sexta-feira, 21 de junho de 2013
quinta-feira, 20 de junho de 2013
De 1984 a 2013
O programa dos Dois Minutos de Ódio variava de dia a dia, sem que porém Goldstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido. (p. 16)
Repórter sobrevoando o Rio: "Um grupo pequeno de baderneiros infiltrados insiste em confrontar a polícia que já tinha dispersado os manifestantes que foram para o sentido oposto, mas essa dezena de manifestantes aqui insiste em provocar os policiais."
[Goldstein] insultava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata conclusão da paz com a Eurásia, advogava a liberdade de palavra, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída (...). (p. 16)
Luis no telefone: "Estão dizendo que tem um milhão de manifestantes nas ruas! Tá tenso aqui no Rio. Quê que a Poeta tá dizendo na Globo? Continua dizendo que é a minoria que está agindo com violência? É a maioria, todo mundo aqui está pronto pro embate."
O estranho, todavia, é que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todo mundo, embora todos os dias, e milhares de vezes por dia nas tribunas, teletelas, jornais e livros suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, apresentadas aos olhos de todos como lixo à-toa ... e apesar de tudo isso, sua influência nunca parecia diminuir. (p. 17)
Na Globo: Lamentável, um pequeno grupo de manifestantes mais agressivos, lamentável, atos de vandalismo, lamentável, estão incendiando cones, lamentável, isso dá multa, não é? lamentável, muitas bombas de gás lacrimogêneo, lamentável, fumaça e irritação, lamentável, bombas de borracha, lamentável, entenda como a polícia faz o isolamento: são três linhas de contenção.
No segundo minuto o Ódio chegou ao frenesi. Os presentes pulavam nas cadeiras e berravam a plenos pulmões, esforçando-se para abafar a voz alucinante que saía da tela. (p. 17 -18)
Bonner: "Está rodando pela internet um relato de manifestações ocorridas na Argentina, em que, quando havia atos de vandalismo, os ver-da-dei-ros manifestantes sentavam no chão, e só os vândalos continuavam de pé. Assim fica fácil identificar, separar o joio do trigo e facilita o trabalho da polícia para identificar os baderneiros infiltrados."
(...) a fúria que se sentia era uma emoção abstrata, não dirigida, que podia passar de um alvo a outro como a chama dum maçarico. (...) Nesses momentos seu [Winston Smith] ódio secreto pelo Grande Irmão se transformava em adoração, e o Grande Irmão parecia crescer, protetor destemido e invencível, firme como uma rocha contra as hordas da Ásia (...). (p. 18)
Repórter sobrevoando São Paulo: "A manifestação está muito pacífica, muito bonita de se ver, a imagem de todos os pontos do asfalto cobertos de gente se movimentando é muito interessante."
GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
As bandeiras dos partidos políticos e movimentos sociais foram repudiadas pelos manifestantes. A palavra de ordem era "Sem Partido". Os prefeitos e governadores das cidades em que houve mudança da tarifa tiveram um papel totalmente marginal, coadjuvante: obedeceram às pressões. Não aprenderam com as manifestações, não usaram o momento a seu favor para discutir planos e projetos de atender à reivindicação maior por direitos. Nenhum partido político aparece na mídia, nenhum partido tem voz. A mídia reina, a mídia é o Estado e está do lado da força policial.
IGNORÂNCIA É FORÇA
A notícia da pessoa que morreu atropelada - durante a manifestação - por um motorista de SUV em Ribeirão Preto, capital do agronegócio, que atropelou 12 matando 1 foi dada como se noticia o aumento do dólar. A violência de um homem irritado com a imobilidade de seu carro potente é explicada com naturalidade. A violência de milhares de manifestantes contra símbolos do poder nas ruas de diversas cidades do país não merece explicação por parte da mídia, porque essa violência é categorizada como vandalismo, indesejável, tabu.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Pacífico, pa-cí-fi-co, PACÍFICO
Quem já teve contato com a Programação Neurolinguística, uma autoenganação como a autoajuda, sabe que a regra para fixar bem uma palavra ou conceito novo, é repeti-lo 16 vezes no mínimo.
Eu devia ter contado quantas vezes a palavra "pacífico" e suas variantes "pacificamente"e "sem violência" foram enunciadas no Jornal Nacional de hoje. O que eu anotei, no entanto, foram as caracterizações dos vilões:
- grupo pequeno que não representa os ativistas (ativistas!)
- baderneiros infiltrados (como se não fizessem parte da manifestação)
- minoria de manifestantes radicais (de novo a ênfase é para o grupo pequeno)
- agressores, invasores, vândalos.
No primeiro bloco, em que os eventos violentos de ontem foram repisados, o Jornal deu uma de polícia, identificando e destacando da multidão indivíduos com comportamento agressivo. Numa jogada de edição pedagógica, a televisão denuncia os malvados e relata quais deles já foram detidos. A atenção é guiada para os contraventores, não para os alvos de depredação, que são símbolos de poder: prefeituras (a casa do prefeito, o próprio prefeito), palácios do governo, bancos, bancas de jornal, emissoras de TV, guaritas policiais. Poder político, econômico, de informação e de força estão sendo atacados durante as manifestações.
O trânsito prejudicado e confuso foi enfatizado ao longo do programa todo. Tenho a sensação de que os manifestantes estão descobrindo novas formas de se movimentar na cidade - e de trancar a cidade. Avenidas principais e principais vias de acesso foram bloqueadas pelos manifestantes que percorreram muitos quilômetros de uma cidade que poucos conhecem a pé. E quem estava de carro novamente ficou imobilizado. Tenho esperança que a mobilidade urbana seja de fato discutida depois dessas manifestações, e que se invista menos na mobilidade e fluidez do transporte motorizado - e particular. O investimento no carro está claramente estampado nas propagandas que intercalam as partes do Jornal Nacional, exibido no horário nobre. Hoje (talvez isso tenha sido atípico) houve 3 intervalos de propaganda. No primeiro, apareceram 3 propagandas (Peugeot, Bradesco, novela da Globo), no segundo apareceram 4 (novela da Globo, Fiat ao som do Rappa (!) cantando um refrão "vem pra rua" (putz!), GE e um filme da Globo Filmes) e no terceiro foram 5 (filme que passa depois da novela, Volkswagen, Tv Samsung, Visa e produtos da Copa das Confederações (quem vende isso?)). Em cada um dos blocos de propaganda havia uma propaganda de carro. Luis já tinha chamado atenção pra essa construção do brasileiro apaixonado por carros (bombardeado por propagandas, taxas reduzidas e prestações a perder de vista), só anotei agora.
Depois da tempestade, vem a bonança. Depois dos protestos e dos confrontos, a vitória. O Jornal Nacional desenhou duas vitórias: a redução (variando de R$ 0,05 a R$ 0,20) da tarifa e os gols do Brasil sobre o México na Copa das Confederações. E nesse momento Galvão Bueno exagerou nas tintas verde e amarelo, descreveu os torcedores cantando o hino nacional a cappella (véio!) e entrevistou jogadores emocionados com o calor da torcida. Pacífico. Captou a mensagem?
Eu devia ter contado quantas vezes a palavra "pacífico" e suas variantes "pacificamente"e "sem violência" foram enunciadas no Jornal Nacional de hoje. O que eu anotei, no entanto, foram as caracterizações dos vilões:
- grupo pequeno que não representa os ativistas (ativistas!)
- baderneiros infiltrados (como se não fizessem parte da manifestação)
- minoria de manifestantes radicais (de novo a ênfase é para o grupo pequeno)
- agressores, invasores, vândalos.
No primeiro bloco, em que os eventos violentos de ontem foram repisados, o Jornal deu uma de polícia, identificando e destacando da multidão indivíduos com comportamento agressivo. Numa jogada de edição pedagógica, a televisão denuncia os malvados e relata quais deles já foram detidos. A atenção é guiada para os contraventores, não para os alvos de depredação, que são símbolos de poder: prefeituras (a casa do prefeito, o próprio prefeito), palácios do governo, bancos, bancas de jornal, emissoras de TV, guaritas policiais. Poder político, econômico, de informação e de força estão sendo atacados durante as manifestações.
O trânsito prejudicado e confuso foi enfatizado ao longo do programa todo. Tenho a sensação de que os manifestantes estão descobrindo novas formas de se movimentar na cidade - e de trancar a cidade. Avenidas principais e principais vias de acesso foram bloqueadas pelos manifestantes que percorreram muitos quilômetros de uma cidade que poucos conhecem a pé. E quem estava de carro novamente ficou imobilizado. Tenho esperança que a mobilidade urbana seja de fato discutida depois dessas manifestações, e que se invista menos na mobilidade e fluidez do transporte motorizado - e particular. O investimento no carro está claramente estampado nas propagandas que intercalam as partes do Jornal Nacional, exibido no horário nobre. Hoje (talvez isso tenha sido atípico) houve 3 intervalos de propaganda. No primeiro, apareceram 3 propagandas (Peugeot, Bradesco, novela da Globo), no segundo apareceram 4 (novela da Globo, Fiat ao som do Rappa (!) cantando um refrão "vem pra rua" (putz!), GE e um filme da Globo Filmes) e no terceiro foram 5 (filme que passa depois da novela, Volkswagen, Tv Samsung, Visa e produtos da Copa das Confederações (quem vende isso?)). Em cada um dos blocos de propaganda havia uma propaganda de carro. Luis já tinha chamado atenção pra essa construção do brasileiro apaixonado por carros (bombardeado por propagandas, taxas reduzidas e prestações a perder de vista), só anotei agora.
Depois da tempestade, vem a bonança. Depois dos protestos e dos confrontos, a vitória. O Jornal Nacional desenhou duas vitórias: a redução (variando de R$ 0,05 a R$ 0,20) da tarifa e os gols do Brasil sobre o México na Copa das Confederações. E nesse momento Galvão Bueno exagerou nas tintas verde e amarelo, descreveu os torcedores cantando o hino nacional a cappella (véio!) e entrevistou jogadores emocionados com o calor da torcida. Pacífico. Captou a mensagem?
Migalhas e futebol
Não é mais "pão e circo". Agora o povo brasileiro recebe - e não sei se se contenta com isso - migalhas e futebol. Depois de quase duas semanas de protestos que mantiveram o Brasil e o mundo atentos ao que se passava nas ruas de algumas capitais, depois dos confrontos, depois da esperança na juventude, o prefeito e o governador de São Paulo anunciam o congelamento da tarifa em R$ 3,00 no telão após o jogo da Copa das Confederações em que o Brasil ganhou do México por 2 a zero.
Cito o primeiro parágrafo da matéria publicada na Folha da Copa:
O G1 preparou um infográfico mostrando o histórico das manifestações. Será que estão dando o caso por encerrado?
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| Após jogo, torcedores assistem ao anúncio de redução de tarifas em SP (Eduardo Knapp/Folhapress) |
A redução das tarifas do transporte coletivo de São Paulo nesta quarta-feira foi comemorado como um gol da seleção brasileira pelos torcedores que assistiram à vitória por 2 a 0 sobre o México no centro da capital paulista.Se o Brasil tivesse perdido esse jogo, teriam escolhido outro momento pra anunciar o que Haddad tinha condenado pouco antes de "estratégia paternalista".
O G1 preparou um infográfico mostrando o histórico das manifestações. Será que estão dando o caso por encerrado?
Jornal interativo
Quando a Folha fazia questão de noticiar a violência policial em São Paulo - porque teve jornalistas agredidos e detidos - o jornal convocava os leitores a contribuírem com fotos e relatos.
Quando os protestos - e seus motivos - deixaram de ser o foco e o vandalismo tomou o lugar de destaque na imprensa, a Folha passou a convidar os leitores a compartilharem também críticas.
Agora que houve saques, bancos e lojas depredados, a Folha assume a posição de quem defende a sua propriedade e pergunta: "Foi afetado pelos protestos? Envie relato".
