sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Na mesma casa

Lembro que chegamos todos na escuridão invernal do dia 29 de dezembro de 1998 em Nordwohlde. Eu tinha deixado um futuro marido em São Paulo e trancado a faculdade. Philip sentia falta dos seus amigos de escola, a mãe tava cansada da Paulicéia desvairada, o pai tava ansioso pra começar uma vida nova em sua terra natal. Fomos como uma família para um vilarejo de mais ou menos mil habitantes, no norte plano, chuvoso e ventadiço da Alemanha.

No dia 29 de dezembro de 2008 os meus pais completaram dez anos morando na mesma casa. Sentaram, pensaram e calcularam quanto tempo tinham passado em outras casas. Chegaram à conclusão de que nenhum dos dois, sozinho ou em conjunto, jamais habitou uma mesma casa por mais de dez anos.

Eu morei até os 7 anos em São Leopoldo, onde nasci. Habitávamos o andar de cima, os meus avós o de baixo. O jardim era enorme, a caixa d'água era a nossa piscina, as árvores nosso playground, a chuva nossa alegria e a casa dos vizinhos uma extensão do nosso jardim. Sair de lá foi doloroso.

Em São Paulo morei em 3 casas diferentes com os meus pais. A primeira tinha um poço tampado no quintal, um cactus enorme no jardinzinho da frente (onde espetávamos ovos de chocolate na Páscoa) e era perto do local de trabalho do meu pai. A dona da casa quis voltar a habitá-la, então saímos. A segunda era uma desgraça de feia, ficava perto de uma indústria que expelia fedores de banana podre e foi o local de onde o cachorro fugiu e onde o gato foi encontrado morto. Saímos de lá aliviados. A terceira era uma belezinha. Ficamos nela por uns 6 anos, e foi a partir de lá que eu explorei a cidade de São Paulo. Saímos de lá preparados pro mundo.

Depois mudamos pra Nordwohlde, onde passei um ano. A casa era enorme, tudo era diferente: havia pias nos quartos, a ducha ficava num quarto separado da privada, tinha porão e sótão, e todo mundo em volta falava alemão. Saí de lá achando que tava na hora de voltar pro Brasil.

Voltei pra São Paulo pra terminar os estudos (as promessas de amor e fidelidade se quebraram com o peso do tempo distante) e morei dois anos na casa da Olga. Me intriga como coube tanta coisa naquele quarto e como Olga e eu nos damos bem. O quarto que eu habitei naqueles anos ainda é referido como 'o quarto da Lou'. Saí de lá, mas sempre volto.

A vida acadêmica me trouxe para Barão Geraldo, pra dentro de uma república com 9 pessoas. Moramos uns 3 anos na casa enorme que tinha um pé de lichia, vários de manga e um coqueiro. Lígia, Ferrone e eu plantamos um abacateiro lá e saímos da casa antes dele atingir meio metro de altura. Quando terminei o mestrado, fui visitar os meus pais e acabei não participando da mudança pra casa amarela. Agora faz 4 anos que estamos aqui e muitas pessoas passaram por esta república. Plantei minhas rosas vermelhas e o meu maracujá doce e os vi crescer enquanto fazia o meu doutorado.

Deixei esta casa no fim de 2006 e fui fazer o doutorado-sanduíche na Holanda. Morei as duas primeiras semanas do lado de lá da fronteira, num vilarejo alemão de 400 habitantes, chamado Zyfflich. Lá eu tinha uma casa só pra mim e me senti muito adulta. Mudei pruma república internacional de 7 em Nijmegen, onde só a filha do dono da casa era holandesa. A partir de lá conheci metade da Europa. Ao fim de 1 ano, voltei pra Barão, pra mesma casa, mas com pessoas diferentes.

Em suma, passei mais tempo de vida na casa em que passei a minha infância. Depois dessa época, virei nômade. Sairei daqui em breve, mas ainda não sei pra onde.

Um comentário:

Pedalante disse...

Olá,

lendo seu relato de vida 'quase nômade', lembrou-me de minha vida aqui na grande cidade( de bairro em bairro, de casa em casa - ou apartamento tb.;

Lembrei-me tb do ìtalo Calvino, sim do livro, Cidades Invisiveis...

p.s. obrigado pela oferta de carona no busão, Rod. até Barão Geraldo,mas, sempre vou caminhando da rod. até meu emprego - fica na região central, nas proximidades do merc. municipal/pça Carlos Gomes; dia desses podemos agendar uma café.