A primeira vez que isso me aconteceu, foi com a Cynthia. Eu tinha me certificado de que o filme tinha legendas, mas não tinha reparado que as legendas eram só para as partes em que se fala somali (?). As partes em inglês estavam sem legenda e minha amiga teve que procurar pistas além da linguagem verbal para interpretar o filme. Se fosse francês, teria acontecido o contrário: ela teria traduzido pra mim. Desse modo, construímos o filme enquanto ele se desenrolava.
E como o texto não estava no primeiro plano, Cynthia percebeu que a personagem que faz a amiga da heroina é muito mais interessante do que a estrela. Os gestos, o modo de andar, se pintar, falar, rir apontavam para uma personagem muito mais complexa e complexada do que aquela que foi vítima e vai denunciar a circuncisão feminina.
Hoje eu quis ver M de Fritz Lang (1931). Antes de chamar o Marcelo pra ver também, verifiquei se tinha legenda. Como a sopa de letrinhas tava demorando pra passar, acelerei o filme pra chegar nos diálogos. Achei o filme dinâmico, expressivo, com pseudo-falas e sem legendas. Chamei o Marcelo e rodei o filme. Era devagar e todos falavam alemão. Como o som estava ruim (o meu som bom fica na Unir), eu também não entendia nada.
Mas somos a prova viva de que o público não é passivo. Conversamos muito durante o filme: tentando descrever a cena, dublando as falas, adivinhando o que se discutia. Até que mudei de lugar e, ouvindo o filme, fui traduzindo o que dava (fazer tradução simultânea é muito difícil). Aparentemente Marcelo gostou mais do filme que leu (expressividade dos gestos, movimento de câmera, montagem de sequências, papeis caricatos) do que eu, que fiquei frustrada por não ter ouvido a primeira parte do filme.
Especialmente nesse filme, que é muito teatral, ficou claro pra mim como os filmes ocidentais são verborrágicos. Eu provavelmente não entenderia um filme francês sem legenda, porque a palavra é central.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Immer lustiger
Enquanto a encomenda do livro sobre frutas no Brasil não chega, vou fotografando esse pequeno mistério que está crescendo no meu jardim. Alguém sabe o que é isso?
domingo, 4 de setembro de 2011
Depois de acordar
Sonhei que eu fazia parte da tua vida
Sonhei que eu me reconhecia nas tuas coisas
Sonhei que você fazia as contas de quanto devíamos um ao outro
Sonhei que essa estória estava mal contada
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Autoajuda e TV
Os livros de autoajuda surgiram depois do final da Segunda Guerra Mundial, ganharam terreno nos EUA e hoje estão no topo das vendas das livrarias brasileiras. Enquanto fenômeno da pós-modernidade, são objeto de estudo de uma tese de doutorado: Adail Sobral aposta na emergência de um novo gênero textual.
A televisão entrou devagar nos lares brasileiros na década de 50, mas hoje praticamente todas as casas estão equipadas com pelo menos uma televisão. Enquanto símbolo da modernidade, transformou processos cognitivos básicos como atenção, memória e captura pela imagem audiovisual.
* * *
O termo 'autoajuda' é paradoxal, porque os leitores desse tipo de textos procuram ajuda externa (no livro). A ideia de que o leitor vai achar em si mesmo todos os elementos para solucionar seus problemas e os problemas do mundo é ilusória.
A televisão não é um meio de comunicação, porque não existe interação entre quem está na TV e o público.
Os que sabem ler, mas não ligam para a Literatura, os que se importam com o conteúdo e não percebem a forma, os que consomem informação sem atentar para estilo leem autoajuda. No gênero autoajuda (já assumindo que seja mesmo um gênero) cabe muita coisa: manual para educar os filhos, receita para o sucesso, conselhos de como viver em harmonia com o cosmos, reflexão mística, cura para os males, confissões, pseudo-ciência e muita ficção.
Os que não sabem o que fazer com o tempo livre, os que acreditam que a televisão informa notícias, fatos e a verdade, os que buscam entretenimento passivo, os que se divertem com pouca arte assistem TV. Na televisão cabe muita coisa: além de cada canal oferecer uma programação diversificada, o número de canais cresce constantemente.
* * *
Livros de autoajuda custam menos que uma sessão de terapia. Sentar na cadeira não custa o esforço de deslocar-se ao local onde a ajuda é oferecida. Ler em silêncio não custa o desgaste emocional de pedir ajuda, explicar o problema, dialogar com outra pessoa.
Ver televisão custa menos que ir ao cinema. Trocar de canal custa menos que o esforço mental de inventar novas atividades ocupacionais. Sentar no sofá custa menos que o esforço físico de interagir com o meio ambiente.
No caso dos livros de autoajuda, quem alcança o sucesso são o escritor e a editora, não o leitor de fé pequena. Fé na ciência que é vestida da vagueza das inúmeras possibilidades da física quântica.
No caso da televisão, a informação é editada, manipulada e transformada em entretenimento. Aqui, a ciência se manifesta através da tecnologia e seus vários bens de consumo.
* * *
Segundo Sobral, os livros de autoajuda propõem "uma espécie de sujeito coletivo global-cósmico-subjetivo não muito definido". (p. 47).
Televisão é cultura de massa.
Os livros de autoajuda mais vendidos no Brasil são traduzidos principalmente do inglês. Segundo Sobral, os originais escritos no Brasil são simulacros de originais norteamericanos bem-sucedidos.
Os programas, formatos e esquemas da televisão brasileira são americanos. Tipicamente brasileiros são as novelas e os canais que ninguém assiste.
* * *
A tragédia alheia é o ponto de partida dos livros de autoajuda para mostrar ao leitor como os seus próprios problemas são insignificantes. Preparado para agir, o leitor é instruído pelo escritor a conformar-se. Desconfio que essa geração consumidora de autoajuda talvez nem tenha problemas facilmente identificáveis. Suponho que quando terminam o livro, contentam-se em perceber, conformados, que seu maior problema era o tédio.
A tragédia humana é a principal atração da televisão. Notícias de massacres, desastres, corrupção, violência, ignorância e guerra disputam a atenção do telespectador com a banalização da sexualidade, estupidificação da infância e exposição do ridículo. A tragédia alheia lá longe cria no público a sensação de impotência. Depois de desligar a TV, os telespectadores não tomam as ruas nem o poder público, porque a TV lhes mostrou que o mundo é um lugar inseguro.
A televisão entrou devagar nos lares brasileiros na década de 50, mas hoje praticamente todas as casas estão equipadas com pelo menos uma televisão. Enquanto símbolo da modernidade, transformou processos cognitivos básicos como atenção, memória e captura pela imagem audiovisual.
* * *
O termo 'autoajuda' é paradoxal, porque os leitores desse tipo de textos procuram ajuda externa (no livro). A ideia de que o leitor vai achar em si mesmo todos os elementos para solucionar seus problemas e os problemas do mundo é ilusória.
A televisão não é um meio de comunicação, porque não existe interação entre quem está na TV e o público.
Os que sabem ler, mas não ligam para a Literatura, os que se importam com o conteúdo e não percebem a forma, os que consomem informação sem atentar para estilo leem autoajuda. No gênero autoajuda (já assumindo que seja mesmo um gênero) cabe muita coisa: manual para educar os filhos, receita para o sucesso, conselhos de como viver em harmonia com o cosmos, reflexão mística, cura para os males, confissões, pseudo-ciência e muita ficção.
Os que não sabem o que fazer com o tempo livre, os que acreditam que a televisão informa notícias, fatos e a verdade, os que buscam entretenimento passivo, os que se divertem com pouca arte assistem TV. Na televisão cabe muita coisa: além de cada canal oferecer uma programação diversificada, o número de canais cresce constantemente.
* * *
Livros de autoajuda custam menos que uma sessão de terapia. Sentar na cadeira não custa o esforço de deslocar-se ao local onde a ajuda é oferecida. Ler em silêncio não custa o desgaste emocional de pedir ajuda, explicar o problema, dialogar com outra pessoa.
Ver televisão custa menos que ir ao cinema. Trocar de canal custa menos que o esforço mental de inventar novas atividades ocupacionais. Sentar no sofá custa menos que o esforço físico de interagir com o meio ambiente.
No caso dos livros de autoajuda, quem alcança o sucesso são o escritor e a editora, não o leitor de fé pequena. Fé na ciência que é vestida da vagueza das inúmeras possibilidades da física quântica.
No caso da televisão, a informação é editada, manipulada e transformada em entretenimento. Aqui, a ciência se manifesta através da tecnologia e seus vários bens de consumo.
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Segundo Sobral, os livros de autoajuda propõem "uma espécie de sujeito coletivo global-cósmico-subjetivo não muito definido". (p. 47).
Televisão é cultura de massa.
Os livros de autoajuda mais vendidos no Brasil são traduzidos principalmente do inglês. Segundo Sobral, os originais escritos no Brasil são simulacros de originais norteamericanos bem-sucedidos.
Os programas, formatos e esquemas da televisão brasileira são americanos. Tipicamente brasileiros são as novelas e os canais que ninguém assiste.
* * *
A tragédia alheia é o ponto de partida dos livros de autoajuda para mostrar ao leitor como os seus próprios problemas são insignificantes. Preparado para agir, o leitor é instruído pelo escritor a conformar-se. Desconfio que essa geração consumidora de autoajuda talvez nem tenha problemas facilmente identificáveis. Suponho que quando terminam o livro, contentam-se em perceber, conformados, que seu maior problema era o tédio.
