sábado, 27 de outubro de 2012

A literatura e o amor

Li Budapeste (do Chico) depois de ter visto o filme e concluí imediatamente que a obra literária tinha qualidade superior à da obra audioviosual. No entanto, as imagens do filme se prenderam mais na minha memória que as palavras e a ordenação das palavras do livro. E quando quis dar ao Luis um bom livro, escolhi Budapeste. Ele ficou fascinado com o livro e quis comentá-lo comigo, mas a narrativa linear, escura e crua do filme se sobrepunha na minha memória aos encantos tortos, recursivos e luminosos da literatura. Decidi que era hora de reler Budapeste.

Na sala de embarque, onde eu estava sozinha e triste por deixar o meu namorado no Rio e ter de voltar para Porto Velho, abri o livro. Reparei que havia entre as páginas um ingresso do Circo Voador. Saquei que não era o meu ingresso, porque este tinha sido dobrado ao meio - e depois jogado fora. Estranhei o ingresso do Luis no livro. Cheguei a segurá-lo, sem saber ao certo o que fazer com ele. Devolvi o papel ao livro. Quando entrei no avião e passei a procurar o meu assento, tive que desgrudar os olhos do texto e fechei o livro. Caiu um bilhete no chão. No verso do ingresso eu li uma declaração de amor. Tão torta como as que eu proferi, dessa vez escrita por ele.

Ainda com uma lágrima a lhe descer na face, ela sorriu e disse: fala mais, por Deus. E eu: as melhores palavras que sei emanaram de ti, devem a ti seu vigor e sua beleza. E ela: só mais uma vez, suplico-te. E eu: será somente teu o meu verbo, dedicar-te-ei meus dias e minhas noites. Foi quando Kriska me disse que era muito engraçado meu sotaque. (p. 127 - 128)
Como achei impossível não me identificar com o aprendiz de língua estrangeira, fiquei pensando num paralelo entre a língua e o amor.

Eu me empenhava em falar um húngaro tão rigoroso que talvez por isso mesmo ele às vezes soasse falso. (p. 129)

(...) aprender o idioma húngaro fora brinquedo, difícil mesmo seria apagá-lo. (p.147 -148)
Lembrei da palestra do Joel Rufino dos Santos sobre a Literatura e sobre o amor, tema eleito pela Literatura para ser o mais explorado. A certa altura, o palestrante condensou um pensamento complexo numa fórmula:

Amor = sexo + poesia

Eu escrevia como se andasse em minha casa, porém dentro d'água. Era como se meu texto em prosa tomasse forma de poesia. (p. 133)

Preferi humilhá-lo com a poesia, arte que ele ignorava, e que o faria sofrer muito mais por não saber onde lhe doía. (p. 145)

Como dizia Barthes, ficamos estupefatos quando lemos conclusões óbvias e simples. Joel Rufino dos Santos encadeou argumentos simples e claros sobre a serventia da Literatura: O prazer literário não se acumula, portanto não tem valor. Se não tem valor, a Literatura não serve pra nada. Se não serve pra nada, nossa existência mora na linguagem literária.

E me pediu que lesse o livro. Como? O livro. Eu não leria um livro que não era meu, não me sujeitaria a tamanha humilhação. E ela nem insistiu tanto, talvez porque soubesse que cedo ou tarde eu faria sua vontade. Apenas pousou o livro em meu colo e se deixou ficar inerte na cama. Tomei-o, suas folhas se soltavam em minhas mãos, eu não entendia por que precisaria ler um palavrório que ela já lera mais de trezentas vezes. (p. 172)

Concordo que o gozo literário não se acumula. Mesmo porque esquecemos. E assim cada releitura é uma nova aventura, é uma nova maneira de me conectar com o texto e uma oportunidade de ler o texto através dos olhos de quem me devolveu o livro.

Um comentário:

Leonardo disse...

Já li esse também e não me lembro de quase nada, apenas que na época gostei do livro :P