quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Os "inimigos"

De vez em quando eu abro o jornal. Quando olho as notícias nos jornais eletrônicos, consigo ler muito pouca coisa, porque a maior parte do que vejo é sobre esporte, celebridades, estado clínico de pessoas famosas, comidas, dicas variadas, acidentes e tragédias, política do terror que não acompanho. Na maioria das vezes, não leio o jornal, apenas vejo as manchetes e imagens.

A Bild Zeitung já faz isso há anos: oferece muitas imagens (daí o nome do jornal: Bild é desenho, imagem, quadro) e quase nada de texto aos seus leitores. Há uma cena no Fahrenheit 451 (de Truffaut, não necessariamente em Ray Bradbury) em que o protagonista lê um jornal em quadrinhos. Além da notícia ser selecionada, manipulada e mastigada, é apresentada em forma de fotonovela.

Na Folha de hoje me chamou atenção a legenda de uma imagem:

Marinha, Exército e Aeronáutica participam da operação Atlântico III, em que simulam ataques "inimigos" no litoral brasileiro

Tive um momento de suspensão, procurando no meu arquivo mental os tais inimigos que viriam por mar. Cliquei na chamada e me deparei com imagens. Me senti como Montag lendo o jornal em quadrinhos. A diferença entre o personagem e eu é que a mim não bastavam as imagens. Eu continuo sem entender por que é preciso investir em segurança armada contra inimigos entre aspas no Brasil. Continuo sem entender por que essas imagens estão no jornal, ocupando lugar de destaque. Continuo sem entender que inimigo é esse, contra o qual é preciso disparar tiros e bombas.

O inimigo já se instalou. O inimigo é a fragmentação das notícias de jornal, é a escolha do que será tratado como notícia. O inimigo é o consumo de banalidades.

Num dos Philosophy Talks, o tema é verdade, falsidade, mentira e o que eles chamam de BS porque não podem pronunciar palavras de baixo calão no rádio (mas eu posso aqui: bull shit). Sabemos o que é verdade com letra maiúscula e o que são as verdades. Sabemos que a falsidade é a falta da verdade. Sabemos que a mentira é a omissão da verdade: quem mente está extremamente preocupado em esconder a verdade. Quando se trata de BS - que eu chamo de baboseira - há um descompromisso total e completo com a verdade.

Assim como "Saiba quais são os filmes mais vistos nos cinemas brasileiros" não é notícia de jornal, as imagens da operação Atlântico III não são notícia de jornal, mas baboseira. Em ambos os casos, falta texto, falta articulação, falta despertar no leitor a sensação de conexão da matéria com o mundo.

É frustrante pensar que eu poderia fazer esse exercício de detectar baboseiras exemplares maquiadas de notícias todo dia.

4 comentários:

fran disse...

Eu também demorei pra entender essa chamada e, de cara, pensei: "Jogando dinheiro fora..." Mas depois lembrei que a marinha cuida, também, das questões internas de trafego, traficantes, comércio ilegal de mercadorias... Enfim, acho que esse inimigo aí não é só um submarino da Marinha Inglesa não, embora eu também não duvidasse....rs.

Acho que o mesmo serve para o exército e a aeronáutica. Se eles já fazem m* com treinamento, imagine sem...

Preço caro, concordo. Até agora não acredito que estou fazendo essa defesa...

iglou disse...

Pois é, o uso das aspas muda tudo: dá a entender que o sentido normal da palavra é suspenso e que se está ironizando.
A informação continua incompleta.

Luis disse...

Arbex, meu antigo colega de Caros Amigos, chamava esse método BS, de fragmemtar e espetacularizar as notícias, de shownarlismo. No caso específico, o inimigo da hora seria a lassidão militar e logística do país que colocaria em questão a exploração regulamentar e "soberana" da Amazônia Azul
(como os milicos chamam o estoque petrolífero marinho depositado em águas profundas no pré-sal). As operações são de dissuasão e tentam disfarçar a atual incapacidade operacional das FFAA brasileiras em monitorar esse bilionário negócio extrativo que está se espraiando por milhares de quilometros de costa. Além da Petrobrás, petroleiras estrangeiras já ocupam suas posições nela e tem trazido consigo suas própias guardas navais mercenárias/para-militares. O efeito dissuasório pretendido das operações tem como alvo essas Cias "parceiras" e seus países de origem. Compôem ainda uma escalada de gastos militares, iniciada em 2008, como forma de contrarestar amistosamente o desaquecimento das indústrias siderúrugicas e de máquinas(grandes fornecedoras da indústria bélica), em tempos de crise internacional, coadjuvando assim para a "preciosa" coesão do atual bloco de poder do país. O problema ou a trabalhosa solução, como vêem, é ter sempre que recorrer a fontes alternativas, na maioria segmentadas e de acesso limitado, para conseguir estabelecer os nexos e cenários que a grande mídia deliberadamente oculta.

iglou disse...

O que seria de mim sem você?