A tragédia humana é a principal atração da televisão. Notícias de massacres, desastres, corrupção, violência, ignorância e guerra disputam a atenção do telespectador com a banalização da sexualidade, estupidificação da infância e exposição do ridículo. A tragédia alheia lá longe cria no público a sensação de impotência. Depois de desligar a TV, os telespectadores não tomam as ruas nem o poder público, porque a TV lhes mostrou que o mundo é um lugar inseguro.
domingo, 28 de agosto de 2011
Chuva
No dia em que voltei de Porto Alegre, choveu aqui. Não vi a chuva, nem achei rastros das goteiras na casa, mas disseram que foi muita água. Essa chuva tinha esfriado o Norte, de modo que a volta pra casa não foi equivalente a uma visita ao inferno.
No dia seguinte, quando levantei da cama, meu pé direito ficou no chão. O calcanhar parecia não ter força nem impulso para levantar-se. Quando o pé puxava o calcanhar pelo joelho para o alto, sentia dor nos sete parafusos de titânio. Mancava durante a preparação do café da manhã e sentia mais segurança e menos dor dentro dum tênis.
A cena e a dor no pé ruim se repetiram por uns três dias. Achei estranho sentir essa dor em Rondônia, na época de seca. No primeiro ano depois do acidente, eu podia prever chuvas e mudanças de temperatura com uma certa precisão. Mudanças de umidade, temperatura e pressão atmosférica causavam dilatação do metal, o que me fazia mancar. Mas agora já faz quatro anos que quebrei o pé e a última vez que os parafusos me forçaram a mancar foi quando fui surpreendida pela neve em München. Como que sinto dor depois de voltar dos 10°C que tava fazendo no Rio Grande do Sul? Deveria ter sentido dor lá, não aqui.
Não consultei sites de previsão de tempo, horóscopo ou os jornais para entender essa dor descontextualizada. Também não acreditei quando ouvi uma conversa do Marcelo com a mãe no telefone em que ele informava que agora tinha começado a época de chuva. Igualmente não achei estranho que a linha do horizonte tivesse se transformado numa nuvem marrom-acinzentada.
Ontem de noite fez um calor congolês. Nem o ventilador me impedia de suar. Me instalei no quarto de hóspedes e liguei o ar condicionado. Desliguei o ar quando ouvi a chuva, às duas da madrugada. A chuva engrossava e parava. Crescia, vinha com o vento, derrubava os jambos no telhado, parava. Saltei da cama pra tirar tudo das tomadas. Voltei pro meu quarto, armei o mosquiteiro, mas não consegui dormir enquanto chovia. Porque chovia muito forte. Entendi que a dor no pé tinha sido um anúncio dessa chuva e que o calor da noite tinha sido a preparação pra mudança de temperatura. Até fechei os olhos, mas prestei atenção nas goteiras gotejando. Afastei móveis, coloquei potes pra coletar a água e fui na janela, ver a água. A rua tinha virado rio, um lago havia se formado na porta de casa.
Depois que parou de chover, ainda esperei pela prorrogação, depois das quatro da manhã. Não veio, e finalmente consegui dormir. Sonhei que a casa alagava.
No dia seguinte, quando levantei da cama, meu pé direito ficou no chão. O calcanhar parecia não ter força nem impulso para levantar-se. Quando o pé puxava o calcanhar pelo joelho para o alto, sentia dor nos sete parafusos de titânio. Mancava durante a preparação do café da manhã e sentia mais segurança e menos dor dentro dum tênis.
A cena e a dor no pé ruim se repetiram por uns três dias. Achei estranho sentir essa dor em Rondônia, na época de seca. No primeiro ano depois do acidente, eu podia prever chuvas e mudanças de temperatura com uma certa precisão. Mudanças de umidade, temperatura e pressão atmosférica causavam dilatação do metal, o que me fazia mancar. Mas agora já faz quatro anos que quebrei o pé e a última vez que os parafusos me forçaram a mancar foi quando fui surpreendida pela neve em München. Como que sinto dor depois de voltar dos 10°C que tava fazendo no Rio Grande do Sul? Deveria ter sentido dor lá, não aqui.
Não consultei sites de previsão de tempo, horóscopo ou os jornais para entender essa dor descontextualizada. Também não acreditei quando ouvi uma conversa do Marcelo com a mãe no telefone em que ele informava que agora tinha começado a época de chuva. Igualmente não achei estranho que a linha do horizonte tivesse se transformado numa nuvem marrom-acinzentada.
Ontem de noite fez um calor congolês. Nem o ventilador me impedia de suar. Me instalei no quarto de hóspedes e liguei o ar condicionado. Desliguei o ar quando ouvi a chuva, às duas da madrugada. A chuva engrossava e parava. Crescia, vinha com o vento, derrubava os jambos no telhado, parava. Saltei da cama pra tirar tudo das tomadas. Voltei pro meu quarto, armei o mosquiteiro, mas não consegui dormir enquanto chovia. Porque chovia muito forte. Entendi que a dor no pé tinha sido um anúncio dessa chuva e que o calor da noite tinha sido a preparação pra mudança de temperatura. Até fechei os olhos, mas prestei atenção nas goteiras gotejando. Afastei móveis, coloquei potes pra coletar a água e fui na janela, ver a água. A rua tinha virado rio, um lago havia se formado na porta de casa.
Depois que parou de chover, ainda esperei pela prorrogação, depois das quatro da manhã. Não veio, e finalmente consegui dormir. Sonhei que a casa alagava.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Outra percepção
Semestre passado dei aula de Linguística Geral. Quem presentificou esse fato na minha memória foi a minha chefe de departamento. Os alunos reprovados em Linguística Geral não puderam se matricular no curso de Fonética, porque Linguística Geral é pré-requisito. Foram na Dirca (Diretoria de Registro e Controle Acadêmico) pedir peloamordedeus. O responsável lá disse que o sistema não permitia matrícula em matéria que tinha pré-requisito não cumprido (leia-se: o sistema não é maleável) e sugeriu que esses alunos conversassem com a chefe de departamento (leia-se: as pessoas são maleáveis).
Minha chefe achou esse papo de quebrar pré-requisito muito estranho e explicou que ela não tem esse poder de mudar a grade curricular e suas condições. Eles não entenderam e continuaram a insistir peloamordedeus que ela abrisse uma exceção.
Hoje uma dessas alunas me parou no corredor, explicou a situação e me pediu pra melhorar a nota dela em Linguística Geral. Dei risada na cara dela. Daquelas risadas que sai mais ar do que som. Daquelas risadas que sopram na cara do outro o absurdo que é o pedido.
Que percepção distorcida da vida acadêmica é essa? Não estudaram pra prova, não estudaram pra repositiva e se conformaram com a reprovação. Daí, quando não conseguiram fazer a matrícula de uma matéria, acham que o mundo vai acabar e que é preciso, a qualquer custo e de qualquer maneira, conseguir acompanhar a turma. Será que essas tentativas de burlar o sistema já eram praticadas na escola? Reprovar na escola significa repetir um ano. Reprovar na universidade significa repetir uma disciplina.
E repetir se faz necessário, já que a pessoa não conseguiu passar essa etapa de forma proveitosa. Se não aprendeu na primeira, vai na segunda.
Minha chefe achou esse papo de quebrar pré-requisito muito estranho e explicou que ela não tem esse poder de mudar a grade curricular e suas condições. Eles não entenderam e continuaram a insistir peloamordedeus que ela abrisse uma exceção.
Hoje uma dessas alunas me parou no corredor, explicou a situação e me pediu pra melhorar a nota dela em Linguística Geral. Dei risada na cara dela. Daquelas risadas que sai mais ar do que som. Daquelas risadas que sopram na cara do outro o absurdo que é o pedido.
Que percepção distorcida da vida acadêmica é essa? Não estudaram pra prova, não estudaram pra repositiva e se conformaram com a reprovação. Daí, quando não conseguiram fazer a matrícula de uma matéria, acham que o mundo vai acabar e que é preciso, a qualquer custo e de qualquer maneira, conseguir acompanhar a turma. Será que essas tentativas de burlar o sistema já eram praticadas na escola? Reprovar na escola significa repetir um ano. Reprovar na universidade significa repetir uma disciplina.
E repetir se faz necessário, já que a pessoa não conseguiu passar essa etapa de forma proveitosa. Se não aprendeu na primeira, vai na segunda.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
domingo, 21 de agosto de 2011
Traduttore = traditore
Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Ich bin lieber diese wandernde Metamorphose
I'd rather be this walking metamorphosis
Eu queria ser essa metamorfose caminhante
Perde-se informação, graça e beleza na tradução, sabemos disso. Se eu tivesse usado o Google translator, a aventura teria sido maior que essa, que experimentei acima. Estou ainda impressionada com o seminário avançado e a conferência de Gustavo Bernardo
sobre Vilém Flusser, um tcheco que publicou em quatro línguas, mas nunca na sua língua materna. A maior parte das publicações de Flusser, e as de maior peso, foram escritas em alemão (na máquina de escrever, nunca à mão ou no computador). Enquanto judeu que teve familiares mortos em Auschwitz, fez questão de aprender e dominar a língua do inimigo. Como viveu durante aproximadamente 30 anos no Brasil e teve seus filhos aqui, publicou também em português. Escrevia muito para jornal, especialmente a Folha. Em menor quantidade, publicou em inglês e francês.
Mais interessante que ter um filósofo poliglota é ter um filósofo das mídias que traduz (e assim modifica) os próprios textos. A filosofia da fotografia, por exemplo, seu livro de maior projeção, foi escrito em alemão (e hoje é tomado como base pras outras traduções). Só que o próprio Flusser traduziu (modificando e arredondando) o texto do alemão pro português, sob o título A filosofia da caixa preta.
