia. Letras tem aula de tarde, o que, na Sociologia do séc. XIX, é a explicação contundente para a baixa qualidade dos trabalhos em Letras. Quando eu soltei os meus alunos pro intervalo, apareceu uma professora do meu departamento na sala. Se espantou que eu não estivesse sabendo que ia oficialmente apresentar o curso aos ingressantes.
Depois que todos tinham voltado do intervalo, essa professora trouxe consigo o chefe de departamento e seu vice. Pra sorte dela, eu tinha trazido o meu computador e conseguido o data show. Botou um pen drive no laptop e abriu uma apresentação em power point. E agora começa o freakshow.
Tinha lá uma imagem bobinha, com um sol sorrindo, umas flores e cores. Comentário da professora: pegamos essa imagem da internet porque ela é bem alegre.
Em seguida, falou que é preciso vestir a camisa. A imagem seguinte era do Cristo Redentor vestindo o uniforme do Flamengo. Deu risada da proeza de fotoshop e remendou que é preciso vestir a camisa da Educação. Se o curso fosse de Pedagogia, tudo bem, mas ela tratou os meus alunos como se estivessem no Maternal.
Os veteranos (reconheci ex-alunos da Física e outros cursos) começaram a tumultuar. Apareciam cartazes nas janelas. Mostravam tesouras, acenderam velas, depositaram tintas e bexigas cheias de água no parapeito.
O chefe de departamento falou longamente enquanto os veteranos aumentavam o volume. Quem tinha se cansado de ler os lábios dele, fixava o olhar na janela. Uma aluna veio me agarrar, dizer que tava morrendo de medo que cortassem seu cabelo. A menina estava gelada.
O vice do chefe também teve a sua vez e aproveitou a chance para recitar os quatro primeiros versos dos Lusíadas. Fazia gestos de político fazendo promessa ou acusação no palanque.
Os veteranos entraram com suas tintas, bexigas e tesouras. Foram ocupando os espaços no fundão e quando o vice confessou que não sabia o resto do poema, progrediram até a frente. Mandei que saíssem, por medo de melecarem datashow, computador, caixas de som. Disseram que não era pra eu me preocupar e esperaram eu desmontar tudo. Três alunos espertos vieram me oferecer ajuda pra carregar tudo. Distribuí as caixas de som, o datashow e os meus alforges, o que lhes garantiu passe livre pra fora da sala.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
O argumento que funciona
Eu tenho 3 bicicletas. Cada uma serve para um propósito diferente, com cada uma tenho uma relação diferente.
A Caloi 10 é de estrada, estilosa e veloz.
A Laranja Mecânica é mais igual às bicicletas daqui.
Amarilda é a melhor bicicleta do mundo e pronto.
Tenho saudades da Caloi 10 porque ela não está aqui. Está em São Paulo, acumulando poeira na casa de uma amiga. Essa amiga me escreveu recentemente sobre a bicicleta. Na onda de ano novo, casa nova, moradora nova, vida nova, achou que ela precisava dar um novo encaminhamento pra minha bicicleta dos pneus murchos:
Coisa parada não faz bem; a fila anda e o que fica parado pára no tempo.
Ofereceu de vender a bicicleta ou mandar pela transportadora. Eu já interpretei que ela queria jogar fora (!) a minha Caloi 10. Para garantir o status quo da minha bicicleta, argumentei que a Caloi 10 tinha sido do Luisão, portanto era semi-sagrada pra mim. O discurso mudou rapidinho: puxa, era do Luisão... então eu espero você vir pegar a sua bicicleta.
A Caloi 10 é de estrada, estilosa e veloz.
A Laranja Mecânica é mais igual às bicicletas daqui.
Amarilda é a melhor bicicleta do mundo e pronto.
Tenho saudades da Caloi 10 porque ela não está aqui. Está em São Paulo, acumulando poeira na casa de uma amiga. Essa amiga me escreveu recentemente sobre a bicicleta. Na onda de ano novo, casa nova, moradora nova, vida nova, achou que ela precisava dar um novo encaminhamento pra minha bicicleta dos pneus murchos:
Coisa parada não faz bem; a fila anda e o que fica parado pára no tempo.
