quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Documentário para os ouvidos


Descobri, meio que por acaso (dirigido), uma excelente fonte de documentários sonoros sobre grandes figuras da música brasileira. Em doses homeopáticas e ao longo de muitos dias, ouvi a ópera para os ouvidos que é o documentário sobre Jorge Ben Jor.

Muitas pessoas batutas são entrevistadas, são resgatadas histórias pontuais e panos de fundo gerais. Enfim, aprendi tanto sobre o artista e sua música como sobre a música (o pensamento musical).

A Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, oferece também outros documentários (Luiz Gonzaga, João Gilberto e Noel Rosa estão ao lado de Jorge Ben Jor). Pretendo ouvi-los todos na rede.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Caminhada branca

Confesso que me surpreendi quando encostei no balcão de passagens em Porto Alegre e a moça atrás do vidro me vendeu uma passagem pra Santa Maria dali a 10 minutos. Isso significava que, no dia depois da tragédia, o fluxo já não era mais em direção a Santa Maria.

Quando desci do ônibus em Camobi (bairro em que fica a UFSM e que fica a 10km da cidade), o silêncio me assustou. Cheguei a pensar que de agora em diante havia um acordo tácito de que era proibido rir, fazer barulho, cantar.

De noite havia uma caminhada marcada pra sair da praça Saldanha Marinho no centro e chegar no ginásio onde os corpos tinham sido velados. Não era pra levar velas, mas era pra vestir branco. No ônibus que peguei no Camobi quase todos estavam de branco. Aliviada, reparei que a alegria não tinha morrido. Os que estavam de branco desceram todos no mesmo ponto, subiram todos a mesma rua e se juntaram todos na mesma praça.

Na praça havia um mar de gente. Conversavam pouco. O máximo que saía era um "e aí" que obtinha como resposta outro "e aí" na mesma entonação. Registrei mais abraços e olhares tristes do que conversas, bandeiras, cartazes e protestos. Ondas de palmas vinham e se iam; não sei o que aplaudiam. Balões brancos foram soltos, mas eles voltavam e estouravam. Ouvi murmúrios diluídos do Pai Nosso e  ouvi como cantavam (mais de uma vez) o hino gaúcho com fervor:

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

A massa branca se pôs em movimento. No trajeto, reparei que havia pouca gente nas janelas. Isso me deu a sensação de que a cidade inteira estava de branco e na rua. A massa branca caminhou até o ginásio. Lá de dentro ouvimos gritos e palmas. A massa respondeu e dispersou. Não caberia todo mundo dentro do ginásio e não era o propósito incomodar os remanescentes com a nossa presença.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A tragédia de Santa Maria

Fiquei sabendo da notícia pelo rádio. Na manhã de domingo, o delegado (ou bombeiro?) entrevistado anunciava cerca de 30 mortos. Comentava com calma que seria feita uma perícia e que ele ainda não podia divulgar números antes das investigações. Ao longo da manhã, o número de vítimas aumentava drasticamente.

Minha mãe ligou no meu celular lá de Bruchhausen-Vilsen, minha tia e vó me ligaram pra confirmar que eu não frequento boates. Todos os familiares ficaram aliviados quando disse que estava passando o fim de semana no Rio de Janeiro.

Os programas de TV (vimos Globo Esporte, um rabinho do Faustão e o início do Fantástico) que acompanhei nas horas de refeição com o Luis - que também não tem televisão - incorporavam notícias sobre a tragédia de Santa Maria em sua programação. O Fantástico foi quase todo sobre a tragédia de Santa Maria. Dilma largou tudo no Chile e foi a Santa Maria. Essa tragédia alimentou a mídia por um dia inteiro. E as pessoas consumiam os números crescentes de mortos, comentavam a notícia e se indignavam dentro e fora do país: recebi e-mails de amigos em Rondônia, Paraíba, Campinas e Holanda. Todos pediam notícias e adivinhavam que talvez algumas das vítimas tenham sido meus alunos. Não eram: li as listas, não reconheci os nomes.

Na tarde do domingo, a UFSM decretou luto por 3 dias. No fim do dia, divulgou uma lista de 114 vítimas fatais do incêndio que eram alunos da universidade. Em seguida, o luto foi estendido até 4 de fevereiro (o que implica em novas alterações no calendário acadêmico).

Todas as notícias apontavam como a sequência de erros, falhas e faltas de entendimento/orientação na boate tinha sido assustadora. No rádio, ouvimos que os seguranças impediram a saída dos jovens por 8 minutos, com a alegação de que tinham que pagar a conta antes de sair. Fica evidente que os seguranças não foram treinados para lidar com situações de emergência, apenas com pessoas que tentam consumir sem pagar. No Fantástico, ouvimos o especialista dizer que as pessoas devem ter morrido asfixiadas em 4, 5 no máximo 6 minutos.

Muitos morreram amontoados na região dos banheiros, provavelmente procurando uma saída alternativa (banheiros costumam ter janelas). Oferecer apenas uma saída para uma capacidade de 1.500 pessoas me parece criminoso. Os primeiros extintores usados para apagar as chamas no teto de isopor não funcionaram. Li no jornal (que ofereceram no avião do Rio a Porto Alegre) que o alvará da boate tinha vencido, mas que estavam providenciando um novo. Mesmo assim, o papel não resolve: é preciso que o alvará corresponda a condições reais de segurança. Não adianta ter alvará para um estabelecimento que só tem uma porta e extintores vencidos. Lembro do laudo de vistoria técnica dos bombeiros quando inspecionaram as condições de segurança na UNIR. As irregularidades eram tantas, que os bombeiros concluíam que a vida das pessoas e a integridade do patrimônio da universidade estavam em risco. No entanto, não interditaram a UNIR. Adianta ter alvará? Nem o laudo dos bombeiros nos adiantou.

Quando vi as imagens das pessoas abrindo as paredes com marretas, reparei que os homens estavam sem camiseta. Logo imaginei que teriam morrido mais mulheres do que homens na boate, porque duvidei que as mulheres tenham tirado suas blusas para criar uma espécie de filtro e assim inalar menos fumaça tóxica. Os números de homens e mulheres mortos são semelhantes, invalidando a minha hipótese. E ouvi no rádio, no caminho da casa do Luis ao aeroporto, que botar a camiseta na frente do nariz e boca alivia, mas não salva. Além de quente, a fumaça era altamente tóxica.

