domingo, 1 de fevereiro de 2009

Caráter em jogo

Não me lembro bem se li ou ouvi (audiobook) essa hipótese de que se tem acesso direto ao caráter de uma pessoa ao se observar o comportamento dessa pessoa durante um jogo. Lembro que era a tese central de um romance. Soa a O Jogador do Dostoiewsky, mas podia muito bem ser outro escritor russo (pelo tom dramático).

Percebo que as pessoas se entregam emocionalmente quando envolvidas em jogos, principalmente jogos de cartas. Nestes jogos, todos estão sentados à mesa, próximos uns dos outros, podem observar as reações dos outros quando olham suas cartas, calcular como ordenam as cartas na mão, perceber suspiros e contrações das mãos e sobrancelhas quando algo supostamente corriqueiro acontece na mesa.

O tipo de jogo determina quais sinais são relevantes para serem observados. Quando houver muitas cartas na mão do jogador, é interessante observar as mãos do jogador. Penso em Doppelkopf: como a pessoa deposita a carta na mesa? Com desprezo, segurança, raiva, ou indecisão? De onde saiu aquele Ás de ouros? Da ponta ou do meio (trata-se de um Schweinchen ou simplesmente de um Fuchs?)? Se saiu da ponta, tem outra carta igual aí, caramba! A dupla vira o trunfo mais alto do jogo! Se saiu do meio, é só um Fuchs. Como a pessoa recolhe as cartas que acabou de ganhar? Jogando a carta seguinte na mesa antes de recolher o monte ou recolhendo-o devagar, ordenando as cartas, para depois retirar, com dois dedos, uma carta da mão e depositá-la na mesa fazendo-a estalar? Quando os pares de Damas de paus se acham, é interessante observar o rosto do parceiro. Aquele Dez descontextualizado foi um presente, pedido de socorro ou uma rendição? Neste jogo o que conta são as cartas. Em segundo plano vem a tática de jogo. Não é possível liderar uma rodada de Doppelkopf com cartas ruins, mas é possível ler nos sinais do outro quão ruins são as cartas que segura.

Poker é um jogo bem diferente de Doppelkopf, em vários sentidos. Tem-se duas cartas (na memória, não é nem na mão), e a partir dessas duas cria-se combinações com as cartas que são gradativamente abertas na mesa. Não adianta observar as cartas do oponente, porque ele não as descarta, ordena ou mesmo segura na mão. Vale observar o rosto do outro jogador quando ele vê suas cartas (um par de Áses, Reis ou de cartas do mesmo naipe costuma alumiar levemente o semblante da pessoa). Muito mais que isso, vale observar como as pessoas se desafiam mutuamente. No Doppelkopf não existe blefe, ao passo que um bom jogador de Poker precisa justamente saber provocar o outro na medida certa, sem ter de mostrar as suas cartas. É nesse ponto que transparece o caráter da pessoa. Eu era iniciante e queria, para fins didáticos, ver as cartas de quem tinha ganhado a rodada. Eu não blefava quase nunca, por não ter desenvolvido essa habilidade e por me ancorar nas cartas. Se eu apostava alto, é porque as cartas eram boas. Joguei em modo seguro e tive um desempenho médio. Um outro jogador, que se manteve no jogo por muito tempo, mas não ganhou, se atirava nas apostas: eu aposto 10 milhos*, sem nem mesmo olhar as minhas cartas. Na vida real, ele faz o mesmo: abusa de muitas coisas e agradece à Nossa Senhora Tecnologia pelo desenvolvimento de Engovs, Aspirinas, Dorflex e outros consertadores químicos. Quem ganhou o jogo (terminado depois de 5 horas de intensa atividade) foi um cara que soube ler nas minhas apostas altas as cartas boas que me faziam selecionar um número alto de grãos de milho*; e nos olhos do outro as boas ou más cartas que abria.


*Não jogaríamos por dinheiro e não tinha feijão ou fósforos na casa. Usamos milho de pipoca.

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