terça-feira, 8 de julho de 2008

Louça e publicações

Os meninos daqui de casa se deram o direto de não lavar louça. Eu reclamei, e a reação foi já vai, já vai. Vi que a paisagem na pia não mudava, e ordenei que lavassem suas louças, mas eles são todos acometidos de amnésia aguda: olham pra pia cheia de louça suja e engordurada e afirmam que nada daquilo é de sua responsabilidade. Quando paro de olhar na cara deles e saio batendo portas, noto que eles não tiram mais louça do armário: vão até a pia, lavam e enxugam a xícara, o prato, a faca e a colher que vão usar, tomam café da manhã, depositam a louça suja na pia e saem sem olhar pra cozinha.

Em algum momento recente, as agências de fomento à pesquisa perceberam que muitos professores universitários se restringiam às suas aulas e mais nada. Não aceitavam muitos orientandos, não participavam de muitas bancas de defesa de mestrado ou doutorado, não publicavam artigos em revistas especializadas. Não havia muitos meios de avaliar a produção destes professores, já que eles produziam muito pouco que pudesse ser publicamente apreciado e divulgado.

Pensei em quebrar toda a louça suja dentro da pia e nos arredores, mesmo que as xícaras fossem minhas, e que eu gostasse delas. Até mesmo fantasiei se quebraria a louça jogando-a no chão, ou na pia mesmo, e quando. Se eu limparia os cacos também me passou pela cabeça, admito, porque eu sou uma pessoa que gosta de ordem na cozinha. Mas aí eu considerei que somente as coisas de plástico e metal sobreviveriam.

As agências de fomento começaram a exigir notas mais altas dos alunos. No IEL, por exemplo, 7 é nota baixa e compromente uma bolsa de iniciação científica. Os professores, para conseguirem bolsas, auxílios ou ajudas de custo, têm seu currículo analisado, e aí conta o número de publicações. Docentes da Medicina, por exemplo, precisam comprovar 3 publicações por ano, sendo uma internacional. Bom, eu sei como não é fácil fazer os caras lá fora publicarem a gente. E eu sei que em muitas áreas o orientador coloca o seu nome em cada publicação de aluno, garantindo assim um número alto de publicações. Papers escritos em áreas interdisciplinares levam o nome de muitas pessoas envolvidas, mesmo que não tenham escrito uma linha do artigo.

Imagina tomar chá numa xícara de plástico. Imagina a qualidade das publicações que os docentes escravos do progresso da ciência colecionam. As poucas panelas de inox corresponderiam às poucas publicações boas. As várias vasilhas de plástico sem tampa corresponderiam às várias publicações chulé que circulam por aí, em revistas que ninguém nunca ouviu falar.

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