Ofereceu de vender a bicicleta ou mandar pela transportadora. Eu já interpretei que ela queria jogar fora (!) a minha Caloi 10. Para garantir o status quo da minha bicicleta, argumentei que a Caloi 10 tinha sido do Luisão, portanto era semi-sagrada pra mim. O discurso mudou rapidinho: puxa, era do Luisão... então eu espero você vir pegar a sua bicicleta.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Der Kontrabass
Em noites em que o barulho lá de fora é maior do que a tolerância do meu sono leve, coloco os fones de ouvido e ouço um audiobook. Música não me faz dormir, mas a voz de quem me conta uma estória no ouvido me desliga rapidinho. Vozes graves fazem efeito mais rápido.
Botei Der Kontrabass, de Patrick Süskind (autor de livros doidos como Das Parfum e Die Taube). Achei que eu pudesse usar esse livro como sonífero, mas me enganei redondamente. Der Kontrabass não é um livro. Existe um texto, mas ele não foi concebido pra ser lido. O texto é uma peça de teatro, mais especificamente um monólogo.
O narrador é membro da orquestra sinfônica, e seu instrumento é o contrabaixo. Enquanto ele conversa com quem escuta, pede licença para beber água. Conversa mais um pouco sobre a essencialidade do contrabaixo para qualquer orquestra e muda da água pra cerveja. Sente necessidade de explicar a matemática da música e toca algumas notas ilustrativas.
Vai até a janela, abre-a para provar que seu apartamento é acusticamente isolado. Ouve-se o caos da rua e a janela fechando. De volta ao seu instrumento, afirma que quanto mais longe se está do contrabaixo, melhor se percebe o seu som. Toca uma nota insistentemente. Ouve-se a vizinha de cima batendo a vassoura no teto do apartamento dele. Em seguida, ouve-se a vizinha do lado batendo na parede. Apesar de ter um apartamento acusticamente isolado, o som que sai dele incomoda os vizinhos mais que o caos da rua.
O contrabaixista continua prendendo a atenção de seu público quando teoriza sobre os antípodas grave x agudo, velho x jovem, homem x mulher, desajeitado x gracioso e confessa sua incondicional admiração pela soprano da orquestra. Termina o texto expressando sua rejeição pelo instrumento que lhe rege a vida.
Depois de uma hora e tanto de audiobook eu continuava desperta. Botei outro: um policial. Não lembro o título nem a trama. Lembro de ter acordado no meio da noite com uma voz desconhecida no meu ouvido. Funciona como sonífero.
Botei Der Kontrabass, de Patrick Süskind (autor de livros doidos como Das Parfum e Die Taube). Achei que eu pudesse usar esse livro como sonífero, mas me enganei redondamente. Der Kontrabass não é um livro. Existe um texto, mas ele não foi concebido pra ser lido. O texto é uma peça de teatro, mais especificamente um monólogo.
O narrador é membro da orquestra sinfônica, e seu instrumento é o contrabaixo. Enquanto ele conversa com quem escuta, pede licença para beber água. Conversa mais um pouco sobre a essencialidade do contrabaixo para qualquer orquestra e muda da água pra cerveja. Sente necessidade de explicar a matemática da música e toca algumas notas ilustrativas.
Vai até a janela, abre-a para provar que seu apartamento é acusticamente isolado. Ouve-se o caos da rua e a janela fechando. De volta ao seu instrumento, afirma que quanto mais longe se está do contrabaixo, melhor se percebe o seu som. Toca uma nota insistentemente. Ouve-se a vizinha de cima batendo a vassoura no teto do apartamento dele. Em seguida, ouve-se a vizinha do lado batendo na parede. Apesar de ter um apartamento acusticamente isolado, o som que sai dele incomoda os vizinhos mais que o caos da rua.
O contrabaixista continua prendendo a atenção de seu público quando teoriza sobre os antípodas grave x agudo, velho x jovem, homem x mulher, desajeitado x gracioso e confessa sua incondicional admiração pela soprano da orquestra. Termina o texto expressando sua rejeição pelo instrumento que lhe rege a vida.
Depois de uma hora e tanto de audiobook eu continuava desperta. Botei outro: um policial. Não lembro o título nem a trama. Lembro de ter acordado no meio da noite com uma voz desconhecida no meu ouvido. Funciona como sonífero.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Dessas conversas insólitas
Sabe quando você atende o telefone no Ano Novo e um completo desconhecido te deseja tudo de bom, felicidades e sucesso? Ou quando você liga pro seguro residencial pra mudar o endereço e o cara que te atende te conta altas estórias?
