sábado, 16 de julho de 2011

Bicicleta no condomínio

Quando eu morava na Vila da Eletronorte, os guardas levantavam a cancela pra mim. Daí mudaram os guardas. Desatentos, não me ouviam chegando e passei a  frear perto da cancela e levantá-la eu mesma. Daí apareceu uma plaqueta na ponta da cancela indicando que pedestres e bicicletas tinham que passar pela guarita. Alguns guardas mediam forças comigo através do olhar, mas levantavam a cancela. Não há espaço para uma passagem confortável pela guarita, porque - pra piorar a situação - o guarda fica postado ali, pra manusear a cancela. Daí veio uma ficha pros moradores preencherem informações sobre seus veículos. A minha casa era a única que não tinha carro (cachorro e antena parabólica). Botei na ficha as minhas três bicicletas.

Deixei de ser moradora, mas continuei frequentando a Vila, que é cortada pela Campos Sales. Agora eu ia no setor oeste (eu morava no leste). Reparei que os guardas mudaram de novo e que a cancela foi automatizada. O guarda não faz mais força, ele aperta um botão. E agora as duas cancelas são operacionais: a da direita para moradores e a da esquerda para visitantes. E a plaqueta indicando que os pedestres e bicicletas tinham que passar pela guarita apareceu nessas cancelas também.

Os guardas do setor oeste nunca se recusaram a apertar o botão pra cancela (de morador, diga-se de passagem) subir, apesar de eu não morar lá. Mas toda vez avisavam que da próxima vez era pra eu desmontar da bicicleta e passar pela guarita. Ou perguntavam onde eu ia e, lacônicos, apertavam o botão. Nunca discuti com eles. Sempre sorri. Nunca fiz eles pensarem sobre essa discriminação da bicicleta. Que o pedestre não ande na rua, entendo. Fazê-lo passar pela guarita significa momentaneamente (porque a guarita fica no meio da rua) proteger a integridade do pedestre.

Mas a bicicleta é um veículo, assim como um carro ou moto. Uma moto, que tem duas rodas - como a bicicleta - não precisa ser empurrada pela guarita. Um motociclista não precisa desmontar do seu veículo. Se o ciclista vem pela rua, não há sentido em fazê-lo desmontar, subir na calçada empurrando seu veículo e depois voltar à rua. Na saída do setor oeste, o guarda quer obrigar o ciclista a desmontar, abandonar a rua, atravessar para o lado oposto da rua, subir na calçada da guarita, passar apertado por quem está ali, descer da calçada, montar, contornar a guarita e seguir pela rua.

A discriminação vem do fato de que em Porto Velho bicicleta é coisa de pobre. Quem entra e sai da Vila de bicicleta é pedreiro, faxineira, babá, jardineiro. Juntando as duas parte da Vila da Eletronorte, eu era a única não pobre indo e vindo sistematicamente de bicicleta. Os guardas do meu lado toleravam a escolha pelo meu veículo porque eu era moradora. Os do outro lado sabem que eu não sou moradora e não questionam a ordem que lhes foi imposta de segregar pedestres e ciclistas na entrada/saída do condomínio.

Conforme Willian Cruz, David Byrne acha que "se mais mulheres andarem de bicicleta, os homens certamente seguirão". Porto Velho está um passo atrás: se mais pessoas de classe média se locomoverem de bicicleta (como acontece em São Paulo, por exemplo, vide a bicicletada que reúne poucos pedreiros, jardineiros, faxineiras e babás, mas muitos estudantes, jornalistas e esportistas), a bicicleta deixará de ser coisa de pobre.

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