A banda era conhecida por seus efeitos pirotécnicos. E provavelmente a banda costumava se apresentar em lugares abertos. Não ser capaz de se adaptar à nova situação de boate fechada com teto baixo e cheio de revestimento acústico me parece se enquadrar numa espécie de darwinismo cruel: adapt or die.

Me chamou atenção que a notícia da tragédia e suas primeiras imagens tenham sido veiculadas pela internet (arrisco adivinhar: Facebook). Esse público está profundamente imerso no mundo digital/ virtual. Ouvi depoimentos de que durante a retirada dos corpos, o som dos celulares tocando era atordoante. Li no jornal o depoimento de uma mãe que ligou pro celular do filho. Quem atendeu foi um policial que informou que o rapaz estava morto. Pareceu tão irreal, que demorou pra mulher entender.

É preciso aprender com os erros. Como era possível uma casa noturna funcionar com apenas uma porta, pela qual entram até 1.500 pessoas? Como era possível os seguranças não entenderem a gravidade da situação e se escorarem no famoso "ordens são ordens, fui treinado para controlar o fluxo de consumidores, não de pessoas"? Como pode não haver leis nem fiscalização?

Um contra-exemplo de leis e fiscalização rígidas (demais) eu ouvi no rádio do taxi que me levou ao aeroporto: no mesmo domingo de pré-carnaval carioca, 156 foliões foram presos por mijarem na rua. Mijar na rua dá prisão; oferecer condições precárias de segurança dá em tragédia.

Onde estão os equipamentos de lazer para essa juventude? Não há parques na cidade, onde estão as praças de eventos, as casas de shows? Não vejo em Santa Maria o agito da vida cultural de Barão Geraldo, por exemplo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O riso dos outros


Achei esse documentário de Pedro Arantes (que foi encontrado no Docverdade) surpreendente. Fiquei positivamente impressionada com a reflexão de alguns comediantes sobre o humor e seu trabalho (Laerte dá um show) e fiquei negativamente impressionada com a ausência de reflexão sobre o efeito de seu trabalho por parte dos comediantes mais em evidência no momento (destaque pro Gentili).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A garagem

Desde que as minhas bicicletas foram pra garagem, elas meio que deixaram de existir pra mim. Pra mim bicicleta é, antes de mais nada, meio de transporte. Como eu consigo realizar meus caminhos diários a pé, não preciso delas. Nem passo pela garagem, portanto nem as vejo. Entraram numa dimensão paralela: a garagem.

Recentemente houve mudanças no prédio em que moro: uma galera saiu, outra entrou e apareceu um cartaz na entrada do prédio, pregado na parede externa da minha sala. No cartaz está anunciado que a moradora do apartamento tal tem interesse em alugar uma vaga de garagem. Algo me diz que o cartaz foi pregado ali porque se dirige a mim, a única moradora do prédio que não tem carro.

Só que eu não tenho interesse em alimentar a carrodependência dela, cobrando aluguel pela minha vaga. Mesmo que eu não as use, as minhas bicicletas estão bem guardadas lá. Até pensei em usar o espaço da garagem para acomodar a escada e o ventilador (120v num lugar em que tudo é 220v) que ficam encostados aqui no escritório, entulhando a paisagem do apartamento apertado.

A minha garagem é quase como o porão de Dieter Nuhr.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Campanha

E viva Curitiba!
Sempre achei que a educação para o trânsito dependia de campanhas.

Twists and turns along the way

Cachoeiro de Itapemirim: a cidade em que Roberto Carlos nasceu
Não havia mais passagens aéreas a preços módicos na semana após a virada do ano. Voar no dia 31 era barato, mas voltar pra casa nos dias seguintes saía muito caro. A alternativa foi voltarmos de ônibus. E a ansiedade de voltar foi tão grande, que entramos no primeiro ônibus (de Marataízes a Cachoeiro) um dia antes do que marcava a nossa passagem de Cachoeiro ao Rio. Pegamos o ônibus das 5h em Marataízes pra chegar às 6:30 em Cachoeiro e de lá pegar o ônibus das 7h pro Rio. Nesse ônibus, uma mulher veio reclamar o seu lugar na poltrona 11, onde eu estava sentada. Comparamos passagens e percebemos que Luis e eu tínhamos nos antecipado em 24 horas.
Passamos um dia agradável em Cachoeiro e embarcamos para o Rio na manhã seguinte. Quando chegamos no Rio sob chuva, nos separamos: eu fui ao apartamento do Luis buscar blusa de frio pra ele (havia uma frente fria vindo do sul), ele foi na biblioteca, renovar um livro. Mantivemos contato por telefone, e cheguei a estranhar a pressa dele em me encontrar na rodoviária. Logo depois de nos encontrarmos na rodoviária do Rio que carece de assentos, ele já quis ir pra plataforma, entrar no ônibus. Antecipou a partida em 2 horas dessa vez.
Curitiba com o céu tipicamente prateado
Descobri uma vocação incrível para dormir em ônibus e chegamos em Curitiba de manhã. Passaríamos o dia inteiro na cidade da garoa (já não é mais São Paulo faz tempo) e gastamos grande parte desse tempo em sebos, bibliotecas e restaurantes - e, é claro, caminhando entre esses pontos todos. Chegamos a passar 3 horas no restaurante em que jantamos (saímos de lá meia-noite!), porque a comida vinha aos poucos e com explicações.
Ainda no Jardim Botânico
De Curitiba pegamos um avião pra Porto Alegre, onde o desafio foi imprimir a passagem adquirida através da internet. Tínhamos comprado nossas passagens de ônibus (na verdade é um voucher, não uma passagem) de Porto Alegre a Santa Maria pelo site da empresa de ônibus, achando que bastava apresentar o RG no guichê pra moça gerar a passagem (como acontece com as passagens de avião ou de ônibus Penha). Do guichê fomos mandados pra sala vip, de lá pra ilha de impressão de passagens, onde a moça me disse que precisava do meu número localizador. Me mandou pra lan house, onde a funcionária imprimiu o meu voucher que foi trocado por uma passagem na ilha de impressão de passagens.