O sujeito da corretora de seguros quis saber de onde vinha o meu nome. Respondi que saiu da cabeça da minha mãe. Deu risada e entendeu que foi inventado. Falou do próprio nome:
Meu primeiro nome é Arsênico, que é nome de veneno, né. Vai saber o que tava passando na cabeça dos pais quando botaram esses nomes na gente. Tem um juiz, que o nome dele de batismo é Disney Chaplin. Mas ele mudou, ele conseguiu mudar o nome dele e ficou Mateus. Melhor, né, mas eu, como eu sei o antigo nome dele, chamo ele de Disney. Ele não gosta, mas sabe que é brincadeira.
O sujeito da corretora de seguros quis saber de onde vinha o meu nome. Respondi que saiu da cabeça da minha mãe. Deu risada e entendeu que foi inventado. Falou do próprio nome:
Meu primeiro nome é Arsênico, que é nome de veneno, né. Vai saber o que tava passando na cabeça dos pais quando botaram esses nomes na gente. Tem um juiz, que o nome dele de batismo é Disney Chaplin. Mas ele mudou, ele conseguiu mudar o nome dele e ficou Mateus. Melhor, né, mas eu, como eu sei o antigo nome dele, chamo ele de Disney. Ele não gosta, mas sabe que é brincadeira.
-mar
Rosimar é a esposa de um amigo meu.
Lindomar mora em Paraty e tem sete irmãos parecidos com ele.
Alemmar quer ser professora de espanhol.
Francimar é bonitão e tem o meu número de telefone.
Irismar é minha aluna e fica toda contente quando lembro o nome dela.
Pelo visto, a terminação em -mar não indica gênero nem sexo, pois serve tanto para formar nomes de homens como de mulheres.
Lindomar mora em Paraty e tem sete irmãos parecidos com ele.
Alemmar quer ser professora de espanhol.
Francimar é bonitão e tem o meu número de telefone.
Irismar é minha aluna e fica toda contente quando lembro o nome dela.
Pelo visto, a terminação em -mar não indica gênero nem sexo, pois serve tanto para formar nomes de homens como de mulheres.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Primeiro dia de aula
Dou aula pra calouros. Os meus alunos são bixos de Matemática e de Letras. De manhã, meu público são em grande maioria meninos que dizem que detestam língua portuguesa. De tarde, minha audiência são mulheres que dizem que adoram ler (algumas lêem a Bíblia todo dia). No intervalo, meus ex-alunos de Física, Inglês e Espanhol vêm me cumprimentar sorrindo, radiantes, apertar minha mão e me abraçar. Esses aí se sentem renovados no início do semestre. Os calouros, no entanto, estão perdidos.
As aulas que dei foram bem diferentes uma da outra. É possível até que os alunos tenham pensado que eu dei um trote neles. Talvez tenha dado mesmo. Os calouros passaram as duas horas da aula distraídos pelos veteranos, que apareciam na janela com cartazes do tipo:
A sua hora vai chegar!
Bem-vindo ao inferno!
Corte de cabelo grátis...
[carinha com os olhos fechados e língua de fora]
Essas intervenções de fora começaram quando expliquei pros alunos de Matemática que só escreveriam bem quando fossem bons leitores, e que seria legal eles compartilharem com a turma alguns textos legais. Quem quisesse, podia ler textos curtos em voz alta pros colegas. Eu começaria lendo trechos retirados do Dança do universo do Marcelo Gleiser, em que a vida de alguns físicos que se debruçaram sobre o o modelo do universo é descrita. Antes de começar, anunciei que desistiria, pra que os calouros pudessem usufruir do trote que os veteranos queriam lhes dar. Não, professora! Eu estou me sentindo acuado. Lê aí pra gente, que a gente não vai sair dessa sala. Li um trecho longo, referente a Copérnico. Amanhã é a vez de Galileu.
Os alunos de Letras não foram tão assediados pelos veteranos. Acho que o fato de tanto os veteranos como os calouros serem majoritariamente mulheres tem algum peso. Pra esses, li crônicas do Luis Fernando Veríssimo. Não riram quando eu riria. Devo ter exagerado na mímica, ou pronunciado mal alguma palavra-chave crucial.
Perguntei a todos por que tinham escolhido aquele curso e não outro. A grande maioria dos alunos de Matemática quer usá-la como degrau para chegar em outra graduação: Engenharia, Ciências Contábeis, Administração, Economia. O restante disse que tinha facilidade e gosto por números. Os alunos de Letras eram mais heterogêneos: muitas tinham tido professores de Português admiráveis, muitas não tinham passado no vestibular pra Direito, alguns queriam o curso superior pra poderem passar em concurso, e a grande maioria queria aprender a falar bem e escrever bem. Neste exato momento desconfiaram que eu estava dando trote neles: disse que eu sou lingüista. Mais, disse que falar bem e escrever bem é uma questão de formação, não de fórmula mágica.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Volta às aulas
É amanhã.
