domingo, 7 de março de 2010

O pote de ouro


Você não sabe o que faria com 500 milhões de reais. Você não tem nem mesmo noção de quanto é essa quantia. Você não consegue imaginar quanto espaço esse dinheiro ocuparia se estivesse separado em notas de 100. Você joga na loteria sem nenhuma preocupação com a defesa, proteção ou segurança desse dinheiro todo, porque você sabe que a possibilidade de ganhar sozinho é remota. Os 500 milhões são um valor abstrato, por isso você não chegou a considerar as dimensões do cofre. Você, que tem limite de saque de 600 reais no caixa eletrônico, só sabe que 6 notas de 100 ocupam menos espaço que um montão de notas de 20 ou 10. O grosso do dinheiro que você movimenta é abstrato: entra na conta e sai dela mediante digitação de senha.

Vanderson, no entanto, sabe muito bem o que são 500 milhões. Ele sabe quanto espaço esse montante ocupa em notas de 100, 50, 20 e até 10. Vanderson trabalha no ramo da segurança. Não é a segurança de pessoas ou imóveis, mas do dinheiro. Ele trabalha armado de um rifle, pra proteger o dinheiro alheio. Ele sabe qual é a tensão que envolve tanta responsabilidade. Ele sabe como o ar fica curto dentro do carro-forte. Ele conhece o cheiro do dinheiro dos outros misturado ao próprio suor.


Vanderson joga na loteria toda semana. Sabe que já investiu o salário de um ano no sonho de ganhar sozinho na loteria. Continua jogando porque acredita que sabe qual é a combinação secreta dos números sortudos. Continua jogando porque acredita que o prêmio vai lhe resolver a vida. Continua jogando porque sabe sobre dinheiro. Continua jogando porque não sabe fazer outra coisa.

Continua sonhando com a possibilidade de se libertar do aperto que o monte de dinheiro dos outros lhe causa. Sabe que terá que defender esse prêmio com a vida. Sabe que não é saudável, mas acha que é o preço que deve pagar pela felicidade. Vanderson, assim como tantos outros, acredita na felicidade monetária.

2 comentários:

Phil disse...

O Vanderson é fictivo, ou um conhecido teu?

iglou disse...

Nem um, nem outro.
Eu tava na casa lotérica, na fila, querendo pagar conta atrasada. O cara que tava na minha frente na fila usava um crachá de uma empresa de carros-fortes. Pesquei um rabo de conversa dele com o colega sobre o joguinho que iam fazer pra concorrer a 500 milhões.
Em suma, o Vanderson existe, mas não é conhecido meu.