quarta-feira, 30 de julho de 2008

Arquitetônica

O Animamundi, festival internacional de animação sediado no Brasil, aconteceu no Rio e em Sampa. Em relação às edições anteriores, o evento não é mais espalhado na cidade, nem não é mais gratuito. A maior parte das sessões foi exibida no Memorial da América Latina, a menor parte foi exibida no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) e tinha sessões mais baratas e algumas gratuitas.

Animamundi, the international animation festival hosted in Brazil, took place in Rio and São Paulo. Comparing to previous editions, the event is no longer spread around the city and is no longer free of charge. Most part of the sessions was exibited at Memorial da América Latina, the other ones were at CCBB and offered cheaper and even some free sessions.

Eu tinha avisado ao Muntasir que queria muito ir ao Animamundi (só fui a um, muitos anos atrás, e sempre tive obstáculos acadêmicos me impedindo de participar dos outros). Ele topou, disse que me acompanharia. Eu fiquei encantada com as oficinas de areia, massinha, desenho, pixilagem e o caramba que atraíam público: muitas crianças produziram animações usando diferentes técnicas, e essas animações foram exibidas durante o festival. Depois da primeira sessão, Muntasir declarou que animação é coisa de criança e assim demonstrou o seu profundo desinteresse pelo festival.

I had informed Muntasir that I want to attend the festival (I had only gone to one, many years back, and always had academic obstacles keeping me from going to the other editions of Animamundi). He agreed and said we would join me. I was amazed by the various workshops on sand, play-doh, drawing, pixilation and whatever else they offered. Many kids produced animations using different techniques, and these animations were exhibited during the festival. After the first session, Muntasir expressed the feeling that animation is good for children, thus showing his deep lack of interest for the festival.

Passei a ir sozinha ao Memorial, enquanto ele voltava pra casa com a Olga e passava longas horas no seu computador. Muntasir é, antes de ser ciclista ou engajado na luta contra a AIDS, um fotógrafo e engenheiro. Neste sentido, vê nesta viagem de volta ao mundo uma oportunidade de publicar um livro com fotos e estórias.

I started to go to the Memorial alone, while he would go back home with Olga and spend long hours on his computer. Muntasir is, more than a cyclist or engaged in the fight against HIV, a photographer and engineer. That is why he sees this trip around the world as an opportunity to publish a book with pictures and stories.

Assisti a um longa-metragem no CCBB e tirei essa foto de lá de cima:

I watched a long animation at CCBB and took this picture from up there:

sexta-feira, 25 de julho de 2008

É? Não é...

Muntasir e eu anotamos o endereço dos consulados da Argentina e da Bolívia. Pegamos buzão e caminhamos um quilômetro na Paulista. Entramos no prédio, fizemos cadastro, mas não subimos ao nono andar, porque o consulado da Argentina não era lá. Mil números pra frente, um quilômetro de caminhada. Fomos mal recebidos, o cara botava dificuldade e incerteza em tudo, quis dispensar a gente. Seguimos pro consulado da Bolívia, na Rua Honduras. Eu não tenho o costume de andar pelo centrão, então tivemos que pedir informação muitas vezes, demos voltas e descobrimos que o endereço não conferia de novo. Um policial nos informou o endereço do consulado da Bolívia: Av. Paulista.

Muntasir and I wrote down the addresses of the Argentina and Bolivia consulates. We took the bus and walked for one kilometer on Paulista Avenue. We went inside a building, registered, but did not climb up to the 9th floor, because the Argentinian consulate was not there. One thousand numbers ahead, another kilometer walk. There, we were made uncomfortable, the man behind the counter would say everything is difficult and uncertain, and wanted to get rid of us. We ventured to the Bolivian consulate, on Honduras St. I am not familiar with the downtown core part, so we had to ask for information more than once, walked in circles and found out that the address was wrong again. A policeman informed us the address of the Bolivian consulate: Paulista Avenue.


Muntasir me perguntou por que as pessoas se comportam assim.
Assim, como? Estando na rua até altas horas, esperando o ônibus no ponto? Passando frio?
Não, por que as pessoas se beijam e se abraçam na rua?
Porque são livres para tanto.



Muntasir asked why people do this. This, what? Being late out on the streets, waiting for buses? No, I mean the hugging and kissing. Because they are free to do so.


Pegamos um ônibus que passava na Sabará. Era o Sesc-Orion que vai pela Ibirapeura, Largo 13, anda um pedaço na Sabará, e entra no Campo Grande antes do meu ponto na Sabará. Quando o ônibus saiu da Sabará, perguntei ao cobrador se o ônibus voltava pra Sabará.
Volta.
E passa ali na frente da Igreja Verde?
Não.
Do Barateiro? Desculpa, agora é Compre Bem.
Isso, passa ali.
O ônibus entrou na Interlagos, direção ponte, sem me dar a menor esperança de voltar pra Sabará. Brava, voltei ao cobrador.
Esse ônibus não vai voltar pra Sabará.
Não.
Mas cê disse que voltava.
Não.
Homem, eu perguntei se voltava pra Sabará, e você disse que voltava.
Ah, não, eu entendi que você tava perguntando se ele voltava pela Sabará.
Puxa vida, um problema de preposição. Voltamos pra casa na sola do sapato.

We took a bus that drives on Sabará Av. It was the Sesc-Orion, which goes along Ibirapuera Av., Largo 13, drives a bit on Sabará Av. and enters Campo Grande before reaching my bus stop on Sabará. When the bus left Sabará, I asked the collector if the bus would return to Sabará. Yes. And does it pass there, before the green church? No. How about Barateiro? I mean Compre Bem, the name has been changed. Yeah, right there. The bus made a turn on Interlagos Av., heading the bridge without any hope of returning to Sabará. Mad, I turned to the collector: This bus is not returning to Sabará. No. But you said it would. No. Man, I asked you if this bus would go back to Sabará and you said it would. Oh, I understood that you were asking if, on his way back, the bus would return on Sabará. Oh, boy. A preposition problem. Muntasir and I walked home.