Língua Portuguesa para Matemáticos convencidos que gostam de números, não de Letras.
Produção Textual para ingressantes em Letras.
O processo seletivo para o mestrado ainda não acabou.
O projeto do cineclube ainda não foi submetido.
Não tive férias, passei o Natal com o meu chefe e trabalhei durante o carnaval.
Bem-vinda à vida de professora engajada.
Língua Portuguesa para Matemáticos convencidos que gostam de números, não de Letras.
Produção Textual para ingressantes em Letras.
O processo seletivo para o mestrado ainda não acabou.
O projeto do cineclube ainda não foi submetido.
Não tive férias, passei o Natal com o meu chefe e trabalhei durante o carnaval.
Bem-vinda à vida de professora engajada.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Twists and turns
Agora que sou professora universitária, me permito algumas excentricidades, como por exemplo a aquisição da coleção completa de Sandman. Comprei o primeiro de quatro volumes, que veio em uma semana (super rápido!). No mês seguinte, quis comprar o segundo volume.
Uma semana depois de ter pedido e pagado pelo vol. 2, veio resposta da livraria: o vol. 2 está em processo de reedição e o relançamento está previsto pra abril. Se eu quisesse esperar, tudo bem, mas se eu quisesse cancelar, também tudo bem. Pedi pra cancelar o vol. 2 e adquirir o vol. 3.
Como os preços do vol. 2 e 3 eram levemente diferentes, havia uma diferença sobrando pra mim. Troquei e-mail por uma semana com uma atendente até estabelecermos que a diferença me seria creditada no cartão da livraria.
Uma semana depois, a atendente da livraria me escreveu que o vol. 3 estava disponível, mas com a caixa (edição de luxo...) danificada. Em vez de responder se eu queria ou não o vol. 3, perguntei como tava o vol. 4.
Na segunda-feira de carnaval, às 13:00 tocou o telefone. Achando que era a Heloisa, atendi o telefone:
- Casa de massagens Flor de Lótus, boa tarde.
Era a moça da livraria, completamente atordoada. Disse que o vol. 4 teria que ser importado, o que demoraria, e que o vol. 3 tava na mão dela. Pelo fato da caixa estar danificada, me daria desconto de 10%, que me seria creditado no cartão da livraria.
Agora é só esperar o vol. 3 chegar de Recife.
Uma semana depois de ter pedido e pagado pelo vol. 2, veio resposta da livraria: o vol. 2 está em processo de reedição e o relançamento está previsto pra abril. Se eu quisesse esperar, tudo bem, mas se eu quisesse cancelar, também tudo bem. Pedi pra cancelar o vol. 2 e adquirir o vol. 3.
Como os preços do vol. 2 e 3 eram levemente diferentes, havia uma diferença sobrando pra mim. Troquei e-mail por uma semana com uma atendente até estabelecermos que a diferença me seria creditada no cartão da livraria.
Uma semana depois, a atendente da livraria me escreveu que o vol. 3 estava disponível, mas com a caixa (edição de luxo...) danificada. Em vez de responder se eu queria ou não o vol. 3, perguntei como tava o vol. 4.
Na segunda-feira de carnaval, às 13:00 tocou o telefone. Achando que era a Heloisa, atendi o telefone:
- Casa de massagens Flor de Lótus, boa tarde.
Era a moça da livraria, completamente atordoada. Disse que o vol. 4 teria que ser importado, o que demoraria, e que o vol. 3 tava na mão dela. Pelo fato da caixa estar danificada, me daria desconto de 10%, que me seria creditado no cartão da livraria.
Agora é só esperar o vol. 3 chegar de Recife.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Middle class way of life
Pelo fato de eu morar na Vila, o Ninno ficava me zoando. Dizia: middle class way of life. Eu dizia que ele era hippie, e ele se defendia: eu tomo banho, tenho carro e gosto de ar condicionado, pô. Quase chegamos à conclusão de que eu era hippie. Quase, porque eu tomo banho, mas tenho umas bicicletas e um ventilador que eu nunca ligo.
Aí a Miyuki entrou em casa com toda a mudança dela. Agora, sim, essa casa está classe média: temos ventilador de teto, ar condicionado no escritório, tapete, carro na garagem e televisão na estante. As contas de água e luz não vão simplesmente dobrar...