Com algumas voltas e reviravoltas, voltamos pra casa.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Espírito Santo, Amém

Itabira, o símbolo de Cachoeiro de Itapemirim
Depois do Natal em família (família Novoa) em Campinas, Luis e eu subimos de ônibus para o Espírito Santo. Fizemos uma parada rápida no Rio e passamos algumas horas naquele que foi noticiado no dia seguinte como o dia mais quente da história do Rio (43°C). Chegamos cedo em Cachoeiro, onde o sol já mordia às 7 da manhã.

Areia preta
Em Cachoeiro, na casa dos pais do Luis, havia um carro. Pegamos a chave desse carro na outra ponta da cidade e nos dirigimos a Marataízes, local de veraneio dos cachoeirenses. As praias são enseadas curtinhas, que se transformam completamente conforme a maré (mostrando ou cobrindo suas pedras). Uma das praias se chama Praia da Areia Preta, que tem uma areia famosa por seus poderes terapêuticos (contra reumatismo).
Ponta do Siri lá longe, Marataízes aqui
A água do mar parece não ser poluída, já que se vê muitas (mesmo!) tartarugas marinhas bem perto dos banhistas. Fiquei feliz de ver tantas colocando a cabecinha de fora pra respirar.
Maria-mijona
Logo nos instalamos nas pedras e acompanhamos a maré baixando. Nessas pedras, há universos inteiros de moluscos, algas, ouriços, peixinhos e tantas outras coisinhas coloridas. Luis relembrou a infância pescando com linha.
Pesca artesanal: com linha e caramujo na isca
Luis pegou dois peixes, mas o mar os pegou de volta quando uma onda derrubou o potinho em que eles estavam.
O primeiro peixe pescado

Olha o céu
Na volta para casa, paramos numa outra ilha de pedra e pegamos um peixinho com a camiseta (várias técnicas de pegar peixe!), que funcionou como rede. A graça era cercar e pegar o peixe. E quando isso foi alcançado, Luis deu o peixe pra criança que se encontrava mais perto de nós. Comoção geral, aquele peixinho minúsculo virou ímã de atenção. O problema é que o menino que ganhou o peixinho tinha um irmão. A mãe dos meninos veio na lagoa da pedra e se pôs a caçar peixinhos com a mão. E conseguiu! Ela chegou a pedir a minha ajuda, mas ela pegou peixinhos e carangueijinhos sozinha - pra surpresa e alegria dela.
Peixinho do tipo tainhazinha
Luis se distanciou de nós, à procura de um segundo peixinho, e acabou achando caracois (que neste momento estão em suas mãos, na cozinha, prestes a morrer na panela). E depois dos caracois, achou um carangueijinho preto.
Me senti muito corajosa pegando esse bicho
O ano de 2012 terminou bem colorido e alegre. O ano de 2012 foi de mudanças radicais na minha vida. Que em 2013 eu consiga me equilibrar entre Santa Maria e Rio.
Feliz 2013 pra todos nós!

sábado, 22 de dezembro de 2012

Ainda bem

que o mundo não acabou hoje!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Biguá


Imagem coletada em algum canto da internet
Hoje de manhã eu tava lá na editora da UFSM, sendo apresentada ao modus operandi da editora, quando chegou um aluno de Biologia com uma prova de livro. As provas de livro são as bonecas, as versões que ainda podem sofrer alterações antes da impressão pra valer. O livro era sobre a avifauna do Rio Grande do Sul e a prova que vimos era com capa dura, encadernada, costurada e com imagens de alta qualidade.

Todos ali na mesa (editora, diretor, bolsista e eu) ficamos bem impressionados com a qualidade do livro e ficamos admirando as cores e formas dos pássaros. Quando meu olho bateu no biguá, exclamei: "já comi biguá!" Senti que desviei a atenção de todos e expliquei que a minha vida em Rondônia tinha sido uma aventura.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Paralelos

Percebo alguns paralelos entre Porto Velho e Santa Maria: (i) ambas têm fortes bases militares (tanto é que quando eu estava procurando transportadora pra fazer a minha mudança e anunciava que ia pra Santa Maria, um tanto de gente adivinhou - mas não acertou - que eu era militar); (ii) em ambas, a universidade fica a 10 km da cidade (com o diferencial que em Santa Maria existe um bairro em volta da UFSM); (iii) dizem que em Santa Maria faz tanto calor como em Porto Velho, mas eu não acredito. Vejo as pessoas reclamando de calor aqui, mas pro meu corpo chegar a sofrer é pouco.

O Camobi, bairro que se desenvolveu em volta da UFSM é comparável a Barão Geraldo. Ambos são autossuficientes em relação à cidade e ambos são predominantemente habitados por pessoas ligadas à universidade. Isso significa que há muitas repúblicas, kitnets, bicicletas e porções pequenas de alimentos nos supermercados. Mas enquanto a Unicamp era bem vazia nos finais de semana (e por isso eu me refugiava lá), a UFSM vira parque - tipo Ibirapuera - nos fins de semana.

No domingo, saí de casa às 20:00 e fui caminhar na UFSM. Escurece às 20:30 aqui. Enquanto o céu se coloria de cores quentes, vi meninas treinando andar de bicicleta sem as mãos, meninos andando de patins, rapazes jogando futebol, moças jogando vôlei, famílias fazendo piquenique, gente lendo sentada em cadeira de praia. Acho que não erro muito se disser que um terço da população que vi ali estava tomando chimarrão. Mesmo as pessoas que caminhavam, carregavam sua térmica e cuia. Esse hábito de tomar chima não tem paralelo com outro lugar que eu conheça fora do Rio Grande do Sul.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Um pouco de filologia

Uma das disciplinas que me foram atribuídas é completamente nova pra mim: oficina de produção e edição de livros. Como meu conhecimento a respeito desse universo é de consumidora de livros, não de editora ou impressora, colorista ou qualquer outra pessoa que conhece de perto as etapas da confecção de um livro, recorri à literatura especializada.

Fiquei encantada com a clareza e simplicidade de Emanuel Araújo, em A construção do livro. Apesar de ter sido editado em 1986 (e apenas reimpresso, não reeditado, portanto não alterado) - e justamente por isso não tratar de impressoras coloridas, scanners, que dirá e-books e softwares de editoração - apresenta toda a engrenagem do processo.