Muntasir tinha me avisado que não come carne de porco, porque é muçulmano. Fomos num rodízio de massas, e a moça apresenta uma travessa com carne. Pergunto que bicho é aquele e ela responde:
Lagarto.
Não, não pode ser lagarto. É carne de lagarto?
Não, é carne de vaca.

Muntasir had warned me doesn´t eat pork because he is muslim. We went to an italian restaurant and the lady offered us some meat. I asked what animal that had been, and she answered: Lizard. No, this can´t be lizard. Is this lizard meat? No, it is beef.

Dias depois, fomos na padoca, e tinha uns pães recheados com presunto e queijo. Ele pediu um, depois reclamou.

Você poderia ter avisado que tinha porco aqui!
Véio, desculpa, pra mim, presunto é presunto, não passou pela minha cabeça que presunto viesse de algum animal.


Some days later, we went to a bakery, and they had bread filled with ham and cheese. He ordered one and then complained: You could have told me there is pork in this bread! Dude, I am sorry. To me, ham is ham and it did not cross my mind that ham would be the meat of any animal.


Dia seguinte, almoçamos lanche. No cardápio tinha um sanduíche de salame.

Olha, Muntasir, esse aqui é melhor não, tá? Porque eu não faço idéia de que animal vem a carne e a gordura do salame.

Next day, we had sandwiches again. On the menu there was a salami sandwich. Look, Muntasir, don´t choose this one, OK? Because I have no clue what animal salami comes from.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Mesma rota

Ana Lu me conheceu por acaso: caiu no blog à procura do telefone do marmitex da tia Rita. Entrou em contato, marcamos um passeio de bicicleta, conheceu Pequena Lou e Muntasir e nos mostrou uma nova rota.

Ana Lu got to know me by accident: she ended up on this blog looking for a food-delivery phonenumber. She made contact, we settled a small trip, she met me and Muntasir and we were introduced to a new route.

Dionízio gostou da idéia de não ir ao congresso de manhã, mas pedalar com a gente. Muntasir queria voltar a um certo ponto da rota, para tirar a foto perfeita.

Dio liked the idea of not going to his conference in the morning, but instead, cycling with us. Muntasir wanted to return to a certain spot on the route, to take the perfect picture.

E assim Muntasir e eu fizemos a mesma rota em dois dias seguidos. O mesmo caminho foi feito com olhares, expectativas, tempos, e parceiros diferentes.

And that is how Munatsir and me did the same route in two consecutive days. The same route was done with different views, expectations, time and partners.

domingo, 20 de julho de 2008

Visita de Bangladesh

Ele é de Bangladesh e veio pra São Paulo via Bangkok. O vôo foi com escala em Dubai e a viagem, com a parada de 15 horas no aeroporto de Dubai, demorou 40 horas. Mas isso é pouco pra quem pretende fazer a Amércia Latina de bicicleta, e depois os outros continentes.

He is from Bangladesh and came to São Paulo via Bagkok. The flight had a stop in Dubai and thus the trip, counting the 15-hour stop at Dubai airport, took 40 hours. But that is little for someone who intends to cycle around Latin America and then hit the other continents.


Um dia depois de chegar, foi arrastado pra Campinas, pra comemorar o casamento de Carlos e Marina. Mesmo com o jet lag forçando as pálpebras, topou uma excursão noturna ao observatório de Joaquim Egídio. E viva Muntasir!

One day after arriving, he was dragged to Campinas, to celebrate Carlos and Marinas wedding. Even though the jet lag was forcing his eyelids, he agreed to join a night excursion to the observatory in Joaquim Egídio. That's Muntasir!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

As quatro mosqueteiras

Iria dormiu aqui em casa. Julia passou aqui na madrugada seguinte e seguimos pra Piracicaba, encontrar a orientadora. O carro da Julia ficou na garagem, o da Rosana saiu e nos levou até São José do Rio Preto. Na função de co-pilota, nos guiei até a Unip, onde seria o GEL. Apresentamos em esquema de simpósio naquela tarde mesmo e tivemos um público relativamente grande e interessado.
No dia seguinte, de manhã, optamos por ver comunicações individuais numa sala em que havia apresentações de Neurolingüística. Neuro não é um campo muito vasto e se restringe a USP, Unicamp e parcerias com a Fono na Unesp de Marília. Quem vem de outras universidades e apresenta trabalho de Neuro no Gel passou por uma dessas universidades, ou seja, o círculo de lingüistas é pequeno. O duro é que nós acabamos conhecendo em São José do Rio Preto, a 351 km de casa, os trabalhos das gurias da Unicamp.

Pequena Lou e os motociclistas

Minha primeira interação positiva com um motociclista foi de noite, saindo do Shop. D. Pedro. De bicicleta, peguei um atalho no fim da ponte que cruza a D. Pedro e fui seguida por um motociclista, que se orientou pela minha luzinha vermelha piscante. Passou por mim buzinando e agradecendo por ter aprendido um caminho novo.

A segunda foi novamente no cenário de-bicicleta-no-shopping, mas dessa vez eu estava no Iguatemi. À procura de um bicicletário, entrei na entrada de motos, porque me acostumei a dividir estacionamento com motociclistas. O guarda não sabia se o Iguatemi tinha bicicletário, mas eu não podia deixar a Amarilda ali, no cercadinho das motos, que pagam pra estacionar. Perguntou pra outro guarda onde eu podia deixar a bicicleta, e indicaram as docas (onde acontece a carga e descarga de mercadorias). Eu tinha formado uma fila de motociclistas atrás de mim, intrigados com aquela ciclista no estacionamento de motos. Pedalei até as docas, prendi a Amarilda num poste, entrei pelo pavilhão vazio e escuro, entrei no elevador e atravessei corredores até chegar na área das lojas. Não achei o livro que eu queria comprar, sentei na Praça de Alimentação e bebi uma água.
- Onde que cê pôs a sua bike?
Reparei que o homem tinha um capacete de moto na mão e imaginei que ele tivesse estado atrás de mim, na entrada do estacionamento das motos.
- Nas docas, dando a volta no shopping todo.
- Cobraram?
- Não, bicicleta não. É coisa de pobre.
- Meu, eles cobram 3 reais pra moto, e nem é coberto.
- Olha, acho que cê pode deixar a sua moto lá também, sem eles cobrarem.
- Valeu.

