segunda-feira, 14 de julho de 2008

O mulá de ferro e Wall.E


Um dos personagens mais fascinantes - pra mim - neste livro do Rushdie é o mulá de ferro. Um doido despenca do nada no meio do vilarejo, se dizendo um líder religioso muçulmano. Bate com o punho fechado na testa e todos ouvem um som metálico. Ele ouve a palavra de Alá e a passa adiante, pregando a religião certa. Um fanático. Mas um fanático que ganha seguidores, que divide a população do vilarejo. Farto do teatro do mulá, o líder dos cozinheiros se veste de panelas, frigideiras, tampas e louça de metal e caminha pelo vilarejo, batendo com as colheres em sua armadura de ferro e esbravejando: é nisso que vocês querem se transformar?
O mulá de ferro é expulso do vilarejo, mas leva seguidores pras montanhas, monta uma guerrilha de muçulmanos fanáticos que se preparam para retomar ou explodir a Cashemira. Quando morre, seu corpo nada mais é que um monte de ferro velho, e ninguém consegue entender como aquele metal todo pudesse alguma vez ter sido conectado para resultar num líder religioso. Então ele não era humano? O que dava coesão e coerência àquele monte de lata? O mulá tinha ALMA?
Waste
Allocation
Load
Lifters
Earth. Bom, Walle é um robozinho que tem como função localizar lixo, juntá-lo, comprimi-lo num cubo e empilhá-lo. Talvez seja útil mencionar, aos que não viram o filme, que o Planeta Terra foi abandonado pelos seres humanos faz 700 anos, porque no mundo só existe lixo. E Walle organiza este lixo.
Assim como o mulá de ferro, Walle tem características humanas: consciência de si, linguagem, capacidade para aprender, emoções e crenças. Walle sabe de que peças é constituído e é capaz de se consertar, trocando peças avariadas por peças de reserva. Walle sabe dizer seu nome e o nome da Eva, a robô-fêmea mandada ao planeta à procura de clorofila. É interessante observar como Walle aprende sobre os humanos através do lixo que ele coleta. Imita comportamentos humanos que vê num vídeo (um musical). Assim, suspira ao pôr do sol, abstrai uma tampa de panela e a movimenta como um chapéu e quer segurar a mãozinha da Eva. Walle sente amor pela Eva e crê que é igual (ou pode vir a ser) aos humanos que vê no musical.
Num dado momento do filme (de criança, da Disney!) Walle apanha tanto, que pára de funcionar. Eva troca as peças do seu companheiro, aflita. Terminado o conserto, Walle olha através dela, com um olhar vazio. Um impulso faz com que se movimente, localize lixo, o junte e comprima lixo em sua caixa, cuspindo um cubo de lixo, localize mais lixo...
Nesse momento eu vibrei: genial! Se trocar as peças de um robô, e as suas memórias estiverem impressas no material que é retirado do robô, ele não pode mais se lembrar quem é, que quer segurar a mão da Eva, e que passou um tempão atrás da robô-fêmea-durona. Mas se Walle tivesse suas memórias reduzidas a sucata, este não seria um filme infantil. Walle tinha algo para além da matéria. Walle tinha ALMA e reconheceu a Eva e viveram felizes para sempre.



Nenhum comentário: