terça-feira, 30 de agosto de 2011

Autoajuda e TV

Os livros de autoajuda surgiram depois do final da Segunda Guerra Mundial, ganharam terreno nos EUA e hoje estão no topo das vendas das livrarias brasileiras. Enquanto fenômeno da pós-modernidade, são objeto de estudo de uma tese de doutorado: Adail Sobral aposta na emergência de um novo gênero textual.

A televisão entrou devagar nos lares brasileiros na década de 50, mas hoje praticamente todas as casas estão equipadas com pelo menos uma televisão. Enquanto símbolo da modernidade, transformou processos cognitivos básicos como atenção, memória e captura pela imagem audiovisual.

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O termo 'autoajuda' é paradoxal, porque os leitores desse tipo de textos procuram ajuda externa (no livro). A ideia de que o leitor vai achar em si mesmo todos os elementos para solucionar seus problemas e os problemas do mundo é ilusória.

A televisão não é um meio de comunicação, porque não existe interação entre quem está na TV e o público.



Os que sabem ler, mas não ligam para a Literatura, os que se importam com o conteúdo e não percebem a forma, os que consomem informação sem atentar para estilo leem autoajuda. No gênero autoajuda (já assumindo que seja mesmo um gênero) cabe muita coisa: manual para educar os filhos, receita para o sucesso, conselhos de como viver em harmonia com o cosmos, reflexão mística, cura para os males, confissões, pseudo-ciência e muita ficção.

Os que não sabem o que fazer com o tempo livre, os que acreditam que a televisão informa notícias, fatos e a verdade, os que buscam entretenimento passivo, os que se divertem com pouca arte assistem TV. Na televisão cabe muita coisa: além de cada canal oferecer uma programação diversificada, o número de canais cresce constantemente.

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Livros de autoajuda custam menos que uma sessão de terapia. Sentar na cadeira não custa o esforço de deslocar-se ao local onde a ajuda é oferecida. Ler em silêncio não custa o desgaste emocional de pedir ajuda, explicar o problema, dialogar com outra pessoa.

Ver televisão custa menos que ir ao cinema. Trocar de canal custa menos que o esforço mental de inventar novas atividades ocupacionais. Sentar no sofá custa menos que o esforço físico de interagir com o meio ambiente.



No caso dos livros de autoajuda, quem alcança o sucesso são o escritor e a editora, não o leitor de fé pequena. Fé na ciência que é vestida da vagueza das inúmeras possibilidades da física quântica.

No caso da televisão, a informação é editada, manipulada e transformada em entretenimento. Aqui, a ciência se manifesta através da tecnologia e seus vários bens de consumo.

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Segundo Sobral, os livros de autoajuda propõem "uma espécie de sujeito coletivo global-cósmico-subjetivo não muito definido". (p. 47).

Televisão é cultura de massa.


Os livros de autoajuda mais vendidos no Brasil são traduzidos principalmente do inglês. Segundo Sobral, os originais escritos no Brasil são simulacros de originais norteamericanos bem-sucedidos.

Os programas, formatos e esquemas da televisão brasileira são americanos. Tipicamente brasileiros são as novelas e os canais que ninguém assiste.

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A tragédia alheia é o ponto de partida dos livros de autoajuda para mostrar ao leitor como os seus próprios problemas são insignificantes. Preparado para agir, o leitor é instruído pelo escritor a conformar-se. Desconfio que essa geração consumidora de autoajuda talvez nem tenha problemas facilmente identificáveis. Suponho que quando terminam o livro, contentam-se em perceber, conformados, que seu maior problema era o tédio.

A tragédia humana é a principal atração da televisão. Notícias de massacres, desastres, corrupção, violência, ignorância e guerra disputam a atenção do telespectador com a banalização da sexualidade, estupidificação da infância e exposição do ridículo.  A tragédia alheia lá longe cria no público a sensação de impotência. Depois de desligar a TV, os telespectadores não tomam as ruas nem o poder público, porque a TV lhes mostrou que o mundo é um lugar inseguro.

2 comentários:

cabelo disse...

"uma espécie de sujeito coletivo global-cósmico-subjetivo não muito definido"

poxa lou, sempre bom passar por aqui.

bj!
;)

Mônica disse...

na verdade, acho que ver tanta destruição, corrupção e morte na tv só faz a pessoa se conformar: "puxa, minha situação é ruim, mas esses pobres coitados estão em uma situação pior!"

Mas também acho que a tv pode criar movimentos quando quer: na década de 90, foi o que houve com o movimento para o impeachment de Collor. O problema é que o poder continua na mão de algumas poucas pessoas e a massa não percebe o quão influenciada ela é.