A terceira foi ontem. Eu não estava de bicicleta, e o motociclista estava a pé, com o capacete na mão. Rosana, Julia, Iria e eu estávamos a caminho de São José do Rio Preto, para participar do GEL (Grupo de Estudos Lingüísticos). Fizemos uma parada em São Carlos e fomos todas ao banheiro. Passei por um moço que me reconheceu. A surpresa, os olhos atentos e o passo incerto indicavam que tivesse me reconhecido. Estudei seu rosto barbado, procurei pistas na roupa de preta de motociclista, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Saímos todas do banheiro, e lá estava ele de novo.
- Oi, Lou.
- Puxa, você me conhece, mas eu não estou lembrando de você.
- Sou eu, você não lembra?
- Lembrei de você! Agora falta lembrar seu nome! Leandro.
- Isso mesmo.
Leandro trabalhava no bicicletário (quando motos ficavam junto com bicicletas) do Shop. D. Pedro. Eu ia no cinema, pegava a sessão das 9 e quando voltava pra Amarilda, ela estava praticamente sozinha no bicicletário. Enquanto eu colocava luzinhas, luvas, destrancava a bicicleta e arrumava a mochila nas costas, o guarda vinha conversar. As conversas eram sobre o filme que eu tinha visto, sobre o que gostamos de ler, os pepinos no estacionamento. Fui pra Holanda e continuamos nos correspondendo. Caí da árvore e ele sofreu um acidente feio no estacionamento do shopping: estava fazendo a ronda de moto, foi fechado por um carro, caiu e quebrou um monte de ossos. Voltei ao Brasil e ele não estava mais trabalhando no bicicletário do D. Pedro. Agora é moto-taxista lá pros lados de São Carlos.
- Mas tu sofreu um baita acidente de moto e ainda assim trabalha de moto?
- Lou, a gente cai, mas depois levanta de novo.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O mulá de ferro e Wall.E


Um dos personagens mais fascinantes - pra mim - neste livro do Rushdie é o mulá de ferro. Um doido despenca do nada no meio do vilarejo, se dizendo um líder religioso muçulmano. Bate com o punho fechado na testa e todos ouvem um som metálico. Ele ouve a palavra de Alá e a passa adiante, pregando a religião certa. Um fanático. Mas um fanático que ganha seguidores, que divide a população do vilarejo. Farto do teatro do mulá, o líder dos cozinheiros se veste de panelas, frigideiras, tampas e louça de metal e caminha pelo vilarejo, batendo com as colheres em sua armadura de ferro e esbravejando: é nisso que vocês querem se transformar?
O mulá de ferro é expulso do vilarejo, mas leva seguidores pras montanhas, monta uma guerrilha de muçulmanos fanáticos que se preparam para retomar ou explodir a Cashemira. Quando morre, seu corpo nada mais é que um monte de ferro velho, e ninguém consegue entender como aquele metal todo pudesse alguma vez ter sido conectado para resultar num líder religioso. Então ele não era humano? O que dava coesão e coerência àquele monte de lata? O mulá tinha ALMA?
Waste
Allocation
Load
Lifters
Earth. Bom, Walle é um robozinho que tem como função localizar lixo, juntá-lo, comprimi-lo num cubo e empilhá-lo. Talvez seja útil mencionar, aos que não viram o filme, que o Planeta Terra foi abandonado pelos seres humanos faz 700 anos, porque no mundo só existe lixo. E Walle organiza este lixo.
Assim como o mulá de ferro, Walle tem características humanas: consciência de si, linguagem, capacidade para aprender, emoções e crenças. Walle sabe de que peças é constituído e é capaz de se consertar, trocando peças avariadas por peças de reserva. Walle sabe dizer seu nome e o nome da Eva, a robô-fêmea mandada ao planeta à procura de clorofila. É interessante observar como Walle aprende sobre os humanos através do lixo que ele coleta. Imita comportamentos humanos que vê num vídeo (um musical). Assim, suspira ao pôr do sol, abstrai uma tampa de panela e a movimenta como um chapéu e quer segurar a mãozinha da Eva. Walle sente amor pela Eva e crê que é igual (ou pode vir a ser) aos humanos que vê no musical.
Num dado momento do filme (de criança, da Disney!) Walle apanha tanto, que pára de funcionar. Eva troca as peças do seu companheiro, aflita. Terminado o conserto, Walle olha através dela, com um olhar vazio. Um impulso faz com que se movimente, localize lixo, o junte e comprima lixo em sua caixa, cuspindo um cubo de lixo, localize mais lixo...
Nesse momento eu vibrei: genial! Se trocar as peças de um robô, e as suas memórias estiverem impressas no material que é retirado do robô, ele não pode mais se lembrar quem é, que quer segurar a mão da Eva, e que passou um tempão atrás da robô-fêmea-durona. Mas se Walle tivesse suas memórias reduzidas a sucata, este não seria um filme infantil. Walle tinha algo para além da matéria. Walle tinha ALMA e reconheceu a Eva e viveram felizes para sempre.



domingo, 13 de julho de 2008

Enciclopédia de imagens

OK, alguém sabe me dizer que bicho é esse? Entrou no meu quarto, pela janela, na calada da noite. Apesar de cansado, não parava muito tempo num lugar só, sempre fugindo das lentes da minha câmera. Juro que de noite as partes azul-turquesa do animal eram verdes. Na manhã seguinte, peguei-o desprevinido, dormindo na parede branca.
Agora já foi embora, mas fiquei curiosa pra saber quem é esse bicho que dormiu a noite no meu quarto, mudou de cor e saiu pela janela.

