Foto: luna.rosa Massa crítica (ou critical mass) é um termo que vem da Física e designa uma massa mínima necessária para desencadear uma reação. O termo foi transposto para um fenômeno de organização do trânsito observado na China comunista. Naquele contexto, a bicicleta era o principal meio de transporte da população e não havia sinalização de trânsito (farol, placa ou pintura no chão, muito menos lombadas e afunilamentos da via que funcionam como traffic calming). Na ausência de sinalização que organize o trânsito, emerge um sistema que foi chamado de critical mass. Este fenômeno é observável nos cruzamentos.
Num cruzamento tem a galera que passa (passantes) e a galera que espera (esperantes). Num dado momento, o número de esperantes é tão grande, que eles tomam a iniciativa de avançar. Intimidados pelo número de pessoas que se põem em movimento, os passantes páram e esperam. Essa dinâmica acontece sem que se troque sinais ou signos. É o contingente de pessoas que pressiona para o movimento.
Acontece que o nosso trânsito não se baseia na observação que o indivíduo faz do fluxo de pessoas. Temos semáforos, placas e pinturas de chão que nos orientam, e nas quais confiamos para que haja ordem no trânsito. A bicicletada não respeita estes reguladores do trânsito quando faz o corking. A pessoa que está no seu carro espera o farol abrir. Mesmo quando abre, não consegue sair do lugar porque tem uma barreira de ciclistas impedindo sua passagem. O farol abre e fecha 3 ou 4 vezes e a pessoa no carro não entende o que é a bicicletada ou por que deve se atrasar. Os pedestres sentem-se intimidados pelos ciclistas que passam no farol vermelho (gritando, olhando pros lados, segurando coisas numa mão). Não atravessam quando um ciclista pára e alguns outros páram atrás daquele ciclista, porque muitos outros não páram. Se um ciclista cool o suficiente gritar para os outros ciclistas pararem, os pedestres poderão atravessar a rua pela faixa de pedestres. Mas se o ciclista que gritar para pararem não for cool ou for desconhecido, seus gritos serão ignorados.
Houve um momento em que fizeram faixas pedindo paciência aos motorizados. Mas eu não vi nenhuma faixa deste tipo na bicicletada de fevereiro. O uso das faixas e do corking são formas de permitir que a massa de ciclistas passe sem dispersar. A dispersão é um problema porque na massa há ciclistas inexperientes, lentos, que páram para fotografar e filmar o movimento. Se a bicicletada formasse um bolo compacto, contínuo e ininterrupto de ciclistas, aí sim o termo massa crítica seria adequado. Mas não é o caso, e por isso a organização do trânsito não é espontânea, mas precisa ser regulada por corkings que contêm motoristas nervosos. Aí surgem os conflitos.
Sou a favor da bicicleta como meio de transporte. Vejo a bicicleta como um veículo que faz parte do trânsito e deve seguir as regras de trânsito localmente estabelecidas. Acho que qualquer movimento social que promove o uso diário da bicicleta mas organiza formas artificiais de protesto (como por exemplo a bicicletada ou passeios ciclísticos contra o aquecimento global) problemático, porque acaba gerando conflitos com motorizados, segregando a bicicleta e não seduzindo motoristas, pedestres e usuários do transporte coletivo a usarem a bicicleta.
















