Na véspera da grande manifestação, a mídia está funcionando como uma lente de aumento que foca sobre o que lhe convém: construir uma manifestação pacífica, branca, branda. A discussão sobre o direito à cidade se esfumaçou. A discussão sobre os motivos para a eclosão desse vandalismo é posta de lado. O fato de a população já usufruir de equipamentos públicos vandalizados, sucateados, disfuncionais, burocráticos e excludentes não é lembrado. A mídia se assusta com a força da revolta.
Quando os protestos - e seus motivos - deixaram de ser o foco e o vandalismo tomou o lugar de destaque na imprensa, a Folha passou a convidar os leitores a compartilharem também críticas.
Agora que houve saques, bancos e lojas depredados, a Folha assume a posição de quem defende a sua propriedade e pergunta: "Foi afetado pelos protestos? Envie relato".
Na véspera da grande manifestação, a mídia está funcionando como uma lente de aumento que foca sobre o que lhe convém: construir uma manifestação pacífica, branca, branda. A discussão sobre o direito à cidade se esfumaçou. A discussão sobre os motivos para a eclosão desse vandalismo é posta de lado. O fato de a população já usufruir de equipamentos públicos vandalizados, sucateados, disfuncionais, burocráticos e excludentes não é lembrado. A mídia se assusta com a força da revolta.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Distorção
William Bonner voltou a apresentar o Jornal Nacional ao lado da Patrícia Poeta. Justificou sua volta de Fortaleza dizendo que considerou mais importante cobrir os protestos e anunciou que tinha passado o bastão para um especialista: Galvão Bueno foi logo entrevistando o técnico da seleção brasileira sobre o que ele achava dos protestos.
Ou seja, a Copa das Confederações existe, mas não é preciso falar sobre ela agora - mesmo porque ela também é um dos pontos de descontentamento da população. Por isso é bom não falar muito, já que as pessoas que habitam os lugares que sediarão os megaeventos estão sentindo que esses eventos são efêmeros e circos montados para os outros. Estão tendo o acesso à cidade negado, estão sendo despejados e removidos. Então a Copa das Confederações só entra na pauta quando o Brasil ganhar com festa e fanfarra. A propósito, quem decide o que o JN noticia?
Depois da volta do apresentador, as notícias sobre os protestos de ontem e hoje se misturavam no Jornal Nacional, mas a sua edição foi cuidadosamente preparada. Primeiro mostraram as manifestações pacíficas, enfatizando e repetindo a palavra "pacífico". Depois, em outro bloco, mostraram os atos de vandalismo e destruição, enfatizando e repetindo as palavras "vandalismo" e "violência". Depois desses blocos claros e discretos de mocinhos patriotas e bandidos punks na manifestação, alternaram, por exemplo, cenas de fogo e disparo de armas de fogo com cenas de uma manifestante reclamando do vandalismo de uma pequena parcela dos manifestantes. Depois da cena dos caixas eletrônicos do Itaú completamente destruídos, mostraram a cena de manifestantes limpando pixações. Outra dobradinha foi a imagem de ônibus queimados e um manifestante reclamando dos baderneiros.
A manipulação da Rede Globo é sutil: não deixa de veicular informação, nem reescreve os fatos, como em 1984, de George Orwell:
A estratégia é direcionar o olhar (condescendente para o protesto PACÍFICO envolto na bandeira do Brasil e condenatório para os atos de VANDALISMO encapuzado) e botar na boca do povo os motivos do protesto: contra a corrupção, contra o governo, contra o alto custo de vida.
Lembra da marcha contra a corrupção - que não pegou? Como se luta contra a corrupção? Há diversas formas mais engajadas do que indo às ruas. E se o protesto é contra o governo, então quem se habilita a fazer melhor? Quem se candidata? Quem o movimento elege como líder para preencher o lugar vazio? Se não é pra derrubar o governo, o que se ensina pro governo então? Em muitas cidades a diminuição da tarifa do transporte coletivo já foi reduzida em R$ 0,10. Isso basta pra todo mundo voltar pra casa satisfeito? Cadê a proposta de mobilidade/ acessibilidade urbana?
Protestos facilmente condenáveis pelos atos de violência e em favor de uma pauta difusa não têm futuro e são rapidamente banalizados. É preciso achar o foco das manifestações. É preciso evitar que a mídia corporativa distorça tudo a seu favor. E a mídia corporativa não quer a Revolução; prefere contar até os centavos o prejuízo material das manifestações.
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| Marcelo Justo/Folhapress |
Ou seja, a Copa das Confederações existe, mas não é preciso falar sobre ela agora - mesmo porque ela também é um dos pontos de descontentamento da população. Por isso é bom não falar muito, já que as pessoas que habitam os lugares que sediarão os megaeventos estão sentindo que esses eventos são efêmeros e circos montados para os outros. Estão tendo o acesso à cidade negado, estão sendo despejados e removidos. Então a Copa das Confederações só entra na pauta quando o Brasil ganhar com festa e fanfarra. A propósito, quem decide o que o JN noticia?
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| Fabio Braga/Folhapress |
Depois da volta do apresentador, as notícias sobre os protestos de ontem e hoje se misturavam no Jornal Nacional, mas a sua edição foi cuidadosamente preparada. Primeiro mostraram as manifestações pacíficas, enfatizando e repetindo a palavra "pacífico". Depois, em outro bloco, mostraram os atos de vandalismo e destruição, enfatizando e repetindo as palavras "vandalismo" e "violência". Depois desses blocos claros e discretos de mocinhos patriotas e bandidos punks na manifestação, alternaram, por exemplo, cenas de fogo e disparo de armas de fogo com cenas de uma manifestante reclamando do vandalismo de uma pequena parcela dos manifestantes. Depois da cena dos caixas eletrônicos do Itaú completamente destruídos, mostraram a cena de manifestantes limpando pixações. Outra dobradinha foi a imagem de ônibus queimados e um manifestante reclamando dos baderneiros.
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| Joel Silva/Folhapress |
A manipulação da Rede Globo é sutil: não deixa de veicular informação, nem reescreve os fatos, como em 1984, de George Orwell:
“E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os anais dissessem a mesma coisa – então a mentira se transformava em história, em verdade. “Quem controla o passado”, dizia o lema do Partido, “controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”. (...) Bastava apenas uma série infinda de vitórias sobre a memória. “Controle da realidade”, chamava-se. Ou, em Novilíngua, “duplipensar”.” (p. 36)
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| Fabio Braga/Folhapress |
A estratégia é direcionar o olhar (condescendente para o protesto PACÍFICO envolto na bandeira do Brasil e condenatório para os atos de VANDALISMO encapuzado) e botar na boca do povo os motivos do protesto: contra a corrupção, contra o governo, contra o alto custo de vida.
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| Eduardo Knapp/Folhapress |
Lembra da marcha contra a corrupção - que não pegou? Como se luta contra a corrupção? Há diversas formas mais engajadas do que indo às ruas. E se o protesto é contra o governo, então quem se habilita a fazer melhor? Quem se candidata? Quem o movimento elege como líder para preencher o lugar vazio? Se não é pra derrubar o governo, o que se ensina pro governo então? Em muitas cidades a diminuição da tarifa do transporte coletivo já foi reduzida em R$ 0,10. Isso basta pra todo mundo voltar pra casa satisfeito? Cadê a proposta de mobilidade/ acessibilidade urbana?
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| Marcelo Justo/Folhapress |
Protestos facilmente condenáveis pelos atos de violência e em favor de uma pauta difusa não têm futuro e são rapidamente banalizados. É preciso achar o foco das manifestações. É preciso evitar que a mídia corporativa distorça tudo a seu favor. E a mídia corporativa não quer a Revolução; prefere contar até os centavos o prejuízo material das manifestações.
Coletivo x individual
Enquanto a massa de manifestantes trancava as principais avenidas da cidade para protestar pelo direito de acesso aos bens públicos, motoristas de veículos particulares não viram sentido em se transportar num carro.
Sem centro, em rede
A onda de protestos no Brasil se dá de maneira espontânea e bastante horizontal: não há um partido, uma bandeira, uma pauta. As pessoas decidem participar das manifestações a partir das movimentações que observam nas redes sociais (principalmente Facebook, apesar da censura) e vão às ruas para manifestar sua insatisfação com vários pontos.
Não há um centro para o qual o país converge para protestar: os centros são as capitais na faixa leste do país. Não há uma pauta (Diretas Já, Impeachment) que une todos. Não há uma postura comum (não há panfletos distribuídos pelos manifestantes explicando por que protestam, porque há muitos motivos diferentes para protestar): tem gente distribuindo flores, tem gente pichando, tem gente cantando o hino nacional e tem gente militando por um partido. Não há roteiro (para onde caminha a marcha? Quando acaba a manifestação? Quem assume o que?). Não há horizonte (normalmente, o horizonte é a esperança de que, uma vez que a reivindicação seja alcançada - derrubada de alguém do poder, por exemplo - isso faça com que um plano de mudar o status quo seja posto em ação: como um novo empossado vai lidar com os problemas).
Achei interessante observar os números levantados pelo Datafolha, publicados hoje na Folha:
Não há um centro para o qual o país converge para protestar: os centros são as capitais na faixa leste do país. Não há uma pauta (Diretas Já, Impeachment) que une todos. Não há uma postura comum (não há panfletos distribuídos pelos manifestantes explicando por que protestam, porque há muitos motivos diferentes para protestar): tem gente distribuindo flores, tem gente pichando, tem gente cantando o hino nacional e tem gente militando por um partido. Não há roteiro (para onde caminha a marcha? Quando acaba a manifestação? Quem assume o que?). Não há horizonte (normalmente, o horizonte é a esperança de que, uma vez que a reivindicação seja alcançada - derrubada de alguém do poder, por exemplo - isso faça com que um plano de mudar o status quo seja posto em ação: como um novo empossado vai lidar com os problemas).
Achei interessante observar os números levantados pelo Datafolha, publicados hoje na Folha:
Quem é militante partidário e esteve nas manifestações de ontem (agradeço ao Luis por compartilhar impressões de companheir@s) se sentiu acuado pelos sem-partido. Porque os partidos representados nas passeatas eram partidos dissidentes de esquerda (PSTU, PSOL, PCB), porque os partidos acreditam na democracia, porque os partidos dependem da organização hierárquica. Os militantes sentiram que há algo errado: os sem-partido cantavam o hino nacional e reivindicavam um projeto de nação. Quando lembro dos convites que me eram feitos para estudar a Bíblia sem o direcionamento (chamado de 'enviesamento') de nenhuma religião, sinto simpatia pelos militantes partidários que observam a abstração que é um protesto político despolitizado.
Uma análise interessante sobre a dinâmica da multidão auto-organizada e a escolha de lideranças está publicada na Folha, aqui.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
A Revolução será televisionada?
Se der IBOPE, será.
Hoje de manhã exibi Free Rainer para os alunos de Jornalismo, com a proposta que escrevam uma resenha recuperando o que leram de 1984 de George Orwell. Hoje vimos um filme em que se mostra a dependência da programação da audiência. A televisão, segundo Maiwald (personagem que faz o papel de diretor de uma emissora), mostra o que o povo quer ver e assim o mantém pacificado, anestesiado, ocupado.
Hoje de tarde e noite, as pessoas se movimentaram nas ruas. Muito mais de 250 mil pessoas caminharam por capitais empunhando cartazes, bandeiras, gritando por uma sociedade mais justa. As passeatas em São Paulo se dividiram, sendo que uma grande massa de manifestantes se dirigiu para a zona sul. Curiosa, acompanhei seus movimentos: o que fariam no Brooklin? Seu destino era a ponte Estaiada, ou a ponte do Estilingão, primeira via pública a ser inaugurada desrespeitando a lei que determina que toda via pública nova deve ser acompanhada de ciclovia. Quem já viu o Jornal da Globo local de São Paulo sabe que a ponte do Estilingão é o pano de fundo da Rede Globo.