Não é à toa que um dos grandes temas do Flusser seja a escrita. O trabalho que eu apresentei no Colóquio Leitura e Cognição tenta tocar justo nessa veia de que as imagens técnicas (video) estão cada vez mais empurrando a palavra escrita pro escanteio.
No aeroporto, comecei a ler o Memória do Iván Izquierdo:
"O próprio conceito de memória envolve abstrações. Podemos lembrar de maneira vívida o perfume de uma flor, um acontecimento, um rosto, um poema, a partitura de uma sinfonia inteira, como fazia Mozart quando criança, ou um vastíssimo repertório de jogadas de xadrez, como fazem os grandes mestres desse jogo. Mas a lembrança não é igual à realidade. A memória do perfume da rosa não nos traz a rosa; a dos cabelos da primeira namorada não a traz de volta, a da voz do amigo falecido não o recupera. Há um passe de prestidigitação cerebral nisso; o cérebro converte a realidade em códigos e a evoca também através de códigos.
[...]
Existe um processo de tradução entre a realidade das experiências e a formação da realidade respectiva; e outro entre esta e a correspondente evocação. (...) [N]ós os humanos usamos muito a linguagem para fazer essas traduções; os animais não." (p. 20 - 21)
O ponto em que quero chegar é a constatação de que portadores de Alzheimer com ensino superior são mais resistentes à dissolução da memória. O que uma pessoa faz no ensino superior? Estuda. Como a civilização ocidental estuda? Lendo. Flusser chega a afirmar que a civilização ocidental pensa por escrito. Durante qualquer graduação (mesmo que seja de Educação Física ou Artes Plásticas), a exposição ao texto escrito é grande.
De alguma forma, parece que a escrita funciona como muleta da memória. E a muleta traduz o movimento da perna. Claro que não se trata de uma tradução literal, fiel: muletar é diferente de caminhar sozinho.
Ich bin lieber diese wandernde Metamorphose
I'd rather be this walking metamorphosis
Eu queria ser essa metamorfose caminhante
Perde-se informação, graça e beleza na tradução, sabemos disso. Se eu tivesse usado o Google translator, a aventura teria sido maior que essa, que experimentei acima. Estou ainda impressionada com o seminário avançado e a conferência de Gustavo Bernardo
| Gustavo Bernardo no Seminário Avançado sobre a Ficção de Flusser |
Mais interessante que ter um filósofo poliglota é ter um filósofo das mídias que traduz (e assim modifica) os próprios textos. A filosofia da fotografia, por exemplo, seu livro de maior projeção, foi escrito em alemão (e hoje é tomado como base pras outras traduções). Só que o próprio Flusser traduziu (modificando e arredondando) o texto do alemão pro português, sob o título A filosofia da caixa preta.
Não é à toa que um dos grandes temas do Flusser seja a escrita. O trabalho que eu apresentei no Colóquio Leitura e Cognição tenta tocar justo nessa veia de que as imagens técnicas (video) estão cada vez mais empurrando a palavra escrita pro escanteio.
No aeroporto, comecei a ler o Memória do Iván Izquierdo:
"O próprio conceito de memória envolve abstrações. Podemos lembrar de maneira vívida o perfume de uma flor, um acontecimento, um rosto, um poema, a partitura de uma sinfonia inteira, como fazia Mozart quando criança, ou um vastíssimo repertório de jogadas de xadrez, como fazem os grandes mestres desse jogo. Mas a lembrança não é igual à realidade. A memória do perfume da rosa não nos traz a rosa; a dos cabelos da primeira namorada não a traz de volta, a da voz do amigo falecido não o recupera. Há um passe de prestidigitação cerebral nisso; o cérebro converte a realidade em códigos e a evoca também através de códigos.
[...]
Existe um processo de tradução entre a realidade das experiências e a formação da realidade respectiva; e outro entre esta e a correspondente evocação. (...) [N]ós os humanos usamos muito a linguagem para fazer essas traduções; os animais não." (p. 20 - 21)
O ponto em que quero chegar é a constatação de que portadores de Alzheimer com ensino superior são mais resistentes à dissolução da memória. O que uma pessoa faz no ensino superior? Estuda. Como a civilização ocidental estuda? Lendo. Flusser chega a afirmar que a civilização ocidental pensa por escrito. Durante qualquer graduação (mesmo que seja de Educação Física ou Artes Plásticas), a exposição ao texto escrito é grande.
De alguma forma, parece que a escrita funciona como muleta da memória. E a muleta traduz o movimento da perna. Claro que não se trata de uma tradução literal, fiel: muletar é diferente de caminhar sozinho.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Santa Cruz do Sul
| Estava chovendo a potes quando tirei a foto |
A espinha dorsal carrega o nome de uma figura militar
O pulmão é o parque da gruta
O cérebro fica um pouco distante e cobra mensalide dos estudantes
As fábricas de tabaco ficam ao redor
A variedade de cucas é notória
As pessoas se cumprimentam nas ruas
As calçadas ficam escorregadias quando chove
Os restaurantes se esvaziam perto das 13:00
Sagu de sobremensa é cortesia
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Fofinhas
Na mesa Leitura e Processos Cognitivos, dois trabalhos envolviam leitura nas novas mídias: internet e tablet (Ipad). A discussão que se seguiu, sobre as tecnologias touch, se deu num nível que pressupunha que o Ipad está tão disseminado quanto o celular.
Eu nunca vi um troço desse de perto, mas dizem que faz sucesso na comunidade autista.
* * *
A moça que apresentou sobre processos de leitura na internet comentou, detrás de seu Macintosh, que se a Linguística quiser ter um futuro, precisa reforçar sua interface com a Informática e as Neurociências.
Como se a Linguística de campo, de texto, a aquisição, fonética, fonologia, morfologia, sintaxe, semântica e pragmática tivessem sido esgotadas e não oferecessem mais nada de novo.
* * *
A moderadora da minha mesa encerrou os trabalhos da primeira parte da tarde dizendo que "a tecnologia está em toda parte, até mesmo dentro de nós, haja vista o marca-passo".
Será que ela tem essa tem essa tecnologia no coração?
* * *
A conferencista da noite, depois de recontar todas as suas publicações - como chegou às ideias e depois como foi a repercussão dos textos publicados - afirmou que "o ser humano é a criatura mais frágil da face da Terra, e ainda assim sobreviveu ao dinossauro".
Pena que os humanos e os dinossauros não existiram no mesmo período de tempo.
Eu nunca vi um troço desse de perto, mas dizem que faz sucesso na comunidade autista.
* * *
A moça que apresentou sobre processos de leitura na internet comentou, detrás de seu Macintosh, que se a Linguística quiser ter um futuro, precisa reforçar sua interface com a Informática e as Neurociências.
Como se a Linguística de campo, de texto, a aquisição, fonética, fonologia, morfologia, sintaxe, semântica e pragmática tivessem sido esgotadas e não oferecessem mais nada de novo.
* * *
A moderadora da minha mesa encerrou os trabalhos da primeira parte da tarde dizendo que "a tecnologia está em toda parte, até mesmo dentro de nós, haja vista o marca-passo".
Será que ela tem essa tem essa tecnologia no coração?
* * *
A conferencista da noite, depois de recontar todas as suas publicações - como chegou às ideias e depois como foi a repercussão dos textos publicados - afirmou que "o ser humano é a criatura mais frágil da face da Terra, e ainda assim sobreviveu ao dinossauro".
Pena que os humanos e os dinossauros não existiram no mesmo período de tempo.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Do Velho pro Alegre
| Neblina e chuvisco |
| Kikito, mascote do Festival de Cinema de Gramado |
| Oma |
| Época de bergamotas, laranjas e limões |
| Fez 12°C na noite de sábado pra domingo: 3 cobertores |
| Mimosen |
| Magnólias |
| Cereja, pêssego ou ameixa? |
| Helena, de quase dois anos |
| Invertida |
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Deve ser patológico
Devo ter alguma disfunção em relação a números. Minhas contas não batem, anoto medidas que a régua não mostra, me perco em contagens simples.
Logo no primeiro mês depois de entrar na casa, pus o pé na pia do banheiro e levei ao chão a cuba junto com parte do mármore. Durante muito tempo, fiquei com medo de cair pra trás ao ouvir o valor da prancha de mármore e desencanei de consertar o estrago. Passei a usar o outro banheiro da casa. O outro banheiro era até mais interessante: além de ter pia, tem uma descarga ecológica, que puxa a água por baixo, tipo banheiro de avião. Mas daí passei a dividir a casa com o Marcelo. Tomei vergonha na cara e fui na marmoraria.
O preço do metro do mármore nem era de outro mundo, e a vendedora me disse que o mármore branco era o mais vagabundo (palavras dela) que tinha. Mostrei uma foto do mármore pra vendedora e relatei as medidas que eu tinha anotado num caderninho. Algumas medidas eu não sabia, como por exemplo o diâmetro mais longo da pia, já que toda a parte da direita tinha se despedaçado. Mas estimei 38cm.
Ela deu prazo de oito dias pra entrega. Depois de oito dias, consegui um carro emprestado e fui comprar a cuba. A medida do diâmetro maior não batia com a medida que eu tinha informado na marmoraria: 5 cm de diferença. A moça da loja de coisas de banheiro me mandou pra marmoraria com a cuba. Chegando lá, a vendedora agradeceu a visita e disse que tava pra me chamar, já que eu tinha indicado medidas fora do padrão.