Um paralelo que posso fazer é com a fotografia. Mesmo que eu me interesse apenas por fotografia digital, qualquer curso de fotografia vai me ensinar a revelar fotos no modo analógico. Não sabemos mais o que acontece no mundo digital: apertamos botões sem entender a mecânica da coisa (acho que é por isso que eu gosto de bicicletas: entendo como funcionam e sei consertar - se tiver as ferramentas).

Lendo sobre as quatro (principais) formas de impressão, entendi como funciona a máquina de xerox! Mais que isso, vislumbrei como funcionam a tipografia, rotogravura e offset. Ao contrário do xerox, essas três maneiras implicam na geração de "chapas" em que o texto/ a imagem é gravado/a para depois ser passado/a ao papel. Na seção sobre tipografia, lê-se:

Os chineses, na realidade, desde cedo já usavam chapas às quais se fixavam os tipos (...). (...) obtido o número desejado de exemplares, as chapas eram facilmente guardadas para o caso de reimpressão.
Embora confinado em território chinês, esse processo era de fato aquilo que os europeus do século XVIII chamariam de 'estereotipia' (do grego stereós, 'sólido', i.e., 'firme, compacto, estável, imóvel, constante', e typos, 'sinal, imagem, molde, representação' (...).
Até a introdução das impressoras rotativas, na década de 1840, muitos pesquisadores desenvolveram a noção moderna de estereotipia, processo através do qual uma fôrma de composição tipográfica é reproduzida numa superfície única que contém uma página ou um conjunto de páginas para impressão. Essa superfície, em fins do século XVIII, passou a ser conhecida como 'clichê', do vocábulo francês cliché, particípio passado do verbo clicher, que no sentido tipográfico, empregado pela primeira vez em 1785 por Joseph Carez (1753-1801), significa 'estereotipar', designando o ato específico de coar matéria derretida (metálica ou não) sobre a matriz de uma página composta, o que resulta em uma placa sólida, da qual se tira grande número de exemplares (...). (p. 546) 

Quem diria que o conceito de 'esterótipo', que a Semântica explora muito bem, na verdade vem de outro campo orbitando em volta da linguagem: a confecção de livros.

domingo, 2 de dezembro de 2012

A mudança chegou

No domingo, o meu contato na Transportadora me ligou confirmando que a mudança chegaria na sexta. Na sexta, passei a manhã inteira esperando e ligando pra saber do caminhão. Às 14:00, o motorista me ligou do trevo da saída da cidade. Disse que arrumaria dois ajudantes e já viria. Suspeito que eu tenha entendido o que significa aquela placa anunciando "chapa" nessa hora. E entendi que desse jeito a Transportadora economiza custos. 

Alguns minutos depois, vi o caminhão na esquina e o polegar levantado do motorista.   
Escritório com tudo embalado
Fui postada no portão do prédio com a prancheta e o inventário, o motorista entrou no caminhão e distribuía os volumes. Conforme os carregadores iam passando, me diziam o número do objeto que seguravam. Eu conferia e dizia para que cômodo era mais conveniente levar. Errei várias coisas de lugar, especialmente as que eram identificadas com descrições do tipo "diversos". Achei graça no nome que deram pras minhas bicicletas: uma era a amarela, outra a laranja e a terceira levou o nome do adesivo: one less car! Com o ponto de exclamação incluso.
Escritório mais funcional
Depois que tudo estava dentro do apartamento, o motorista dispensou os dois e se pôs a montar o guarda-roupa. Enquanto ele montava, eu desembalei todos os volumes (exceto as caixas), montei a cama de solteiro que servirá de sofá e as estantes.
Tudo amontoado na sala
Antes de ir embora, ele me alertou que aqui as tomadas são 220v. Putz! Tudo que eu tenho de enfiar na tomada é 120v. Fui correndo na loja de ferragens (saí pela lateral, porque a loja fechou comigo dentro) e deixei uma grana preta em transformadores power.
Sala um pouco mais habitável
Ainda deu tempo de pedir gás. Enquanto o cara rosqueava a mangueira no butijão de gás cheio, ele conversava comigo sobre a incomodação que a máquina de lavar roupa dele igual à minha tinha dado a ele. E eis que acaba a água. Depois de trabalhar a tarde toda, suja e cansada, tive que me deparar com a falta d'água.
Cozinha impraticável
Passei o sábado abrindo caixas, organizando livros, calculando espaços pra mim e pro Luis, lembrando das coisas que tenho e tentando adivinhar onde estavam. Varri a casa mais vezes do que o número de dias em que estou nela. Lavei a geladeira que mofou apesar do pedaço de carvão e fiquei feliz com a volta da água. Liguei a geladeira (por intermédio do transformador) e pela primeira vez (em 2 semanas) comprei comida de verdade.

Achei que eu não fosse soltar um pio sobre o fato de não ter pia na cozinha, mas tá difícil viver assim. Como não tem onde colocar o escorredor, não tem onde colocar a louça que lavo no tanque. Daí tenho que secar cada item logo depois de enxaguar, o que significa que só solto cada peça depois de alocada seca numa das caixas que se amontoam por falta de armários.
Cozinha do jeito que está
Inventariei as coisas de enfiar na tomada e decidi que era mais prático comprar ferro de passar e torradeira aqui do que dividir transformador. Por sorte o som pode ser enfiado na tomada aqui. A manhã de hoje foi musical.
Eh, saudade!
Não aguento mais fazer faxina nem gastar dinheiro. Semana que vem começo a dar aula.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O tempo descompassado

Eu tinha uma esperança tola que o meu pedido de vacância na UNIR saísse no mesmo dia em que eu tomaria posse na UFSM. Saiu um dia depois, mas só no Boletim de Serviço. A publicação no Diário Oficial, que é pra valer, só saiu 3 dias depois de eu ter tomado posse.

Fui na folha de pagamento da UFSM, para saber se eu já tinha sido incluída. Ainda não, porque não tinham provas da vacância. Quando saiu no Diário Oficial, tentaram, mas não conseguiram me incluir na folha daqui, porque ainda não fui desvinculada da folha de lá. Não bastava o Diário Oficial, precisava constar no sistema.

