domingo, 28 de agosto de 2011

Chuva

No dia em que voltei de Porto Alegre, choveu aqui. Não vi a chuva, nem achei rastros das goteiras na casa, mas disseram que foi muita água. Essa chuva tinha esfriado o Norte, de modo que a volta pra casa não foi equivalente a uma visita ao inferno.

No dia seguinte, quando levantei da cama, meu pé direito ficou no chão. O calcanhar parecia não ter força nem impulso para levantar-se. Quando o pé puxava o calcanhar pelo joelho para o alto, sentia dor nos sete parafusos de titânio. Mancava durante a preparação do café da manhã e sentia mais segurança e menos dor dentro dum tênis.

A cena e a dor no pé ruim se repetiram por uns três dias. Achei estranho sentir essa dor em Rondônia, na época de seca. No primeiro ano depois do acidente, eu podia prever chuvas e mudanças de temperatura com uma certa precisão. Mudanças de umidade, temperatura e pressão atmosférica causavam dilatação do metal, o que me fazia mancar. Mas agora já faz quatro anos que quebrei o pé e a última vez que os parafusos me forçaram a mancar foi quando fui surpreendida pela neve em München. Como que sinto dor depois de voltar dos 10°C que tava fazendo no Rio Grande do Sul? Deveria ter sentido dor lá, não aqui.

Não consultei sites de previsão de tempo, horóscopo ou os jornais para entender essa dor descontextualizada. Também não acreditei quando ouvi uma conversa do Marcelo com a mãe no telefone em que ele informava que agora tinha começado a época de chuva. Igualmente não achei estranho que a linha do horizonte tivesse se transformado numa nuvem marrom-acinzentada.

Ontem de noite fez um calor congolês. Nem o ventilador me impedia de suar. Me instalei no quarto de hóspedes e liguei o ar condicionado. Desliguei o ar quando ouvi a chuva, às duas da madrugada. A chuva engrossava e parava. Crescia, vinha com o vento, derrubava os jambos no telhado, parava. Saltei da cama pra tirar tudo das tomadas. Voltei pro meu quarto, armei o mosquiteiro, mas não consegui dormir enquanto chovia. Porque chovia muito forte. Entendi que a dor no pé tinha sido um anúncio dessa chuva e que o calor da noite tinha sido a preparação pra mudança de temperatura. Até fechei os olhos, mas prestei atenção nas goteiras gotejando. Afastei móveis, coloquei potes pra coletar a água e fui na janela, ver a água. A rua tinha virado rio, um lago havia se formado na porta de casa.

Depois que parou de chover, ainda esperei pela prorrogação, depois das quatro da manhã. Não veio, e finalmente consegui dormir. Sonhei que a casa alagava.

2 comentários:

Anônimo disse...

LOU, td bem?
Vc não quer vir para Floripa? já que está perto.
beijos
Analu

iglou disse...

Analu!!!
Nem deu tempo, já estou de volta a Porto Velho.
Beijo.