segunda-feira, 15 de junho de 2009

Triste vida de revisor

Monica, a moça que aluga um quarto pra mim na sua casa, trabalha pra editoras fazendo trabalhos de revisão, edição e copidesque (seja lá o que isso for). Depois de um longo período sem trabalho, começou a chover na horta dela, e vieram trabalhos e mais trabalhos. Pediu ajuda pra mim e combinamos que eu revisaria um livro em troca de um mês de aluguel. Acho legal esse esquema de trabalhar em troca de benefícios (e não dinheiro).

Melhor não identificar as autoras do livro, né.

Não é soberba. Não é preciosismo. Olha a passagem que eu recortei do Budapeste, que li com o estômago:

Porque logo no início do casamento, ainda modesto escritor, fui para ela sem dúvida um marido admirável. Mas à medida que aprimorava minha literatura, naturalmente comecei a me relaxar no trato com a Vanda. De tanto me devotar ao meu ofício, escrevendo e reescrevendo, corrigindo e depurando os textos, mimando cada palavra que punha no papel, não me sobravam boas palavras para ela. Diante dela nem tinha mais vontade de me manifestar, e quando o fazia, era para falar bobagens, lugares-comuns, frases desenxabidas, com erros de sintaxe, cacófatos. E se alguma noite, na cama com ela, me viessem à boca palavras adoráveis, eu as continha, eu as economizava para futuro uso prático.
Budapeste, Chico Buarque, p. 106, 107.

O que me incomoda no texto que estou revisando não são as palavras comuns descrevendo procedimentos acadêmicos, não são os erros de ortografia ou digitação, ou as inadequações à nova reforma ortográfica. O que me incomoda é o excesso absurdo de vírgulas, a troca descabida de preposições, as concordâncias desencontradas, a ordem das palavras praticando malabares.

O livro é anunciado, no prefácio, como um marco na história da pesquisa na área, um verdadeiro divisor de águas. Mas as autoras não apresentam nenhuma pesquisa própria, nenhuma escala de avaliação (que no jargão é referida como 'instrumento') desenvolvida, testada e validada por elas. Reúnem apenas todas as escalas e questionários que os outros já fizeram, sem ao menos questionar a relevância desses trabalhos alheios. Muitos questionários são aplicados a mulheres universitárias (não sabemos quantas eram, a que faixa etária pertenciam, se eram anoréxicas, obesas, bulímicas ou satisfeitas com sua imagem corporal, e qual a relevância de elas serem universitárias para uma pesquisa que visa verificar a satisfação da pessoa com a imagem que tem do seu corpo) porque nos EUA e na Europa as pessoas recebem uma caixinha para participarem de experimentos/ testes. Na Holanda a média era de 6 Euros para ser sujeito de experimento. Aqui a gente pede pros amigos, pra família, divulga no blog e confia que as pessoas participem por diversão. As autoras falham quando não reconhecem certas vicissitudes acadêmicas, porque consideram que tudo que vem de fora é lindo e maravilhoso.

Não foi a minha formação acadêmica que me deformou e faz com que eu seja exigente com os outros. Não sou eu, querida, é você. Está muito claro pra mim que pessoas da área da saúde e talvez educação (que é onde eu inseriria o texto que estou revisando a duras penas) aprendem, estudam e transmitem conhecimentos em forma de listas, definições e tópicos. O livro delas mais parece um dicionário que um texto. Não há reflexão sobre o próprio texto, não há articulação entre os tópicos, não existe argumentação. É um texto explodido em itens e subitens, de cabo a rabo. Super divisor de águas. Um dique!

Monica me deu o tiro de misericórdia, quando afirmou: já trabalho pra essa editora faz mais de 20 anos. E nesse tempo todo, li três livros bons. O resto, minha filha, é tudo assim.

domingo, 14 de junho de 2009

Casa vazia

Este é o nome de um filme que me impressionou muito. Foi feito por alguém de olhos puxados - não lembro se era coreano, chinês ou japonês: quase não havia diálogos no filme. O que me impressionou é que o protagonista temporariamente ocupava casas vazias. Não era um emprego, mas um estilo de vida. De dia, colava panfletos nas maçanetas das portas das casas de um bairro. De noite, depois que todos já tinham voltado do trabalho, entrava nas casas que se denunciavam vazias pelo panfleto ainda grudado na maçaneta da porta. Enquanto a família viajava, ocupava a casa vazia e fazia pequenos consertos, lavava roupa do cesto e saía sem levar nada.