No dia seguinte, a vendedora da marmoraria me ligou perguntando como as faixas pretas se encaixavam no mármore: se eram recortadas, encravadas, sei lá. Tirei foto do mármore por baixo e voltei na marmoraria.
Chegando lá, a vendedora me levou na produção. Rodeada de homens escondidos atrás de máscaras, fiquei surda e mergulhada numa nuvem de pó branco. Quando o funcionário pegou a minha prancha, me espantei com o tamanho dela: era muito maior do que eu esperava. E se fosse instalada do jeito que tava, não daria pra sentar na privada. O papel das medidas foi recuperado, o mestre veio, gente foi aglomerando e eu tentava falar com as mãos, pra driblar o barulho. Decidiram que um funcionário tinha que ver com os próprios olhos o que tinha nas fotos que eu tava mostrando.
- Eu tô de bicicleta.
- Tudo bem, eu também.
- Minha casa é lá no Cohab e a gente vai pedalar 5 km.
- Tem problema, não.
Ele veio pedalando a Barra Forte azul dele na minha frente (furando todos os faróis). Olhou pra pia e entendeu que a prancha de mármore tinha um metro, não um metro e meio. Que vergonha... Duas das sete medidas que forneci estavam erradas. Só conseguiram fazer a peça quando receberam a cuba e quando o funcionário veio medir o mármore aqui em casa.
Logo no primeiro mês depois de entrar na casa, pus o pé na pia do banheiro e levei ao chão a cuba junto com parte do mármore. Durante muito tempo, fiquei com medo de cair pra trás ao ouvir o valor da prancha de mármore e desencanei de consertar o estrago. Passei a usar o outro banheiro da casa. O outro banheiro era até mais interessante: além de ter pia, tem uma descarga ecológica, que puxa a água por baixo, tipo banheiro de avião. Mas daí passei a dividir a casa com o Marcelo. Tomei vergonha na cara e fui na marmoraria.
O preço do metro do mármore nem era de outro mundo, e a vendedora me disse que o mármore branco era o mais vagabundo (palavras dela) que tinha. Mostrei uma foto do mármore pra vendedora e relatei as medidas que eu tinha anotado num caderninho. Algumas medidas eu não sabia, como por exemplo o diâmetro mais longo da pia, já que toda a parte da direita tinha se despedaçado. Mas estimei 38cm.
Ela deu prazo de oito dias pra entrega. Depois de oito dias, consegui um carro emprestado e fui comprar a cuba. A medida do diâmetro maior não batia com a medida que eu tinha informado na marmoraria: 5 cm de diferença. A moça da loja de coisas de banheiro me mandou pra marmoraria com a cuba. Chegando lá, a vendedora agradeceu a visita e disse que tava pra me chamar, já que eu tinha indicado medidas fora do padrão.
No dia seguinte, a vendedora da marmoraria me ligou perguntando como as faixas pretas se encaixavam no mármore: se eram recortadas, encravadas, sei lá. Tirei foto do mármore por baixo e voltei na marmoraria.
Chegando lá, a vendedora me levou na produção. Rodeada de homens escondidos atrás de máscaras, fiquei surda e mergulhada numa nuvem de pó branco. Quando o funcionário pegou a minha prancha, me espantei com o tamanho dela: era muito maior do que eu esperava. E se fosse instalada do jeito que tava, não daria pra sentar na privada. O papel das medidas foi recuperado, o mestre veio, gente foi aglomerando e eu tentava falar com as mãos, pra driblar o barulho. Decidiram que um funcionário tinha que ver com os próprios olhos o que tinha nas fotos que eu tava mostrando.
- Eu tô de bicicleta.
- Tudo bem, eu também.
- Minha casa é lá no Cohab e a gente vai pedalar 5 km.
- Tem problema, não.
Ele veio pedalando a Barra Forte azul dele na minha frente (furando todos os faróis). Olhou pra pia e entendeu que a prancha de mármore tinha um metro, não um metro e meio. Que vergonha... Duas das sete medidas que forneci estavam erradas. Só conseguiram fazer a peça quando receberam a cuba e quando o funcionário veio medir o mármore aqui em casa.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Um mês em casa
Mustafá chegou em casa faz um mês. Veio de bicicleta, via veterinário. Chegou com virose e ficou instalado no quarto de hóspedes enquanto tomava remédio. A vida da casa mudou completamente quando abri aquela porta.
Só duas janelas ficavam abertas pra Akari, que logo sacou que é melhor ficar fora da casa do que passar o dia sendo perseguida por um filhote louco pra cravar as unhas afiadas em tudo. Todavia, quando lá fora é mais quente que dentro da casa, os dois se abraçam, rolam pelo chão e tufinhos dos pêlos da Akari flutuam pelo piso.
Aos poucos, Mustafá entende o conceito de carinho - que por definição exclui garras e dentes afiados. Ultimamente ele não tem mais se enganchado no meu mosquiteiro, me expondo aos mosquitos, e tem respeitado o meu sono. Mas ele continua tirando plugs da tomada (principalmente do computador), derrubando o potinho de água enquanto demarca território, comendo a ração da Akari (e vice-versa) e crescendo. Na verdade, ele dobrou de peso (está com 1,4 kg) em um mês.
Só duas janelas ficavam abertas pra Akari, que logo sacou que é melhor ficar fora da casa do que passar o dia sendo perseguida por um filhote louco pra cravar as unhas afiadas em tudo. Todavia, quando lá fora é mais quente que dentro da casa, os dois se abraçam, rolam pelo chão e tufinhos dos pêlos da Akari flutuam pelo piso.
Aos poucos, Mustafá entende o conceito de carinho - que por definição exclui garras e dentes afiados. Ultimamente ele não tem mais se enganchado no meu mosquiteiro, me expondo aos mosquitos, e tem respeitado o meu sono. Mas ele continua tirando plugs da tomada (principalmente do computador), derrubando o potinho de água enquanto demarca território, comendo a ração da Akari (e vice-versa) e crescendo. Na verdade, ele dobrou de peso (está com 1,4 kg) em um mês.
sábado, 6 de agosto de 2011
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
O resgate vem com ar condicionado
Ontem de noite seria apresentado o segundo documentário da Mostra Marília Rocha no SESC (A falta que me faz). Marcelo chegou em casa a tempo de decidir se ia ou não no SESC. Pensamos qual era o melhor jeito de ir: de ônibus ou de bicicleta. Seria um ônibus só, que passa a cada 20 minutos a duas quadras daqui e nos deixaria na porta do SESC. Contudo, dois fatores contavam a favor da bicicleta: o tempo que demora pra chegar no outro lado da cidade é o mesmo que o ônibus demora (pelo menos quando eu pedalo a Amarilda); e eu precisava comprar ração na pet shop perto do SESC (porque só lá tem a ração dos meus gatos), que não fica no trajeto do ônibus.
Fomos de bicicleta. Eu de Amarilda, Marcelo de Laranja Mecânica. Escolhi um caminho plano, tendo em vista o fato de que a bicicleta que ele tinha era mais pesada e não tinha marcha. Chegamos 8 minutos atrasados no SESC. Depois do filme, as duas bicicletas tinham ganhado um companheiro no bicicletário normalmente vazio (e inacessível por causa das motos estacionadas na entrada do bicicletário: faroeste...).
Tinham dito que tinha uma outra mostra, de curtas, na praça Madeira-Mamoré. Colocamos a praça na nossa rota e vimos dois curtas esquisitos. Pegamos a 7 de Setembro e entamos na Campos Sales. Na subida, chegando no cruzamento com a Almirante Barroso, percebi que o meu pneu de trás estava furado. Era o segundo furo na mesma semana. Desci e empurrei, Marcelo me acompanhou. Descemos e subimos e descemos e subimos aquela avenida sem calçada, em que o mato seco beira o asfalto irregular nas bordas. Pelos meus cálculos, tínhamos 6km de chão pela frente.
Antes do trevo da Eletronorte, uma pickup com caçamba grande parou na beira da estrada. Pressenti um resgate, cuja aceitação eu negociaria com o Marcelo. Quando chegamos perto, ouvi:
- Oi, professora! Quer ajuda?
O motorista tinha sido meu aluno exatamente dois anos atrás. Botamos as bicicletas na caçamba e voltamos pra casa no ar condicionado da cabine. Pra ele, que é obeso, a imaginação de Marcelo e eu empurrando bicicletas de noite até o Cohab era aterrorizante. Eu fiquei impressionada que ele me reconheceu de costas, de noite; e com a solidariedade dele.
Fomos de bicicleta. Eu de Amarilda, Marcelo de Laranja Mecânica. Escolhi um caminho plano, tendo em vista o fato de que a bicicleta que ele tinha era mais pesada e não tinha marcha. Chegamos 8 minutos atrasados no SESC. Depois do filme, as duas bicicletas tinham ganhado um companheiro no bicicletário normalmente vazio (e inacessível por causa das motos estacionadas na entrada do bicicletário: faroeste...).
Tinham dito que tinha uma outra mostra, de curtas, na praça Madeira-Mamoré. Colocamos a praça na nossa rota e vimos dois curtas esquisitos. Pegamos a 7 de Setembro e entamos na Campos Sales. Na subida, chegando no cruzamento com a Almirante Barroso, percebi que o meu pneu de trás estava furado. Era o segundo furo na mesma semana. Desci e empurrei, Marcelo me acompanhou. Descemos e subimos e descemos e subimos aquela avenida sem calçada, em que o mato seco beira o asfalto irregular nas bordas. Pelos meus cálculos, tínhamos 6km de chão pela frente.