A televisão tomou o lugar dos meus dicionários. Acho que é grave, doutor.
Aí a Miyuki entrou em casa com toda a mudança dela. Agora, sim, essa casa está classe média: temos ventilador de teto, ar condicionado no escritório, tapete, carro na garagem e televisão na estante. As contas de água e luz não vão simplesmente dobrar...


A televisão tomou o lugar dos meus dicionários. Acho que é grave, doutor.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Biribá
Davi, o boliviano que cortava grama da casa na Rua Venezuela, veio cortar grama aqui. Chamei porque os cortadores de grama daqui cobram entre R$ 35 e 50. E a classe média que mora na Vila paga isso sem reclamar. Davi quis cobrar os mesmos R$ 25 de sempre, mas eu lhe dei R$ 30, por aqui ser mais longe que lá.
Antes de ir embora, Davi me perguntou se eu gostava de biribá. Interpretou a minha expressão facial e perguntou se eu conhecia biribá. Abriu uma sacola e me deu um de presente. Tinha sido colhido do pé que ele tinha podado antes de vir pra cá, cortar grama.
Biribá é parente da fruta do conde, mas olha a diferença de tamanho e gosma.
Antes de ir embora, Davi me perguntou se eu gostava de biribá. Interpretou a minha expressão facial e perguntou se eu conhecia biribá. Abriu uma sacola e me deu um de presente. Tinha sido colhido do pé que ele tinha podado antes de vir pra cá, cortar grama.
Biribá é parente da fruta do conde, mas olha a diferença de tamanho e gosma.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Language Death
Os candidatos ao mestrado, mesmo não tendo sido aprovados na prova de conhecimentos específicos, fizeram a prova de língua estrangeira (que não é eliminatória). Havia duas línguas à escolha: inglês e espanhol. O texto, no entanto, era o mesmo.
Escolhi o livro do David Crystal chamado Language Death como base da prova, porque o Júlio tinha uma versão desse mesmo livro em espanhol. Faltava só o Language Death que eu encomendei pela Estante Virtual chegar. O livro chegou no dia em que aplicamos a prova. Por sorte, eu tinha achado uma versão 'free for download' na internet.
A negociação de qual parte do livro seria o texto para a prova foi árdua. Os responsáveis pela prova queriam dar aos candidatos um texto de 11 páginas, o resto da comissão achou aquilo um martírio. Foi sugerido outro trecho de 3 páginas, mas esse também não foi aceito. Chegamos ao compromisso de 6 páginas.
Durante a prova, que foi respondida em português, ouvimos alguns elogios. Além de termos fornecido o mesmo conteúdo nas duas provas de língua estrangeira, eles ainda estavam aprendendo o que é a morte de uma língua.
Quem morreu fui eu, corrigindo as pérolas tanto da prova de espanhol como de inglês:
... devido à falta de incerteza ...
... uma língua morre quando não há pessoas que pensam.
... uma língua que usufrui do mesmo idioma.
... o uso da língua extinta passa a ser um problema na comunicação.
... um homem está morto quando deixa de ter a vida.
... sobrevivente de uma reportagem.
... os Tapshin reclamam que os Met falam a mesma língua que eles.
O tiro de misericórdia:
A publicação desses dados acaba provocando confusões, pois leva as pessoas a pensar que as línguas estão morrendo.
Escolhi o livro do David Crystal chamado Language Death como base da prova, porque o Júlio tinha uma versão desse mesmo livro em espanhol. Faltava só o Language Death que eu encomendei pela Estante Virtual chegar. O livro chegou no dia em que aplicamos a prova. Por sorte, eu tinha achado uma versão 'free for download' na internet.
A negociação de qual parte do livro seria o texto para a prova foi árdua. Os responsáveis pela prova queriam dar aos candidatos um texto de 11 páginas, o resto da comissão achou aquilo um martírio. Foi sugerido outro trecho de 3 páginas, mas esse também não foi aceito. Chegamos ao compromisso de 6 páginas.
Durante a prova, que foi respondida em português, ouvimos alguns elogios. Além de termos fornecido o mesmo conteúdo nas duas provas de língua estrangeira, eles ainda estavam aprendendo o que é a morte de uma língua.
Quem morreu fui eu, corrigindo as pérolas tanto da prova de espanhol como de inglês:
... devido à falta de incerteza ...
... uma língua morre quando não há pessoas que pensam.
