domingo, 25 de janeiro de 2009

455 anos nas costas

A cidade de São Paulo comemora hoje, domingo, 25 de janeiro, 455 anos. Eu estou nela, sofrendo seus barulhos, cheiros e stress.
Na rua em que a Olga mora existe uma média de um cachorro por casa. Pra mim isso significa poluição sonora e olfativa (a galera lava quintal todo dia, mas se contenta em empurrar o cocô do cachorro pra rua). Ouço marretadas na parede dos fundos da casa o dia todo, inclusive aos sábados. Construção de mais um prédio. Ouço a movimentação dos vizinhos da casa geminada como se estivessem dentro desta casa. 2 crianças pequenas e cachorros correndo por aí e uma criança recém-nascida esgoelando-se toda madrugada. Fui levar a Olga e o Simão no aeroporto. A volta de GRU se deu no período em que a galera enfreta o trânsito matutino, que os leva lentamente ao trabalho sedentário. A volta me custou o dobro do tempo da ida.
Comprei jornal. O segundo caderno que desdobrei era um caderno de 8 páginas chamado "Espaço Chevrolet". 8 páginas de propaganda de carros. Eu achava que o jornal tinha a obrigação de veicular notícias, não propagandas.
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O caderno "Cotidiano 2" vem com a seguinte manchete: "São Paulo completa 100 anos de asfalto". Imaginei uma matéria relacionada a meio-ambiente, não-absorção da água das chuvas na Terra da Garoa, carros e trânsito. Não tinha matéria, era só a manchete, e logo abaixo, uma propaganda de mais de meia página para o progresso que o asfalto trouxe.
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A primeira matéria é sobre o fluxo de pedestres que aumentou na Paulista desde as reformas das calçadas. Os comerciantes na Paulista perceberam que pedestre consome mais que motorista (que precisa procurar e pagar estacionamento). Percebo como a infra-estrutura propicia o uso de certo meio de transporte: quando há boas calçadas, os pedestres sentem-se estimulados a usar suas pernas e gastar suas solas de sapato. Shoppings e supermercados fazem propaganda de seus estacionamentos cobertos e gratuitos. Se houvesse ciclovias e ciclofaixas, talvez mais ciclistas se sentissem encorajados a pedalar na cidade.
Na mesma matéria lê-se:
O asfalto, uma novidade até na Europa e nos Estados Unidos, tornou-se um corolário dessa ambição [a modernidade]. Começou ali a impermeabilização do solo paulistano (aquela que, quando chegou às várzeas dos rios Pinheiros e Tietê, ajudou a criar as condições para as inundações da cidade). A primazia do asfalto moldou a vocação da avenida [Paulista]: ela seria dos carros.

Na Revista da Folha, numa reportagem sobre as árvores paulistas, lê-se:
(...) bairros como Brás, Santa Cecília e Sé ostentam índice de metro quadrado de árvore verde por habitante próximo a zero, de acordo com o levantamento feito por satélite. Nessas regiões, há quarteirões inteiros sem nenhuma árvore.
O verde tem levado a pior na briga pelo espaço na calçada: as raízes das árvores lutam no subsolo com as redes de distribuição de água, gás e coleta de esgoto; na superfície, os troncos rivalizam com os postes, placas e guias rebaixadas. No alto, as copas sofrem com a fiação telefônica e elétrica.
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Ler jornal é uma atividade dispendiosa. É trabalhoso juntar as informações dispersas ao longo do jornal. É custoso separar a notícia da propaganda e selecionar o que interessa. Percebo que a grande maioria (dos paulistanos e das notícias do jornal) caminha alegremente sobre um campo minado. Alguns poucos paulistanos desistiram do sonho de ter um carro, vão a pé, de transporte coletivo ou bicicleta pra onde precisam ir. Alguns poucos jornalistas escrevem sobre meio-ambiente, Monsanto, asfalto e árvores. Espero que outros poucos comecem a valorizar a natureza e levar uma vida mais simples.
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Precisamos mesmo migrar pra cidade saturada? Precisamos mesmo dessa vida higiênica e consumista? Um bom presente de aniversário pra essa cidade seria uma pausa. Mas sabemos que a cidade não pára.

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