Antes do trevo da Eletronorte, uma pickup com caçamba grande parou na beira da estrada. Pressenti um resgate, cuja aceitação eu negociaria com o Marcelo. Quando chegamos perto, ouvi:
- Oi, professora! Quer ajuda?
O motorista tinha sido meu aluno exatamente dois anos atrás. Botamos as bicicletas na caçamba e voltamos pra casa no ar condicionado da cabine. Pra ele, que é obeso, a imaginação de Marcelo e eu empurrando bicicletas de noite até o Cohab era aterrorizante. Eu fiquei impressionada que ele me reconheceu de costas, de noite; e com a solidariedade dele.
sábado, 30 de julho de 2011
Pântano numérico
7:00 h o despertador toca.
1 iogurte, 2 fatias de pão, 1 xícara de Nescau (1 mês sem café).
40 minutos ele demorou para achar a casa.
40 reais me cobrou para cortar a grama seca e me dizer que plantas tenho no jardim.
1 pé de cacau, 1 de graviola, 2 araçá-boi.
3 noni em 1 litro de vinho fermentando por 15 dias para curar doenças respiratórias.
Quantos desvios da ortografia posso encontrar em 102 redações?
Quantas classificações posso ter para essas grafias desviantes?
Quantos problemas de concordância há nesses textos?
Quantas possibilidades eles têm para não concordar?
2 batatas, 1 abóbora, 3 filés de frango.
12 músicas para fazer digestão.
1 gato dentro de casa, 1 gata miando no telhado.
36° C lá fora.
Quantos sujeitos uma frase pode ter?
Quantos pronomes reflexivos um sujeito pode suportar?
15° pra direita a faxineira deixou o relógio de parede.
1 ventilador apenas.
30 minutos de pausa para regar o jardim.
3° banho.
1 gato dormindo no colo, outro dormindo no forro.
1 iogurte, 2 fatias de pão, 1 xícara de Nescau (1 mês sem café).
40 minutos ele demorou para achar a casa.
40 reais me cobrou para cortar a grama seca e me dizer que plantas tenho no jardim.
1 pé de cacau, 1 de graviola, 2 araçá-boi.
3 noni em 1 litro de vinho fermentando por 15 dias para curar doenças respiratórias.
Quantos desvios da ortografia posso encontrar em 102 redações?
Quantas classificações posso ter para essas grafias desviantes?
Quantos problemas de concordância há nesses textos?
Quantas possibilidades eles têm para não concordar?
2 batatas, 1 abóbora, 3 filés de frango.
12 músicas para fazer digestão.
1 gato dentro de casa, 1 gata miando no telhado.
36° C lá fora.
Quantos sujeitos uma frase pode ter?
Quantos pronomes reflexivos um sujeito pode suportar?
15° pra direita a faxineira deixou o relógio de parede.
1 ventilador apenas.
30 minutos de pausa para regar o jardim.
3° banho.
1 gato dormindo no colo, outro dormindo no forro.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Volta às aulas
Por causa do processo seletivo para o Mestrado em Estudos Literários, nem me afastei da Unir nessas férias. Isso significa que a volta às aulas não foi um choque em relação à Unir. Hoje foi o terceiro dia da semana que eu passei inteirinho lá. O estranhamento é quanto à desertificação do campus.
A cantina - que às 11:30 já não dispunha mais de lugar livre (sentar na mesa com pessoas desconhecidas me obrigava a conhecer gente nova), - está praticamente às moscas. As calouradas calorosas que coloriam o campus estão bem discretas. A reunião de departamento de hoje não teve córum.
Na turma em que dei aula tinha menos gente que os xeroxes que eu tinha tirado. Eu estava curiosa em relação a essa turma, que conta com um aluno portador de Síndrome de Asperger. Achei o moço um cara bacana, e vi que ele vai cobrar mais paciência dos colegas do que de mim (porque eu o acho interessante). Ele pergunta muito, pede pra repetir, interpreta as coisas literalmente e costuma ecoar a última frase dele. Outra coisa que me chamou atenção foi que, quando convidado a contar por que tinha escolhido aquele curso, encenou uma longa estória (longa mesmo) cheia de frases repetidas. Depois da aula, ele veio apertar a minha mão e me disse que eu era mais bonita de perto. E é assim que começa o segundo semestre.
A cantina - que às 11:30 já não dispunha mais de lugar livre (sentar na mesa com pessoas desconhecidas me obrigava a conhecer gente nova), - está praticamente às moscas. As calouradas calorosas que coloriam o campus estão bem discretas. A reunião de departamento de hoje não teve córum.
Na turma em que dei aula tinha menos gente que os xeroxes que eu tinha tirado. Eu estava curiosa em relação a essa turma, que conta com um aluno portador de Síndrome de Asperger. Achei o moço um cara bacana, e vi que ele vai cobrar mais paciência dos colegas do que de mim (porque eu o acho interessante). Ele pergunta muito, pede pra repetir, interpreta as coisas literalmente e costuma ecoar a última frase dele. Outra coisa que me chamou atenção foi que, quando convidado a contar por que tinha escolhido aquele curso, encenou uma longa estória (longa mesmo) cheia de frases repetidas. Depois da aula, ele veio apertar a minha mão e me disse que eu era mais bonita de perto. E é assim que começa o segundo semestre.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
E a vida selvagem
A Expedição pra Serra dos Pacaás miou de novo. Era pra ter acontecido nos dias 1, 2 e 3 de julho, mas só metade das pessoas (pagantes) esperadas se inscreveu.
O evento foi postergado pros dias 22, 23 e 24 e foi investido pesadamente em divulgação. Até eu divulguei o evento aqui.
Mas não foi o suficiente. Como a equipe organizadora precisava levar toda uma estrutura pra lá (inclusive gerador de energia), era crucial que o número mínimo de pagantes fosse preenchido. Cadê os aventureiros de Porto Velho? Assistindo TV, jogando video game, ouvindo tecno-brega.
A equipe decidiu não engolir o prejuízo e a decepção em seco. O plano B é o Vale das Cachoeiras, onde tem pousada, infra, tudo bonitinho e nada de camping (faz uns 5 anos que eu não durmo na minha barraca!).
Enquanto não vou ver a vida selvagem lá fora, fico em casa, apreciando as plantas do meu jardim e vendo o Mustafá crescer.
Atualização: a vida é dura. O plano B acaba de ser cancelado.
O evento foi postergado pros dias 22, 23 e 24 e foi investido pesadamente em divulgação. Até eu divulguei o evento aqui.
Mas não foi o suficiente. Como a equipe organizadora precisava levar toda uma estrutura pra lá (inclusive gerador de energia), era crucial que o número mínimo de pagantes fosse preenchido. Cadê os aventureiros de Porto Velho? Assistindo TV, jogando video game, ouvindo tecno-brega.
A equipe decidiu não engolir o prejuízo e a decepção em seco. O plano B é o Vale das Cachoeiras, onde tem pousada, infra, tudo bonitinho e nada de camping (faz uns 5 anos que eu não durmo na minha barraca!).
Enquanto não vou ver a vida selvagem lá fora, fico em casa, apreciando as plantas do meu jardim e vendo o Mustafá crescer.
Atualização: a vida é dura. O plano B acaba de ser cancelado.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
All the light I can carry
Potencialmente, sou um espaço vazio. Não tenho corpo nem alma, mas dou substância aos desejos dela. Quando um desejo dela se manifesta na forma de um plano, percebo que vou crescendo e formando contorno com o tempo. Me desfaço assim que seus planos se realizam e volto a ser - por alguns instantes - uma variável.
Minha última missão foi diferente: fui um mensageiro. Ela tinha participado ceticamente de um ritual religioso. Desacreditando as narrativas e estranhando os dogmas, entregou-me com fervor ao desconhecido. O procedimento desse ritual de passagem de ano era mandar uma luz a um morto. Das velas acesas, juntei toda a luz que consegui carregar e parti em viagem.
Mesmo viajando na velocidade da luz, demorei para encontrá-lo. Ele havia morrido há 9 anos, mas continuava ativo. Vivia na memória dos pais, irmãos, amigos, amantes e dela. Já tinha se desprendido das fotografias e das coisas que um dia foram dele. Ele se movimentava da memória de um para a saudade de outro, numa coreografia animada. Quando o encontrei, estava escutando música.
Ele ficou feliz com a luz que lhe dei. Nem perguntou nada sobre ela, sobre sua vida. Sabia que estava bem. Nem teve curiosidade de saber se tinha terminado a faculdade ou encontrado um outro grande amor da vida. A luz que ela tinha mandado por mim era clara, nítida e límpida o suficiente para ele entender que ela estava bem. Em retribuição, ele mandou música pra ela por mim.
As músicas eram de sua banda preferida, que ele não chegou a ver ao vivo. Ela tinha ido no show e naquela noite mentalmente contou pra ele tudo o que ouviu, viu e sentiu. A viagem de volta foi mais longa ainda. As músicas eram pesadas e ela já não estava mais no lugar de onde me mandou com a luz até ele.
Ela não conhecia as músicas que lhe entreguei, mas logo se afeiçoou. Voltei a descansar nela em forma de saudade dele. Acordo quando ela ouve Rush e me transformo em imagens de montanhas, em sensações de viagem, no grande amigo.
Minha última missão foi diferente: fui um mensageiro. Ela tinha participado ceticamente de um ritual religioso. Desacreditando as narrativas e estranhando os dogmas, entregou-me com fervor ao desconhecido. O procedimento desse ritual de passagem de ano era mandar uma luz a um morto. Das velas acesas, juntei toda a luz que consegui carregar e parti em viagem.