... uma língua que usufrui do mesmo idioma.
... o uso da língua extinta passa a ser um problema na comunicação.
... um homem está morto quando deixa de ter a vida.
... sobrevivente de uma reportagem.
... os Tapshin reclamam que os Met falam a mesma língua que eles.
O tiro de misericórdia:
A publicação desses dados acaba provocando confusões, pois leva as pessoas a pensar que as línguas estão morrendo.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Dejavu
Ontem teve festa na Oca. A festa era de comemoração antecipada do aniversário do Sales, nosso palhaço. Apesar de estar a muitos quilômetros de distância dos meus irmãos tapioquenses, posso imaginar como foi a festa. Imagino que teve comida que demanda pouca elaboração culinária (churras), cerveja, música feita pelos presentes (violão, chocalho, chaleira, caixa de fósforo, pandeiro e ziriguiduns estão sempre por perto) e muita gente rindo (provavelmente do Sales). A música feita por todo mundo é marca registrada das festas da Oca da Tapioca. Violão e voz de Sales e Ruy e o pandeiro e voz do PH (que não é morador, mas assíduo frequentador) sempre foram o motor da música coletiva. Foram 7 anos de afinação entre nós, e hoje eu diria que a música coletiva vale a festa.
Ontem eu tive um déjà vu quando fui na festa de aniversário do Ninno. Ninno é muito parecido com muito amigo meu, mas bem diferente de mim. Na festa teve churrasco, cerveja, palhaçadas e música feita pelos convivas. Havia vozes, violão, xilofone, chocalhos, reco-recos, agogô, pandeiro e cajón. Ouvindo aquilo, lembrei da primeira festa da Oca, em que nos auto-denominamos Inimigos do Ritmo.
Mas essa parte da música coletiva na festa do Ninno veio depois que silenciaram os alto-falantes, de onde saía o som de uma banda muito apreciada por aqui: Dejavú.
Quando o techno-brega deu lugar à nossa disritmia e desafinação coletiva, os apreciadores daquela música de massa se foram embora, dizendo "té, já vou".
Ontem eu tive um déjà vu quando fui na festa de aniversário do Ninno. Ninno é muito parecido com muito amigo meu, mas bem diferente de mim. Na festa teve churrasco, cerveja, palhaçadas e música feita pelos convivas. Havia vozes, violão, xilofone, chocalhos, reco-recos, agogô, pandeiro e cajón. Ouvindo aquilo, lembrei da primeira festa da Oca, em que nos auto-denominamos Inimigos do Ritmo.
Mas essa parte da música coletiva na festa do Ninno veio depois que silenciaram os alto-falantes, de onde saía o som de uma banda muito apreciada por aqui: Dejavú.
Quando o techno-brega deu lugar à nossa disritmia e desafinação coletiva, os apreciadores daquela música de massa se foram embora, dizendo "té, já vou".
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Caçador de papagaios
Aqui pipa é papagaio. Enquanto a Akari corre atrás dos passarinhos, Shaoran traz pra casa os papagaios que caça. Ontem trouxe uma rabiola, hoje um papagaio inteiro.
Os esquemas
Depois de um mês trabalhando na Unir, me inscrevi num curso (mequetrefe) que foi oferecido lá. A mulher que recebeu a minha inscrição quis saber se eu já tinha casa, se eu morava sozinha, qual era a minha imobiliária. Explicou o interesse na minha situação: ela tinha se solidarizado com um professor novo na Unir, que tinha vindo da Unicamp e estava com dificuldades de achar uma casa decente. Aí estava sondando as outras pessoas que ela, de primeira olhada, considerava decentes.
A mulher anotou o meu e-mail e telefone, mas o moço não me procurou. Eu, no entanto, não larguei o osso, porque a ideia de dividir a casa com mais gente começou a me agradar. Procurei o Fernando, escrevi pra ele e ofereci vaga na minha casa. Uma semana depois, ele agradeceu pela proposta, e disse que estava morando com um amigo e que os dois já estavam num esquema de outra casa.
Paulo e eu conversamos bastante sobre morar sozinho ou em república. Ele estava esquematizando o futuro dele, e nesse futuro ele previa um belo aumento de aluguel no apartamento que ele habita sozinho. Robson, professor do Paulo, estava descontente com o apartamento que ocupava e de olho no do Paulo. Não seria esquema eles morarem juntos, porque o Robson é casado e prefere manter a privacidade do casal.