Esperei dar as duas horas de diferença de fuso horário para pegar alguém na UNIR e me foi dito que sim, que vão colocar a minha vacância no sistema, porque isso tem que ser feito. Mas eles estão sem internet há dois dias. A solução foi usar modem 3G, sendo que só há um por setor. Essa internet é mais lenta que a internet de 1 mega que Rondônia oferece e faz acumularem-se as demandas da universidade.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Os amigos

Os amigos fazem jornalismo investigativo. Um site recomendado pelo Luis é da Pública, outro é da Unisinos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Os "inimigos"

De vez em quando eu abro o jornal. Quando olho as notícias nos jornais eletrônicos, consigo ler muito pouca coisa, porque a maior parte do que vejo é sobre esporte, celebridades, estado clínico de pessoas famosas, comidas, dicas variadas, acidentes e tragédias, política do terror que não acompanho. Na maioria das vezes, não leio o jornal, apenas vejo as manchetes e imagens.

A Bild Zeitung já faz isso há anos: oferece muitas imagens (daí o nome do jornal: Bild é desenho, imagem, quadro) e quase nada de texto aos seus leitores. Há uma cena no Fahrenheit 451 (de Truffaut, não necessariamente em Ray Bradbury) em que o protagonista lê um jornal em quadrinhos. Além da notícia ser selecionada, manipulada e mastigada, é apresentada em forma de fotonovela.

Na Folha de hoje me chamou atenção a legenda de uma imagem:

Marinha, Exército e Aeronáutica participam da operação Atlântico III, em que simulam ataques "inimigos" no litoral brasileiro

Tive um momento de suspensão, procurando no meu arquivo mental os tais inimigos que viriam por mar. Cliquei na chamada e me deparei com imagens. Me senti como Montag lendo o jornal em quadrinhos. A diferença entre o personagem e eu é que a mim não bastavam as imagens. Eu continuo sem entender por que é preciso investir em segurança armada contra inimigos entre aspas no Brasil. Continuo sem entender por que essas imagens estão no jornal, ocupando lugar de destaque. Continuo sem entender que inimigo é esse, contra o qual é preciso disparar tiros e bombas.

O inimigo já se instalou. O inimigo é a fragmentação das notícias de jornal, é a escolha do que será tratado como notícia. O inimigo é o consumo de banalidades.

Num dos Philosophy Talks, o tema é verdade, falsidade, mentira e o que eles chamam de BS porque não podem pronunciar palavras de baixo calão no rádio (mas eu posso aqui: bull shit). Sabemos o que é verdade com letra maiúscula e o que são as verdades. Sabemos que a falsidade é a falta da verdade. Sabemos que a mentira é a omissão da verdade: quem mente está extremamente preocupado em esconder a verdade. Quando se trata de BS - que eu chamo de baboseira - há um descompromisso total e completo com a verdade.

Assim como "Saiba quais são os filmes mais vistos nos cinemas brasileiros" não é notícia de jornal, as imagens da operação Atlântico III não são notícia de jornal, mas baboseira. Em ambos os casos, falta texto, falta articulação, falta despertar no leitor a sensação de conexão da matéria com o mundo.

É frustrante pensar que eu poderia fazer esse exercício de detectar baboseiras exemplares maquiadas de notícias todo dia.

Empossada

Tomei posse no dia 26 de novembro, enquanto Luis corria atrás de colchão, cama e escrivaninha. Como estou passando de um cargo público a outro, estou pedindo vacância. A UNIR precisa me liberar para que eu de fato assuma aqui. Ontem saiu no Boletim de Serviço da UNIR a publicação da portaria da minha vacância a partir de 26 de novembro - que só entra em vigor quando publicada no Diário Oficial da União (DOU). A portaria ainda não saiu no DOU de hoje. Isso significa que terei que esperar até regularizar a minha situação.

Ontem paguei todas as minhas últimas contas em Rondônia: telefone, água, seguro de saúde, luz. Queria acertar essa pendência logo e começar vida nova aqui.

Me ajeitando em Santa Maria

A única foto em que apareço é esta, na cozinha vazia (tão vazia, que nem tem pia). Ainda não consigo imaginar essa cozinha, nem as minhas coisas dentro dela.
A primeira coisa que comprei para essa morada cheia de paredes e chão foi essa banqueta (para alcançar o soquete das 7 lâmpadas do apartamento). Junto com a banqueta comprei o chuveiro power (faz muito frio no inverno) que demorei o dia todo pra instalar. Voltei na loja de ferragens 3 vezes antes de conseguir fazer o chuveiro funcionar.
Na última casa em Porto Velho eu reclamava da quantidade avassaladora de mosquitos. Aqui estou aprendendo a fechar as janelas que dão pra rua, porque além dos mosquitos, entram milhares de outros insetos.
No mesmo dia em que veio a escrivaninha que Luis escolheu, vieram a cama, o colchão, a internet e o telefone. No dia seguinte, reclamei na imobiliária que a minha chave do prédio abria a porta de vez em quando. O miolo da porta foi trocado e de repente eu era a única no prédio que conseguia entrar. Abri a porta pra todos os outros moradores porque a minha janela fica do lado da porta do prédio. Depois resolveu, porque o síndico já tinha dado a cópia pra todos desse novo miolo, eles só tinham sido surpreendidos com a troca.
A cama mais bonita e vistosa com o colchão mais high-tech em que dormi. Espero que sonhos conjuntos sejam incubados aqui.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Último


A última jabuticaba que comi foi a mais madura,
vi que tem duas romãs no pé na sua primeira florada.

Hoje foi a última vez que eu tirei o Mustafá do forro,
que eu fui no campus e na reitoria,
que dormirei nessa casa vazia.

Não choveu quando o caminhão de mudança veio
nem alagou a casa quando todas as minhas coisas estavam no chão.

Meus planos de transportar 2 gatos no avião não deram certo,
mas tive boas amigas que me ajudaram a fazer novos planos.

Depois dos últimos acertos em Porto Velho,
começará uma nova etapa da minha vida
em Santa Maria.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Remember, remember, the 5th of November!

