domingo, 21 de agosto de 2011

Traduttore = traditore

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Ich bin lieber diese wandernde Metamorphose
I'd rather be this walking metamorphosis
Eu queria ser essa metamorfose caminhante

Perde-se informação, graça e beleza na tradução, sabemos disso. Se eu tivesse usado o Google translator, a aventura teria sido maior que essa, que experimentei acima. Estou ainda impressionada com o seminário avançado e a conferência de Gustavo Bernardo
Gustavo Bernardo no Seminário Avançado sobre a Ficção de Flusser
sobre Vilém Flusser, um tcheco que publicou em quatro línguas, mas nunca na sua língua materna. A maior parte das publicações de Flusser, e as de maior peso, foram escritas em alemão (na máquina de escrever, nunca à mão ou no computador). Enquanto judeu que teve familiares mortos em Auschwitz, fez questão de aprender e dominar a língua do inimigo. Como viveu durante aproximadamente 30 anos no Brasil e teve seus filhos aqui, publicou também em português. Escrevia muito para jornal, especialmente a Folha. Em menor quantidade, publicou em inglês e francês.

Mais interessante que ter um filósofo poliglota é ter um filósofo das mídias que traduz (e assim modifica) os próprios textos. A filosofia da fotografia, por exemplo, seu livro de maior projeção, foi escrito em alemão (e hoje é tomado como base pras outras traduções). Só que o próprio Flusser traduziu (modificando e arredondando) o texto do alemão pro português, sob o título A filosofia da caixa preta.

Não é à toa que um dos grandes temas do Flusser seja a escrita. O trabalho que eu apresentei no Colóquio Leitura e Cognição tenta tocar justo nessa veia de que as imagens técnicas (video) estão cada vez mais empurrando a palavra escrita pro escanteio.

No aeroporto, comecei a ler o Memória do Iván Izquierdo:

"O próprio conceito de memória envolve abstrações. Podemos lembrar de maneira vívida o perfume de uma flor, um acontecimento, um rosto, um poema, a partitura de uma sinfonia inteira, como fazia Mozart quando criança, ou um vastíssimo repertório de jogadas de xadrez, como fazem os grandes mestres desse jogo. Mas a lembrança não é igual à realidade. A memória do perfume da rosa não nos traz a rosa; a dos cabelos da primeira namorada não a traz de volta, a da voz do amigo falecido não o recupera. Há um passe de prestidigitação cerebral nisso; o cérebro converte a realidade em códigos e a evoca também através de códigos.
[...]
Existe um processo de tradução entre a realidade das experiências e a formação da realidade respectiva; e outro entre esta e a correspondente evocação. (...) [N]ós os humanos usamos muito a linguagem para fazer essas traduções; os animais não." (p. 20 - 21)

O ponto em que quero chegar é a constatação de que portadores de Alzheimer com ensino superior são mais resistentes à dissolução da memória. O que uma pessoa faz no ensino superior? Estuda. Como a civilização ocidental estuda? Lendo. Flusser chega a afirmar que a civilização ocidental pensa por escrito. Durante qualquer graduação (mesmo que seja de Educação Física ou Artes Plásticas), a exposição ao texto escrito é grande.

De alguma forma, parece que a escrita funciona como muleta da memória. E a muleta traduz o movimento da perna. Claro que não se trata de uma tradução literal, fiel: muletar é diferente de caminhar sozinho.

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