O repórter que sobrevoava a ponte disse, para o Jornal Nacional, que os manifestantes gritavam palavras de ordem contra a Rede Globo. Patrícia Poeta, sozinha no estúdio, explicou, com ares defensivos, que a Rede Globo transmitiu todas as informações sobre as manifestações desde seu início. Claro que não lembrou que, em certos momentos, o vandalismo dos protestantes e a violência física sofrida por um policial foram mais enfocados que o número real de manifestantes, a truculência da polícia ou mesmo os motivos que levaram a população às ruas. Explicou que é o dever da Globo transmitir todas as notícias, driblou mal e passou a bola.
William Bonner parecia totalmente deslocado em Fortaleza, para fazer a cobertura da Copa das Confederações: não estava com a bola da vez. A vitalidade, os gestos abundantes e a alegria que o apresentador demonstrou quando esteve em Brasília, na ocasião em que o Brasil ganhou de 3 a 0 do Japão, não estavam estampados em seu rosto. Comentou, em poucos segundos, que em Fortaleza tinha havido manifestações na frente do hotel em que está hospedada a Seleção - mas, disse, esses protestos não tinham relação com a Seleção, eram contra os gastos da Copa.
A população brasileira, que decidiu fazer fogueira da faísca do aumento da tarifa de transporte coletivo matou no peito e correu pra área. As manifestações são contra a manipulação de informações por parte da mídia corporativa, contra o abuso de poder da polícia, contra os eventos carnavalizados como a Copa que desestabilizam completamente a região em que acontecem, contra o descaso dos representantes do povo com os equipamentos públicos.
Estou na torcida para ver a Revolução acontecer. Estou torcendo pra que ela seja transmitida pela mídia (a Folha está com um subtítulo vermelho-magenta: País em Protesto). Quero ver a Globo anunciando o gol.
Hoje de manhã exibi Free Rainer para os alunos de Jornalismo, com a proposta que escrevam uma resenha recuperando o que leram de 1984 de George Orwell. Hoje vimos um filme em que se mostra a dependência da programação da audiência. A televisão, segundo Maiwald (personagem que faz o papel de diretor de uma emissora), mostra o que o povo quer ver e assim o mantém pacificado, anestesiado, ocupado.
Hoje de tarde e noite, as pessoas se movimentaram nas ruas. Muito mais de 250 mil pessoas caminharam por capitais empunhando cartazes, bandeiras, gritando por uma sociedade mais justa. As passeatas em São Paulo se dividiram, sendo que uma grande massa de manifestantes se dirigiu para a zona sul. Curiosa, acompanhei seus movimentos: o que fariam no Brooklin? Seu destino era a ponte Estaiada, ou a ponte do Estilingão, primeira via pública a ser inaugurada desrespeitando a lei que determina que toda via pública nova deve ser acompanhada de ciclovia. Quem já viu o Jornal da Globo local de São Paulo sabe que a ponte do Estilingão é o pano de fundo da Rede Globo.
O repórter que sobrevoava a ponte disse, para o Jornal Nacional, que os manifestantes gritavam palavras de ordem contra a Rede Globo. Patrícia Poeta, sozinha no estúdio, explicou, com ares defensivos, que a Rede Globo transmitiu todas as informações sobre as manifestações desde seu início. Claro que não lembrou que, em certos momentos, o vandalismo dos protestantes e a violência física sofrida por um policial foram mais enfocados que o número real de manifestantes, a truculência da polícia ou mesmo os motivos que levaram a população às ruas. Explicou que é o dever da Globo transmitir todas as notícias, driblou mal e passou a bola.
William Bonner parecia totalmente deslocado em Fortaleza, para fazer a cobertura da Copa das Confederações: não estava com a bola da vez. A vitalidade, os gestos abundantes e a alegria que o apresentador demonstrou quando esteve em Brasília, na ocasião em que o Brasil ganhou de 3 a 0 do Japão, não estavam estampados em seu rosto. Comentou, em poucos segundos, que em Fortaleza tinha havido manifestações na frente do hotel em que está hospedada a Seleção - mas, disse, esses protestos não tinham relação com a Seleção, eram contra os gastos da Copa.
A população brasileira, que decidiu fazer fogueira da faísca do aumento da tarifa de transporte coletivo matou no peito e correu pra área. As manifestações são contra a manipulação de informações por parte da mídia corporativa, contra o abuso de poder da polícia, contra os eventos carnavalizados como a Copa que desestabilizam completamente a região em que acontecem, contra o descaso dos representantes do povo com os equipamentos públicos.
Estou na torcida para ver a Revolução acontecer. Estou torcendo pra que ela seja transmitida pela mídia (a Folha está com um subtítulo vermelho-magenta: País em Protesto). Quero ver a Globo anunciando o gol.
Manifestação crescendo
sábado, 15 de junho de 2013
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Ponto de vista
Para a maioria da população paulista, a farda é uma fronteira. Quem usa a farda está do lado de lá. Quando eu vi a imagem pela primeira vez, não identifiquei que a pessoa dentro da farda era uma mulher. Meu olhar não conseguiu ultrapassar a barreira do uniforme. Quando mostro essa imagem pros meus alunos não-paulistas, eles imediatamente identificam a mulher desfalecida nos braços do homem. Para eles, o uniforme cinza não tem significado.
O homem que carrega a policial fardada não está usando uniforme. Dadas as informações contextuais (manifestação de civis reprimida por policiais), a primeira inferência é que o homem seja um civil, portanto um manifestante. E o coração se aquece ao ver um ato de solidariedade do manifestante para com aquele que atua no outro lado da linha: o policial que agride com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e cassetetes.
O homem que carrega a policial causou polêmica porque foi identificado como um policial à paisana. O objetivo de uma manifestação não é o confronto com a polícia, mas a manifestação da insatisfação de uma categoria. O objetivo da polícia é conter (reprimir) a manifestação. Para tanto, usam armas legitimadas pela sociedade, entendidas como "educativas". Atacar a população indefesa não seria honroso. É preciso esperar que a manifestação saia do controle para que a reação brutal da polícia seja justificada. Quando a centelha da violência não sai, o fogo é ateado por agentes infiltrados. E o coração se aperta com esses ranços da ditadura.
Hoje o Brasil passa por um momento de insurreição popular em torno do aumento da tarifa do transporte público. Estão acontecendo manifestações nas capitais brasileiras contra o descaso do poder público com a coisa pública. O transporte público (que não é público, porque é administrado por empresas privadas e não oferece passe livre) sucateado e o aumento da tarifa são motivo de insatisfação. Os manifestantes reclamam o direito à cidade, o direito de ir e vir, o direito de se manifestar.
A violência desmedida com que as manifestações foram combatidas transformou os R$ 0,20 da disputa em uma luta pela cidadania. Mirados, perseguidos, feridos, presos, removidos e humilhados, os manifestantes sofreram violência física legitimada pelo Estado. Na Turquia, o projeto de transformar a praça pública num shopping equivale ao projeto brasileiro de combater a inflação repassando a conta pro povo. Em ambos os casos, os direitos individuais e o acesso aos bens públicos no espaço urbano estão em questão.
No quarto dia de protestos contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo foi escrito um texto diametralmente oposto a outro, escrito no dia anterior. O que eles têm em comum é que foram escritos sob pontos de vista díspares (mas não antagônicos). Sakamoto escreve sob o ponto de vista do manifestante aterrorizado pela truculência da polícia, o editorial do Estadão escreve sob o ponto de vista de quem assiste à desordem sentado no sofá e lamenta, horrorizado, o vandalismo do povo lá fora.
Sakamoto é engenhoso: utiliza o esqueleto do editorial do Estadão para narrar a mesma história - de outro ponto de vista. Somente os primeiros parágrafos de cada texto:
No terceiro dia de protesto contra o aumento da tarifa dos transportes coletivos, os baderneiros que o promovem ultrapassaram, ontem, todos os limites e, daqui para a frente, ou as autoridades determinam que a polícia aja com maior rigor do que vem fazendo ou a capital paulista ficará entregue à desordem, o que é inaceitável. Durante seis horas, numa movimentação que começou na Avenida Paulista, passou pelo centro - em especial pela Praça da Sé e o Parque Dom Pedro - e a ela voltou, os manifestantes interromperam a circulação, paralisaram vasta área da cidade e aterrorizaram a população.
No quarto dia de protesto contra o aumento da tarifa dos transportes coletivos, o Estado policialesco que o reprime ultrapassou, ontem, todos os limites e, daqui para a frente, ou as autoridades determinam que a polícia não aja feito um animal que baba, ao contrário do que vem fazendo, ou a capital paulista ficará entregue à desordem, o que é inaceitável. Durante sete horas, numa movimentação que começou na Praça Ramos de Azevedo, passou pelo Centro – em especial pela Praça da República e a Rua da Consolação – chegando à avenida Paulista, os policiais provocaram conflitos com os manifestantes, agrediram jornalistas e aterrorizaram a população.
sábado, 8 de junho de 2013
O fio vermelho
No banho, de repente a água quente começou a ter cheiro de plástico queimado. Achamos estranho e esperamos pra ver se acontecia de novo. Sim, depois que a água esquentava (estamos no que Luis chama de Sibéria do Brasil: 9ºC a 12ºC de noite e de manhãzinha), o cheiro de plástico queimado se alastrava pela região do chuveiro. Fui ver a instalação que eu tinha feito do chuveiro mega power thermosystem e constatei que uma fumacinha cinza saía do fio vermelho cuja capa plástica derretia.
Sei que esse chuveiro puxa muita energia e sei que um fio queimado pode ter como resultado um curto-circuito, choque, sei lá. Nossas vidas podiam estar por um fio se aquele chuveiro continuasse assim.
Vasculhei nos papeizinhos, cartões e propagandas e encontrei o anúncio de um sujeito que faz mudança, instala ar condicionado, desentope pia e mexe em parte elétrica. Liguei e ele veio meia hora depois. Chegou dizendo que quase virou meu vizinho, mas que não deu certo porque queriam fiador e aí complicou. Deu risada e foi ver o chuveiro. Diagnosticou que o fio era muito fino (1,5 quando o ideal era 4 pra mais), que o disjuntor era muito fraco (25 quando esse tipo de chuveiro pede 40) e disse que agora, agora, não dava pra ele resolver isso, porque ele tava ocupado com outro serviço. Deu a impressão de que a operação era simples: trocar um fio e um disjuntor, como se eu, que instalei o chuveiro, pudesse realizar o serviço. A meu pedido, deixou outro telefone: de uma loja que vende material elétrico e sempre tem uns piá que faz esse serviço.
Comentei com o Luis (que não tinha acompanhado o fio da meada, porque estava trabalhando) que eu tinha ficado intrigada com essa coisa medieval de fiador, porque não era preciso provar que você tinha condições de sustentar um aluguel, mas era preciso ter amigos que garantissem, através de seus bens, a manutenção do seu compromisso. Pensando na fiação que precisava trocar, Luis me perguntou que fiador era esse, que eu tava falando.
Liguei na loja, a moça me deu um número de telefone. Já eram 10:30 e o rapaz viria dali a meia hora com uns metros aí de fio e um disjuntor mais potente. Na hora em que eu esperava ouvir a campainha, tocou o telefone. Era o eletricista, querendo saber se eu tinha escada. Tinha. Era uma das coisas insólitas que eu tinha trazido de Porto Velho. Lá, eu usava muito a escada: pra colher caju, manga, gato do forro ou do telhado etc. Achei que a escada não teria utilidade num apartamento térreo, mas teve.
O telefone tocou de novo. Atendi olhando pro portão da rua. Era o eletricista de novo, dizendo que estava no prédio de número 132, mas que não tinha nenhum apartamento no primeiro andar. Eu olhava pra fora da janela e teimava: você não está na frente do 132, porque eu não estou te vendo. Ele caminhou até o prédio ao lado abismado: o prédio do lado tem o mesmo número que esse!
O homem atravessou o horário do almoço tentando puxar o fio vermelho (rígido, pouco flexível) que ele tinha soltado da caixa do disjuntor pelo buraco da lâmpada mais próxima, depois pela caixa mal posicionada no teto de gesso rebaixado do banheiro e depois pela parede, acima do chuveiro. Me cobrou pelo material usado e converteu o cálculo da mão-de-obra não em tempo, nem na visita, mas no número de buracos que ele teve que abrir (a caixa do disjuntor, 2 plafons da lâmpada, a caixa no teto do banheiro).