Aconteceu de ele entrar numa casa que não estava vazia. Uma moça chorava na banheira enquanto ele fazia o reconhecimento do seu novo abrigo. Cansada de ser a esposa de um cara, resolveu ser a companheira desse outro. Juntos, passaram a ocupar casas vazias.

Não parecia ser difícil achar casas vazias naquela cidade. Se estivessem em Gramado, fariam a festa, porque mais da metade das casas de lá é de veraneio e passa a maior parte do ano vazia. Se estivessem no Alto da Boa Vista, meu bairro vizinho, nem precisariam aplicar o truque dos panfletos na maçaneta. Em cada quadra há pelo menos duas casas à venda e em exposição. Ok, pode ser que água e luz tenham sido desligados, mas não se pode ter tudo, né.

Veja bem, as pessoas não botaram suas casas pra alugar, mas pra vender mesmo. Corte de relações com a casa. O que move as pessoas pra que saiam de suas casas grandes com jardim no Alto da Boa Vista? Pensei um algumas alternativas.
a) Trauma ou medo de assalto. Ao mudarem para lugares em que tem mais gente amontoada, guarda na portaria, câmeras de vigilância e cerca elétrica, algumas pessoas se sentem mais seguras.
b) Vi uma placa anunciando: vende ou troca por fazenda. Este é o povo cansado da vida da cidade grande. Agora que temos mais da metade da população vivendo em cidades, é hora de se retirar para um lugar em que não haja tantas pessoas e tanto barulho.
c) A casa ficou grande porque todo mundo saiu. Os filhos casaram e se mudaram, o marido morreu e a viúva fica sozinha naquela casa enorme. Pra ela, a manutenção da casa e do jardim se tornaram tarefas hercúleas.

Provavelmente a combinação dessas alternativas explica a maioria dos casos de casas postas à venda. O que eu ainda não entendo é por que a incidência de casas vazias é tão grande neste bairro. Haverá panfletos colados em maçanetas de portas assombrando os antigos moradores?

sábado, 13 de junho de 2009

Marcas famosas

Eu tava saindo do supermercado, ainda pensando na pose encolhida de frio que o caixa que me atendeu adotava, quando me deparei com uma placa. Em letras garrafais, do outro lado da rua, uma concessionária anunciava seu nome: MARCAS FAMOSAS.

Uma lista de marcas de carros me veio à mente enquanto eu caminhava: Volkswagen, BMW, Mercedes Benz, Audi, Chevrolet (GM num lugar e Opel em outro lugar), Ford, Fiat, Ferrari, Cadillac, Porshe, Peugeot, Renault, Citroën, Suzuki, Mitsubishi, Hyundai, Honda, Nissan, Toyota, Alfa Romeo, Mazda, Chrysler, Volvo, Subaru, Landrover, Jeep e até Gurgel. É possível que haja mais marcas no mundo que eu não tenha conseguido contemplar na minha caminhada de volta pra casa ou agora, enquanto vasculho as gavetas mais profundas da minha memória. Me dei conta que eu conheço mais marcas de carro do que de sabão em pó, farinha, feijão ou sucos. E olha que a variedade de marcas de farinha e feijão, por exemplo, é bem menor que a de carros. O engraçado é que eu vou ao supermercado, vejo as prateleiras, mas não consigo evocar mais de quatro marcas de farinha, duas de feijão e assim por diante. Mesmo não tendo um carro ou o sonho de um dia possuir um, sou capaz de evocar tantos nomes de marcas de carro.

Será que existe uma relação de proporcionalidade entre o número de consumidores e a variedade de marcas? Vinho, por exemplo, não é todo mundo que consome, mas a variedade de marcas de vinho é infinitamente maior que a variedade de marcas de arroz, macarrão ou açúcar, que são produtos que vêm na cesta básica e de fato fazem parte da base alimentar do povo. Saindo do supermercado, vamos pensar em carros. Quantas pessoas possuem carros? Quantas pessoas consomem farinha e feijão?