sábado, 12 de julho de 2008

Cartas à Oca

Começou por volta de 2003. Meu irmão e eu íamos fazer uma viagem maluca de carro até Recife. Nossos pais ficaram preocupados, nossa vó duvidou de nossa boa saúde mental, nossos amigos desacreditaram. Para tranqüilizá-los todos, prometemos mandar cartões postais todo dia.
Demoramos quatro dias pra chegar de Campinas a Recife, ficamos três dias em Recife e precisamos de mais três dias para voltar pra Oca. De algumas cidades no trajeto, só conhecemos uma agência de banco, um restaurante, um posto de gasolina e uma agência dos Correios. Os cartões postais não chegaram a tempo, mas deram a alguns de seus destinatários a sensação de que estavam nos acompanhando.
Adotei o hábito de mandar cartões postais, especialmente quando viajo sozinha. Assim, o meu diário de viagens fica diluído por aí, na casa da minha vó, dos meus pais, da Olga e na Oca. Na Oca, temos uma coleção de cartões postais. Alguns se perderam, no decorrer dos anos, mas acho que isso é normal numa república. Vamos ao inventário:
dezembro de 2004 - Ferrone de Granada
maio 2005 - Lígia de Belo Horizonte e outro de Brasília
outubro 2005 - eu de Diamantina
julho 2006 - eu de Paraty
novembro de 2006 - eu de Amsterdam
janeiro de 2007 - eu de Barcelona
fevereiro de 2007 - eu de Dublin
maio de 2007 - eu de Grenoble e depois de Lucca

É interessante comparar os destinatários destes 3 remetentes.
Os dois postais da Lígia são endereçados à antiga Oca da Tapioca. A Oca continuou sendo Oca, mesmo depois que a Lígia deixou de morar nela. Talvez ela se referisse, por uma operação de metonímia, aos moradores mais antigos da Oca.
Ferrone toma a si mesmo como ponto de referência, endereçando o seu postal à Ex-república do Ferrone. Não é preciso comentar que seu umbigo é o centro do universo.
Pequena Lou endereçou cinco postais à Oca da Tapioca, super sóbrio, mas aquele postado em Amsterdam foi aos meus irmãos, e o que foi postado em Barcelona foi à Família Tapioquensis. É assim que se manifesta a minha saudade de casa...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Zoo Parque de Itatiba

Renato, a prima e o marido mais dois sobrinhos formaram, comigo, um sexteto animado. Fomos ao Zoo Parque de Itatiba.
Estes não são necessariamente os animais mais interessantes de se observar lá, mas são as minhas melhores fotos. Eu curti mais os primatas. Tanto como seguram comida e a levam à boca, quanto como se movimentam na jaula, usando os 5 membros (braços, pernas e rabo).
Sim, é um tuiuiu. Os de baixo são tigres de bengala.
Todas as placas trazem o nome do animal em português, latim e alemão. O restaurante estava servindo joelho de porco, chucrute e salsichão branco. Não, o dono do Zoo Parque não é alemão, mas austríaco. O parque é 100% iniciativa privada, como anuncia a placa na entrada, justificando o ingresso de 20 pila por adulto.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Louça e publicações

Os meninos daqui de casa se deram o direto de não lavar louça. Eu reclamei, e a reação foi já vai, já vai. Vi que a paisagem na pia não mudava, e ordenei que lavassem suas louças, mas eles são todos acometidos de amnésia aguda: olham pra pia cheia de louça suja e engordurada e afirmam que nada daquilo é de sua responsabilidade. Quando paro de olhar na cara deles e saio batendo portas, noto que eles não tiram mais louça do armário: vão até a pia, lavam e enxugam a xícara, o prato, a faca e a colher que vão usar, tomam café da manhã, depositam a louça suja na pia e saem sem olhar pra cozinha.

Em algum momento recente, as agências de fomento à pesquisa perceberam que muitos professores universitários se restringiam às suas aulas e mais nada. Não aceitavam muitos orientandos, não participavam de muitas bancas de defesa de mestrado ou doutorado, não publicavam artigos em revistas especializadas. Não havia muitos meios de avaliar a produção destes professores, já que eles produziam muito pouco que pudesse ser publicamente apreciado e divulgado.

Pensei em quebrar toda a louça suja dentro da pia e nos arredores, mesmo que as xícaras fossem minhas, e que eu gostasse delas. Até mesmo fantasiei se quebraria a louça jogando-a no chão, ou na pia mesmo, e quando. Se eu limparia os cacos também me passou pela cabeça, admito, porque eu sou uma pessoa que gosta de ordem na cozinha. Mas aí eu considerei que somente as coisas de plástico e metal sobreviveriam.

As agências de fomento começaram a exigir notas mais altas dos alunos. No IEL, por exemplo, 7 é nota baixa e compromente uma bolsa de iniciação científica. Os professores, para conseguirem bolsas, auxílios ou ajudas de custo, têm seu currículo analisado, e aí conta o número de publicações. Docentes da Medicina, por exemplo, precisam comprovar 3 publicações por ano, sendo uma internacional. Bom, eu sei como não é fácil fazer os caras lá fora publicarem a gente. E eu sei que em muitas áreas o orientador coloca o seu nome em cada publicação de aluno, garantindo assim um número alto de publicações. Papers escritos em áreas interdisciplinares levam o nome de muitas pessoas envolvidas, mesmo que não tenham escrito uma linha do artigo.

Imagina tomar chá numa xícara de plástico. Imagina a qualidade das publicações que os docentes escravos do progresso da ciência colecionam. As poucas panelas de inox corresponderiam às poucas publicações boas. As várias vasilhas de plástico sem tampa corresponderiam às várias publicações chulé que circulam por aí, em revistas que ninguém nunca ouviu falar.

sábado, 5 de julho de 2008

Saudades de Pandora

Muito tempo atrás havia uma estação de rádio (americana) na Internet chamada Pandora. Era uma rádio que aprendia o que te agrada. Era assim: você dava o nome de um artista ou música e o Pandora te apresentava coisas parecidas. Muitas dessas coisas eram sons já conhecidos, dos quais você gosta. Outras muitas coisas que Pandora apresentava eram disparates, como Ricky Martin, uns raps e outras coisas que passam longe do gosto musical da pessoa. Mas essas idiossincrasias podiam ser vetadas e nunca mais tocariam praquele ouvinte. Era possível criar várias estações, sendo que cada estação tocava (e aí algumas músicas se repetiam) coisas parecidas com o que era predeterminado.

Aí o Pandora deixou de ser acessível pra pessoas que estivessem num computador fora dos EUA. Uma pena. Novidades musicais me eram passadas pelo meu irmão e pelo Renato, grande conhecedor de música pouco convencional e bizarra.

