quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Lendo o audiovisual

A primeira vez que isso me aconteceu, foi com a Cynthia. Eu tinha me certificado de que o filme tinha legendas, mas não tinha reparado que as legendas eram só para as partes em que se fala somali (?). As partes em inglês estavam sem legenda e minha amiga teve que procurar pistas além da linguagem verbal para interpretar o filme. Se fosse francês, teria acontecido o contrário: ela teria traduzido pra mim. Desse modo, construímos o filme enquanto ele se desenrolava.

E como o texto não estava no primeiro plano, Cynthia percebeu que a personagem que faz a amiga da heroina é muito mais interessante do que a estrela. Os gestos, o modo de andar, se pintar, falar, rir apontavam para uma personagem muito mais complexa e complexada do que aquela que foi vítima e vai denunciar a circuncisão feminina.

Hoje eu quis ver M de Fritz Lang (1931). Antes de chamar o Marcelo pra ver também, verifiquei se tinha legenda. Como a sopa de letrinhas tava demorando pra passar, acelerei o filme pra chegar nos diálogos. Achei o filme dinâmico, expressivo, com pseudo-falas e sem legendas. Chamei o Marcelo e rodei o filme. Era devagar e todos falavam alemão. Como o som estava ruim (o meu som bom fica na Unir), eu também não entendia nada.

Mas somos a prova viva de que o público não é passivo. Conversamos muito durante o filme: tentando descrever a cena, dublando as falas, adivinhando o que se discutia. Até que mudei de lugar e, ouvindo o filme, fui traduzindo o que dava (fazer tradução simultânea é muito difícil). Aparentemente Marcelo gostou mais do filme que leu (expressividade dos gestos, movimento de câmera, montagem de sequências, papeis caricatos) do que eu, que fiquei frustrada por não ter ouvido a primeira parte do filme.

Especialmente nesse filme, que é muito teatral, ficou claro pra mim como os filmes ocidentais são verborrágicos. Eu provavelmente não entenderia um filme francês sem legenda, porque a palavra é central.

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