domingo, 8 de fevereiro de 2009

Meus amigos de faculdade

Estou na vida acadêmica faz muito tempo, e pretendo continuar nela por mais muito tempo, mas isso não se aplica a todas as pessoas que trilharam caminhos semelhantes ao meu. Alguns querem manter o vínculo com a universidade e nunca terminam os seus cursos, outros querem ganhar dinheiro, experiências de vida e tempo para outras coisas e pulam fora. Alguns largaram a graduação, outros terminaram a graduação mas não seguiram carreira, nem aproveitaram seus quatro anos de faculdade pra vida profissional, outros foram até a pós-graduação, para depois mudarem completamente de rumo.

Os que largaram a graduação

Um arranjou uma namorada cujo pai tinha um posto de gasolina. Virou gerente de posto de gasolina. Uma, que chegou a ter um caso rápido com esse cara antes de ele ser gerente de posto de gasolina, foi assassinada pelos vizinhos em sua casa, atrás da USP. Outra teve filhos, e para sustentá-los trabalhou como revisora de textos jurídicos. Outro, muito encantado com a mãe das duas crianças, não esperou para vê-la grávida e foi com a namorada (descendente de alemães) pra Alemanha, casar. O casamento não durou muito, nem ele não está mais na Alemanha, mas nunca mais voltou a pensar em terminar a graduação em Lingüística. Outro não teve paciência para a faculdade, montou seu próprio laboratório, e quando morreu foi promovido a físico pelo anúncio de óbito.

Os que terminaram a graduação, mas...

Uma cortou relações comigo porque achava que eu era louca, a melhor amiga dela (na época) ainda acha que eu valho a pena e ocasionalmente me manda poemas. Suspeito que as duas tenham terminado a graduação, mas a que tem o dom da escrita diz que não faz nada da vida. Não sei se está sendo poética. Outra terminou a graduação e no dia seguinte foi convocada para trabalhar numa agência de banco em sua cidade. Tinha prestado concurso 4 anos antes e aceitou o cargo no ato. Um fez Sociais e hoje é vendedor numa livraria. Fingimos que não nos reconhecemos, apesar de já termos planejado morar na mesma república. Outra, colega deste e minha colega de república por muito tempo, também fez Sociais, passou no concurso da Funai, conheceu o Brasil, pediu demissão e agora é burocrata numa universidade no ABC.

Os que foram até a pós

Um fez mestrado em Lingüística, atuou um tempo como professor substituto na USP mesmo e depois voltou a dar aulinhas de inglês. Logo percebeu que o título de mestre era pouco pra concorrer em concursos promissores. Outro, colega do vendedor de livros e co-morador daquela que depois foi pro ABC, fez mestrado em Ciência Política na França e passou no concurso pro Metrô. Agora tem uma vida confortável e continua militando no partido. Outro está num dilema dos bravos: foi chamado semana passada para assumir um cargo burocrático na Unicamp, efeito retardatário de um concurso que tinha prestado 3 anos antes. Ainda não defendeu seu doutorado, nem vê perspectivas de passar num concurso para professor universitário. Sabe que se assumir o cargo, vira um grande carimbador de papel acomodado e possivelmente não volte mais à vida acadêmica.

Os eternos estudantes

Entrei na USP em Lingüística influenciada pelas conversas com um estudante de Lingüística (amigo do físico não-formado) que estava no meio de sua graduação. Ele já foi jubilado algumas vezes, mas ainda não concluiu sua graduação: faz uma matéria a cada dois semestres. Outro, que mora na mesma república que aquele que está tentado a aceitar o cargo de burocrata na Unicamp, está fazendo duas graduações em paralelo, dando aulas em sua cidade natal e, neste momento, prestando um concurso pra chancelaria. Enquanto ele não passar no concurso ou conseguir um aumento na escola em que trabalha, continuará sendo aluno na Unicamp. Outro é mestre em Química e acaba de passar no vestibular para Filosofia. Neste exato momento, está fazendo prova pro concurso de chancelaria, com o de antes, lá. Outro, grande amigo deste último enquanto moraram juntos, tinha começado a graduação em Sociais, terminou a graduação em Lingüística, saiu do partido, começou outra graduação em Jornalismo e agora está encantado com o curso de Design (ou coisa parecida) que está freqüentando.

Tentando entender

Nossa sociedade é predominantemente urbana, portanto valoriza qualidades como educação, sucesso profissional e conforto. Saber usar as mãos para construir ou confeccionar objetos de uso prático, saber caçar, ser capaz de correr rápido, mergulhar por muito tempo, saber se vai chover (e quando) não são qualidades interessantes para uma sociedade urbana. Os filhos da classe média vão para a universidade, todos os filhos das outras classes também querem entrar na faculdade e estudar. É quase compulsório, é o que está no programa: depois da escola vem a universidade. O que vem depois da universidade é o mercado e trabalho (assim, bem genérico mesmo). Só que este mercado de trabalho não absorve bem os recém-formados, muito menos aqueles que estudaram em cursos que são pouco voltados para a aplicação prática (mas mais para o desenvolvimento teórico) dos conhecimentos acumulados. E não são muitos os que estão dispostos a abdicar de sua vida urbana e confortável para meter-se no meio do mato e dar aula numa universidade que não tem pós-graduação.
Não quero dizer que os meus amigos que desistiram da vida acadêmica em algum momento sejam loosers, desperdiçadores de si mesmo e do dinheiro público investido em sua formação mal-aproveitada. Sei que não é fácil tomar gosto pela pesquisa e ensino. O que me espanta é que tanta gente investe numa formação universitária para depois exercer uma profissão que ignora completamente essa formação. Talvez o gerente de posto de gasolina seja um grande apreciador da variação lingüística e saiba usar de suas observações para negociar com seus clientes. Talvez a moça que diz não fazer nada esteja apenas esperando pela grande inspiração que lhe dirá em que formato colocar suas idéias. Talvez o vendedor na livraria seja recompensado por saber escrever os nomes dos filósofos alemães no campo de busca do computador. Vai saber.

Um comentário:

Juliana Reis disse...

hahahahah Menina malouca só vc mesmo... adoro suas reflexões!!!
e por falar nisso ganhei um selinho da Cris e solicita para indicar blogs de mulheres diferentes e eu indique tu. para lá no portfólio
bj