Mesmo viajando na velocidade da luz, demorei para encontrá-lo. Ele havia morrido há 9 anos, mas continuava ativo. Vivia na memória dos pais, irmãos, amigos, amantes e dela. Já tinha se desprendido das fotografias e das coisas que um dia foram dele. Ele se movimentava da memória de um para a saudade de outro, numa coreografia animada. Quando o encontrei, estava escutando música.
Ele ficou feliz com a luz que lhe dei. Nem perguntou nada sobre ela, sobre sua vida. Sabia que estava bem. Nem teve curiosidade de saber se tinha terminado a faculdade ou encontrado um outro grande amor da vida. A luz que ela tinha mandado por mim era clara, nítida e límpida o suficiente para ele entender que ela estava bem. Em retribuição, ele mandou música pra ela por mim.
As músicas eram de sua banda preferida, que ele não chegou a ver ao vivo. Ela tinha ido no show e naquela noite mentalmente contou pra ele tudo o que ouviu, viu e sentiu. A viagem de volta foi mais longa ainda. As músicas eram pesadas e ela já não estava mais no lugar de onde me mandou com a luz até ele.
Ela não conhecia as músicas que lhe entreguei, mas logo se afeiçoou. Voltei a descansar nela em forma de saudade dele. Acordo quando ela ouve Rush e me transformo em imagens de montanhas, em sensações de viagem, no grande amigo.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Marido de aluguel
Vi um Uno todo decorado com os dizeres "Marido de aluguel". Achei engraçado e comentei com uma amiga que "aqui em Porto Velho tem cada coisa". Ela riu e me explicou que o nome era uma brincadeira, mas que o serviço que eles ofereciam era sério: pequenos reparos na casa. Em Barão Geraldo, a empresa que faz(ia?) esse tipo de serviço se chama Emergency House. Os caras trocavam telha, limpavam caixa d'água, destupiam encanamentos, trocavam torneira e válvula de descarga.
Minha casa tinha três bocais de luz sem interruptor correspondente/ funcional. As duas luzes externas faziam falta, a terceira nem tanto. Procurei por "marido de aluguel" na internet e fui anotando os números de telefone. Primeiro liguei nos fixos, depois nos móveis. No primeiro fixo aconteceu o seguinte:
- Alô.
- Oi, é do serviço "marido de aluguel"?
- Era, não é mais.
- Ok. 'Brigada.
- Heeeein, mas que tipo de serviço que é?
- Hm, não, obrigada.
Desliguei o telefone lembrando de uma conversa que eu tinha ouvido no banco sobre como o desemprego está forte em Porto Velho.
Liguei num celular e uma mulher atendeu. Disse que o marido dela voltava pro almoço, que ele me ligaria de volta e daí a gente combinava. Engoli a piada sobre alugar o marido. Depois do almoço, o homem ligou. Expliquei que eu precisava de serviço de eletricista, ele topou. Ouviu as instruções pra chegar aqui e demorou uma hora e meia pra aparecer. Maridão, hein!
Ele me tratou pelo meu nome o tempo todo, me explicou sobre circuitos, energia e fios de telefone que conduzem energia elétrica e cobrou o que os caras da Emergency House também cobrariam. E agora a minha casa tem luz por dentro e por fora. Superfantástico.
Minha casa tinha três bocais de luz sem interruptor correspondente/ funcional. As duas luzes externas faziam falta, a terceira nem tanto. Procurei por "marido de aluguel" na internet e fui anotando os números de telefone. Primeiro liguei nos fixos, depois nos móveis. No primeiro fixo aconteceu o seguinte:
- Alô.
- Oi, é do serviço "marido de aluguel"?
- Era, não é mais.
- Ok. 'Brigada.
- Heeeein, mas que tipo de serviço que é?
- Hm, não, obrigada.
Desliguei o telefone lembrando de uma conversa que eu tinha ouvido no banco sobre como o desemprego está forte em Porto Velho.
Liguei num celular e uma mulher atendeu. Disse que o marido dela voltava pro almoço, que ele me ligaria de volta e daí a gente combinava. Engoli a piada sobre alugar o marido. Depois do almoço, o homem ligou. Expliquei que eu precisava de serviço de eletricista, ele topou. Ouviu as instruções pra chegar aqui e demorou uma hora e meia pra aparecer. Maridão, hein!
Ele me tratou pelo meu nome o tempo todo, me explicou sobre circuitos, energia e fios de telefone que conduzem energia elétrica e cobrou o que os caras da Emergency House também cobrariam. E agora a minha casa tem luz por dentro e por fora. Superfantástico.
sábado, 16 de julho de 2011
Bicicleta no condomínio
Quando eu morava na Vila da Eletronorte, os guardas levantavam a cancela pra mim. Daí mudaram os guardas. Desatentos, não me ouviam chegando e passei a frear perto da cancela e levantá-la eu mesma. Daí apareceu uma plaqueta na ponta da cancela indicando que pedestres e bicicletas tinham que passar pela guarita. Alguns guardas mediam forças comigo através do olhar, mas levantavam a cancela. Não há espaço para uma passagem confortável pela guarita, porque - pra piorar a situação - o guarda fica postado ali, pra manusear a cancela. Daí veio uma ficha pros moradores preencherem informações sobre seus veículos. A minha casa era a única que não tinha carro (cachorro e antena parabólica). Botei na ficha as minhas três bicicletas.
Deixei de ser moradora, mas continuei frequentando a Vila, que é cortada pela Campos Sales. Agora eu ia no setor oeste (eu morava no leste). Reparei que os guardas mudaram de novo e que a cancela foi automatizada. O guarda não faz mais força, ele aperta um botão. E agora as duas cancelas são operacionais: a da direita para moradores e a da esquerda para visitantes. E a plaqueta indicando que os pedestres e bicicletas tinham que passar pela guarita apareceu nessas cancelas também.
Os guardas do setor oeste nunca se recusaram a apertar o botão pra cancela (de morador, diga-se de passagem) subir, apesar de eu não morar lá. Mas toda vez avisavam que da próxima vez era pra eu desmontar da bicicleta e passar pela guarita. Ou perguntavam onde eu ia e, lacônicos, apertavam o botão. Nunca discuti com eles. Sempre sorri. Nunca fiz eles pensarem sobre essa discriminação da bicicleta. Que o pedestre não ande na rua, entendo. Fazê-lo passar pela guarita significa momentaneamente (porque a guarita fica no meio da rua) proteger a integridade do pedestre.
Mas a bicicleta é um veículo, assim como um carro ou moto. Uma moto, que tem duas rodas - como a bicicleta - não precisa ser empurrada pela guarita. Um motociclista não precisa desmontar do seu veículo. Se o ciclista vem pela rua, não há sentido em fazê-lo desmontar, subir na calçada empurrando seu veículo e depois voltar à rua. Na saída do setor oeste, o guarda quer obrigar o ciclista a desmontar, abandonar a rua, atravessar para o lado oposto da rua, subir na calçada da guarita, passar apertado por quem está ali, descer da calçada, montar, contornar a guarita e seguir pela rua.
A discriminação vem do fato de que em Porto Velho bicicleta é coisa de pobre. Quem entra e sai da Vila de bicicleta é pedreiro, faxineira, babá, jardineiro. Juntando as duas parte da Vila da Eletronorte, eu era a única não pobre indo e vindo sistematicamente de bicicleta. Os guardas do meu lado toleravam a escolha pelo meu veículo porque eu era moradora. Os do outro lado sabem que eu não sou moradora e não questionam a ordem que lhes foi imposta de segregar pedestres e ciclistas na entrada/saída do condomínio.
Conforme Willian Cruz, David Byrne acha que "se mais mulheres andarem de bicicleta, os homens certamente seguirão". Porto Velho está um passo atrás: se mais pessoas de classe média se locomoverem de bicicleta (como acontece em São Paulo, por exemplo, vide a bicicletada que reúne poucos pedreiros, jardineiros, faxineiras e babás, mas muitos estudantes, jornalistas e esportistas), a bicicleta deixará de ser coisa de pobre.
Deixei de ser moradora, mas continuei frequentando a Vila, que é cortada pela Campos Sales. Agora eu ia no setor oeste (eu morava no leste). Reparei que os guardas mudaram de novo e que a cancela foi automatizada. O guarda não faz mais força, ele aperta um botão. E agora as duas cancelas são operacionais: a da direita para moradores e a da esquerda para visitantes. E a plaqueta indicando que os pedestres e bicicletas tinham que passar pela guarita apareceu nessas cancelas também.
Os guardas do setor oeste nunca se recusaram a apertar o botão pra cancela (de morador, diga-se de passagem) subir, apesar de eu não morar lá. Mas toda vez avisavam que da próxima vez era pra eu desmontar da bicicleta e passar pela guarita. Ou perguntavam onde eu ia e, lacônicos, apertavam o botão. Nunca discuti com eles. Sempre sorri. Nunca fiz eles pensarem sobre essa discriminação da bicicleta. Que o pedestre não ande na rua, entendo. Fazê-lo passar pela guarita significa momentaneamente (porque a guarita fica no meio da rua) proteger a integridade do pedestre.
Mas a bicicleta é um veículo, assim como um carro ou moto. Uma moto, que tem duas rodas - como a bicicleta - não precisa ser empurrada pela guarita. Um motociclista não precisa desmontar do seu veículo. Se o ciclista vem pela rua, não há sentido em fazê-lo desmontar, subir na calçada empurrando seu veículo e depois voltar à rua. Na saída do setor oeste, o guarda quer obrigar o ciclista a desmontar, abandonar a rua, atravessar para o lado oposto da rua, subir na calçada da guarita, passar apertado por quem está ali, descer da calçada, montar, contornar a guarita e seguir pela rua.