Recebi um post praticamente pronto por e-mail do Luis.
O original está aqui


Na noite de 5 de novembro de 1605,  Guy Fawkes tentou explodir o Parlamento inglês, no intuito de assassinar o Rei James I, em um atentado conhecido como "gunpowder plot" ("conspiração da pólvora"). O tiro saira pela culatra, ao passo que uma carta anônima denuncia seus planos ardilosos: Fawkes e seus correligionários são presos na Torre de Londres. Tortura e morte por enforcamento selaram a sorte dos conspiracionistas, cujos corpos foram esquartejados e arrastados pelas ruas de Londres. O suplício dos conspiracionistas repercutiu como um espelho difuso, ressignificando o ato, inicialmente impelido pelas chamas das rusgas e perseguições sectárias entre católicos e protestantes. Com o passar dos anos, este adquire um verniz simbólico mais contundente. A data, que no ano seguinte celebraria a sobrevivência do rei, pouco a pouco,  passa a festejar com fogos de artifício, um simulacro que se remete a explosão do Parlamento inglês. Nesta data, queima-se na fogueira a máscara de Fawkes, junto a figuras não muito bem quistas pelos ingleses, que supostamente deveriam ter sido queimadas em seu lugar, tais como George W. Bush, Margareth Tatcher ou Giorgio Berlusconi. Esta data foi popularizada como "Guy Fawkes night" ("noite de Guy Fawkes").

Foi David Lloyd quem desenhou a máscara do protagonista de "V de Vinganca", história escrita pelo cartunista Alan Moore; máscara que depois seria apropriada pelos movimentos e manifestações que eclodiram pelo mundo, com a iminência da atual crise financeira. A máscara passa a ser símbolo contra a avidez do mercado financeiro, das multinacionais e das grandes coorporações, verdadeiros responsáveis pela crise, que vêm levando economias a bancarrota, e colocado milhares de pessoas na rua, sem emprego, sem moradia e sem perspectivas. Apropriada num primeiro momento por hackers e ativistas do grupo Anonymous, em 2008, a máscara foi envergada em um manifestação de rua contra a Igreja da Cientologia nos Estados Unidos e depois ganhou maior popularidade em 2010 com o filme V de Vingança, que incita a população a  se vingar do sistema que os oprime, inaugurando a possibilidade de um novo porvir.

domingo, 4 de novembro de 2012

Engolir sapo

Ouvi a Akari lutando pra vomitar. Quando cheguei até ela, vi o sapo do tamanho da minha mão paradão a poucos centímetros dela. Não estava morto, apesar de uma mosca pousar em seu olho.

Mustafá sempre brincou com os sapinhos que aparecem depois da chuva. Mas são sapinhos pequenos, do tamanho de 3 dedos.

Akari já me assustou outra vez: espumava muito. Deve ter ingerido uma maria-fedida. Agora deu pra engolir sapos... E a vida na Amazônia segue com seus imprevistos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mucura

Uns 15 dias atrás, quando Luis veio aqui, estranhamos um cocô muito perto da comida dos gatos. Sabendo que mais uma vez hospedo (à revelia) uma gata de rua no forro, Luis concluiu que os meus gatos estavam demarcando território através do cheiro. De fato, se ouvia a gatinha no forro. Mas cagar tão perto da própria comida não me pareceu comportamento razoável nem pra gato. E eles demarcariam o território através do xixi, não das fezes. E as fezes me pareciam demasiado finas e compridas (eu, que limpo a caixinha dos meus gatos todo dia, conheço muito bem as fezes deles e sei diferenciar as da Akari das do Mustafá).

Nos dias seguintes, houve cocôs espalhados pela casa e bananas mordiscadas. Desconfiei que houvesse outro animal na casa, mas não procurei. Procurei fechar bem a casa toda noite, pra que nenhum animal entrasse. Reparei também que os gatos nos acordavam cada vez mais cedo e que a comida deles sempre tinha acabado quando eu levantava. Estranhei que eles iam com muita fome ao pote e que a ração da manhã acabava de manhã.

Fui pro Rio e quando voltei, Heliene me disse que os gatos tinham cagado na casa toda. Perguntei se era de gato mesmo, não de rato, e ela confirmou, porque era muito e muito grande.

Ontem senti cheiro de zoológico na estante de livros. Mais que isso, ouvi barulhos. E não eram do forro. Retirei os livros da prateleira mais baixa e identifiquei o banheiro do animal. Movi os livros da prateleira seguinte e me deparei com dois olhos aflitos. Liguei pro Luis: tem um rato aqui. Se eu tivesse aí, te ajudaria. Pois é, eu estava sozinha com dois gatos e um animal muito grande e desconhecido escondido entre os livros.

Me refugiei no meu quarto, deixei os dois gatos no mesmo recinto que a "ratazana". De manhã, Mustafá começou a ladainha às 5h. Abri a porta: pote de comida vazio. Pus comida e água no meu quarto, esperei os gatos comerem (Mustafá comeu muito e muito desconfiado) e abri a janela. Sonhei que Luis me dizia que não mataria o rato e eu ficava aliviada: nada de violência.

Quando Marcelo acordou, procuramos o animal. No que empurrei os livros da prateleira mais alta contra a parede da estante, o animal pulou e eu gritei. Com o rodo em riste, Marcelo foi tirando os livros  da estante. O bicho era mais feio que rato. O rabo pelado parecia uma cobra. Os dentes assustavam tanto quanto o som grave que saía do fundo da garganta. E o bicho tava nervoso. Demorou pra Marcelo e eu entendermos que o animal tinha mais medo de nós que nós dele. E quando entendemos que ele não nos atacaria, liguei pros bombeiros. Mas que animal que é? Nunca vi, não sei, não conheço esses animais amazônicos silvestres. Tem rabo? Tem. Tem o focinho comprido e fino? Sim, e a boca cheia de dentes e faz um barulho esquisito e é brabo. É mucura.

Demorou muito pros bombeiros chegarem. O que aconteceu depois foi rápido: um colocou luvas, o outro usou um cano com uma corda fina dentro e a alça na extremidade. Assim que a mucura tinha a cabeça na alça, ele puxou a outra ponta, apertando o laço em volta do pescoço do animal que se mijou todo. O das luvas abriu a gaiola e o outro depositou o animal agitado lá dentro. Dali vai pro Ibama.


