sábado, 2 de julho de 2011

Hierarquia de consumo


O carro é um bem de consumo. Tanto é, que muitos motoristas trocam de carro a cada dois anos (pra não desvalorizar). Um carro não é construído para durar uma vida toda, nem mantido para ser o único de um motorista.

Milton Santos, num documentário genial sobre a globalização, afirma que o fundamentalismo do nosso século é o consumo. A globalização é nada mais que a administração global dos bens de consumo. O consumo é um regime autoritário. Sendo assim, Milton Santos fala em globalitarismo.

No Brasil, acidentes de carro matam principalmente jovens entre 20 e 39 anos. Acidentes de carro produzem 50 feridos para cada morto. Ainda assim, as pessoas continuam querendo carros. Apesar do custo do carro e da sua manutenção (gasolina, estacionamento, seguro, licenciamento, funilaria, mecânico, borracheiro etc.), as pessoas continuam desejando carros. Apesar de não haver mais espaço na malha viária para todos os carros nas grandes cidades, as pessoas continuam almejando carros. Apesar do stress no trânsito (raiva dos outros agentes de trânsito, tédio no engarrafamento, solidão, fúria da velocidade), as pessoas continuam ambicionando carros. Apesar da poluição causada pelos carros (produção, queima de combustível e descarte), as pessoas continuam comprando carros.

Ter um carro é sinal de sucesso pessoal. Quanto mais caro, veloz e esportivo o carro, mais alto está o seu dono na hierarquia do consumo. E como toda hierarquia, quanto mais no topo se está, mais sozinho se fica. Roberto DaMatta fez um estudo sobre o comportamento dos agentes de trânsito no trânsito capixaba e o resultado foi a publicação de Fé em Deus e pé na tábua. Sua tese central é que o trânsito brasileiro, apesar de estar sujeito ao Código de Trânsito Brasileiro, não é igualitário, mas hieráquico. Cuidadosamente, ele constrói sua argumentação:

"(...) Somos treinados para ver os conhecidos como pessoas dignas de respeito e compaixão. Todos os conhecidos se espalham e se classificam numa escala que vai do mais próximo (e querido) ao mais distante (e indiferente ou odiado). Fora desse círculo existem os superiores (dignos de medo e respeito) ou inferiores (indignos de respeito, ignorantes e por isso incapazes de nos compreender)." (p. 97)

"O fato concreto é que nós não aprendemos a resolver essas questões porque o que realmente sabemos é que esse outro do carro ao lado é um desconhecido. Por isso ele deve ser - axiomaticamente - situado como inferior (ou superior), até prova em contrário. Diante dele, as normas gerais [o Código de Trânsito Brasileiro] somem ou são absorvidas pela situação que deve ser solucionada pessoalmente. O resultado final do conflito entre o padrão hierárquico (que busca e sabe das diferenças entre pessoas) e o igualitário (que as desconhece, não precisa conhecê-las, e mais que isso, deve desconhecê-las, senão não poderia ser igualitário) é, até hoje, um enigma no caso do Brasil. Dizer que jamais sabemos o resultado é um exagero. Mas afirmar que quase sempre ficamos em dúvida entre respeitar o sinal ou simplesmente reconhecer que temos a capacidade de estruturar a situação pessoalmente é, sem dúvida, afirmar a verdade." (p. 99)

Por fim, Roberto DaMatta aponta para o que entendo como a diferenciação entre consumidor e cidadão. Um consumidor é compelido a consumir (a integridade física dos outros, espaço, tempo e carros que comprovem um status social cada vez mais elevado) para ascender na hierarquia. Citando a fala de um professor entrevistado no documentário Sociedade do Automóvel, o consumidor "se defende do transporte público ruim comprando um carro". Nesse carro, ele anda sozinho. O cidadão, em contrapartida, reconhece que não está sozinho, que faz parte de uma sociedade que lhe dá direitos e deveres.

"Temos, então, por um lado, os motoristas (que enfiam o pé na tábua), que se pensam como tendo somente privilégios e direitos; e, por outro, os pedestres (englobados pela fé em Deus), vistos como subcidadãos cujo atributo é ter um conjunto de deveres e obrigações. Neste sentido, fomos tão longe em nosso descaso com qualquer compromisso com a igualdade como um dever (e um direito) de todos, que os motoristas têm o privilégio de ocupar as ruas usando-as como bem entenderem, assim como as calçadas [estacionando sobre elas] e praças [transformando-as em estacionamentos]. Em outras palavras, em nossa malha urbana, eis um outro fato óbvio que também deve ser trazido à razão: o cidadão-pedestre não tem lugar ou vez nas calçadas ou praças. Isso esclarece por que todos precisam de um veículo motorizado no Brasil. É que ele não é apenas um meio de incrementar o conforto, diminuir o tempo e encurtar distâncias. Não! É, acima de tudo, instrumento de ampliação de espaço da pessoa social dos seus donos, tornando-os fortes, fazendo-os visíveis e dando-lhes o ingresso ao clube dos privilégios: dos que têm um carro e com isso podem usar o espaço público a seu bel-prazer." (p. 92 - 93).

Subir na hierarquia do consumo significa isolar-se dos outros e do meio ambiente. Ser consumidor significa ser indivíduo. Por que essa necessidade de auto-afirmação? Por que tanta violência?

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