Mas peraí. Qual é a vantagem de se ter tanta concorrência para um público pequeno? Deve ser o retorno financeiro. Quando penso nas coisas mais caras que um cidadão pode comprar, penso em casa, terreno e carro. Estes são produtos duráveis. Carro é um produto que se compra pra vida toda, não? Por isso o preço do investimento é alto, ao contrário de farinha e feijão, que são baratos e se compra a cada três semanas. Suspeito que não seja só isso. Faz alguns anos, os produtos duráveis, pra vida toda, quebram/ saem de moda/ se tornam incompatíveis com os novos avanços tecnológicos depois de um a dois anos de uso. Isso se chama obsolescência programada. Trocar de carro depois de 2 anos é a regra, porque o carro "desvaloriza". E daí que perde valor de mercado. Não é um meio de transporte? Pelo visto, é um bem de consumo, um capricho, assim como cosméticos.

Quando parei no farol e esperei o botão que eu tinha apertado fazer seu efeito sobre os carros que passavam, lembrei de um jogo que eu tinha usado para fins didáticos. Era uma aula de business english sobre marcas. Quis verificar se as marcas de carros eram mais recorrentes que as marcas das outras coisas (64 logomarcas pra você adivinhar). Mas não. Produtos esportivos (tênis, bolas e roupa) foram os mais usados no jogo 1. Pra minha surpresa, já tinham desenvolvido um jogo 2, que eu achei difícil porque tinha dois logos que eu nunca tinha visto na vida, nem sei a que se referem (Tecnisa e Swarovski) e porque tinha umas marcas de produtos altamente exclusivos (Rolex, Mont Blanc) que não fazem parte do meu inventário. Fiquei toda feliz ao reconhecer o logo da Caloi. No entanto, se no jogo 1 tinha 'só' quatro marcas de carro, neste jogo 2 tinha nove (!) marcas de carro.

Voltamos ao número exuberante de marcas de carros. Como é possível que eu, pedestre, ciclista e usuária do sistema de transporte coletivo, saiba reconhecer tantos logos de carros e saiba nomear tantas marcas? Eu, pessoa que compra livros e não revistas, prefere ir ao cinema que ver TV, conversa sobre compostagem e bicicleta e não sobre marcas de carros. Eu, que não fico verificando os meus conhecimentos automobilísticos no trânsito, checando marcas de carros. Como é que eu sei tanto sobre o mundo mágico da gasolina, diesel e álcool? Pelo visto, sou muito mais bombardeada - e afetada - pela mídia do que eu admito.

E a mídia faz muito mais propaganda de carro do que para placas solares, recarregadores de pilha, sistemas de captação de água da chuva, coletores menstruais, dispositivos que regulam o fluxo de água de torneiras/chuveiros e outras eco-coisas.

"Vai chegar o dia em que uma criança não vai saber o que é uma vaca." Profecia feita pelo vô do Wagner Suiter.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Floco de neve


Terminei de ler Neve (Kar, no original) do Orhan Pamuk e não acho que este livro tenha merecido o prêmio Nobel de Literatura 2006. Não estou achando que outro autor merecesse o prêmio em seu lugar, só considero que My Name is Red (2000), publicado 2 anos antes pelo mesmo autor, seja muito mais interessante e genial que Neve. Mas naquela constelação em que precisavam de um receptor do Prêmio Nobel, escolheram Kar, um livro cuja estória se passa em Kars e cujo personagem principal se chama Ka. Talvez em 2006 a academia sueca tenha preferido dar relevo às questões políticas levantadas pelo autor em seu livro de 2002 sobre as relações entre oriente e ocidente e os turcos que buscaram asilo político na Alemanha. Talvez não tenham lido Meu nome é vermelho com o mesmo entusiasmo cromático que eu.

Há alguns traços comuns que conduzem o leitor de um livro de Pamuk a lembranças de outro livro do mesmo autor. A questão da identidade, do ponto de vista, o jogo de narradores e os detalhes coloridos de culturas peculiares são temas e estratégias recorrentes em Pamuk.