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Greedy boy



Teve festival de animação no dia 28 (dia da animação - e também do servidor público) e lembro de ter gostado desta animação.

domingo, 28 de outubro de 2012

Em espera

Quanto maior o tempo de espera,
maior a esperança que chegue logo.
Paciência já acabou faz tempo,
a esperança agoniza antes de morrer.
Vai chegar, tem que chegar
só não se sabe quando.
Quem espera na parada de ônibus
passa a existir em stand by.
Toda a vida passa
e a pessoa fica parada, em espera.
Não é a perda (ou o ganho) de tempo que vale;
é a suspensão da ordem dos eventos no tempo
que paralisa.

sábado, 27 de outubro de 2012

Pagando pela falha

Durante a greve, fui ao Rio de Janeiro. No dia da partida, acordamos cedo e fomos ao aeroporto Galeão. Na passagem o horário de partida era 7:16, mas no painel se lia 7:53. Como o painel é constantemente atualizado, nos orientamos pelo painel e só entrei na sala de embarque às 7:05. Quando cheguei no portão 22, vi que não havia fila. Perguntei do avião pra Brasília, a moça da TAM pegou a minha passagem, reconheceu meu nome e ralhou comigo: já fechou o embarque, eu chamei, chamei, chamei esse nome. Olhei pela janela e apontei para o avião: mas o avião está aí, estou vendo. Mas a porta já fechou, a ponte já saiu, não tem mais como você entrar. Ué, mas como que eu cheguei tarde demais, se no painel estava escrito 7:53? Olha aqui na passagem, está escrito 7:16. Mas eu me orientei pelo painel!

O resultado foi que tiraram a minha bagagem de dentro do avião (o que certamente atrasou o avião) e eu tive que pagar uma nova passagem a Porto Velho. Procurei em outras companhias, mas não encontrei melhor opção que a própria TAM. O detalhe é que a passagem de ida a Porto Velho me saiu mais cara que a passagem de ida e volta. Me senti enganada, sem saber quem tinha me enganado. Como eu provaria que no painel estava escrito 7:53, se o anúncio já tinha sumido bem antes da decolagem prevista do avião, às 7:16? O argumento que usaram contra mim foi que todos os outros passageiros do voo tinham embarcado, menos eu.
Hoje de manhã a cena se repetiu. O painel no guichê do check-in - assim como todos os paineis do aeroporto - anunciava o voo das 7:16 para as 7:53. Perguntei pra moça no check-in se o horário do voo tinha mudado, já que se lia 7:53. Mudou? Não mudou - confirmou a colega que reclamou que a Infraero estava anunciando esse horário errado há séculos. Avisei que eu já tinha perdido um voo por causa do painel enganoso e elas lamentaram.

No portão 22 apontei para a tela acima do portão e perguntei qual era o horário do voo. 7:16, óbvio. Então por que está escrito 7:53? Ah, nosso gerente já reclamou na Infraero, mas eles não mudam.

Quando eu perdi o voo, ninguém demonstrou saber que a Infraero anuncia o horário errado. E hoje ninguém avisou que não era pra eu me orientar pelo painel (o que me parece óbvio, já que mudanças devido a reposicionamento dos aviões, atrasos e cancelamentos são anunciados no painel e não na passagem). Será que a loja da TAM no Galeão vende mais passagens de última hora por volta das 8 da manhã?

A literatura e o amor

Li Budapeste (do Chico) depois de ter visto o filme e concluí imediatamente que a obra literária tinha qualidade superior à da obra audioviosual. No entanto, as imagens do filme se prenderam mais na minha memória que as palavras e a ordenação das palavras do livro. E quando quis dar ao Luis um bom livro, escolhi Budapeste. Ele ficou fascinado com o livro e quis comentá-lo comigo, mas a narrativa linear, escura e crua do filme se sobrepunha na minha memória aos encantos tortos, recursivos e luminosos da literatura. Decidi que era hora de reler Budapeste.

Na sala de embarque, onde eu estava sozinha e triste por deixar o meu namorado no Rio e ter de voltar para Porto Velho, abri o livro. Reparei que havia entre as páginas um ingresso do Circo Voador. Saquei que não era o meu ingresso, porque este tinha sido dobrado ao meio - e depois jogado fora. Estranhei o ingresso do Luis no livro. Cheguei a segurá-lo, sem saber ao certo o que fazer com ele. Devolvi o papel ao livro. Quando entrei no avião e passei a procurar o meu assento, tive que desgrudar os olhos do texto e fechei o livro. Caiu um bilhete no chão. No verso do ingresso eu li uma declaração de amor. Tão torta como as que eu proferi, dessa vez escrita por ele.

Ainda com uma lágrima a lhe descer na face, ela sorriu e disse: fala mais, por Deus. E eu: as melhores palavras que sei emanaram de ti, devem a ti seu vigor e sua beleza. E ela: só mais uma vez, suplico-te. E eu: será somente teu o meu verbo, dedicar-te-ei meus dias e minhas noites. Foi quando Kriska me disse que era muito engraçado meu sotaque. (p. 127 - 128)
Como achei impossível não me identificar com o aprendiz de língua estrangeira, fiquei pensando num paralelo entre a língua e o amor.

Eu me empenhava em falar um húngaro tão rigoroso que talvez por isso mesmo ele às vezes soasse falso. (p. 129)

(...) aprender o idioma húngaro fora brinquedo, difícil mesmo seria apagá-lo. (p.147 -148)
Lembrei da palestra do Joel Rufino dos Santos sobre a Literatura e sobre o amor, tema eleito pela Literatura para ser o mais explorado. A certa altura, o palestrante condensou um pensamento complexo numa fórmula:

Amor = sexo + poesia

Eu escrevia como se andasse em minha casa, porém dentro d'água. Era como se meu texto em prosa tomasse forma de poesia. (p. 133)

Preferi humilhá-lo com a poesia, arte que ele ignorava, e que o faria sofrer muito mais por não saber onde lhe doía. (p. 145)

Como dizia Barthes, ficamos estupefatos quando lemos conclusões óbvias e simples. Joel Rufino dos Santos encadeou argumentos simples e claros sobre a serventia da Literatura: O prazer literário não se acumula, portanto não tem valor. Se não tem valor, a Literatura não serve pra nada. Se não serve pra nada, nossa existência mora na linguagem literária.