Continuei oferecendo a minha casa pras pessoas (homem/ mulher/ aluno/ professor), mas ninguém se habilitou. De repente, tudo se reverteu. Paulo voltou das férias que passou numas repúblicas e viu que morar em comunidade não é tão ruim. Miyuki estava horrorizada com os preços de aluguel e aceitou o meu convite de morar comigo. Fernando me escreveu dizendo que o amigo voltaria pra Campinas e que segurar a onda sozinho naquela casa seria complicado.
Minha casa é grande, mas não cabe todo mundo. Miyuki já estava no esquema, mas o dos meninos ainda precisava ser arranjado. Botei o Paulo e o Fernando em contato, mesmo sem nunca ter visto o Fernando. Deu jogo. Paulo vai mudar pra casa do Fernando (amanhã) antes mesmo da Miyuki mudar pra cá (semana que vem). Assim que o apartamento do Paulo vagar, Robson entra no esquema e todo mundo fica feliz.
A mulher anotou o meu e-mail e telefone, mas o moço não me procurou. Eu, no entanto, não larguei o osso, porque a ideia de dividir a casa com mais gente começou a me agradar. Procurei o Fernando, escrevi pra ele e ofereci vaga na minha casa. Uma semana depois, ele agradeceu pela proposta, e disse que estava morando com um amigo e que os dois já estavam num esquema de outra casa.
Paulo e eu conversamos bastante sobre morar sozinho ou em república. Ele estava esquematizando o futuro dele, e nesse futuro ele previa um belo aumento de aluguel no apartamento que ele habita sozinho. Robson, professor do Paulo, estava descontente com o apartamento que ocupava e de olho no do Paulo. Não seria esquema eles morarem juntos, porque o Robson é casado e prefere manter a privacidade do casal.
Continuei oferecendo a minha casa pras pessoas (homem/ mulher/ aluno/ professor), mas ninguém se habilitou. De repente, tudo se reverteu. Paulo voltou das férias que passou numas repúblicas e viu que morar em comunidade não é tão ruim. Miyuki estava horrorizada com os preços de aluguel e aceitou o meu convite de morar comigo. Fernando me escreveu dizendo que o amigo voltaria pra Campinas e que segurar a onda sozinho naquela casa seria complicado.
Minha casa é grande, mas não cabe todo mundo. Miyuki já estava no esquema, mas o dos meninos ainda precisava ser arranjado. Botei o Paulo e o Fernando em contato, mesmo sem nunca ter visto o Fernando. Deu jogo. Paulo vai mudar pra casa do Fernando (amanhã) antes mesmo da Miyuki mudar pra cá (semana que vem). Assim que o apartamento do Paulo vagar, Robson entra no esquema e todo mundo fica feliz.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Labirintos
Quando o livro do Jorge Luis Borges (Ficções) chegou pelo correio, ganhei dois parceiros de diálogo: Heloisa e Júlio. Heloisa dedicou um mestrado e um doutorado ao bom velhinho. Já o Júlio é apaixonado pelo escritor que conduz seu leitor por labirintos. E os labirintos borgianos são de diversas naturezas, o que lhes dá um encanto perturbador: são fantásticos - nos dois sentidos. Porém, por mais que meus interlocutores me ajudem a achar a saída dos labirintos borgianos, sempre me perco na erudição do autor.
Quando achei que eu precisava dar um tempo pros contos do argentino decantarem, escolhi um livro de um italiano que me tinha sido dado pelo Ferrone, muito tempo atrás: O castelo dos destinos cruzados. Esse labirinto atravessou o outro, que deixei na estante, suspenso. Ítalo Calvino teve - isso é evidente - forte influência de Borges. Ferrone lê os dois, inclusive traduziu um conto do Borges, que eu revisei. Era certo que estes labirintos estavam ligados.
A melhor parte dos destinos cruzados não são as estórias que os personagens, de repente mudos, contam através das cartas de tarô que têm à mão. Não, a melhor parte é a nota no final, em que o autor conta como arquitetou aquelas estórias, arranjou as cartas e inventou estórias insólitas a partir do mapa de cartas disposto na mesa. Influenciada pelo Castelo (ou talvez tenha sido pela taverna?) dos destinos cruzados, escrevi aquela estorieta que ninguém entendeu, três posts atrás. Talvez agora, que atesto a influência de Calvino nos Sentidos cruzados, o labirinto que inventei fique mais abstrato e fechado em si, descolado da minha vida.