Quando comentei com o Muntasir, um amigo de Bangladesh, que eu tinha lido alguns livros do Salman Rushdie, ele fez um sermão sobre a boa literatura e os impostores. Imediatamente fiz um paralelo mental entre o Paulo Coelho, que é um impostor mas um best-seller dentro e fora do Brasil e o Salman Rushdie, que se tornou famoso fora da Índia, mas ainda não tinha provado o seu valor retórico para os indianos, paquistaneses e bangladeshis. Pelo que pude perceber da aula de literatura do Muntasir, Salman Rushdie jogou uma sombra sobre os bons escritores indianos, porque o que lhe dava visibilidade era o contexto polêmico que o envolvia, não seus textos. Recentemente li Os Versos Satânicos, que tinham lhe rendido tanta atenção, e tive que concordar com o meu amigo.

Na minha humilde opinião, considero Os Versos Satânicos (de 1988) um ensaio para os outros livros que li do Salman Rushdie. Lendo este livro, reconheci metáforas, situações, idéias e padrões que são lapidados em livros posteriores. É quase como se as idéias e intenções de Versos Satânicos tivessem se espatifado no chão e o autor tivesse usado super bonder, esparadrapo, band-aid, lama e maizena engrossada pra juntar os cacos. Tenho a impressão de que, com o passar dos anos, o autor tenha desfeito aquele monstrengo, limpando e esmerando cada pecinha pra escrever livros mais simples e focados. Em The ground beneath her feet (1999) reconheço a estória de amor entre Farishta e a alpinista dos pés chatos. Em Fury (2001) reconheço o bode crescendo no sótão. Em Shalimar, o equilibrista (2005) reconheço os conflitos entre ocidente e oriente, bem e mal, amor e vingança esboçados nos Versos Satânicos. Shalimar, no entanto, merece o meu reconhecimento e os meus aplausos. Preciso recomendá-lo pro Muntasir.

Umberto Eco descobriu a fórmula mágica da estrutura narrativa, calibrando momentos de tensão e relaxamento no Nome da Rosa e a aplicou com mais - e depois menos - sucesso no Pêndulo de Foucault, A Ilha do dia Anterior, Baudolino e A misteriosa chama da rainha Loana (nesta ordem). Paulo Coelho sempre, desde O Alquimista, equilibra os mesmos ingredientes de magia e religiosidade. Harry Potter foi um sucesso porque o personagem era cativante e permanecia sempre o mesmo. Daniel Galera escreveu um livro ruim (o último, Cordilheira) quando foi encarnar uma mulher. Os outros (Mãos de Cavalo, 2006 e Até o dia em que o cão morreu, 2003) são fascinantes (nesta ordem).

Cada livro é único e podemos gostar mais ou menos deste ou daquele em relação a outros livros do mesmo autor. Mas carregam a marca do autor, seja na estrutura narrativa, no gênero literário, nas características dos personagens ou na ambientação dos cenários. São como flocos de neve: todos têm o mesmo esqueleto de seis pontas, mas como as condições em que foram gerados são particulares, apresentam formações diferentes.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

HOME

Yann Arthus-Bertrand é o fotógrafo que fez as fotos abaixo. Todas elas podem ser vistas em formato de foto ou incorporadas no filme que está no site do projeto chamado HOME. O filme sobre o nosso Planeta Terra fica disponível no youtube de graça até dia 14, conforme fiquei sabendo pelo Luisão. Depois de assisti-lo senti urgência de divulgá-lo, porque é muito bem feito.











O link para o filme narrado em inglês com legenda em alemão no youtube está aqui: HOMEde. Pra quem não tem experiência com o youtube (vai que tem alguém), recomendo que aperte o pause assim que o filme começar a rodar e espere o filme carregar até pelo menos metade. Isso demora, mas depois dá pra assistir sossegado.

Acho que o primeiro desses filmes informativos sobre o modo como tratamos o nosso mundo foi o 'Ponto de Mutação' do Capra com o Al Gore. Depois veio o 'An inconvenient truth', do Al Gore, depois o 'The story of stuff', da Annie Leonard. Todos demonstram como perdemos o vínculo com a Natureza nas últimas décadas e como perdemos a noção de que as coisas todas estão ligadas. Por estarem conectadas, a exploração desmedida da Natureza vai nos afetar, invariavelmente. Além de informarem, estes filmes apontam para soluções de sobrevivência, o que é um alívio.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

293 quilômetros

Foi o que a CET registrou de congestionamento hoje. Nem todas as vias estão monitoradas e entram nesse cálculo, portanto o número de quilômetros parados é na verdade mais alto. Mesmo assim, é o recorde de lentidão na cidade. Pra ilustrar a situação, imagine uma fila de carros parados daqui até Paraty. Agora adicione 11km a essa fila e pronto! 293km de congestionamento.

