domingo, 15 de fevereiro de 2009

Seu Nonato

Seu Nonato não sabe o nome de ninguém, mas todos sabem o nome do motorista falastrão e o cumprimentam alegremente quando escalam os degraus do 207 CAMPUS UNIR. Ele dá dois dedos de prosa a eles e os chama de ‘menina’, ‘minha amiga’, ‘cobrador’, ‘companheiro’ ou ‘chefe’. Seu Nonato é bonachão, gosta de agradar os cohecidos com pequenos presentes e longas estórias. Passou a maior parte de sua vida atrás do volante e aprendeu a não ter pressa na estrada.

Mês que vem Seu Nonato vai se aposentar. Já juntou umas sementes que quer plantar no sítio, já se imaginou colhendo tamarindo, pitomba e cajá. Não só as frutas, como o seu sotaque denunciam sua origem. Veio da terrinha ainda criança, junto com seus seis irmãos por parte de pai e viu seus quatro irmãos por parte de mãe nascerem aqui, no hospital militar às margens do rio Madeira. Não quis seguir o exemplo do padrasto e embarcar na carreira militar, porque logo se deu conta de que o que mais lhe dava prazer nessa vida era conversar. A partir das observações do padrasto sisudo concluiu que no quartel não se tolerava conversa mole.

Seu Nonato entra no ônibus e cumprimenta os poucos passageiros:
- Bom dia no atacado.
Assume seu posto com desenvoltura e avisa o cobrador, olhando pelo retrovisor e com o dedo indicador levantado:
- Hoje eu não vou conversar muito, não, viu, cobrador, porque dizem que quem muito fala, muito erra.
O cobrador ri, tira as moedas de um saco plástico, passa o cartão na catraca e anota números numa ficha. Seu Nonato ri de si mesmo, estica o pescoço, olha pelo retrovisor e se prepara para largar:
- É isso aí, fé em Deus e pé no acelerador.
Seu Nonato faz o ônibus mover-se para o outro lado da rua e pára, abrindo a porta para um casal de velhinhos, apesar de ali não ser ponto. Uma vez vencidos os degraus, o velhinho reclama:
- Rapaz, acabo de perder esse ônibus, o motorista passou longe.
- Não, não era, não. Porque dessa linha só tem esse ônibus, que é de hora em hora agora que é férias, mas vai mudar semana que vem, quando começam as aulas.
- Só um de hora em hora?
- É, se fosse qualquer um, tava xingando a mãe do motorista, mas como o senhor é uma pessoa educada, não vai xingar a minha mãe, não é verdade?
Divertido, o homem paga duas passagens e passa a catraca.

Começa a chover a gotas gordas e verticais. Os passageiros fecham as janelas e logo as janelas embaçam. O movimento dos limpadores de pára-brisa indica que a chuva continua lá fora. O som do motor abafa o som da chuva torrencial. O cobrador lembra de um acidente fantástico que ouvira sendo descrito no rádio. A cada frase do cobrador, Seu Nonato diz:
- Meu Deus!
O acidente foi complicado, a estória é intricada e Seu Nonato quer contar estórias de acidentes que vão despertando de sua memória a cada vez que diz:
- Meu Deus! – mas o cobrador permanece firme no propósito de descrever aquele acidente com a carreta que ouviu no rádio. Depois de várias interrupções e digressões a estória acaba e não resta um sobrevivente. Seu Nonato viaja pelas estórias paralelas. O cobrador olha pra ficha, calcula valores, preenche a ficha com esmero, fecha o caixa, pega as suas coisas e vai para a porta de trás. As mulheres no fundo dão risada do Seu Nonato que ainda está conversando:
- Cadê o botão de liga e desliga, Seu Nonato?
- Heheh, já tô eu de novo, conversando sozinho. Mas não faz mal, porque eu vou me aposentar mês que vem e não ter ninguém pra conversar no sítio. Aí tem que aproveitar agora, que tem gente ouvindo.

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