E Luis seguia escrevendo. Mais tarde, no almoço, confessou que percebeu durante a escrita de hoje (e leituras paralelas à escrita) que tinha agarrado um fio que não o conduziria para fora do labirinto do texto. Entendeu que o fio que tinha escolhido o enredaria numa armadilha. Em tempo, conseguiu encontrar o fio vermelho que sustenta o seu texto.
Nossas vidas por um fio, quase duas horas pra trocar esse fio que acompanhava o texto que Luis escrevia.
Sei que esse chuveiro puxa muita energia e sei que um fio queimado pode ter como resultado um curto-circuito, choque, sei lá. Nossas vidas podiam estar por um fio se aquele chuveiro continuasse assim.
Vasculhei nos papeizinhos, cartões e propagandas e encontrei o anúncio de um sujeito que faz mudança, instala ar condicionado, desentope pia e mexe em parte elétrica. Liguei e ele veio meia hora depois. Chegou dizendo que quase virou meu vizinho, mas que não deu certo porque queriam fiador e aí complicou. Deu risada e foi ver o chuveiro. Diagnosticou que o fio era muito fino (1,5 quando o ideal era 4 pra mais), que o disjuntor era muito fraco (25 quando esse tipo de chuveiro pede 40) e disse que agora, agora, não dava pra ele resolver isso, porque ele tava ocupado com outro serviço. Deu a impressão de que a operação era simples: trocar um fio e um disjuntor, como se eu, que instalei o chuveiro, pudesse realizar o serviço. A meu pedido, deixou outro telefone: de uma loja que vende material elétrico e sempre tem uns piá que faz esse serviço.
Comentei com o Luis (que não tinha acompanhado o fio da meada, porque estava trabalhando) que eu tinha ficado intrigada com essa coisa medieval de fiador, porque não era preciso provar que você tinha condições de sustentar um aluguel, mas era preciso ter amigos que garantissem, através de seus bens, a manutenção do seu compromisso. Pensando na fiação que precisava trocar, Luis me perguntou que fiador era esse, que eu tava falando.
Liguei na loja, a moça me deu um número de telefone. Já eram 10:30 e o rapaz viria dali a meia hora com uns metros aí de fio e um disjuntor mais potente. Na hora em que eu esperava ouvir a campainha, tocou o telefone. Era o eletricista, querendo saber se eu tinha escada. Tinha. Era uma das coisas insólitas que eu tinha trazido de Porto Velho. Lá, eu usava muito a escada: pra colher caju, manga, gato do forro ou do telhado etc. Achei que a escada não teria utilidade num apartamento térreo, mas teve.
O telefone tocou de novo. Atendi olhando pro portão da rua. Era o eletricista de novo, dizendo que estava no prédio de número 132, mas que não tinha nenhum apartamento no primeiro andar. Eu olhava pra fora da janela e teimava: você não está na frente do 132, porque eu não estou te vendo. Ele caminhou até o prédio ao lado abismado: o prédio do lado tem o mesmo número que esse!
O homem atravessou o horário do almoço tentando puxar o fio vermelho (rígido, pouco flexível) que ele tinha soltado da caixa do disjuntor pelo buraco da lâmpada mais próxima, depois pela caixa mal posicionada no teto de gesso rebaixado do banheiro e depois pela parede, acima do chuveiro. Me cobrou pelo material usado e converteu o cálculo da mão-de-obra não em tempo, nem na visita, mas no número de buracos que ele teve que abrir (a caixa do disjuntor, 2 plafons da lâmpada, a caixa no teto do banheiro).
E Luis seguia escrevendo. Mais tarde, no almoço, confessou que percebeu durante a escrita de hoje (e leituras paralelas à escrita) que tinha agarrado um fio que não o conduziria para fora do labirinto do texto. Entendeu que o fio que tinha escolhido o enredaria numa armadilha. Em tempo, conseguiu encontrar o fio vermelho que sustenta o seu texto.
Nossas vidas por um fio, quase duas horas pra trocar esse fio que acompanhava o texto que Luis escrevia.
sábado, 1 de junho de 2013
Fixação no aparelho
Acordo de manhã com um ferro na boca, mal fecho a boca, e para fechá-la, o lábio inferior tem que subir um pouco mais que o normal. Não consigo assoprar, lamber os lábios ou passar batom (de manteiga de cacau) porque não consigo pressionar um lábio sobre o outro. Meus dentes estão se movendo, estão fora do lugar, meio desalinhados - e doendo. Passo o dia apalpando os dentes com a língua e chego à conclusão de que ter consciência dos dentes o tempo todo não é agradável. Quando Luis me pergunta se o café está bom, respondo que o calor do café interage com o metal do aparelho e quando ele pergunta se a comida está boa, descrevo a dificuldade de mastigar alimentos grandes, fibrosos, duros etc. É preciso escovar os dentes a cada refeição, porque o aparelho exerce muito bem o seu papel de reter partes de alimentos. Acho que mês que vem vou pedir ao dentista que coloque elásticos verdes, pra ver se orna com salsinha e cebolinha. Acho que estou falando menos, porque o atrito da parte interna d... (como chama essa parte do corpo entre lábio e nariz?) enfim, o atrito da boca com o aparelho incomoda. Ainda falta colar metal nos molares superiores e em todos os dentes inferiores.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Outono
Luis e eu fomos ao Jardim Botânico da UFSM.
Desta vez tinha bergamotas e laranjas do céu de sobremesa.
O outono daqui está significando noites frias: por volta dos 12ºC.
Os locais dizem que isso não é frio que nada! e assim preparam o meu espírito pro inverno.
Desta vez tinha bergamotas e laranjas do céu de sobremesa.
O outono daqui está significando noites frias: por volta dos 12ºC.
Os locais dizem que isso não é frio que nada! e assim preparam o meu espírito pro inverno.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Em nome da objetividade
No início do século XX, muitos psicólogos procuravam dar à Psicologia o estatuto de ciência tão rigorosa quanto a Física. E rigor se media em números, portanto era preciso fazer experimentos. No Curso de Psicologia Geral de Luria, por exemplo, é citado
*
Jornalistas podem ser entendidos como uma espécie de mediadores entre os fatos e o público. Não se espera que jornalistas emitam sua opinião pessoal acerca dos fatos. O que muitas vezes não é questionado é a escolha dos temas abordados. Mário Magalhães deu entrevista à redação da Revista O Viés, em que insiste que foi imparcial na biografia de Carlos Marighella:
*
No post anterior mencionei o filme Doméstica de Gabriel Mascaro. A primeira coisa que surgiu na conversa com o Luis sobre esse filme (que ainda não vimos) foi: e por que não se colocou a câmera na mão das empregadas? O próprio diretor responde à pergunta numa matéria da Bravo! de maio de 2013:
Na Piauí de 13 de maio de 2013, Eduardo Escorel discute o método do cineasta - que pretende ser objetivo e pretende não interferir nas relações de afeto e poder entre patrões e empregados:
o famoso psicólogo americano R. M. Yerkes, que colocou minhocas num tubo em forma de T, labirinto extremamente simples. No extremo esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico, que provocava reação defensiva. Com várias repetições desse experimento, a minhoca podia adquirir a ''habilidade" de evitar o choque elétrico e encaminhar-se para o lado direito. A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para que o comportamento da minhoca adquirisse caráter organizado e na grande maioria do testes ela começasse a encaminhar-se para a direita, evitando o choque elétrico. (p. 40)Na boa, eu teria desistido das minhocas na décima tentativa - e isso que eu sou conhecida pela minha teimosia. Yerkes volta a aparecer nas minhas leituras, dessa vez na pena de Stephen Jay Gould, em A Falsa Medida do Homem:
Foi nomeado coronel e, nessa condição, presidiu a aplicação de testes mentais em 1,75 milhões de recrutas durante a Primeira Guerra. Mais tarde, afirmou que os testes mentais "ajudaram a ganhar a guerra" [já que o intento dos testes era distribuir adequadamente os recrutas nas funções militares]. "Ao mesmo tempo", acrescentou, "[a psicologia] conseguiu ocupar um lugar entre as demais ciências e demonstrou a importância que pode ter para a engenharia humana". (p. 202).Para o espanto de Yerkes, os testes mentais (de QI) mostraram para ele que o cidadão americano médio adulto tem idade mental de 13 anos.
*
Jornalistas podem ser entendidos como uma espécie de mediadores entre os fatos e o público. Não se espera que jornalistas emitam sua opinião pessoal acerca dos fatos. O que muitas vezes não é questionado é a escolha dos temas abordados. Mário Magalhães deu entrevista à redação da Revista O Viés, em que insiste que foi imparcial na biografia de Carlos Marighella:
Eu costumo dizer que eu sou um repórter, e assim eu estou fazendo o trabalho de levar as pessoas essa história fascinante. Na biografia eu acho que não poderia ser um detrator ou louvá-lo. Até por que pessoas para detratarem Marighella, ou para louvá-lo existem aos montes. Ele é um monstro para uns, e um herói para outros. Mas no meu livro eu não queria nem ser um promotor, e aí acusar o Marighella disso ou daquilo, nem um advogado de defesa, para promovê-lo. Muito menos um juiz, para julgá-lo. Eu queria ser um repórter, que apresenta a história para que as pessoas possam conhecê-lo. Por que sobre Marighella, e sobre as pessoas em geral, são duas questões: conhecer a sua história é a primeira parte. A partir daí se pode julgar se ele foi bom ou ruim.E mais adiante:
Eu não considero que eu faço jornalismo literário. Eu considero que eu faço jornalismo. Até por que o livro tem 2580 notas, 256 pessoas entrevistadas e consultadas, uma bibliografia de mais de quinhentas obras e mais de 700 volumes. E tudo o que é mais importante e relevante do livro está baseado em documentos históricos que eu consegui tanto no Brasil como na Rússia, República Tcheca, Estados Unidos e Paraguai. Eu sempre conto a história de quando o Marighella foi preso no cinema e, depois de levar três tiros, sente um gosto adocicado do sangue que escorreu na sua boca. Essa história eu conto no livro, aí muita gente me perguntou como eu poderia saber disso. Foi por meio da pesquisa, por um texto do próprio Marighella relatando sentir esse gosto adocicado. Então na biografia eu tentei descrever tudo que o Marighella fez, viveu e pensou, e isso tudo foi por meio de documentos, já que, diferente da minha mãe, pelotense, eu não acredito no espiritismo e não entrevistei o espírito do Marighella.Só o fato de ter escolhido o Marighella - e não qualquer outro guerrilheiro, militante ou mesmo general que viveu nos tempos da ditadura - já diz muito sobre a posição do jornalista. Só o fato de detectar que existe uma carência de informação a respeito deste homem e que existe uma quebra crônica na passagem de informações entre a geração que viveu esta época e as seguintes já mostra o envolvimento do biógrafo com a personalidade biografada. Quando, em tempos de Comissão da Verdade, um jornalista resgata a história de alguém que a história convenientemente esquece, entrevemos a opinião do jornalista biógrafo.
*
No post anterior mencionei o filme Doméstica de Gabriel Mascaro. A primeira coisa que surgiu na conversa com o Luis sobre esse filme (que ainda não vimos) foi: e por que não se colocou a câmera na mão das empregadas? O próprio diretor responde à pergunta numa matéria da Bravo! de maio de 2013:
"Não acredito em caridade, muito menos no cinema", responde Mascaro. "Poder não se dá, se negocia. Doméstica é um filme sobre a negociação da imagem." (p. 43)Na visão do Luis, teria sido mais interessante dar a câmera aos dois lados: tanto os(as) filhos(as) dos patrões como as(o) empregadas(o). Lembremos de Viveiros de Castro e a onça: o homem (sujeito) olha para a onça (objeto), mas a onça (sujeito) também olha para o homem (objeto).
