Lembro que chegamos todos na escuridão invernal do dia 29 de dezembro de 1998 em Nordwohlde. Eu tinha deixado um futuro marido em São Paulo e trancado a faculdade. Philip sentia falta dos seus amigos de escola, a mãe tava cansada da Paulicéia desvairada, o pai tava ansioso pra começar uma vida nova em sua terra natal. Fomos como uma família para um vilarejo de mais ou menos mil habitantes, no norte plano, chuvoso e ventadiço da Alemanha.No dia 29 de dezembro de 2008 os meus pais completaram dez anos morando na mesma casa. Sentaram, pensaram e calcularam quanto tempo tinham passado em outras casas. Chegaram à conclusão de que nenhum dos dois, sozinho ou em conjunto, jamais habitou uma mesma casa por mais de dez anos.
Eu morei até os 7 anos em São Leopoldo, onde nasci. Habitávamos o andar de cima, os meus avós o de baixo. O jardim era enorme, a caixa d'água era a nossa piscina, as árvores nosso playground, a chuva nossa alegria e a casa dos vizinhos uma extensão do nosso jardim. Sair de lá foi doloroso.
Em São Paulo morei em 3 casas diferentes com os meus pais. A primeira tinha um poço tampado no quintal, um cactus enorme no jardinzinho da frente (onde espetávamos ovos de chocolate na Páscoa) e era perto do local de trabalho do meu pai. A dona da casa quis voltar a habitá-la, então saímos. A segunda era uma desgraça de feia, ficava perto de uma indústria que expelia fedores de banana podre e foi o local de onde o cachorro fugiu e onde o gato foi encontrado morto. Saímos de lá aliviados. A terceira era uma belezinha. Ficamos nela por uns 6 anos, e foi a partir de lá que eu explorei a cidade de São Paulo. Saímos de lá preparados pro mundo.
Depois mudamos pra Nordwohlde, onde passei um ano. A casa era enorme, tudo era diferente: havia pias nos quartos, a ducha ficava num quarto separado da privada, tinha porão e sótão, e todo mundo em volta falava alemão. Saí de lá achando que tava na hora de voltar pro Brasil.
Voltei pra São Paulo pra terminar os estudos (as promessas de amor e fidelidade se quebraram com o peso do tempo distante) e morei dois anos na casa da Olga. Me intriga como coube tanta coisa naquele quarto e como Olga e eu nos damos bem. O quarto que eu habitei naqueles anos ainda é referido como 'o quarto da Lou'. Saí de lá, mas sempre volto.
A vida acadêmica me trouxe para Barão Geraldo, pra dentro de uma república com 9 pessoas. Moramos uns 3 anos na casa enorme que tinha um pé de lichia, vários de manga e um coqueiro. Lígia, Ferrone e eu plantamos um abacateiro lá e saímos da casa antes dele atingir meio metro de altura. Quando terminei o mestrado, fui visitar os meus pais e acabei não participando da mudança pra casa amarela. Agora faz 4 anos que estamos aqui e muitas pessoas passaram por esta república. Plantei minhas rosas vermelhas e o meu maracujá doce e os vi crescer enquanto fazia o meu doutorado.
Deixei esta casa no fim de 2006 e fui fazer o doutorado-sanduíche na Holanda. Morei as duas primeiras semanas do lado de lá da fronteira, num vilarejo alemão de 400 habitantes, chamado Zyfflich. Lá eu tinha uma casa só pra mim e me senti muito adulta. Mudei pruma república internacional de 7 em Nijmegen, onde só a filha do dono da casa era holandesa. A partir de lá conheci metade da Europa. Ao fim de 1 ano, voltei pra Barão, pra mesma casa, mas com pessoas diferentes.
Em suma, passei mais tempo de vida na casa em que passei a minha infância. Depois dessa época, virei nômade. Sairei daqui em breve, mas ainda não sei pra onde.
Um comentário:
Olá,
lendo seu relato de vida 'quase nômade', lembrou-me de minha vida aqui na grande cidade( de bairro em bairro, de casa em casa - ou apartamento tb.;
Lembrei-me tb do ìtalo Calvino, sim do livro, Cidades Invisiveis...
p.s. obrigado pela oferta de carona no busão, Rod. até Barão Geraldo,mas, sempre vou caminhando da rod. até meu emprego - fica na região central, nas proximidades do merc. municipal/pça Carlos Gomes; dia desses podemos agendar uma café.
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