quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Esperando na delegacia

O fato de se estar em qualquer sala de espera já é uma leve invasão de privacidade. O próprio lugar informa mais sobre você do que você gostaria de revelar: Se você espera na ante-sala do dentista, os outros que esperam sabem que você tem alguma coisa nos dentes. Se você espera numa delegacia, provavelmente foi vítima de alguma forma de violência, se for uma Delegacia da Mulher, por exemplo, saberão que foi violência física.

Os que esperam têm tempo de sobra para se observarem mutuamente: ele levanta, caminha, fuma, fala gesticulando ao celular, senta de ombros caídos e com o olhar distante, respira, levanta, caminha, volta. Ela cruza as pernas, descruza, apóia o queixo na palma da mão, suspira, confere as unhas, coloca os pés no banco e abraça as canelas, deposita o queixo no joelho e mergulha em si. Eles conversam sobre a reforma da casa que inclui muro alto, cercas elétricas, vidro escuro, chaves tetra, companhias de alarme. O outro ali joga um olhar de cachorro abandonado pra todos eles, pedindo com os olhos que conversem com ele.

O escrivão, mesmo atendendo um caso, interessa-se pelos casos dos que chegam. Pergunta em que pode ajudar, pede esclarecimentos e pede para aguardar. Foi assim que fiquei sabendo que o homem na minha frente tinha tido a casa assaltada; que a mulher que foi atendida depois de mim está sendo assediada por um homem todo dia às 4 da manhã quando ela vai pegar o ônibus pra ir pro trabalho; que o menino que andava pra lá e pra cá teve sua bicicleta furtada; que a mulher que chegou enquanto eu estava sendo atendida recebeu uma intimação do juiz pra que retirasse o carro do marido que estava estacionado no pátio da polícia. Detalhe é que o marido tinha morrido fazia 9 anos. Homicídio? Foi, num bar. E eu nem sabia que o carro dele tava preso no pátio da polícia.

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