Terminei o Calvino, mas ainda não quis retomar o Borges. Retomei o Paul Auster, emprestado pelo Renato, que eu tinha interrompido depois da segunda estória da Trilogia de Nova Iorque. Suspendi porque "os livros da estante do Renato são para se ler com as vísceras, não com os olhos". Enfim, suspendi porque as estórias são labirínticas e os elementos são retomados na estória seguinte e revestidos de outras roupagens. Como as cartas de tarô do Calvino. A Torre de Babel, o trabalho de detetive, as andanças sem rumo e os labirintos simbólicos são pistas de influência de Borges em Auster, mas não posso provar nada.
Quando achei que eu precisava dar um tempo pros contos do argentino decantarem, escolhi um livro de um italiano que me tinha sido dado pelo Ferrone, muito tempo atrás: O castelo dos destinos cruzados. Esse labirinto atravessou o outro, que deixei na estante, suspenso. Ítalo Calvino teve - isso é evidente - forte influência de Borges. Ferrone lê os dois, inclusive traduziu um conto do Borges, que eu revisei. Era certo que estes labirintos estavam ligados.
A melhor parte dos destinos cruzados não são as estórias que os personagens, de repente mudos, contam através das cartas de tarô que têm à mão. Não, a melhor parte é a nota no final, em que o autor conta como arquitetou aquelas estórias, arranjou as cartas e inventou estórias insólitas a partir do mapa de cartas disposto na mesa. Influenciada pelo Castelo (ou talvez tenha sido pela taverna?) dos destinos cruzados, escrevi aquela estorieta que ninguém entendeu, três posts atrás. Talvez agora, que atesto a influência de Calvino nos Sentidos cruzados, o labirinto que inventei fique mais abstrato e fechado em si, descolado da minha vida.
Terminei o Calvino, mas ainda não quis retomar o Borges. Retomei o Paul Auster, emprestado pelo Renato, que eu tinha interrompido depois da segunda estória da Trilogia de Nova Iorque. Suspendi porque "os livros da estante do Renato são para se ler com as vísceras, não com os olhos". Enfim, suspendi porque as estórias são labirínticas e os elementos são retomados na estória seguinte e revestidos de outras roupagens. Como as cartas de tarô do Calvino. A Torre de Babel, o trabalho de detetive, as andanças sem rumo e os labirintos simbólicos são pistas de influência de Borges em Auster, mas não posso provar nada.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Dia de prova
Dia de prova para o mestrado significa ouvir a ansiedade dos colegas que tiveram pesadelos de noite. Significa chegar muito antes dos candidatos, contar carteiras e cadeiras, limpar carteiras e cadeiras empoeiradas, ensinar o caminho pros de fora, ouvir reclamações de candidatos, ouvir perguntas cretinas de envolvidos e ouvir baboseiras em geral.
Dia de prova significa verificar se não estão com livros embaixo da mesa, com o celular ligado, com folhas além daquelas que nós fornecemos. Significa acompanhar os candidatos ao banheiro, apontar lápis dos outros, informar quantos minutos faltam pro tempo acabar, levar folhas de rascunho e de resposta para mãos cansadas de ensaiar um texto adequado.
Dia de prova significa ficar em silêncio com mais 40 pessoas tensas, convencidas de que não estudaram o suficiente.
Dia de prova significa verificar se não estão com livros embaixo da mesa, com o celular ligado, com folhas além daquelas que nós fornecemos. Significa acompanhar os candidatos ao banheiro, apontar lápis dos outros, informar quantos minutos faltam pro tempo acabar, levar folhas de rascunho e de resposta para mãos cansadas de ensaiar um texto adequado.
Dia de prova significa ficar em silêncio com mais 40 pessoas tensas, convencidas de que não estudaram o suficiente.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
E viva a república!
Nesse momento, a minha casa tem mais gato do que gente. No fim de semana, haverá um equilíbrio entre humanos e felinos.
Miyuki, que tinha me emprestado o carro por um mês, está pra ser despejada do apertamento que habita. Ofereci de ela vir pra cá e ela aceitou. É por um ano, porque ela está esperando o apartamento que ela comprou ficar pronto.
Outra virada na vida. Minha vida na Amazônia é uma aventura.
Miyuki, que tinha me emprestado o carro por um mês, está pra ser despejada do apertamento que habita. Ofereci de ela vir pra cá e ela aceitou. É por um ano, porque ela está esperando o apartamento que ela comprou ficar pronto.
Outra virada na vida. Minha vida na Amazônia é uma aventura.
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