quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Exemplos

Dê-me teus exemplos e te direi quem és.

Se você não souber o que significa uma certa palavra, e acha importante saber a que ela refere, você pergunta pra alguém ou vai ao dicionário. Digamos que você vai ao dicionário e que o único dicionário à mão é o Aurélio. Você acha a palavra, lê a definição e complementa o entendimento da acepção da palavra através da leitura do exemplo citado ao final do verbete. Simples, não? Não exatamente.

Em primeiro lugar, nem todas as definições de palavras vêm acompanhadas de exemplos, em segundo lugar esses exemplos são meras transcrições de trechos literários (e se chamam abonações), que por si só apresentam uma linguagem mais preocupada com a estética que com a comunicação. Quer um exemplo? Vamos lá. Abri o meu Aurélio numa página aleatória e encontrei um trecho de um verbete entre aspas: isto é uma abonação.

marola. [De mar 1.] S.f. Bras. Ondulação na superfície do mar: "Espreitou o céu enfarruscado e as marolas repetidas que se quebravam, insistentes, contra a murada" (Reginaldo Guimarães, Uma Blusa no Cais, p.24).

Perceba que a abonação (desconsidere a definição) não ajuda em nada a compreender o significado da palavra em questão. O exemplo não é didático, é apenas uma ocasião em que a palavra marola é usada por um escritor. Pela minha experiência com dicionários, posso garantir que o Aurélio só apresenta abonações (e nenhum exemplo inventado) de escritores portugueses ou brasileiros de tempos idos.

Isso aponta para o conservadorismo do próprio dicionário (ou a equipe de dicionaristas), que somente bebe na fonte do que já é considerado como literatura. Cria-se um círculo vicioso: uma palavra só existe se estiver no dicionário, e a abonação de uma palavra só acontece se existir na literatura. Lembro que quando eu tava fazendo Literatura Portuguesa, fui consultar uma palavra. A abonação daquela palavra era justamente a frase que eu não tinha entendido no meu livro do Cesário Verde.

Já que estamos no nível da palavra, seguimos com Valter Kehdi e seu manual de morfologia. Um exemplo que ele dá de palavra composta é vinagre. Ora, uma pessoa da minha geração não vê duas palavras em vinagre (vinho + acre), só enxerga uma: vinagre. Esse exemplo mostra que o autor do exemplo é um sujeito formado em Lingüística Histórica.

Passemos ao nível da sentença. Renato Basso, meu amigo, é um semanticista formal. Sua dissertação tem mais de 300 exemplos, sendo todos com o João:

João leu o livro por x tempo
João leu o livro em x tempo

O que lhe interessa é a forma (lógica), não a função da linguagem, então ele não coleta exemplos com falantes, mas cria-os.

Marcos Bagno, que é um lingüista que escreve muito sobre preconceito lingüístico, variedades do português no Brasil, língua portuguesa ou brasileira e esteve na equipe de avaliação de dicionários de que eu participei, critica as abonações feitas pelo Aurélio, por serem altamente conservadoras, lusas, consagradas e literárias. Os exemplos que ele dá são tanto sentenças criadas por ele mesmo, como abonações de escritores brasileiros vivos que escrevem de maneira próxima ao vernáculo (a língua falada), tipo Luis Fernando Veríssimo. O que Marcos Bagno quer é mostrar que o português do Brasil é diferente do português de Portugal. Não só na fala, como na escrita (culta) também.

Ingedore Villaça Koch é uma lingüista que estuda texto e escreve para um público (semi-)acadêmico. Tanto universitários como professores de língua portuguesa lêem seus livros sobre Lingüística Textual. Como ela lida com questões que transcendem a palavra (que é o caso do dicionário e da Morfologia) e a sentença (que é o caso do Marcos Bagno e da Semântica), ela apresenta recortes de textos publicados em jornal. Ora, jornal é a fonte de dados para as provas do vestibular, os exercícios em sala de aula etc. O jornal (e não a gramática prescritiva) dita as regras da língua pelo simples fato de ter tão grande disseminação e aceitação por parte do público. Esta autora quer mostrar como funcionam anáforas, catáforas, progressão referencial e textual etc. na prática, em textos informativos (não necessariamente literários).

E você já deve ter percebido que estou estudando pra mais um concurso.

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