Na Piauí de 13 de maio de 2013, Eduardo Escorel discute o método do cineasta - que pretende ser objetivo e pretende não interferir nas relações de afeto e poder entre patrões e empregados:
Mascaro não está, naturalmente, ausente de todo. Mas apesar de ser responsável pela seleção das personagens e pela montagem, ao fazer do método o cerne do filme, sabota a própria escolha do assunto, cuja relevância e relativo ineditismo sugeririam a possibilidade de resultado menos anódino.
Doméstica nos dá visão idealizada das relações sociais, omitindo qualquer traço da tragédia que as domina – omissão deliberada difícil de aceitar. (Questões cinematográficas)
domingo, 19 de maio de 2013
Cortar e colar
No filme de ficção sobre Hitchcock (2012) claramente se pretendeu dar maior destaque à esposa dele enquanto cineasta e parceira de trabalho. Mais pro final do filme, o casal está em crise e ele pede que ela o ajude a finalizar o filme em que está trabalhando: as filmagens foram feitas, o material está todo lá, aguardando para ser acordado para a vida.
E ela vai pro estúdio, ajudar a editar Psycho (1960), que representou a grande virada na carreira de Alfred Hitchcock.
Lola rennt (1998) é ainda hoje o maior sucesso de Tom Tykwer, e grande parte da genialidade do filme está no modo de cortar e colar as cenas. Segundo o IMBd, o filme conta com 1581 transições em 71 minutos de ação (excluídos os créditos no final e a sequência inicial que culmina com uma multidão de pessoas formando as letras do nome do filme. Cada letra foi filmada separadamente e editar essa abertura custou ao diretor um mês de trabalho). O ritmo do filme é dado pela trilha sonora e pelo volume de imagens. Conforme o filme corre para o final, as cenas ficam relativamente mais longas, o que também tem seu efeito. Ainda quero chamar atenção pros créditos no final, que correm de cima pra baixo - e enquanto passam, a palavra 'Ende' anda, em letras garrafais e vermelhas, da direita pra esquerda.
Lembro de ter visto entrevista de ator (não sei se aplica a este filme) dizendo que não tinha entendido a estória durante as gravações, e que precisou esperar até a hora de ver a obra finalizada para entender o filme.
Estreou em maio de 2013 o filme Doméstica (2012) do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro. Ainda não vi porque moro longe dos centros culturais. Sete estudantes de sete capitais brasileiras receberam uma câmera na mão e a tarefa de filmar a empregada doméstica por uma semana (a ideia era perseguir dois fios de Ariadne: a relação de poder e de afeto da empregada doméstica com os patrões). Cortando e colando, Mascaro transformou então as 120 horas de gravação no filme documental de 75 minutos.
É bom dizer isso por extenso: este diretor só teve contato com o objeto filmado através dos filmes que lhe foram enviados.
E agora, mais que antes, Flusser faz todo sentido pra mim. No livro intitulado Gesten, Vilém Flusser exercita o que ele chama de filosofia fenomenológica e investiga os gestos (de escrever, falar, fazer, procurar, fotografar, filmar, se barbear, amar e tantos outros). No capítulo sobre o gesto de filmar, ele coloca na mão do diretor de cinema duas ferramentas: tesoura e cola. Para Flusser, o gesto de filmar não equivale ao gesto de colocar a câmera no ombro, mas ao gesto de cortar e colar:
E ela vai pro estúdio, ajudar a editar Psycho (1960), que representou a grande virada na carreira de Alfred Hitchcock.
Lola rennt (1998) é ainda hoje o maior sucesso de Tom Tykwer, e grande parte da genialidade do filme está no modo de cortar e colar as cenas. Segundo o IMBd, o filme conta com 1581 transições em 71 minutos de ação (excluídos os créditos no final e a sequência inicial que culmina com uma multidão de pessoas formando as letras do nome do filme. Cada letra foi filmada separadamente e editar essa abertura custou ao diretor um mês de trabalho). O ritmo do filme é dado pela trilha sonora e pelo volume de imagens. Conforme o filme corre para o final, as cenas ficam relativamente mais longas, o que também tem seu efeito. Ainda quero chamar atenção pros créditos no final, que correm de cima pra baixo - e enquanto passam, a palavra 'Ende' anda, em letras garrafais e vermelhas, da direita pra esquerda.
Lembro de ter visto entrevista de ator (não sei se aplica a este filme) dizendo que não tinha entendido a estória durante as gravações, e que precisou esperar até a hora de ver a obra finalizada para entender o filme.
Estreou em maio de 2013 o filme Doméstica (2012) do cineasta pernambucano Gabriel Mascaro. Ainda não vi porque moro longe dos centros culturais. Sete estudantes de sete capitais brasileiras receberam uma câmera na mão e a tarefa de filmar a empregada doméstica por uma semana (a ideia era perseguir dois fios de Ariadne: a relação de poder e de afeto da empregada doméstica com os patrões). Cortando e colando, Mascaro transformou então as 120 horas de gravação no filme documental de 75 minutos.
É bom dizer isso por extenso: este diretor só teve contato com o objeto filmado através dos filmes que lhe foram enviados.
E agora, mais que antes, Flusser faz todo sentido pra mim. No livro intitulado Gesten, Vilém Flusser exercita o que ele chama de filosofia fenomenológica e investiga os gestos (de escrever, falar, fazer, procurar, fotografar, filmar, se barbear, amar e tantos outros). No capítulo sobre o gesto de filmar, ele coloca na mão do diretor de cinema duas ferramentas: tesoura e cola. Para Flusser, o gesto de filmar não equivale ao gesto de colocar a câmera no ombro, mas ao gesto de cortar e colar:
Der Filmemacher steht dem Bandmaterial gegenüber, und aus dieser Transzendenz heraus komponiert er Sachverhalte, welche im Kino als Prozesse erscheinen werden. Für ihn fallen also, wie für Gott, Anfang und Ende zusammen, aber mehr als Gott kann er einzelne Phasen des Prozesses umstellen, kann den Ablauf des Prozesses verlangsamen und beschleunigen, kann Phasen oder den gesamten Prozeß zurücklaufen lassen, kann schließlich den gesamten Prozeß als im Kreis laufendes Band zur ewigen wiederkehr verschlingen. Nicht nur also unterscheidet er, wie Gott, zwischen formaler Transzendez (schöpferischer Komposition) und existentieller Immanenz (Erleben des Ablaufs), sondern er kann, was Gott nicht kann, den Ablauf des Prozesses selbst in Zeitrichtungen außerhalb der strahlenförmigen Linearität umlenken. (p. 122)
O cineasta está diante da fita, e num gesto de transcendência compõe estados de coisa que no cinema se parecerão como processos. Assim como para Deus, para ele o começo e o fim se apresentam simultaneamente; mas mais que Deus, o cineasta pode ordenar diferentemente fases singulares do processo, pode lentificar ou apressar o andamento do processo, pode fazer com que fases ou o processo todo se invertam, enfim pode enrolar todo o processo num círculo fadado ao eterno retorno. Ele não apenas diferencia, como Deus o faz, entre transcendência formal (composição criativa) e existência imanente (vivência da sequência), mas ele pode - o que Deus não pode - desviar a sequência do processo para direções temporais fora da linearidade radial.(Estou quase me convencendo de que só é possível filosofar na língua original, porque sou péssima tradutora.)
sábado, 18 de maio de 2013
Ar condicionado
Ouço os aparelhos de ar condicionado dos meus vizinhos e imagino que eles tenham aparelhos diferentes do meu, adquirido em Porto Velho. Sei que existem condicionadores de ar que aquecem - além de esfriar o ar.
O Climatempo anunciou que ontem fez 1ºC, o INPE instalado na UFSM afirma que a mínima foi de 3ºC. Seja como for, é frio pacas. A diferença entre 31ºC e 29ºC pode não ser perceptível, mas quando passa de 22ºC pra baixo, cada grau a menos conta - e se converte numa camada de roupa a mais.
O meu ar condicionado funciona entre as seguintes temperaturas: 18ºC e 30ºC! Fico imaginando um cenário em que colocar a temperatura do ar condicionado em 30ºC signifique um refresco em relação à temperatura externa. Liguei o meu ar condicionado. Vai que. Marcava 30, mas não esquentava.
No momento, é o forno que está condicionando a temperatura (e o cheiro) da casa: estou fazendo pão.
O Climatempo anunciou que ontem fez 1ºC, o INPE instalado na UFSM afirma que a mínima foi de 3ºC. Seja como for, é frio pacas. A diferença entre 31ºC e 29ºC pode não ser perceptível, mas quando passa de 22ºC pra baixo, cada grau a menos conta - e se converte numa camada de roupa a mais.
O meu ar condicionado funciona entre as seguintes temperaturas: 18ºC e 30ºC! Fico imaginando um cenário em que colocar a temperatura do ar condicionado em 30ºC signifique um refresco em relação à temperatura externa. Liguei o meu ar condicionado. Vai que. Marcava 30, mas não esquentava.
No momento, é o forno que está condicionando a temperatura (e o cheiro) da casa: estou fazendo pão.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Far away so close
Philip completava 32 anos, era preciso comemorar. Liguei o Skype e liguei pro celular dele. A conversa durou exatos 30 segundos. Ele imediatamente reconheceu a minha voz e logo foi dizendo que a conversa teria que ser curta, porque ele estava na Croácia.
Werner me achou no Skype e resolveu colocar a conversa em dia. Tinha se separado da segunda esposa e estava namorando havia 3 semanas. Agora praticava vários esportes e se sentia muito bem. Anunciei que em agosto Luis e eu vamos com a Oma pra Alemanha.
Toca o meu celular. Luis tinha chegado em Belo Horizonte e logo embarcaria no outro avião para Altamira.
Passei o dia todo longe de casa e de noite fui ver um debate sobre a trajetória de Marighella e a ALN por Mário Magalhães (biógrafo do guerrilheiro Carlos Marighella) e Ana Maria Estevão (professora no curso de Serviço Social da Unifesp). Me chamou atenção que a primeira intervenção do público (não foi uma pergunta aos palestrantes) conduziu ao cenário de 27 de janeiro, Boate Kiss.
Quando retornei ao silêncio de casa, Luis me contou por telefone sobre estar de volta na Amazônia e como Altamira (em que está a usina de Belo Monte) não se encaixa na Amazônia.
Werner me achou no Skype e resolveu colocar a conversa em dia. Tinha se separado da segunda esposa e estava namorando havia 3 semanas. Agora praticava vários esportes e se sentia muito bem. Anunciei que em agosto Luis e eu vamos com a Oma pra Alemanha.
Toca o meu celular. Luis tinha chegado em Belo Horizonte e logo embarcaria no outro avião para Altamira.
Passei o dia todo longe de casa e de noite fui ver um debate sobre a trajetória de Marighella e a ALN por Mário Magalhães (biógrafo do guerrilheiro Carlos Marighella) e Ana Maria Estevão (professora no curso de Serviço Social da Unifesp). Me chamou atenção que a primeira intervenção do público (não foi uma pergunta aos palestrantes) conduziu ao cenário de 27 de janeiro, Boate Kiss.
Quando retornei ao silêncio de casa, Luis me contou por telefone sobre estar de volta na Amazônia e como Altamira (em que está a usina de Belo Monte) não se encaixa na Amazônia.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Questão semântica
No Rio de Janeiro chegou uma frente fria.
Aqui estacionou uma massa de ar polar.
No Rio chove.
Aqui as temperaturas despencam pra perto de zero.
Aqui estacionou uma massa de ar polar.
No Rio chove.