Através da Lígia eu fiquei sabendo que existe uma estação de rádio (presumivelmente americana) chamada Last fm. Mesmo esquema que o Pandora, dessa vez com informações sobre a banda que se está ouvindo e comentários (que não variam muito: very good/ Yes! / mmmmmmm/ cooooool) de ouvintes.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Inverno




Plágio


Qualquer semelhança entre as embalagens de Sucrilhos e leite de soja Ades é mera coincidência. Me engana que eu gosto. Os sucrilhos são da Nestlé e a Ades é da Unilever, ou seja, não se trata de uma questão de associação imagética pretendida por uma mesma empresa: consuma sucrilhos com leite de soja.

Não, é plágio mesmo. Notem que na embalagem de Ades o conteúdo do prato foi alterado, o leite com tons de ocre foi acrescentado, a inclinação do plano foi corrigida de acordo com a mesa, o que dá a impressão do menino estar inclinado pra frente, a caixa de Ades foi acrescentada à figura, de modo a cobrir o conteúdo do prato do pai, a mãe foi parcialmente recortada, mas o braço ainda aparece na imagem e o recorte abaixo do braço do pai parece muito nítido demais. Plágio, sim senhor.

Hoje de manhã minha orientadora e eu fechamos as notas dos alunos de graduação em Lingüística que fizeram o curso de Neurolingüística que demos. As notas foram baseadas em 3 trabalhos escritos e freqüência dos alunos. O primeiro trabalho tinha sido um resumo do que eles tinham aprendido até então. O segundo foi uma análise de dado. O terceiro foi livre, mas eles precisavam mostrar que aprenderam a ter uma visão crítica sobre testes de linguagem, diagnósticos de demências, afasias, dislexia e essas psico-coisas.

Todos os trabalhos eram entregues a mim, corrigidos a lápis e passados pra orientadora. Ela via o trabalho mais os meus comentários e a nota que eu tinha dado e fazia os seus comentários e dava uma nota similar à minha. Mas não nesse trabalho final. Três notas A dadas por mim eram C aos olhos dela. Por quê? Simples, porque ela percebeu que se tratava de plágios. Plágio, sim senhora.

Eita povo sem imaginação!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Mama, Mama, eine Kuh!

Lá de onde eu venho as pessoas falam português misturado com alemão e não se dão ao trabalho de dar nomes pras coisas nas duas línguas. Assim, esta flor, que perfuma os ares de Barão Geraldo, chama-se Mimose em alemão. Em português eu não sei como se chama, mas poderia ser Mimosa. Se for esse o nome da flor, então automaticamente desperta no imaginário o nome mais prototípico das vacas. Cachorros se chamam Rex, cavalos se chamam Faísca e vacas se chamam Mimosa.

Através dessa associação eu explico a estória que me vem à mente quando vejo a flor:

Muito tempo atrás, provavelmente em 2005, eu estava na Alemanha, visitando os meus pais por 3 meses. Na verdade a casa deles era o meu ponto de referência: eu viajava pra outras cidades, visitava amigos dispersos no mundo e voltava pra casa deles. Minha mãe tinha um celular, e fazia questão que eu levasse o aparelho comigo, pra poder me acompanhar nessas viagens. Eu nunca tinha segurado um celular na mão, não sabia como aquilo funcionava, tive que pedir ajuda para passantes na rua, e desenvolvi a ambição de entender a lógica desta coisa chamada celular. Descobri como mudar o toque do telefone.

Eu estava no trem e eis que toca o telefone: uma vaca mugindo. Uma vaca mugindo com o final do mugido despencando pra tons agudos. As crianças no trem, numa só voz, exclamaram, sobressaltadas:

Mama, Mama, eine Kuh!

terça-feira, 1 de julho de 2008

As aventuras do meu pé direito - um ano se passou

Era uma vez uma árvore muito alta na borda de um jardim maravilhoso. Exatamente um ano atrás, o dia primeiro de julho era domingo, e Pequena Lou voltava de um passeio em que tinha tomado chuva e visto um arco-íris abraçando o céu. Subiu na árvore no jardim com a ajuda de uma corda, viu o vilarejo em que moram seus pais de lá de cima, ouviu o vento, deitou numa forquilha de galhos, ouviu os pássaros e decidiu descer de outro modo: pendurando-se no galho mais baixo.
Caiu uma queda de dois ou três metros, com todo o peso do corpo sobre o pé direito e foi levada ao hospital de ambulância. A cirurgia foi um sucesso, as enfermeiras e os enfermeiros uma maravilha, as colegas de quarto interessantes. Depois de 13 dias internada, Pequena Lou voltou à casa dos pais, com muita saudade do hospital Bremen Mitte.
Passou uma semana em estado contemplativo. Sentava-se no jardim e entregava-se completamente à captação de sons: o vento, uma maçã caindo da árvore, uma vaca mugindo ao longe, o vizinho cortando a grama, os pássaros cantando e as abelhas zunindo. Passou um mês na casa dos pais, que cuidaram dela com muita atenção e dedicação.
Considerou que a maior dor não era a dor do osso se espatifando, não era a dor da queda. A maior dor era não conseguir se lembrar de como é andar, caminhar, correr, pular, dançar. Todas as memórias de si executando qualquer uma dessas atividades tinham sido apagadas. Talvez como forma de compensar, sonhava que corria, pedalava, voava.