A discriminação vem do fato de que em Porto Velho bicicleta é coisa de pobre. Quem entra e sai da Vila de bicicleta é pedreiro, faxineira, babá, jardineiro. Juntando as duas parte da Vila da Eletronorte, eu era a única não pobre indo e vindo sistematicamente de bicicleta. Os guardas do meu lado toleravam a escolha pelo meu veículo porque eu era moradora. Os do outro lado sabem que eu não sou moradora e não questionam a ordem que lhes foi imposta de segregar pedestres e ciclistas na entrada/saída do condomínio.
Conforme Willian Cruz, David Byrne acha que "se mais mulheres andarem de bicicleta, os homens certamente seguirão". Porto Velho está um passo atrás: se mais pessoas de classe média se locomoverem de bicicleta (como acontece em São Paulo, por exemplo, vide a bicicletada que reúne poucos pedreiros, jardineiros, faxineiras e babás, mas muitos estudantes, jornalistas e esportistas), a bicicleta deixará de ser coisa de pobre.
sexta-feira, 15 de julho de 2011
As habilidades de Mustafá
| Pequeno Mustafá |
Mas ele consegue escalar, morder, arranhar e farejar quase tudo.
Desamarra meus cadarços, despenteia meus cabelos e tira plug da tomada.
Quando brinca com a bolinha de tênis, anda sobre as patas traseiras e dá saltos de ninja.
Consegue escapar dos tapas da Akari e imita seus ataques.
Acho que suas habilidades incluem encantar a Akari.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
quarta-feira, 13 de julho de 2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Descobrindo o mundo
É uma aventura acompanhar o pequeno Mustafá descobrindo o mundo. O mundo dele por enquanto é o quarto de hóspedes. Quando eu não estou no quarto, ele dorme. Quando estou no quarto, ele gasta quilos de energia.
A percepção que Mustafá tem de mim é fragmentada. Apaixonou-se imediatamente pelos meus pés. É difícil andar pelo quarto com ele se esfregando nos meus pés, se esticando todo e fazendo cambalhotas em volta deles. Os chinelos são ótimos brinquedos de morder, arranhar, se enrolar e revirar. E continuam o sendo quando os meus pés estão nos chinelos. As patas dele são desproporcionalmente grandes e as unhas são agulhas afiadaputas. Com as minhas mãos o meu pequeno herói brinca (mordendo e arranhando, mas é divertido). Do meu colo ele foge, porque já sacou que lá vem remédio que o faz espumar. Dos meus olhos ele se esconde, mas a minha voz ele segue. Devo ser um ser cubista pra ele.
Engraçado também é observar como ele entende como funcionam processos básicos, como por exemplo alimentação. Mustafá percebeu dois potinhos de cores estridentes. Enfiou a cara em um e afogou o focinho na água. Chocado, espirrou pra trás. Tentou entender a distância entre a superfície da água e o focinho com mais alguns mergulhos rápidos e se distanciou do potinho lambendo os beiços. Voltou ao potinho esticando a língua em direção à água. É assim que se bebe? Funciona.
Mustafá come gemendo - porque acho que a ração pra filhote é muito dura pra ele - mas come bem. Mustafá mija gemendo, mas logo entendeu que a caixinha (da Akari) é o local adequado pra isso. Mustafá caga gemendo (e com uma pata dianteira levantada), mas parece ter bom metabolismo.
A percepção que Mustafá tem de mim é fragmentada. Apaixonou-se imediatamente pelos meus pés. É difícil andar pelo quarto com ele se esfregando nos meus pés, se esticando todo e fazendo cambalhotas em volta deles. Os chinelos são ótimos brinquedos de morder, arranhar, se enrolar e revirar. E continuam o sendo quando os meus pés estão nos chinelos. As patas dele são desproporcionalmente grandes e as unhas são agulhas afiadaputas. Com as minhas mãos o meu pequeno herói brinca (mordendo e arranhando, mas é divertido). Do meu colo ele foge, porque já sacou que lá vem remédio que o faz espumar. Dos meus olhos ele se esconde, mas a minha voz ele segue. Devo ser um ser cubista pra ele.
Engraçado também é observar como ele entende como funcionam processos básicos, como por exemplo alimentação. Mustafá percebeu dois potinhos de cores estridentes. Enfiou a cara em um e afogou o focinho na água. Chocado, espirrou pra trás. Tentou entender a distância entre a superfície da água e o focinho com mais alguns mergulhos rápidos e se distanciou do potinho lambendo os beiços. Voltou ao potinho esticando a língua em direção à água. É assim que se bebe? Funciona.
Mustafá come gemendo - porque acho que a ração pra filhote é muito dura pra ele - mas come bem. Mustafá mija gemendo, mas logo entendeu que a caixinha (da Akari) é o local adequado pra isso. Mustafá caga gemendo (e com uma pata dianteira levantada), mas parece ter bom metabolismo.
sábado, 9 de julho de 2011
sexta-feira, 8 de julho de 2011
4° dia de greve de ônibus
Poderia-se pensar que a greve de ônibus (que os jornais locais costumam descrever como greve do 'sistema de transporte público' - numa cidade que não tem trem nem metrô) não me afeta. A primeira vez que tentei pegar ônibus, passei um tempão sentada na parada. Daí um cara de carro parou e disse que os ônibus tavam em greve. Sem cerimônia, levantei, fui pra casa e fui embora pedalando.
Só que de sexta tem cineclube. E quando tem cineclube, volto pra casa quando já está escuro. E eu prometi pra mim mesma que nunca pegaria a BR 364 no escuro. Por isso vou de ônibus pra Unir nas sextas. Só que hoje não tava passando ônibus. Fui de táxi. Assim que o táxi deitou a roda na BR, o taxista botou bandeira 2, porque deixa de ser zona urbana. O taxímetro foi só aumentando, e numa velocidade incrível. Pedi pra descer no portão da Unir e deixei R$ 34,- na mão do homem.
Os candidatos ao Mestrado em Estudos Literários vieram todos (pontualmente) pra prova de língua estrangeira. Ninguém reclamou da falta de meios de transporte. A cantina fechou às 16:00 e às 17:00 já não se via mais ninguém pelos corredores. Terminada a prova, fui de datashow, som e mochila pesada pro cineclube. Sentei no corredor, pras pessoas me verem. Dois me viram e perguntaram se ia ter sessão hoje.
- Claro! Tendo público, tem sessão.
- Mas a gente não quer atrapalhar, porque a minha irmã vem buscar a gente às 18:00.
- Quer esperar dar 18:00 assistindo filme ou não?
- Sim, então vamos.
Depois ainda vieram mais dois e deu de passar os três documentários programados pra hoje. Não deu pra fazer debate pós-filme por causa do clima de abandono num lugar inóspito: como voltaremos pra casa?
Devolvi os equipamentos no departamento e estiquei o dedão no ponto de ônibus. As meninas que estavam esperando lá disseram que não tinha mais ônibus hoje. O segundo carro parou e me deu carona. Me deixou no trevo da Eletronorte e caminhei os 4 km até em casa.
No dia em que não saí de casa de bike, andei de táxi, carona e de pé2 e não senti falta de ônibus (exceto pelo preço salgado do táxi).
Só que de sexta tem cineclube. E quando tem cineclube, volto pra casa quando já está escuro. E eu prometi pra mim mesma que nunca pegaria a BR 364 no escuro. Por isso vou de ônibus pra Unir nas sextas. Só que hoje não tava passando ônibus. Fui de táxi. Assim que o táxi deitou a roda na BR, o taxista botou bandeira 2, porque deixa de ser zona urbana. O taxímetro foi só aumentando, e numa velocidade incrível. Pedi pra descer no portão da Unir e deixei R$ 34,- na mão do homem.
Os candidatos ao Mestrado em Estudos Literários vieram todos (pontualmente) pra prova de língua estrangeira. Ninguém reclamou da falta de meios de transporte. A cantina fechou às 16:00 e às 17:00 já não se via mais ninguém pelos corredores. Terminada a prova, fui de datashow, som e mochila pesada pro cineclube. Sentei no corredor, pras pessoas me verem. Dois me viram e perguntaram se ia ter sessão hoje.
- Claro! Tendo público, tem sessão.
- Mas a gente não quer atrapalhar, porque a minha irmã vem buscar a gente às 18:00.
- Quer esperar dar 18:00 assistindo filme ou não?
- Sim, então vamos.
Depois ainda vieram mais dois e deu de passar os três documentários programados pra hoje. Não deu pra fazer debate pós-filme por causa do clima de abandono num lugar inóspito: como voltaremos pra casa?
Devolvi os equipamentos no departamento e estiquei o dedão no ponto de ônibus. As meninas que estavam esperando lá disseram que não tinha mais ônibus hoje. O segundo carro parou e me deu carona. Me deixou no trevo da Eletronorte e caminhei os 4 km até em casa.
No dia em que não saí de casa de bike, andei de táxi, carona e de pé2 e não senti falta de ônibus (exceto pelo preço salgado do táxi).
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Vestígios da mudança
Mudei pra Murici em abril, e só agora as coisas começam a se encaixar e entrar nos eixos. Nas contas de água e luz vinha, desde maio, um aviso de conta pendente. Avisei na imobiliária, que avisou os ex-inquilinos. Disseram que iam pagar as duas contas. Fim de junho veio o aviso de corte de água e luz.