Aqui as temperaturas despencam pra perto de zero.
domingo, 5 de maio de 2013
A obra-prima desconhecida
ferhoFren coubus, por dez nosa, arcri breso a late goal que não sefos naspea mau brao de tear (...) moco ãolemaPig, lee goupaa a tear com a tear rapa zerfa de asu tanhisBa não um tojuncon de nossig e de resco, mas a dedaliare tevenvi do use tomensapen e da asu çãonagimai. (a partir de p. 30- 31)
"Na tela, há apenas cores confusamente amontoadas e contidas por uma avalanche de linhas indecifráveis. Todo sentido se dissolveu, todo conteúdo desapareceu, com exceção da ponta de um pé que se destaca do resto da tela (...). A busca de um significado absoluto devorou todo significado para deixar sobreviver apenas signos, formas privadas de sentido. Mas, então, a obra-prima desconhecida não é, ao contrário, a obra-prima da retórica? É o sentido que apagou o signo ou é o signo que aboliu o sentido? Eis o Terrorista colocado em confronto com o paradoxo do Terror. Para sair do mundo evanescente das formas, ele não tem outro meio senão a própria forma; e quanto mais quer apagá-la, tanto mais deve se concentrar nela para torná-la permeável ao indizível que quer exprimir." (p. 31 - 32)
Mas, sanes vatitaten, lee bacaa por se trarconen nas mãos naspea dos nossig que, é dedaver, ramsapas véstraa do bolim do não dotisen, mas que nem por sois são nosme nhostraes ao dotisen que lee aguiseper. (a partir de p. 32).
AGAMBEN, G. O homem sem conteúdo. Tradução de Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.
"Na tela, há apenas cores confusamente amontoadas e contidas por uma avalanche de linhas indecifráveis. Todo sentido se dissolveu, todo conteúdo desapareceu, com exceção da ponta de um pé que se destaca do resto da tela (...). A busca de um significado absoluto devorou todo significado para deixar sobreviver apenas signos, formas privadas de sentido. Mas, então, a obra-prima desconhecida não é, ao contrário, a obra-prima da retórica? É o sentido que apagou o signo ou é o signo que aboliu o sentido? Eis o Terrorista colocado em confronto com o paradoxo do Terror. Para sair do mundo evanescente das formas, ele não tem outro meio senão a própria forma; e quanto mais quer apagá-la, tanto mais deve se concentrar nela para torná-la permeável ao indizível que quer exprimir." (p. 31 - 32)
Mas, sanes vatitaten, lee bacaa por se trarconen nas mãos naspea dos nossig que, é dedaver, ramsapas véstraa do bolim do não dotisen, mas que nem por sois são nosme nhostraes ao dotisen que lee aguiseper. (a partir de p. 32).
AGAMBEN, G. O homem sem conteúdo. Tradução de Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
A bateria
Em março, quando eu estava de férias no Rio, a bateria do meu netbook entrou num vertiginoso processo de falência. Daí parou de acumular energia. Luis e eu fomos nas lojas de informática atrás de bateria, e todo mundo dizia que não tinha, porque esse tipo de bateria sai muito rápido. O que eles podiam fazer era consertar o conector, que estava quebrado, portanto causando mau contato. Resolvido o problema de alimentação do computador, restava trocar a bateria. Voltamos às lojas de informática e voltamos a ouvir que ninguém tinha, que só encomendando. Como eu estava pra voltar a Santa Maria, pedi pra loja encomendar e me mandar por Sedex.
Uma semana depois, escrevi pra loja, perguntando se a encomenda já tinha chegado lá e se podiam me passar o código rastreador no site dos Correios. Nenhuma resposta. Dias depois, liguei. O cara que atendeu lembrava do meu caso e disse que tinha despachado a encomenda. Me mandaria por e-mail o código, pra não gastar muito DDD.
No dia seguinte, chegou o e-mail com um pedido de desculpas: na hora de enviar, foi de PAC e não Sedex e esperavam que isso não me prejudicasse. Passei a acompanhar a bateria que demorou 13 dias para migrar de uma agência carioca para outra, onde ficou mais uma semana para descer a Passo Fundo num dia e chegar a Santa Maria no outro. A primeira tentativa de entrega ocorreu (exatamente um mês depois da compra da bateria) enquanto eu dava aula de manhã. O carteiro deixou aviso de tentativa de entrega, o que me surpreendeu, já que a regra é deixar o bilhete na terceira tentativa.
Tentei resgatar o objeto na agência aqui do Camobi, mas ela estava fechada para o almoço. Em São Paulo, as filas no Correio sempre são maiores justamente na hora do almoço, porque esta é a hora em que as pessoas não trabalham. E aqui a agência fecha na hora do almoço. Meus compromissos não permitiram que eu voltasse à agência naquele dia. E no dia seguinte embarquei num avião para o Rio de Janeiro.
Pelo site dos Correios, acompanhei as duas entregas subsequentes, e quando cheguei em casa depois do feriado, recolhi todos os avisos na caixa do correio. Na manhã seguinte, fui na agência dos correios 3 minutos depois de ela abrir. Na fila contei 6 pessoas. Decidi ficar na fila porque logo percebi que ela tinha uma dinâmica rápida: quase todos estavam ali para buscar pacotes.
Encaixei a bateria no netbook e observei as luzinhas. A luz da bateria acendeu de relance, logo apagou. O ícone da bateria na barra inferior da tela continuava acusando ausência de bateria - apesar do texto dizer: "conectada, carregando". Ficou assim por 5 horas. Tirei o cabo de energia. O computador não desligou. A bateria funciona, mas por "tempo restante desconhecido". Pena que o meu computador não reconhece a bateria que fez essa viagem de aventura e demorou tanto tempo pra chegar. Acho que vou chamar o meu netbook de Penélope...
Uma semana depois, escrevi pra loja, perguntando se a encomenda já tinha chegado lá e se podiam me passar o código rastreador no site dos Correios. Nenhuma resposta. Dias depois, liguei. O cara que atendeu lembrava do meu caso e disse que tinha despachado a encomenda. Me mandaria por e-mail o código, pra não gastar muito DDD.
No dia seguinte, chegou o e-mail com um pedido de desculpas: na hora de enviar, foi de PAC e não Sedex e esperavam que isso não me prejudicasse. Passei a acompanhar a bateria que demorou 13 dias para migrar de uma agência carioca para outra, onde ficou mais uma semana para descer a Passo Fundo num dia e chegar a Santa Maria no outro. A primeira tentativa de entrega ocorreu (exatamente um mês depois da compra da bateria) enquanto eu dava aula de manhã. O carteiro deixou aviso de tentativa de entrega, o que me surpreendeu, já que a regra é deixar o bilhete na terceira tentativa.
Tentei resgatar o objeto na agência aqui do Camobi, mas ela estava fechada para o almoço. Em São Paulo, as filas no Correio sempre são maiores justamente na hora do almoço, porque esta é a hora em que as pessoas não trabalham. E aqui a agência fecha na hora do almoço. Meus compromissos não permitiram que eu voltasse à agência naquele dia. E no dia seguinte embarquei num avião para o Rio de Janeiro.
Pelo site dos Correios, acompanhei as duas entregas subsequentes, e quando cheguei em casa depois do feriado, recolhi todos os avisos na caixa do correio. Na manhã seguinte, fui na agência dos correios 3 minutos depois de ela abrir. Na fila contei 6 pessoas. Decidi ficar na fila porque logo percebi que ela tinha uma dinâmica rápida: quase todos estavam ali para buscar pacotes.
Encaixei a bateria no netbook e observei as luzinhas. A luz da bateria acendeu de relance, logo apagou. O ícone da bateria na barra inferior da tela continuava acusando ausência de bateria - apesar do texto dizer: "conectada, carregando". Ficou assim por 5 horas. Tirei o cabo de energia. O computador não desligou. A bateria funciona, mas por "tempo restante desconhecido". Pena que o meu computador não reconhece a bateria que fez essa viagem de aventura e demorou tanto tempo pra chegar. Acho que vou chamar o meu netbook de Penélope...
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Frio
Faz frio aqui. Faz muito tempo que eu não sentia frio. Ando agasalhada em mangas longas faz mais de semana. Quase não vejo meus braços e pernas. Contra a pele ressecada, tenho cremes e contra a insônia tenho cobertores e meias de lã. Mas e a memória de temperaturas mais amenas? Não lembro do que é sentir calor, usar roupas curtas, suar e reclamar do sol.
Meu pé direito dói. Faz anos que eu não sentia dor no pé. E agora os sete parafusos de titânio reclamam da baixa temperatura. Ainda não estou mancando de dor. O inverno ainda não chegou.
Ontem fui no supermercado às 4 da tarde e trouxe um frango congelado. Botei na bacia e em cima da pia. Cinco horas depois, estranhei que não havia juntado água na bacia. O frango continuava congelado.
Espero muito que Luis passe o inverno comigo, porque o frio sem ele me parece maior.
Meu pé direito dói. Faz anos que eu não sentia dor no pé. E agora os sete parafusos de titânio reclamam da baixa temperatura. Ainda não estou mancando de dor. O inverno ainda não chegou.
Ontem fui no supermercado às 4 da tarde e trouxe um frango congelado. Botei na bacia e em cima da pia. Cinco horas depois, estranhei que não havia juntado água na bacia. O frango continuava congelado.
Espero muito que Luis passe o inverno comigo, porque o frio sem ele me parece maior.
domingo, 21 de abril de 2013
Saberemos se mentes?
Nas nossas andanças de bicicleta pela região, pedalamos por estradinhas de terra e sempre voltamos pra casa com frutas colhidas pelo caminho. As bergamotas e os limões cravo colhidos na última excursão continham uma quantidade surpreendente de sementes. Cheguei a ouvir a frase: "De agora em diante, só consumirei limões com sementes". Semente é vida - e garantia de ausência de transgênicos.
Como pode ser conferido no documentário Sementes da Liberdade (2012) feito pela Gaia Foundation em homenagem a José Lutzenberger, houve um momento na história (mais precisamente em 1995) em que foi inaugurada a possibilidade de se patentear microorganismos ou processos microbiológicos. A Monsanto patenteou sementes geneticamente modificadas para resistirem a um pesticida que mata tudo, exceto essa semente geneticamente modificada. Vandana Shiva fala de um 'casamento' entre a semente e o pesticida.
Em outro documentário, O mundo segundo a Monsanto (2008), de Marie-Monique Robin, a mesma Vandana Shiva explica que a diferença entre a Primeira e a Segunda Revolução Verde é que na primeira, o setor público dirigia a "missão de alimentar o mundo faminto" e estabelecia os critérios de segurança alimentar, ao passo que na segunda, uma única empresa assumiu esse papel. A diferença é apenas uma questão de gradação, porque as pessoas que pressionavam o governo a agir eram pessoas ligadas à empresa ou as duas coisas, como o caso do elaborador da regulamentação do FDA que foi o vice-presidente da Monsanto. Público e privado se misturam a ponto do setor privado determinar as ações do poder público em nome da economia, do crescimento e progresso.
A questão não é escassez de alimentos no mundo. Sabemos que é produzido um excesso de alimentos - que não chegam aos que morrem de fome. Ecoando a fala de Virgínia Fontes no Seminário Marx: Criação destruidora, traço o paralelo: A crise atual na Europa não se dá em tempos de miséria e penúria, mas no auge do consumismo. A lógica da acumulação de capital cria essas discrepâncias entre o pornograficamente excessivo e o vergonhosamente ausente.
A centralização de sementes na Monsanto se dá através da patente: para se precaver contra o estoque de sementes por parte do pequeno agricultor, a Monsanto vende suas sementes mediante assinatura de um contrato em que o agricultor se compromete a não guardar sementes, nem distribuí-las. Via de regra, as sementes criadas e comercializadas pela Monsanto são inférteis, ou seja, geram plantas que não desenvolvem novas sementes. E quando dão sementes, a segunda ou terceira geração não dá frutos. Como a relação entre a Monsanto e o agricultor se dá pela via do contrato (e quem compra semente é obrigado a comprar o pesticida específico pra semente junto), o surgimento de plantas geneticamente modificadas em plantações de agricultores que não compraram as sementes da Monsanto significam apropriação indevida.
Assim a Monsanto passou a controlar plantações de agricultores que não tinham controle sobre a contaminação de suas plantações por plantações de transgênicos de vizinhos. Seja por que via for (pólens no ar, sementes carregadas por animais de uma plantação a outra, água do lençol freático etc.), apareciam plantas transgênicas em plantações de agricultores que desde sempre usavam sementes nativas (crioulas). Foram considerados culpados. E assim se quebra as pernas do pequeno agricultor.