Aprendeu a usar as muletas de maneira eficiente, os 'pontos' foram tirados, compressas diárias de ricota e massagens com cânfora eram aplicadas e lentamente ela foi se acostumando às novas condições de mobilidade. Voltou pra sua república na Holanda, fez fisioterapia, foi logo incentivada a pedalar, prendendo as muletas na bicicleta. Vivenciou o milagre de caminhar sem muletas (ou a ajuda do fisioterapeuta) e deu seus primeiros passos sozinha no jardim da Groesbeekseweg 167.
Considerou que a maior dor não era a frustração de perder a mobilidade, mas pisar no chão de novo. O caminho até a fisioterapia devia ser de 1 quilômetro. Fez este caminho de ônibus apenas 3 vezes. Nas outras, foi pedalando, e depois, pra seu sofrimento e alegria do fisioterapeuta, foi caminhando (mesmo com muletas).
Voltou ao Brasil já caminhando, fez quiropraxia, mas não levava os exercícios propostos muito a sério. Preferia medir suas capacidades em caminhadas de vários quilômetros, pedaladas de mais quilômetros ainda, começou a fazer natação e retomou a Yoga. Mas, apesar das atividades todas, pedalava muito e ficava muito tempo sentada, sem exercitar o tendão de Aquiles, que estava bem atrofiado. Gradativamente o calcanhar não emitia mais sinais de dor em forma de um feixe de agulhadas. Depois que Stephanie foi embora, Pequena Lou notou que seu pé direito tinha desinchado um certo tanto e que não sentia mais dores ao pisar. As duas tinham feito muitos exercícios em duas semanas: caminharam, pedalaram, remaram, nadaram e subiram uma montanha de 2.892 m.Se exercício era o segredo da melhora, resolveu investir em mais exercícios. Adotou o costume de fazer caminhadas diárias de uma hora, deixou a bicicleta um pouco de lado e passou a ir à Unicamp de pé 2.

Aprendeu a nadar, e que o segredo da natação está nas extremidades: mãos e pés (não tanto o braço ou a perna) movimentam a água e fazem o corpo deslizar. Reparou que o pé continuava desinchando e que já não tinha mais receio de descer escadas, caminhar rápido e pular de guias altas. Os 7 parafusos de titânio não causam mais dor a cada chuva que esfria o mundo. Agora só se manifestam ocasionalmente em São Paulo, onde é mais frio e úmido que Campinas.

O prazo dado pelos médicos em Bremen tinha sido de 1 ano de recuperação. Um ano se passou e o pé está muito bom, mas ainda não está perfeito. Ainda não tentei correr, por exemplo, porque temo pelo meu tendão de Aquiles, que ainda não está em boa forma. Cogitei fazer acupuntura, pra ver se libera o canal das energias, mas tenho medo de agulhas. De qualquer forma, continuarei com minhas caminhadas diárias, alongamentos do tendão e Yoga.

Pequena Lou pedalando na Paulista

Achei fotos da Pequena Lou no flickr da Luna Rosa (que eu não sei quem é).

Estão aqui

e aqui tem que brincar de Onde está Wally.

domingo, 29 de junho de 2008

Bicicletada Junina

Vestidos de caipiras, muitos ciclistas foram se ajuntando na Praça do Ciclista, que fica ali onde a Av. Paulista junta com a Consolação. Bandeirinhas foram estendidas, biribinhas foram distribuídas e o povo foi chegando aos poucos.

Algumas pessoas trouxeram comida (principalmente bananas, a comida de ciclista por excelência) pra compartilhar. Também tinha pé de moleque e paçoca, claro.

Caixas de madeira (restos de feira) encontradas nos arrdores foram reduzidas a tábuas e foi feita uma fogueira de São João.

Apareceu um sanfoneiro ciclista, que animou a galera a dançar e teve quadrilha, claro.

As pessoas se divertiram dançando, se pintando de caipira, conversando com velhos conhecidos e conhecendo pessoas novas. Eu, por exemplo, conheci a organizadora de um grupo de mulheres que pedalam de noite chamado Saia na Noite. A mulher era muito simpática, mas o esquema do grupo não me agradou. As mulheres que pedalam uma média de duas horas num determinado dia da semana chegam de carro, pedalam, e voltam pra casa de carro. Elas só pedalam neste grupo, contam com a obstrução de algumas vias (ou a CET ou a monitora trancam o trânsito) pra que possam passar 'em segurança' e não têm autonomia para pedalar na cidade e fazer da bicicleta seu meio de transporte.
A noiva teve uma chegada triunfal, o noivo já estava esperando.Enquanto 300 ciclistas deram uma volta na Av. Paulista, algumas pessoas, que ficaram na praça, prepararam um quentão.
A volta ciclística contou com algumas bicicletas chamativas, como esta, por exemplo. Reparem que há duas telas mostrando o que toca no DVD do homem. Isso é o que dá pra ver. O sujeito também pode fazer a sua bicicleta tocar um som super alto. (Uma bateria de carro alimenta o DVD e as lâmpadas de árvore de Natal.) Durante o passeio pela Paulista, o homem deixou rolar um funk dos infernos (em que créu créu créu era repetido ad absurdum). Eu não queria ser relacionada a essa poluição sonora.
Enquanto pedalávamos, algumas coisas me incomodavam: por que andamos no lado esquerdo da via? Ariel respondeu que do lado direito tem os ônibus. Reparei que am alguns momentos, ocupamos todas as faixas da Paulista. Se eu estivesse dentro de um carro, eu sentiria raiva destes ciclistas que não sabem respeitar o trânsito e ficam gritando que carro faz trânsito, que vão tocar fogo nos carros. Percebi que a grande motivação dos ciclistas é tomar as ruas, se posicionar contra os carros. Notei que as travessas da Paulista eram obstruídas por ciclistas que faziam o 'corking'. De novo, se eu estivesse dentro de um carro e o farol abrisse e fechasse três vezes e eu fosse incapaz de sair do lugar porque tem um ciclista parado na minha frente, eu teria muita raiva dos ciclistas. Os pedestres, no entanto, eram respeitados. Os ciclistas paravam no farol até que o último pedestre tivesse atravessado a rua, mas não esperavam que o farol abrisse, para continuarem seu passeio.
Estes ciclistas não são capazes de se integrar ao trânsito. Ninguém sinaliza que vai virar, muitos não tinham luzes em suas bicicletas e muitos não sabem que ciclista nunca deve andar na contramão e nunca deve pedalar na calçada.
Enfim, de volta à Praça, o herói já estava à caráter e as pessoas se divertiram ao som da música tocada pelo sanfoneiro. Percebi que o que importa pra bicicletada é agregar gente, não educá-los pro trânsito. Estes ciclistas querem ciclovias e não consideram que esta é uma solução cara, que apenas segrega motoristas e ciclistas, mas não faz com que um respeite o espaço e a velocidade do outro. Muitos destes ciclistas são ativistas contra o carro e se orgulham de não possuir uma lata poluidora.
A bicicletada agrega gente de diversas camadas sociais. Vem o gari que pedala todo dia porque não tem dinheiro pro ônibus, vem o maluco que quer exibir a sua bicicleta toda incrementada, vem os mano que são mestres em se equilibrar na roda traseira da magrela, vem os bróder skatista e os mano de patins, vem os doido das bike irada e vem até gente sem bicicleta. A integração desse monte de gente em volta da bicicleta é um fenômeno louvável. Mas o abuso do espaço na rua durante um breve passeio na Paulista é condenável porque não consegue passar ao mundo a mensagem de que a bicicleta é um meio de transporte que pretende ser visto como tal.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Quem te viu e quem se vê

