domingo, 31 de janeiro de 2010

Sentidos cruzados

Ela entrou no banco deixando atrás de si o calor abafado que envolvia a escuridão amazônica. O ar condicionado lhe pareceu uma bênção. Dirigiu-se ao caixa eletrônico, inseriu o seu cartão no local indicado e observou como a tela foi enegrecendo. Olhava pra tela, como que hipnotizada. O plástico do caixa eletrônico foi se desfazendo, o cartão sumiu, as paredes divisórias desapareceram, toda a sala mergulhou na escuridão. Era como se tudo deixasse de existir a partir dela. Sua pele fria lhe dizia, no entanto, que o ar condicionado continuava ligado. Seus pés lhe informavam que continuava pisando uma superfície lisa. Suas mãos retiraram o cartão do caixa eletrônico e o enfiaram no bolso da calça.

Eu entrei no banco mastigando a segunda lâmina de banana frita que eu tinha comprado na esquina. Só havia dois caixas eletrônicos para saques naquela seção de auto-atendimento, sendo que um estava ocupado. Reparei que a moça estava com a coluna curvada, as mãos tensas espalmadas e as pernas afastadas. Fui até o caixa vazio, inseri o meu cartão e antes de digitar a minha senha, fui tateada. Não era um toque leve de quem quer te pedir informação ou te acordar no ponto final do ônibus. Era uma garra que se enfiava no meu ombro. Assustada, recuei e vi que aquela moça do caixa ao lado se comportava como uma louca. Esticava todos os membros pra longe de si, chorava e tinha o desespero estampado nos lábios que se mexiam. Mas eu não escutava nada. Fui invadida por um gosto horrível de óleo queimado e banana podre.

Você entrou no banco com os ouvidos ocupados por dois fones brancos. Não era possível adivinhar que tipo de música você estava ouvindo, mas o fato de você não reagir aos soluços dela indicavam que você estava absorto numa música hermética. Não sei se você ouviu os meus gritos, porque eu não me ouvi. Você caminhou concentrado até o caixa que faz depósitos. Antes de inserir o seu cartão na máquina, virou-se pra moça que explorava o meu rosto com as mãos suadas. Você disse alguma coisa que eu não ouvi, mas que acalmou a moça. A moça se pôs ereta e esperou você chegar nela. Achei estranho quando você deixou o seu cartão cair no chão. Você caminhou até a moça movido pela curisidade, mas não conseguiu chegar muito perto dela sem tampar o nariz. Não entendi quando você tirou as suas mãos do rosto e ficou olhando pra elas. Você se refugiou no canto do banco com as mãos agarrando cada parte do seu corpo.

Ele entrou no banco abraçado com uma moça pendurada em seu pescoço. Enquanto abriam a porta, o banco era invadido por um perfume masculino. Vi você se agachando no chão, nauseado. O casal não percebeu logo o impacto que causou em você, porque ele estava entretido com um sorvete que lhe derretia pelos dedos; e ela sorvia o perfume dele. Assim que a porta se fechou atrás deles, eles pararam, estupefatos. Absortos em si mesmos, não reparam nos presentes. Ele abriu a boca, esticou a língua, fechou a boca, engoliu saliva e mergulhou os dentes no sorvete mole. Ela soltou-se do abraço tampando os ouvidos. Conforme os sons invadiam a moça, ela contorcia o corpo. Suas veias saltadas indicavam que gritava, mas não pude perceber nenhum som. Ele, concentrado em sua própria boca, jogou o sorvete no chão e se atirou no meu pacotinho de banana frita. Arrancou o pacote engordurado da minha mão e enfiou o conteúdo na sua boca babada.

Senti um gosto de ferro na boca quando aquele homem enorme veio pra cima de mim, esbugalhando os olhos. O homem forçou os olhos e identificou outro desafio degustativo. A moça cega sentiu o deslocamento de ar quando aquele homem grande passou por ela na tua direção. Você fechou os olhos quando o homem avançou sobre a poça de vômito na tua frente. O homem não quis mais nenhuma prova de que tinha perdido o paladar: a visão detalhada do conteúdo do teu estômago o conteve. A moça que estava com ele conseguiu abrir a porta do banco. Quando ouvi seu grito ecoando pela escuridão abafada, tive certeza de que aquela situação sem sentido havia acabado.

3 comentários:

Ma disse...

Lou! Was ist das?! Ich verstehe nur Bahnhof... Was ist da passiert?

iglou disse...

Ih, mãe! Cê não percebeu que eu promovi alguns pronomes a personagem e que eu manipulei os sentidos deles? Quem perdeu a visão ficou com o tato super sensível, quem perdeu a audição ficou com o paladar apurado, quem perdeu o tato ficou com o olfato afiado, quem perdeu o paladar ficou com a visão biônica, quem perdeu o olfato ficou a audição hipersensível. Cê não percebeu que eu enfiei todos num lugar pequeno, apertado e tenso? Pôxa, preciso mandar o manual junto com o experimento?!

Phil disse...

sim, acho que isso seria apropriado.