O agronegócio envolve tecnologia. Por envolver tecnologia para exploração dos recursos naturais, tem recebido incentivos financeiros enormes - que por sua vez justificam ajustes jurídicos às necessidades desse setor tão produtivo. O aumento da produção para exportação "para saciar a fome do mundo" anda junto com o aumento do uso de produtos químicos nocivos (agrotóxicos, hormônios, antibióticos etc.) que causam doenças e destroem o meio ambiente.
A destruição do meio ambiente não se dá apenas no nível da poluição, mas na eliminação da biodiversidade. Sementes têm um tempo de validade. Se não forem plantadas antes do fim desse tempo, não germinam. Quando os agricultores são seduzidos pelo sonho da alta produtividade e plantam sementes estéreis ao invés de sementes nativas, as sementes indígenas se perdem junto com a tradição. Quanto menos diverso, mais vulnerável se fica.
No documentário O veneno está na mesa (2011) de Sílvio Tendler, vislumbramos outras estratégias da empresa de transgênicos e pesticidas casados para firmar posição. Quando o agricultor vai pedir empréstimo ao banco, se vê obrigado a comprar sementes transgênicas e todos os produtos que a acompanham. Se não, o banco não libera o dinheiro. E quando os agricultores morrem contaminados, são culpados pela empresa de usar mal o defensivo agrícola. E a empresa se defende prometendo ensinar a aplicar o veneno.
A última estratégia da Monsanto para dominar o setor alimentar através da exclusividade das sementes transgênicas é descreditando os cientistas que provam que seus produtos são tóxicos, pouco seguros e ecologicamente insustentáveis. Manipulação genética é ciência do tipo que não se faz em casa. É preciso acreditar em quem tem as condições e os meios para realizar pesquisas desse naipe. Faltar com a verdade ou manipular dados para obter resultados que sustentam interesses privados é tão antiético como roubar sementes.
Como pode ser conferido no documentário Sementes da Liberdade (2012) feito pela Gaia Foundation em homenagem a José Lutzenberger, houve um momento na história (mais precisamente em 1995) em que foi inaugurada a possibilidade de se patentear microorganismos ou processos microbiológicos. A Monsanto patenteou sementes geneticamente modificadas para resistirem a um pesticida que mata tudo, exceto essa semente geneticamente modificada. Vandana Shiva fala de um 'casamento' entre a semente e o pesticida.
Em outro documentário, O mundo segundo a Monsanto (2008), de Marie-Monique Robin, a mesma Vandana Shiva explica que a diferença entre a Primeira e a Segunda Revolução Verde é que na primeira, o setor público dirigia a "missão de alimentar o mundo faminto" e estabelecia os critérios de segurança alimentar, ao passo que na segunda, uma única empresa assumiu esse papel. A diferença é apenas uma questão de gradação, porque as pessoas que pressionavam o governo a agir eram pessoas ligadas à empresa ou as duas coisas, como o caso do elaborador da regulamentação do FDA que foi o vice-presidente da Monsanto. Público e privado se misturam a ponto do setor privado determinar as ações do poder público em nome da economia, do crescimento e progresso.
A questão não é escassez de alimentos no mundo. Sabemos que é produzido um excesso de alimentos - que não chegam aos que morrem de fome. Ecoando a fala de Virgínia Fontes no Seminário Marx: Criação destruidora, traço o paralelo: A crise atual na Europa não se dá em tempos de miséria e penúria, mas no auge do consumismo. A lógica da acumulação de capital cria essas discrepâncias entre o pornograficamente excessivo e o vergonhosamente ausente.
A centralização de sementes na Monsanto se dá através da patente: para se precaver contra o estoque de sementes por parte do pequeno agricultor, a Monsanto vende suas sementes mediante assinatura de um contrato em que o agricultor se compromete a não guardar sementes, nem distribuí-las. Via de regra, as sementes criadas e comercializadas pela Monsanto são inférteis, ou seja, geram plantas que não desenvolvem novas sementes. E quando dão sementes, a segunda ou terceira geração não dá frutos. Como a relação entre a Monsanto e o agricultor se dá pela via do contrato (e quem compra semente é obrigado a comprar o pesticida específico pra semente junto), o surgimento de plantas geneticamente modificadas em plantações de agricultores que não compraram as sementes da Monsanto significam apropriação indevida.
Assim a Monsanto passou a controlar plantações de agricultores que não tinham controle sobre a contaminação de suas plantações por plantações de transgênicos de vizinhos. Seja por que via for (pólens no ar, sementes carregadas por animais de uma plantação a outra, água do lençol freático etc.), apareciam plantas transgênicas em plantações de agricultores que desde sempre usavam sementes nativas (crioulas). Foram considerados culpados. E assim se quebra as pernas do pequeno agricultor.
O agronegócio envolve tecnologia. Por envolver tecnologia para exploração dos recursos naturais, tem recebido incentivos financeiros enormes - que por sua vez justificam ajustes jurídicos às necessidades desse setor tão produtivo. O aumento da produção para exportação "para saciar a fome do mundo" anda junto com o aumento do uso de produtos químicos nocivos (agrotóxicos, hormônios, antibióticos etc.) que causam doenças e destroem o meio ambiente.
A destruição do meio ambiente não se dá apenas no nível da poluição, mas na eliminação da biodiversidade. Sementes têm um tempo de validade. Se não forem plantadas antes do fim desse tempo, não germinam. Quando os agricultores são seduzidos pelo sonho da alta produtividade e plantam sementes estéreis ao invés de sementes nativas, as sementes indígenas se perdem junto com a tradição. Quanto menos diverso, mais vulnerável se fica.
No documentário O veneno está na mesa (2011) de Sílvio Tendler, vislumbramos outras estratégias da empresa de transgênicos e pesticidas casados para firmar posição. Quando o agricultor vai pedir empréstimo ao banco, se vê obrigado a comprar sementes transgênicas e todos os produtos que a acompanham. Se não, o banco não libera o dinheiro. E quando os agricultores morrem contaminados, são culpados pela empresa de usar mal o defensivo agrícola. E a empresa se defende prometendo ensinar a aplicar o veneno.
A última estratégia da Monsanto para dominar o setor alimentar através da exclusividade das sementes transgênicas é descreditando os cientistas que provam que seus produtos são tóxicos, pouco seguros e ecologicamente insustentáveis. Manipulação genética é ciência do tipo que não se faz em casa. É preciso acreditar em quem tem as condições e os meios para realizar pesquisas desse naipe. Faltar com a verdade ou manipular dados para obter resultados que sustentam interesses privados é tão antiético como roubar sementes.
domingo, 14 de abril de 2013
Quem é afásico aqui?
Desde o início do ano, participo de grupo de convivência de afásicos na UFSM, coordenado pela Elenir. Além dos sujeitos com afasia e seus familiares, participam dos encontros (no sentido de planejar e executar atividades) alunas de Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional. De linguista tem eu; as outras são terapeutas. Enquanto eu olho pras soluções comunicativas dos sujeitos afásicos, elas olham pros déficits deles para que elas possam classificá-los e pensar em soluções.
Ficamos assombradas quando o sujeito diz 'múmia' em vez de 'pirâmide', mas as nossas parafasias viram motivo de piada: depois de uma dessas longas reuniões, uma aluna chegou pra Elenir pra combinar detalhes referentes ao congresso em Pato Branco. Pato Branco? É Porto de Galinhas!
Outra manifestação afásica é a incompreensão de piadas, por exemplo, que no IEL rendeu teses e dissertações. Lá foi coletado um dado do tipo: "Feliz o Adão, que não teve sogra" - ao que o sujeito afásico reagiu: "Por que? Ele não casou?"
Na reunião passada, uma das atividades envolvia receitas culinárias. Caiu uma receita na minha mão, que eu tinha que ler em voz alta. Na lista dos ingredientes tinha lá '3 ovos inteiros'. Em outro tom de voz, perguntei se era com a casca (dos ovos inteiros). E não é que a aluna de Fono me explica com toda a paciência do mundo que 'ovo inteiro' significa gema + clara?
Lembro da Christine definindo criança a partir da observação dos próprios filhos: "Eles fazem tudo que a gente faz, só que quando eles fazem, fica engraçado." Quando a gente erra, fica engraçado; quando os afásicos falam, tudo vira dado.
Ficamos assombradas quando o sujeito diz 'múmia' em vez de 'pirâmide', mas as nossas parafasias viram motivo de piada: depois de uma dessas longas reuniões, uma aluna chegou pra Elenir pra combinar detalhes referentes ao congresso em Pato Branco. Pato Branco? É Porto de Galinhas!
Outra manifestação afásica é a incompreensão de piadas, por exemplo, que no IEL rendeu teses e dissertações. Lá foi coletado um dado do tipo: "Feliz o Adão, que não teve sogra" - ao que o sujeito afásico reagiu: "Por que? Ele não casou?"
Na reunião passada, uma das atividades envolvia receitas culinárias. Caiu uma receita na minha mão, que eu tinha que ler em voz alta. Na lista dos ingredientes tinha lá '3 ovos inteiros'. Em outro tom de voz, perguntei se era com a casca (dos ovos inteiros). E não é que a aluna de Fono me explica com toda a paciência do mundo que 'ovo inteiro' significa gema + clara?
Lembro da Christine definindo criança a partir da observação dos próprios filhos: "Eles fazem tudo que a gente faz, só que quando eles fazem, fica engraçado." Quando a gente erra, fica engraçado; quando os afásicos falam, tudo vira dado.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Os cicloativistas
Saí do estado de São Paulo em 2009, ano em que deixei de participar da agenda cicloativista. De lá fui pra Porto Velho e Santa Maria, dois lugares em que não encontrei outro cicloativista.
Desde então não me reuni mais com pessoas preocupadas em divulgar a bicicleta enquanto meio de transporte e as regras de trânsito que a concernem (tanto para motorizados como para não-motorizados). No meu círculo, essas pessoas eram ligadas ao Cicloviável, o grupo que tínhamos em Campinas. Pra mim, esse grupo foi uma plataforma de discussão sobre mobilidade urbana. Outra forma de ativismo que encontrei na época foi a bicicletada paulista. Logo percebi que muitos dos participantes da bicicletada produziam, na internet, material sobre a bicicleta enquanto meio de transporte.
O meu cicloativismo sem os outros se resume ao uso da bicicleta. Decidi que não quero ter um carro (assim como não quero ter uma televisão) porque não quero me tornar dependente dele. Simples assim. Usar um carro implica em custos (gasolina, manutenção, IPVA, licenciamento, estacionamento etc.), poluição do ar, maior ocupação da via pública por um bem privado (o que se mostra grave nos engarrafamentos) e stress. A responsabilidade pela vida do outro é maior quando se dirige um veículo motorizado.
Não é fácil entender esse cicloativismo. É a terceira vez que alguém diferente no meu prédio toca a campainha da minha casa perguntando se eu uso a minha garagem. As pessoas olham pra minha vaga e concluem que ela está livre, já que ela está ocupada por três bicicletas aparentemente invisíveis. Na verdade, agora são cinco, porque dois outros moradores resolveram abrigar suas bicicletas na minha vaga espaçosa.
Os cicloativistas de hoje são pessoas que decidiram não usar carro. E isso é difícil de entender numa sociedade em que é natural que todos tenham carro. A oferta gera demanda: a casa prototípica vem com a garagem, as ruas são asfaltadas e largas para acolherem carros, é possível adquirir um carro mesmo sem ter dinheiro para pagá-lo.
Os cicloativistas de hoje são de classe média, ou seja, poderiam ter um carro. Ao invés disso, usam a bicicleta e, através do exemplo, esperam gerar demanda por infraestrutura para a bicicleta como meio de transporte seguro na cidade. Alguns deles não esperam, vão lá e dialogam com o poder público, marcam entrevista com o prefeito às 6 da manhã. Renata Falzoni relata sobre essa entrevista aqui.