Teve festa de encerramento das atividades do semestre no Centro de Convivência de Afásicos (CCA) e eu fui, pra ver OJ. Mas ele não foi. Os sujeitos afásicos que freqüentam o CCA e participam das atividades do grupo da minha orientadora já me conhecem porque eu fui lá uma vez pra falar de bicicletas e outra vez pra falar da Holanda e mostrar algumas fotos. Bom, aos olhos das pessoas deste grupo (afásicos e estagiárias da Fonoaudiologia) eu sou 'a ciclista'.

Conversei um tempão com uma mulher que faz musicoterapia com alguns sujeitos afásicos. Esta mulher já me conhecia (como ciclista) e quis saber mais de mim. Falei da minha ligação com o CCA e que eu analiso a fala de uma criança e dois sujeitos afásicos à procura de preposições. Quem são os sujeitos afásicos? MS e OJ.

Ai, menina, eu conheci o MS porque ele foi casado com uma amiga minha. Ele era cultíssimo, uma pessoa carismática, sempre rodeado de gente, muito conversador, sempre tinha estória pra contar e vivia no meio dos jornalistas. Aí ele separou da minha amiga e eu nunca mais ouvi falar dele. Daí eu vim pra Unicamp, assisti umas aulas de Neuro e a professora mostrou um vídeo dos sujeitos afásicos e eu reconheci o MS! Menina, cê não sabe como eu chorei de ver aquele homem daquele jeito! Nossa Senhora, que agonia.

No fim da minha tese, aponto para a necessidade de considerarmos a relação que o sujeito tem com a linguagem. Não só elencando suas atividades lingüísticas antes do AVC (derrame), mas também como o sujeito avalia a sua própria fala. Na primeira sessão que eu tive com MS, mais pro final, ele vira, de peito estufado, e com um sorriso no rosto, pra minha orientadora e diz: Melhorei!

OJ já é um caso diferente. Depois do derrame, ficou mudo por 6 anos. OJ está se comunicando através da linguagem faz 8 anos. Quando OJ fala de sua linguagem, diz: Antes, antes, antes? Mudo. Hoje, hoje, hoje? Conversa.

Na festa junina, conversei também com CL, que teve um rompimento de aneurisma no cérebro e, na cirurgia, teve parte do crânio (na têmpora esquerda) removida. O cirurgião tinha lhe informado que ele tinha 1% de chance de sobreviver, e que precisaria usar uma cadeira de rodas se saísse vivo. Um mês depois da cirurgia, CL estava andando. Hoje, 5 anos depois da cirurgia, lhe faltam palavras (mas ele descreve o que quer dizer e fica feliz quando alguém adivinha a palavra que ele procurava) e apresenta algumas estereotipias (usa 'cê não acredita' em cada início de conversa, 'vamo se dizê' cada vez que as palavras não vêm a tempo e assim adiante). Como CL se vê? EU TÔ VIVO! exclama, levantando os braços e sorrindo de orelha a orelha.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Super-heróis

Eu tava caminhando por Barão Geraldo, quando passei por um pai caminhando ao lado de sua filha que andava numa bicicleta de rodinhas (como aquela em que aprendemos a pedalar).

- Eu tenho cinco anos e não sei andar de bicicleta, pai!
- Ah, filha, mas eu acho que quando você tiver seis anos, você vai saber andar de bicicleta.
- Você sempre ACHA as coisas, nunca SABE das coisas.

Meus pais sempre souberam das coisas. Por isso eram os meus heróis. Foi difícil pra mim sacar que o que eles defendem como 'a verdade' é apenas uma opinião pessoal. Foi difícil convencê-los de que há mais de uma maneira de se encarar um problema. Foi difícil encarar o fato de que não eram mais super-heróis.

* * *

Fui dar plantão no curso de Neuro, pra quem tivesse dúvidas quanto ao trabalho de avaliação final. Vieram poucos, mas tivemos boas conversas. Uma guria reclamou das condições atuais de sua vida: mora em Campinas e pega ônibus de manhã pra vir pra Unicamp, e aquele ônibus vem lo-ta-do, a pessoa se sente literalmente numa lata de sardinha. E o pior é ver o Angel lá, todo dia, esprimido. Como que pode? Professor universitário vem que nem uma sardinha, no ônibus.

Professor universitário, no nosso imaginário, é o intelectual que não pega fila de banco, não faz compras no supermercado, não pega ônibus lotado. Professor universitário está acima dessas coisas, porque é meio super-herói. Professor universitário a gente encontra em ópera, cinema, exposição, museu e sala de aula. O Angel, no entanto, é um professor universitário que come no bandejão como a gente e toma ônibus lotado, como a aluna. Foi difícil pra aluna encarar o fato de que o Angel não é um super-herói.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Ponto de vista

A 'bicicletada pelada' que aconteceu no sábado passado, dia 14 de junho, foi muito mal noticiada. Todo mundo ficou sabendo que aconteceu uma passeata na Paulista e que um ciclista foi preso. Mas essa não é a história toda.

Em primeiro lugar, o número de ciclistas varia de acordo com quem faz as estimativas. Os ciclistas que estavam lá contam entre 400 e 500 participantes.

Em segundo lugar, o homem que foi preso não foi preso porque estava nu: muitos homens ficaram nus em suas bicicletas, e fiquei sabendo de duas mulheres que ficaram completamente sem roupa. O homem que foi preso somente foi preso quando, no meio de tantos outros pelados, juntou-se a eles em sua nudez. O homem que foi preso estava marcado pra ser preso. A Rede Globo estava lá pra filmá-lo de frente e apresentá-lo no Jornal Nacional, como o homem que ficou nu no meio da Av. Paulista.