Tirar a segunda via da conta de água não foi difícil. Acessar a segunda via da conta de luz foi mais complicado, porque eu não sou a titular da conta (ainda vem no nome da proprietária). Tive que ir na Ceron (que agora é Eletrobrás). Peguei a segunda via na máquina e pedi pra atendente passar a conta de energia da Murici pro meu nome.
Ela entrou no sistema e verificou que tenho duas contas em meu nome: a Vila da Eletronorte e a rua Venezuela. Isso significava que a imobiliária ainda não tinha conseguido trocar o meu nome pelo nome do proprietário japonês da casa que alaga. O problema da imobiliária era que os dados estavam num prédio da Ceron que foi reformado, e aí demorou pra recuperar 'o morto'. E enquanto eu tivesse dívidas na Ceron, não podiam abrir uma nova conta (na Murici) pra mim. A atendente disse que também não podia tirar o meu nome da Vila da Eletronorte, porque o nome de alguém tinha que ficar no lugar. Expliquei que eu não queria ter que responder pelos débitos de terceiros (como aconteceu no caso da Venezuela), mas ela disse que não podia fazer nada por mim.
Fui na imobiliária com os comprovantes de pagamento das contas de água e luz de abril. A moça responsável pelo débito da Venezuela disse que tinha finalmente conseguido mudar a Venezuela pro nome do proprietário e que tinha trocado o nome da proprietária da Murici pelo meu. Saí de lá com um boleto modificado: o valor das contas não-minhas foi descontado do aluguel. Saí de lá deixando a moça da finalização da Vila da Eletronorte incumbida de tirar o meu nome da Vila da Eletronorte. Quando cheguei em casa, verifiquei que a Murici está no meu nome e que a Venezuela parou de me perseguir.
Tirar a segunda via da conta de água não foi difícil. Acessar a segunda via da conta de luz foi mais complicado, porque eu não sou a titular da conta (ainda vem no nome da proprietária). Tive que ir na Ceron (que agora é Eletrobrás). Peguei a segunda via na máquina e pedi pra atendente passar a conta de energia da Murici pro meu nome.
Ela entrou no sistema e verificou que tenho duas contas em meu nome: a Vila da Eletronorte e a rua Venezuela. Isso significava que a imobiliária ainda não tinha conseguido trocar o meu nome pelo nome do proprietário japonês da casa que alaga. O problema da imobiliária era que os dados estavam num prédio da Ceron que foi reformado, e aí demorou pra recuperar 'o morto'. E enquanto eu tivesse dívidas na Ceron, não podiam abrir uma nova conta (na Murici) pra mim. A atendente disse que também não podia tirar o meu nome da Vila da Eletronorte, porque o nome de alguém tinha que ficar no lugar. Expliquei que eu não queria ter que responder pelos débitos de terceiros (como aconteceu no caso da Venezuela), mas ela disse que não podia fazer nada por mim.
Fui na imobiliária com os comprovantes de pagamento das contas de água e luz de abril. A moça responsável pelo débito da Venezuela disse que tinha finalmente conseguido mudar a Venezuela pro nome do proprietário e que tinha trocado o nome da proprietária da Murici pelo meu. Saí de lá com um boleto modificado: o valor das contas não-minhas foi descontado do aluguel. Saí de lá deixando a moça da finalização da Vila da Eletronorte incumbida de tirar o meu nome da Vila da Eletronorte. Quando cheguei em casa, verifiquei que a Murici está no meu nome e que a Venezuela parou de me perseguir.
Telefone móvel
Eu estava sentada numa lanchonete que vende principalmente açaí, terminando a minha tigela. Chega meia família (avó, mãe e menino) e se instala na mesa ao meu lado. Toca o telefone da avó.
- Oi flor! (pausa) nós tamo aqui (pausa) no açaí.
- (?)
- O açaí aqui na Duque de Caxias.
Pra espanto de todos, ouvimos, nas nossas costas, uma voz feminina ecoando:
- Na Duque de Caxias?
A outra metade da família se juntou, puxou mesas e cadeiras e deram boas risadas dessa maravilha que é o telefone móvel.
- Oi flor! (pausa) nós tamo aqui (pausa) no açaí.
- (?)
- O açaí aqui na Duque de Caxias.
Pra espanto de todos, ouvimos, nas nossas costas, uma voz feminina ecoando:
- Na Duque de Caxias?
A outra metade da família se juntou, puxou mesas e cadeiras e deram boas risadas dessa maravilha que é o telefone móvel.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
Hierarquia de consumo
O carro é um bem de consumo. Tanto é, que muitos motoristas trocam de carro a cada dois anos (pra não desvalorizar). Um carro não é construído para durar uma vida toda, nem mantido para ser o único de um motorista.
Milton Santos, num documentário genial sobre a globalização, afirma que o fundamentalismo do nosso século é o consumo. A globalização é nada mais que a administração global dos bens de consumo. O consumo é um regime autoritário. Sendo assim, Milton Santos fala em globalitarismo.
No Brasil, acidentes de carro matam principalmente jovens entre 20 e 39 anos. Acidentes de carro produzem 50 feridos para cada morto. Ainda assim, as pessoas continuam querendo carros. Apesar do custo do carro e da sua manutenção (gasolina, estacionamento, seguro, licenciamento, funilaria, mecânico, borracheiro etc.), as pessoas continuam desejando carros. Apesar de não haver mais espaço na malha viária para todos os carros nas grandes cidades, as pessoas continuam almejando carros. Apesar do stress no trânsito (raiva dos outros agentes de trânsito, tédio no engarrafamento, solidão, fúria da velocidade), as pessoas continuam ambicionando carros. Apesar da poluição causada pelos carros (produção, queima de combustível e descarte), as pessoas continuam comprando carros.
Ter um carro é sinal de sucesso pessoal. Quanto mais caro, veloz e esportivo o carro, mais alto está o seu dono na hierarquia do consumo. E como toda hierarquia, quanto mais no topo se está, mais sozinho se fica. Roberto DaMatta fez um estudo sobre o comportamento dos agentes de trânsito no trânsito capixaba e o resultado foi a publicação de Fé em Deus e pé na tábua. Sua tese central é que o trânsito brasileiro, apesar de estar sujeito ao Código de Trânsito Brasileiro, não é igualitário, mas hieráquico. Cuidadosamente, ele constrói sua argumentação:
"(...) Somos treinados para ver os conhecidos como pessoas dignas de respeito e compaixão. Todos os conhecidos se espalham e se classificam numa escala que vai do mais próximo (e querido) ao mais distante (e indiferente ou odiado). Fora desse círculo existem os superiores (dignos de medo e respeito) ou inferiores (indignos de respeito, ignorantes e por isso incapazes de nos compreender)." (p. 97)
"O fato concreto é que nós não aprendemos a resolver essas questões porque o que realmente sabemos é que esse outro do carro ao lado é um desconhecido. Por isso ele deve ser - axiomaticamente - situado como inferior (ou superior), até prova em contrário. Diante dele, as normas gerais [o Código de Trânsito Brasileiro] somem ou são absorvidas pela situação que deve ser solucionada pessoalmente. O resultado final do conflito entre o padrão hierárquico (que busca e sabe das diferenças entre pessoas) e o igualitário (que as desconhece, não precisa conhecê-las, e mais que isso, deve desconhecê-las, senão não poderia ser igualitário) é, até hoje, um enigma no caso do Brasil. Dizer que jamais sabemos o resultado é um exagero. Mas afirmar que quase sempre ficamos em dúvida entre respeitar o sinal ou simplesmente reconhecer que temos a capacidade de estruturar a situação pessoalmente é, sem dúvida, afirmar a verdade." (p. 99)
Por fim, Roberto DaMatta aponta para o que entendo como a diferenciação entre consumidor e cidadão. Um consumidor é compelido a consumir (a integridade física dos outros, espaço, tempo e carros que comprovem um status social cada vez mais elevado) para ascender na hierarquia. Citando a fala de um professor entrevistado no documentário Sociedade do Automóvel, o consumidor "se defende do transporte público ruim comprando um carro". Nesse carro, ele anda sozinho. O cidadão, em contrapartida, reconhece que não está sozinho, que faz parte de uma sociedade que lhe dá direitos e deveres.
"Temos, então, por um lado, os motoristas (que enfiam o pé na tábua), que se pensam como tendo somente privilégios e direitos; e, por outro, os pedestres (englobados pela fé em Deus), vistos como subcidadãos cujo atributo é ter um conjunto de deveres e obrigações. Neste sentido, fomos tão longe em nosso descaso com qualquer compromisso com a igualdade como um dever (e um direito) de todos, que os motoristas têm o privilégio de ocupar as ruas usando-as como bem entenderem, assim como as calçadas [estacionando sobre elas] e praças [transformando-as em estacionamentos]. Em outras palavras, em nossa malha urbana, eis um outro fato óbvio que também deve ser trazido à razão: o cidadão-pedestre não tem lugar ou vez nas calçadas ou praças. Isso esclarece por que todos precisam de um veículo motorizado no Brasil. É que ele não é apenas um meio de incrementar o conforto, diminuir o tempo e encurtar distâncias. Não! É, acima de tudo, instrumento de ampliação de espaço da pessoa social dos seus donos, tornando-os fortes, fazendo-os visíveis e dando-lhes o ingresso ao clube dos privilégios: dos que têm um carro e com isso podem usar o espaço público a seu bel-prazer." (p. 92 - 93).
Subir na hierarquia do consumo significa isolar-se dos outros e do meio ambiente. Ser consumidor significa ser indivíduo. Por que essa necessidade de auto-afirmação? Por que tanta violência?
sexta-feira, 1 de julho de 2011
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