Os cicloativistas de hoje são indivíduos (agindo de variadas maneiras, pensando por escrito em seus blogs). Não necessariamente fazem parte de um coletivo, muito menos sob a liderança de qualquer guru. Em 2009, me debati muito com o tema da horizontalidade na bicicletada paulista. Dionizio e eu não acreditávamos nessa horizontalidade e desconfiávamos que havia (não um líder, mas) um grupo que direcionava a massa crítica. No podcast acima citado (e indicado pelo Dionizio), Renata Falzoni confirma nossas hipóteses: "Esse movimento, que é horizontal, até sem a minha aprovação - mas quem sou eu pra aprovar".
Por fim, os cicloativistas de hoje não querem ser identificados como esportistas. Recentemente li um texto de uma professora do IEL em que ela critica o encantamento dos ciclistas com o movimento Cycle Chic, que consiste em usar roupas "chiques" quando se pedala. Sabendo da multiplicidade de cicloativistas e sabendo que a autora do texto desconhece o movimento, vejo o cicloativista entre os dois extremos: nem esportista, nem de terno e gravata ou salto alto, mas de acordo com a ocasião. A bicicleta é meio de transporte, então, se o caminho leva ao parque, roupas esportivas são adequadas; se o caminho leva ao trabalho, roupas de trabalho são adequadas.
Desde então não me reuni mais com pessoas preocupadas em divulgar a bicicleta enquanto meio de transporte e as regras de trânsito que a concernem (tanto para motorizados como para não-motorizados). No meu círculo, essas pessoas eram ligadas ao Cicloviável, o grupo que tínhamos em Campinas. Pra mim, esse grupo foi uma plataforma de discussão sobre mobilidade urbana. Outra forma de ativismo que encontrei na época foi a bicicletada paulista. Logo percebi que muitos dos participantes da bicicletada produziam, na internet, material sobre a bicicleta enquanto meio de transporte.
O meu cicloativismo sem os outros se resume ao uso da bicicleta. Decidi que não quero ter um carro (assim como não quero ter uma televisão) porque não quero me tornar dependente dele. Simples assim. Usar um carro implica em custos (gasolina, manutenção, IPVA, licenciamento, estacionamento etc.), poluição do ar, maior ocupação da via pública por um bem privado (o que se mostra grave nos engarrafamentos) e stress. A responsabilidade pela vida do outro é maior quando se dirige um veículo motorizado.
Não é fácil entender esse cicloativismo. É a terceira vez que alguém diferente no meu prédio toca a campainha da minha casa perguntando se eu uso a minha garagem. As pessoas olham pra minha vaga e concluem que ela está livre, já que ela está ocupada por três bicicletas aparentemente invisíveis. Na verdade, agora são cinco, porque dois outros moradores resolveram abrigar suas bicicletas na minha vaga espaçosa.
Os cicloativistas de hoje são pessoas que decidiram não usar carro. E isso é difícil de entender numa sociedade em que é natural que todos tenham carro. A oferta gera demanda: a casa prototípica vem com a garagem, as ruas são asfaltadas e largas para acolherem carros, é possível adquirir um carro mesmo sem ter dinheiro para pagá-lo.
Os cicloativistas de hoje são de classe média, ou seja, poderiam ter um carro. Ao invés disso, usam a bicicleta e, através do exemplo, esperam gerar demanda por infraestrutura para a bicicleta como meio de transporte seguro na cidade. Alguns deles não esperam, vão lá e dialogam com o poder público, marcam entrevista com o prefeito às 6 da manhã. Renata Falzoni relata sobre essa entrevista aqui.
Os cicloativistas de hoje são indivíduos (agindo de variadas maneiras, pensando por escrito em seus blogs). Não necessariamente fazem parte de um coletivo, muito menos sob a liderança de qualquer guru. Em 2009, me debati muito com o tema da horizontalidade na bicicletada paulista. Dionizio e eu não acreditávamos nessa horizontalidade e desconfiávamos que havia (não um líder, mas) um grupo que direcionava a massa crítica. No podcast acima citado (e indicado pelo Dionizio), Renata Falzoni confirma nossas hipóteses: "Esse movimento, que é horizontal, até sem a minha aprovação - mas quem sou eu pra aprovar".
Por fim, os cicloativistas de hoje não querem ser identificados como esportistas. Recentemente li um texto de uma professora do IEL em que ela critica o encantamento dos ciclistas com o movimento Cycle Chic, que consiste em usar roupas "chiques" quando se pedala. Sabendo da multiplicidade de cicloativistas e sabendo que a autora do texto desconhece o movimento, vejo o cicloativista entre os dois extremos: nem esportista, nem de terno e gravata ou salto alto, mas de acordo com a ocasião. A bicicleta é meio de transporte, então, se o caminho leva ao parque, roupas esportivas são adequadas; se o caminho leva ao trabalho, roupas de trabalho são adequadas.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Acabou em pizza
Objetivamente falando, eu sei que pizza boa se come em São Paulo; mas é claro que isso é subjetivo. Pois o fato é que a geladeira tava tão vazia e a chuva tão fria, que recorri a um dos panfletos de tele-entrega de pizza no Camobi. Escolhi aquele que tinha as cores menos gritantes, as letras menos garrafais e o papel menos brilhante. Vi que eles tinham opções de combos (com refrigerante, com sobremesa, com sei lá o que), mas não estudei nenhuma delas, afinal de contas eu queria pedir uma pizza.
Liguei. O sabor que eu queria não tinha, porque o abacaxi tinha acabado e era possível que o rapaz não voltasse a tempo, já que a encomenda era grande e tava chovendo. Escolhi outro sabor; a outra metade era de tomate seco com rúcula. Achei o valor meio salgado, mas na verdade o quilo justo se comparado com os preços de São Paulo.
Ouvi a buzina, abri a janela, vi um vulto e uma moto, abri a porta, cheguei no portão e vi que o cara equilibrava um bujão de gás no ombro.
- Eita, eu pedi pizza, não gás.
- Ah, moça - frustrado por fazer força à toa, ele depositou o butijão no chão.
O moço achou quem abrisse a porta pra ele, eu voltei pra dentro de casa. Em seguida, tocou a campainha. Duas motos, um vulto de mochila quadrada e o portão aberto.
A primeira coisa que o rapaz tirou da mochila quadrada foi uma garrafa de Coca-Cola. Não pedi refrigerante. A segunda coisa que ele tirou do isopor fumegante foi uma pizza gigante. Não pedi gigante. A terceira coisa - me dou conta agora - que ele deveria ter tirado da bolsa quadrada é o saquinho de rúcula; mas a pizza veio sem nada de verde.
Entendi que nessa pizzaria, eles funcionam em piloto automático - e o que a gente pede, não interfere muito na vida deles. Justiça seja feita: a pizza estava ótima, pena que o que sobrou não cabe na geladeira (e só amassando muito, coube no forno. Ainda bem que está frio).
Liguei. O sabor que eu queria não tinha, porque o abacaxi tinha acabado e era possível que o rapaz não voltasse a tempo, já que a encomenda era grande e tava chovendo. Escolhi outro sabor; a outra metade era de tomate seco com rúcula. Achei o valor meio salgado, mas na verdade o quilo justo se comparado com os preços de São Paulo.
Ouvi a buzina, abri a janela, vi um vulto e uma moto, abri a porta, cheguei no portão e vi que o cara equilibrava um bujão de gás no ombro.
- Eita, eu pedi pizza, não gás.
- Ah, moça - frustrado por fazer força à toa, ele depositou o butijão no chão.
O moço achou quem abrisse a porta pra ele, eu voltei pra dentro de casa. Em seguida, tocou a campainha. Duas motos, um vulto de mochila quadrada e o portão aberto.
A primeira coisa que o rapaz tirou da mochila quadrada foi uma garrafa de Coca-Cola. Não pedi refrigerante. A segunda coisa que ele tirou do isopor fumegante foi uma pizza gigante. Não pedi gigante. A terceira coisa - me dou conta agora - que ele deveria ter tirado da bolsa quadrada é o saquinho de rúcula; mas a pizza veio sem nada de verde.
Entendi que nessa pizzaria, eles funcionam em piloto automático - e o que a gente pede, não interfere muito na vida deles. Justiça seja feita: a pizza estava ótima, pena que o que sobrou não cabe na geladeira (e só amassando muito, coube no forno. Ainda bem que está frio).
domingo, 31 de março de 2013
Voltando pra casa depois das férias
Quando girei a chave trancando a porta de casa pela última vez antes de viajar, todo o meu apartamento deixou de existir. As plantas, o gás desligado, os plugs retirados das tomadas, as janelas fechadas e a poeira sumiram da minha mente por um mês inteiro. Meu pensamento estava com o Luis, com quem eu passaria as minhas férias.
Demorei pra voltar: primeiro taxi, depois avião de manhã, seguidos de ônibus e trem e uma longa viagem de ônibus de 4 horas da capital até o coração do Rio Grande do Sul. Voltei a me sentir em casa mesmo antes de entrar na minha rua: a cachorrada me saudava como se eu fosse uma intrusa.
No começo, a minha casa, que foi o meu lar por alguns meses, não foi automaticamente substituída pela morada em que havia passado o último mês. Achei ótimo que fosse no térreo e não no último andar. Estranhei a temperatura fresca e o cheiro, olhei pras plantas contabilizando cadáveres. Deixei que a máquina de lavar roupa embalasse o meu sono na melhor cama do mundo. Colchão escolhido a dedo e pago em prestações pelo meu quase-marido que ficou no Rio e deixou um vazio ao meu lado. Luis volta a existir no telefone, e-mail e Skype. Ainda bem que é por pouco tempo.
De manhã, procurei a cafeteira na cozinha. Opa, não é assim que eu faço café aqui. Aqui eu esquento a água na chaleira e coloco o porta-filtro com o filtro cheio de pó sobre a minha xícara azul. Fui ver o que tinha na caixa do correio. Muita coisa. O mais surpreendente, todavia, foi o valor da conta de luz: R$ 0,00. É verdade. Como passei o mês fora, os gastos gerados (R$ 9,79) foram baixos. E por serem inferiores a R$13,00, foram jogados pra fatura do mês que vem. Pois é, sempre assombrei as pessoas com os baixos valores das minhas contas de luz...
No dia da mentira, volto pra sala de aula. As férias foram tão boas, que dá preguiça de voltar pra rotina.
Demorei pra voltar: primeiro taxi, depois avião de manhã, seguidos de ônibus e trem e uma longa viagem de ônibus de 4 horas da capital até o coração do Rio Grande do Sul. Voltei a me sentir em casa mesmo antes de entrar na minha rua: a cachorrada me saudava como se eu fosse uma intrusa.
No começo, a minha casa, que foi o meu lar por alguns meses, não foi automaticamente substituída pela morada em que havia passado o último mês. Achei ótimo que fosse no térreo e não no último andar. Estranhei a temperatura fresca e o cheiro, olhei pras plantas contabilizando cadáveres. Deixei que a máquina de lavar roupa embalasse o meu sono na melhor cama do mundo. Colchão escolhido a dedo e pago em prestações pelo meu quase-marido que ficou no Rio e deixou um vazio ao meu lado. Luis volta a existir no telefone, e-mail e Skype. Ainda bem que é por pouco tempo.
De manhã, procurei a cafeteira na cozinha. Opa, não é assim que eu faço café aqui. Aqui eu esquento a água na chaleira e coloco o porta-filtro com o filtro cheio de pó sobre a minha xícara azul. Fui ver o que tinha na caixa do correio. Muita coisa. O mais surpreendente, todavia, foi o valor da conta de luz: R$ 0,00. É verdade. Como passei o mês fora, os gastos gerados (R$ 9,79) foram baixos. E por serem inferiores a R$13,00, foram jogados pra fatura do mês que vem. Pois é, sempre assombrei as pessoas com os baixos valores das minhas contas de luz...
No dia da mentira, volto pra sala de aula. As férias foram tão boas, que dá preguiça de voltar pra rotina.
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