Em terceiro lugar, os motivos pra 'bicicletada pelada' não foram divulgados. As pessoas nas ruas foram pegas de surpresa, não entendiam contra o que estávamos protestando. De noite, na frente da TV, as pessoas interpretaram aquela passeata como um disparate, não conseguiram ligar a bicicleta a um meio de transporte sustentável, que talvez deva substituir o carro que polui, faz barulho, causa congestionamentos, estresse.

Os dois pontos de vista são diametralmente opostos, porque os interesses de cada um que publica o seu ponto de vista são diferentes. A mídia quer sensacionalismo. A mídia quer ser imediata, e só descreve parte da situação, não discute as motivações dos participantes da 'bicicletada pelada'. A polícia tem que fazer a sua parte, trazendo pra delegacia um troféu. O homem que foi preso era tido como o líder da manifestação. André Pasqualini, o homem que foi preso, expressa o seu ponto de vista aqui.

Quem olhou pra foto da árvore e da mata-figueira certamente reparou na árvore-parasita. Olha como os braços se estendem em volta da árvore, olha como o parasita está em todo lugar. Estou te convidando pra olhar pra outra árvore, a árvore-suporte, pra tomar conhecimento de um outro ponto de vista.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Papo de homem

Pequena Lou vai ao bandejão, senta numa mesa cheia de homens e se põe à escuta do que conversam.

- Que parada lôca é essa?
- Suco de pêssego.
- Véio, pêssego num tem essa cor nem fudendo. Deve ser uva.
- Uva é roxo. Isso num é roxo, cara.

- Cê num foi fazê prova hoje?
- Eu não, desisti dessa matéria. Tirei um e meio na primeira prova, num ia nas aula, tranquei, meu, já era.

- Que diabos de suco é esse?
- Pela cor deve sê uva.
- Mas num tem gosto de uva, meu. Tem gosto de manga.

- Caralho, fui comemorar o gol e quebrei a mesa.
- Ai, amor, como cê quebrô a mesa?
- Ah, me empolguei e deu merda. Agora tenho que comprá ôtra mesa, e é mó caro!

- Ôh, ninguém vai comê as laranja? Dá aqui pra ele, que ele faz suco.
- Num é laranja, cara, é limão.
- Ah, é. Só lembro que cê tava empolgadão com um suco aí.
- Suco de limão, bicho. Rende pra caramba.

- Aí eu entreguei a prova e o professor perguntô se eu ia num seminário lá.
- E aí?
- Aí que eu respondi que eu ia sentar ali e dormir. Puta, varei a noite estudando praquela porra daquela prova, eu tava sem condição, precisava dormir.

- Amanhã tem feijoada.
- Como cê fica sabendo dessas coisas?
- Hahaha.

- Cara, num agüento mais, tem testinho todo dia essa semana!
- E aquele professor filha da puta dando aquelas aulas de merda. Muito ruim!
- Pode crê, eu quero que o semestre acabe logo, sem eu ter que fazer todas as provas que tão agendadas.

Pequena Lou conclui que os meninos gostam de falar palavrão e estão estressados com as provas de fim de semestre. Os engenheiros mais que os meninos das humanas, que não sofrem tanta pressão de nota, prova, meio ponto, professor sádico, ficar de exame e essas coisas que fazem mais parte do universo de quem faz exatas.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Pra vida toda

Andei reparando que as pessoas à minha volta estão assumindo compromissos pra vida toda. Meu irmão casou, Stephanie está grávida, Caldo vai noivar e a Livinha comprou uma casa.
E eu não sei o que será de mim a partir de janeiro do ano que vem. Defendo em dezembro e depois presto qualquer concurso que abrir. Se eu passar num concurso pra professora universitária na federal de Manaus, estarei no meio da floresta amazônica, tendo overdoses olfativas; se eu passar na federal de Natal estarei na praia, pensado no centro de primatologia e na possibildade de estudar linguagem em macacos; se eu passar na federal de BH, estarei comendo pão de queijo e falando mole; se ...
Não quero nem continuar na Unicamp nem voltar pra USP: essas são as minhas certezas pra vida toda.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Composteira

Na nossa última assembléia discutimos muitas coisas, dentre elas a implantação de uma composteira, captação de água da chuva, horta de ervas e a mudança da função do Caldo, que não quer mais saber de telefone. O problema do Caldo foi fácil de resolver: a função dele agora é o lixo e o Gustavo está no telefone. Mas pra implantar as idéias naturebas do Junior, a gente precisava de ajuda externa.
Dois casais de amigos do Junior vieram pra ensinar a fazer uma composteira que não fede e não atrai bicho. Passaram o dia aqui, e quando saíram, tínhamos uma composteira. Restava ensinar pros moradores como proceder com o lixo orgânico. Não é só jogar o lixo orgânico acumulado na cozinha na composteira e boa. Tem que cortar o lixo em pedaços menores e revirar o conteúdo da composteira numa massa homogêna, ocasionalmente adicionar mais serragem e pronto.
A idéia de captar água da chuva também precisa ser estudada mais a fundo e pra implantar uma horta, os hábitos dos meninos precisam mudar. Até agora só eu como os maracujás doces, salsinha, cebolinha, alecrim e hortelã que eu plantei. Os outros moradores não têm o costume de consumir essas coisas, nem nunca tinham visto uma composteira.
Bom, o lixo orgânico parece funcionar bem. Os outros, o reciclável e o imprestável estão temporariamente abandonados. Tudo uma questão de adaptação.

Em tempo: Percebi que muita gente cai aqui atrás de informações sobre composteira e que esse post talvez não seja exemplar. Pra ajudar, vão outros links:

Composteira

Projeto HortOca
Projeto Canto da Horta
Horta em garrafas pet
Horta no cano de PVC
Plantio
Finalizando

Self made jardineira
Telhado pra composteira

Dois anos depois

Lixo

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Pequena Lou dobrando panfletos

Ariel achou uma foto minha no flickr de uma cicloativista. Obrigada, Ariel!