quinta-feira, 26 de junho de 2008

Quem te viu e quem se vê

Teve festa de encerramento das atividades do semestre no Centro de Convivência de Afásicos (CCA) e eu fui, pra ver OJ. Mas ele não foi. Os sujeitos afásicos que freqüentam o CCA e participam das atividades do grupo da minha orientadora já me conhecem porque eu fui lá uma vez pra falar de bicicletas e outra vez pra falar da Holanda e mostrar algumas fotos. Bom, aos olhos das pessoas deste grupo (afásicos e estagiárias da Fonoaudiologia) eu sou 'a ciclista'.

Conversei um tempão com uma mulher que faz musicoterapia com alguns sujeitos afásicos. Esta mulher já me conhecia (como ciclista) e quis saber mais de mim. Falei da minha ligação com o CCA e que eu analiso a fala de uma criança e dois sujeitos afásicos à procura de preposições. Quem são os sujeitos afásicos? MS e OJ.

Ai, menina, eu conheci o MS porque ele foi casado com uma amiga minha. Ele era cultíssimo, uma pessoa carismática, sempre rodeado de gente, muito conversador, sempre tinha estória pra contar e vivia no meio dos jornalistas. Aí ele separou da minha amiga e eu nunca mais ouvi falar dele. Daí eu vim pra Unicamp, assisti umas aulas de Neuro e a professora mostrou um vídeo dos sujeitos afásicos e eu reconheci o MS! Menina, cê não sabe como eu chorei de ver aquele homem daquele jeito! Nossa Senhora, que agonia.

No fim da minha tese, aponto para a necessidade de considerarmos a relação que o sujeito tem com a linguagem. Não só elencando suas atividades lingüísticas antes do AVC (derrame), mas também como o sujeito avalia a sua própria fala. Na primeira sessão que eu tive com MS, mais pro final, ele vira, de peito estufado, e com um sorriso no rosto, pra minha orientadora e diz: Melhorei!

OJ já é um caso diferente. Depois do derrame, ficou mudo por 6 anos. OJ está se comunicando através da linguagem faz 8 anos. Quando OJ fala de sua linguagem, diz: Antes, antes, antes? Mudo. Hoje, hoje, hoje? Conversa.

Na festa junina, conversei também com CL, que teve um rompimento de aneurisma no cérebro e, na cirurgia, teve parte do crânio (na têmpora esquerda) removida. O cirurgião tinha lhe informado que ele tinha 1% de chance de sobreviver, e que precisaria usar uma cadeira de rodas se saísse vivo. Um mês depois da cirurgia, CL estava andando. Hoje, 5 anos depois da cirurgia, lhe faltam palavras (mas ele descreve o que quer dizer e fica feliz quando alguém adivinha a palavra que ele procurava) e apresenta algumas estereotipias (usa 'cê não acredita' em cada início de conversa, 'vamo se dizê' cada vez que as palavras não vêm a tempo e assim adiante). Como CL se vê? EU TÔ VIVO! exclama, levantando os braços e sorrindo de orelha a orelha.

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