sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mucura

Uns 15 dias atrás, quando Luis veio aqui, estranhamos um cocô muito perto da comida dos gatos. Sabendo que mais uma vez hospedo (à revelia) uma gata de rua no forro, Luis concluiu que os meus gatos estavam demarcando território através do cheiro. De fato, se ouvia a gatinha no forro. Mas cagar tão perto da própria comida não me pareceu comportamento razoável nem pra gato. E eles demarcariam o território através do xixi, não das fezes. E as fezes me pareciam demasiado finas e compridas (eu, que limpo a caixinha dos meus gatos todo dia, conheço muito bem as fezes deles e sei diferenciar as da Akari das do Mustafá).

Nos dias seguintes, houve cocôs espalhados pela casa e bananas mordiscadas. Desconfiei que houvesse outro animal na casa, mas não procurei. Procurei fechar bem a casa toda noite, pra que nenhum animal entrasse. Reparei também que os gatos nos acordavam cada vez mais cedo e que a comida deles sempre tinha acabado quando eu levantava. Estranhei que eles iam com muita fome ao pote e que a ração da manhã acabava de manhã.

Fui pro Rio e quando voltei, Heliene me disse que os gatos tinham cagado na casa toda. Perguntei se era de gato mesmo, não de rato, e ela confirmou, porque era muito e muito grande.

Ontem senti cheiro de zoológico na estante de livros. Mais que isso, ouvi barulhos. E não eram do forro. Retirei os livros da prateleira mais baixa e identifiquei o banheiro do animal. Movi os livros da prateleira seguinte e me deparei com dois olhos aflitos. Liguei pro Luis: tem um rato aqui. Se eu tivesse aí, te ajudaria. Pois é, eu estava sozinha com dois gatos e um animal muito grande e desconhecido escondido entre os livros.

Me refugiei no meu quarto, deixei os dois gatos no mesmo recinto que a "ratazana". De manhã, Mustafá começou a ladainha às 5h. Abri a porta: pote de comida vazio. Pus comida e água no meu quarto, esperei os gatos comerem (Mustafá comeu muito e muito desconfiado) e abri a janela. Sonhei que Luis me dizia que não mataria o rato e eu ficava aliviada: nada de violência.

Quando Marcelo acordou, procuramos o animal. No que empurrei os livros da prateleira mais alta contra a parede da estante, o animal pulou e eu gritei. Com o rodo em riste, Marcelo foi tirando os livros  da estante. O bicho era mais feio que rato. O rabo pelado parecia uma cobra. Os dentes assustavam tanto quanto o som grave que saía do fundo da garganta. E o bicho tava nervoso. Demorou pra Marcelo e eu entendermos que o animal tinha mais medo de nós que nós dele. E quando entendemos que ele não nos atacaria, liguei pros bombeiros. Mas que animal que é? Nunca vi, não sei, não conheço esses animais amazônicos silvestres. Tem rabo? Tem. Tem o focinho comprido e fino? Sim, e a boca cheia de dentes e faz um barulho esquisito e é brabo. É mucura.

Demorou muito pros bombeiros chegarem. O que aconteceu depois foi rápido: um colocou luvas, o outro usou um cano com uma corda fina dentro e a alça na extremidade. Assim que a mucura tinha a cabeça na alça, ele puxou a outra ponta, apertando o laço em volta do pescoço do animal que se mijou todo. O das luvas abriu a gaiola e o outro depositou o animal agitado lá dentro. Dali vai pro Ibama.


4 comentários:

Luis disse...

Mucura esperta, gamou nos teus gibis.

iglou disse...

E é bisonho que ela esteja (na foto) entre dois livros sobre gatos: Simon's Cat e The New Yorker Cartoons - gatos.

Mônica disse...

Ah! É um gambá! Aqui tem alguns, tb. Costumam dar a volta na casa e já não posso deixar o lixo lá fora porque eles reviram tudo. Apesar de tudo, acho bonitinhos...

iglou disse...

Bem que o bombeiro disse que era uma "modalidade de gambá". Seja o que for, estou feliz que se tenha ido.