E me pediu que lesse o livro. Como? O livro. Eu não leria um livro que não era meu, não me sujeitaria a tamanha humilhação. E ela nem insistiu tanto, talvez porque soubesse que cedo ou tarde eu faria sua vontade. Apenas pousou o livro em meu colo e se deixou ficar inerte na cama. Tomei-o, suas folhas se soltavam em minhas mãos, eu não entendia por que precisaria ler um palavrório que ela já lera mais de trezentas vezes. (p. 172)

Concordo que o gozo literário não se acumula. Mesmo porque esquecemos. E assim cada releitura é uma nova aventura, é uma nova maneira de me conectar com o texto e uma oportunidade de ler o texto através dos olhos de quem me devolveu o livro.

Movimento e música

E de noite Luis e eu fomos ao Circo Voador (esse nome é da hora), ver o lançamento da Campanha Quem são os proprietários do Brasil? Mais sobre a campanha aqui.
Chegamos na hora dos shows, mas a campanha é mais que música feita por pessoas politizadas: é movimento. Movimento no sentido de movimento social. Gostei do texto do Tautz sobre os proprietários do Brasil. E gostei bastante da banda El Efecto, principalmente do "Encontro de Lampião com Eike Batista". Eike, Eike, Eike, Eike resistir!
 Mundo Livre S.A. era a grande atração musical, mas (pra mim) não surtiu o efeito esperado.

XI FELIN

Evanildo Bechara no microfone
O Fórum de Estudos Linguísticos deste ano contou com algumas celebridades em campos diversos. Gostei de ver o Bechara, provavelmente um dos poucos gramáticos vivos que produziu gramáticas de referência. A figura que caminhou até as escadas do palco, subiu essas escadas e se acomodou na cadeira parecia infinitamente mais frágil que a pessoa que segurou o microfone e desfiou causos, datas, regras, diferenciações e contextualizações acerca do acordo ortográfico.
Joel Rufino dos Santos no meio
Joel Rufino dos Santos eu não conhecia e me surpreendeu no mesmo sentido que Bechara: a pessoa de sapatos maiores que os degraus da escada me pareceu muito menos segura quando em movimento do que quando falando sobre seus movimentos teóricos.
Carlos Alberto Faraco no meio
Faraco eu já conhecia como referência bibliográfica. Gostei da fala dele sobre o que ele chama de "norma curta" e da trajetória que ele traçou do ensino de língua portuguesa desde sua própria escolarização até quando se viu professor ensinando gramática.
UERJ vista do 11. andar de noite
Eu apresentei o meu trabalho sobre ensino de sinais de pontuação de noite. E achei ruim que todas as comunicações individuais tenham sido concentradas numa noite, sem a divulgação dos resumos dos trabalhos. Se todo mundo que apresenta trabalho apresenta simultaneamente (havia 22 GTs!!), então não é possível apreciar trabalhos fora do seu GT. De certa forma, este FELIN assumiu que congresso vale para apresentar trabalho - que rende publicação, que conta pontos no Lattes - e ver conferências de celebridades. Nem mesmo os minicursos ultrapassavam a extensão de um dia, ou seja, eram palestras longas. Trocando em miúdos, a gente não vai a congresso para trocar ideias, para debater, questionar, se envolver. A gente vai pra apresentar um recorte de pesquisa pruma meia dúzia de pessoas preocupadas em apresentar (não ouvir) e pra ouvir o que as sumidades têm a dizer.

De qualquer modo, fiquei super feliz de ver o Luis na minha plateia, ouvindo e vendo a apresentação do trabalho que ele já tinha lido e me incentivando a melhorar na forma de apresentá-lo.
Azeredo, Marli Quadros e Renato
No segundo dia, tive duas surpresas. Sou amiga do Renato desde que entrei na Unicamp e durante todo o meu tempo de Unicamp considerei-o o meu melhor amigo. Convivi com ele por sete anos, mas nunca tinha visto o rapaz dando palestra. Está certo que ele sempre palestrou, mas nunca tinha visto o rapaz apresentando slides e falando no microfone. O mesmo com o Ataliba, mas em outra proporção. Fui aluna dele na USP, ele esteve na minha banca de qualificação no mestrado e escrevemos o capítulo da preposição para a Gramática do Português Falado a dez mãos - mas nunca o tinha visto dando palestra.

Ataliba

Do mal

Ano passado, quando minha mãe e minha tia estiveram aqui, tentamos torrar as castanhas dos cajus colhidos aqui em casa. Como era a primeira vez e não tínhamos a manha, só conseguimos salvar três castanhas em meio aos carvões. Dessa vez que Luis esteve aqui, eu já tinha juntado outro tanto considerável de castanhas pra torrar. Foram pra grelha, soltaram óleo, fumaça e cheiro ruim, esfriaram e foram processadas. Enquanto as mãos trabalhavam, Luis se perguntava por que nunca tinha ouvido falar em óleo (de castanha) de caju.
Não foi fácil separar a castanha da casca: usamos alicate, faca e até unha pra, no final, juntar um mísero punhado de castanhas. Como tava difícil de separar a pele da casca da castanha, nem chegamos a descascar tudo. E como o trabalho com as castanhas tinha dado fastio, nem comemos o fruto do nosso trabalho. Botei as castanhas na geladeira, joguei o resto das castanhas com casca engordurada e fedida fora e fomos pro Rio de Janeiro.
Em seguida, nossas mãos começaram a descascar. Toda uma camada de pele morreu, esfarelou e caiu. Passamos uma semana tirando peles das mãos, especialmente depois de ter tido contato com água. Luis descobriu que o óleo do caju é tóxico e que as pessoas que manipulam o caju (colheita e torra) apresentam todas o mesmo problema de saúde causado pelo óleo. Ou seja, decidimos que o óleo da castanha do caju é do mal.

Quando voltei do Rio, Marcelo estava cozinhando e Heliene fazendo faxina. Perguntei a ela (porque afinal de contas ela é que tinha dado a ideia de torrar castanha na brasa) se era normal a mão descascar depois de manusear castanha de caju torrado. Ela disse que era normal, que o óleo provocava mesmo esse tipo de reação alérgica e que queimava peles mais sensíveis. Pra completar, contou que uma amiga dela tinha feito uma tatuagem com o óleo da castanha de caju. Ouvindo todo esse papo sobre castanha de caju, Marcelo acrescentou que as castanhas que estavam na geladeira tinham ficado ótimas.