domingo, 22 de fevereiro de 2009

De onde vem?

De onde vem essa determinação de ir a um lugar desconhecido e começar tudo do zero? Ela diz que vem de dentro.
De onde vem esse apego à família, essa necessidade de sempre estar em contato com a mãe? Ela diz que vem de Deus.
De onde vem a coragem de largar tudo e voltar pra casa dos pais, apesar de saber que é difícil voltar a morar com os pais depois de tantos anos de independência? Ela sabe que vem do desespero.

Foi a briga com o namorado que desencadeou tudo. Não era a primeira briga, mas essa era sobre o futuro. Ele quis acompanhá-la até a sua casa - e dormir lá. Ela nunca o havia convidado para dormir em sua cama. Sempre que ela dormia na casa dele, não dormiam nunca sozinhos: ou a irmã ou a mãe dele dormiam no mesmo cômodo que o casal. Ela era moça direita e não queria ficar falada. Foi educada em colégio de freiras e está convencida que vai casar de véu branco, desfilando a sua virgindade até o altar. Mas com esse moço ela não queria casar. Aceitou namorar com ele para sentir-se menos sozinha naquele lugar perdido no mapa.

Sente falta da família, da casa dos pais, do cachorro. Lembra que a infância foi o melhor período de sua vida. Em todas as fotos de criança ela está sorrindo e rodeada de outras crianças. Bons tempos aqueles, quando ela tinha amigos que a tratavam de igual pra igual. Agora ela tem poucos amigos e nenhum tem a idade ou a situação de vida dela. A maioria das amigas dela (que ela conheceu por conta própria e cuja amizade cultivou) volta para os filhos pequenos e o marido bruto de noite. Ela volta para a casa vazia e deixa que o vazio se aposse de seu ânimo.

Sente falta do anonimato - ou da falta de interesse dos outros pela sua vida. Sente profunda irritação quando os vizinhos demonstram que sabem da sua rotina, dos seus gostos, das suas saudades. Sente aversão por si mesma toda vez que liga no celular do namorado para avisar que chegou em casa, que está saindo de casa, que está cansada. Quando morava em república, nos tempos de faculdade, jogava-se em novas experiências e contava a quem quisesse - e porque queria, não porque lhe cobravam - a estória da noite anterior.

Foi a briga com o namorado que fez com que algo mudasse, assim, de repente. Ela não chegou a ouvir o 'click' em sua cabeça, mas as coisas de repente se encaixaram, fizeram sentido. Era como botar óculos e enxergar com nitidez pela primeira vez: isso aqui não é vida. Está convencida de que é preciso interromper o curso dos acontecimentos, suspender a rotina de trabalho e estudo e esse namorado que quer mais atenção que está disposta a dar. Quer voltar a um lugar seguro, onde conhece as coisas e gosta das pessoas. Talvez consiga decidir o que fazer da vida a partir de lá. Posto assim, não é mais uma fuga. É um retorno estratégico, só mais uma mudança de curto prazo.

Amanhã pedirá demissão de seus dois empregos, fará a rescisão de contrato de aluguel, colocará seus móveis à venda, se despedirá das amigas pelo telefone e deixará um recado curto e evasivo na casa do ex-namorado. As forças que precisa pra cumprir toda essa lista de afazeres são geradas pelo motor que a mantém em constante movimento.

3 comentários:

pedalante disse...

Pedalante indica seu blog para receber o Prêmio Dardos.
Esta premiação foi criada em reconhecimento ao trabalho desenvolvido por blogueiros nas mais diversas áreas. Premia a criatividade e busca promover a confraternização entre os blogueiros cujos trabalhos agreguem valor à Web.

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Abraços.

iglou disse...

Pedalante,

fico lisonjeada, mas não acompanho 15 blogs que eu pudesse indicar.
Valeu mesmo assim!

pedalante disse...

Pequena Lou,

Veja lá no blog seu selo...e indique somente os que você considera. O selo é seu.

Aproveite e lhe desejo sorte em seu novo emprego.

p.s. Estou em semana sabática, por assim dizer. Volto na segunda para Campinas.