domingo, 24 de janeiro de 2010

Into the wild

Na casa dentro do conjunto residencial, Akari e Shaoran ganhariam o direito de interagir com a Natureza, isso estava certo. Como e quando eram questões menos claras. Tentei planejar essa imersão em ambiente natural, para depois não me sentir culpada por eventuais desastres.

Depois de uma semana e tanto dentro da nova residência, considerei que eles já tinham explorado todos os cantos da moradia e já sabiam onde é 'em casa'. Numa noite qualquer, peguei a Akari no colo e abri a porta da frente. Caminhei com ela devagar pela varanda, fui até a rua e mostrei a casa por fora pra ela. Sussurrava em seu ouvido que eu gostava muito dela e que era muito importante pra mim que ela voltasse depois de sair. Ela esperneava.

Peguei o Shaoran no colo e fiz o mesmo caminho com ele. O vizinho me viu caminhando devagar, sem destino definido e veio perguntar se eu tava gostando de morar ali. Em função desses dois dedos de prosa, Shaoran teve mais tempo ao ar livre que a Akari.

Na manhã seguinte, repeti o procedimento. Dessa vez o jardineiro veio conversar comigo quando Shaoran estava no meu colo. Mais uma vez o pequeno foi beneficiado pelas minhas interações sociais. Mas deixar que os dois sentissem o chão embaixo das patas, que ganhassem o mundo, que sumissem da minha vista era difícil. Meu irmão me tranquilizou: se você acha que eles sabem onde é 'em casa' e se eles gostam de você, eles voltam.

Abri a porta de casa e deixei que saíssem. A primeira coisa que os fascinou foi a grama. Shaoran brincava com as folhas flexíveis, Akari mastigava a novidade verde. Depois da grama vieram as paredes. Depois de inspecionadas as paredes, deram uma olhada no vizinho da direita que tem dois cachorros dormindo na varanda. Assoviei algumas vezes e eles viraram a cabeça na minha direção. Enquanto Shaoran perseguia borboletas, Akari se movimentou até a terceira casa à esquerda. Chamei de volta. Ela levantou a cabeça e me encarou lá de longe. Mostrei o Shaoran no meu colo e ela veio miando e com o corpo rente ao chão. Botei todo mundo pra dentro de casa, achando que 15 minutos na vida selvagem já estava de bom tamanho.

Ontem eu abri a porta, determinada a deixá-los a tarde toda na Natureza. Armei a rede e deitei nela com um livro. Não consegui ler muita coisa, porque eu ficava monitorando os movimentos dos dois. Grama, paredes, vizinho da direita, vizinho da esquerda, borboletas, saltos, corridas, grama, pegadas molhadas na ardósia, formigas. Foi difícil pra mim concentrar as minhas atenções no livro diante de mim. Por onde andavam aqueles dois? Shaoran é tão pequeno, Akari não tem aerodinâmica por causa da ausência de rabo. E se não voltarem sozinhos? Vou ficar gritando o nome deles? Eles reconhecerão o meu assovio? Quando finalmente consegui empurrar esses pensamentos aflitos prum canto escuro e me concentrar na leitura, Shaoran e Akari voltaram. Vinham a galope, perseguidos por dois cachorros.

Ao me verem, os cachorros entenderam que aquele era o meu território, não o deles. Desistiram da caça e voltaram ao seu território: o vizinho da direita. Os gatos, que tinham entrado na casa, voltaram até a rede e permaneceram nesse território. Agora não tenho mais medo de deixar os gatos na natureza selvagem. Eles já aprenderam a respeitar os espaços alheios e a fugir de cães territorialistas.

Um comentário:

Mônica disse...

Lou, que susto!

Espero que dê tudo certo e que não ocorra nenhum desastre.

bjs