Aconteceu uma convergência de fatores: chuva (todos sabemos que deveria ser proibido chover em São Paulo), acidentes, panes, véspera de feriado. Segundo matéria publicada pelo G1, foram registrados 187 incidentes. Eu mesma vi um acidente com vítima pouco antes da ponte da Vereador sobre a Vicente Rao, um ônibus sendo rebocado na Sto. Amaro e minha aluna cuja aula começa às 7:00 chegou às 8:00 devido a um acidente na Dutra.

De noite, eu não quis pedalar os 7km até Vila Campo Grande. Uma porque ainda não achei a melhor solução pra não encharcar um par de tênis e meias e outra porque eu tava com preguiça de fazer força, sentir frio e calor.


Liguei na escola avisando que eu ia de ônibus e provavelmente ia me atrasar uns 15 minutos, porque eu já contava que o ônibus ia demorar 1 hora (de bike eu demoro cerca de 26 minutos). O ponto de ônibus parecia um poleiro de gente usando roupas escuras. Os ônibus tinham os vidros embaçados, e quando dava pra ver dentro do ônibus, via-se muitas caras sérias. O primeiro Guacuri demorou a passar e parou lá na ponta do ponto só pra desovar um monte de gente: não deixou ninguém subir. O segundo Guacuri estava apinhado de gente. Fazia calor dentro daquela lata. Os caras na catraca pediam passagem avisando que iam descer no próximo. E o mais maluco é que deu tempo deles progredirem até a porta de trás, porque o ônibus não conseguia chegar no ponto. Pessoas reclamando que ninguém respeita nada, o cobrador contando estória de gente não oferecendo lugar pra velhinha sentar, um celular tocando música sertaneja pra todo mundo ouvir e um filme de Charlie Chaplin passando na TV Bus Mídia. Quando tudo isso se acaba, um silêncio resignado deita sobre todos. Perco a noção do tempo e do espaço. Pára de chover e lentamente algumas janelas são abertas. O vapor condensado começa a pingar, pinga até do teto do ônibus. Ocasionalmente tenho pensamentos malignos contra as pessoas gordas que me esmagam ao passarem por mim e volto a reparar no mundo lá fora do ônibus quando uma dona de casa comenta com a amiga que já devem ser 20:00. A amiga suspira e diz, com desprezo: quando chove, todo mundo acha que tem que ir de carro. Dá nisso!

Desço do ônibus e sou envolvida pelo ar frio e úmido. Subo a ladeira até chegar na escola e converso com a secretária. Juntas, olhamos no relógio e constatamos que eu demorei 2 horas pra chegar. A pé eu teria chegado antes. Meus alunos tinham desistido de mim e ido pra casa, se enfiar debaixo das cobertas. Ainda nos teriam restado 1 hora e meia de aula, mas não quiseram esperar.

Na noite em que São Paulo parou, eu estava em pé num ônibus lotado. Por quê? Porque achei desconfortável molhar o pé.

Quitação eleitoral

Um dos documentos exigidos do candidato aprovado em concurso para que ele seja nomeado (não fui chamada ainda, mas achei bom já adiantar a minha parte) é a certidão de quitação eleitoral. Se você está quites com a Justiça Eleitoral, dá pra gerar essa certidão pela Internet e imprimir em casa. Se, por outro lado, não der pra gerar a certidão pela Internet, então é porque você tem pendências com a Justiça Eleitoral.

Eu nunca me preocupei com o que poderia acontecer se eu não votasse numa eleição. Ouvi dizer que se eu não votasse, seria barrada quando quisesse sair do país. Como eu tenho dois passaportes e entro no país com um e saio com outro, nunca tiveram muito controle sobre minhas andanças, nem nunca me barraram.

Mas eu não consegui a certidão de quitação pela Internet. Fui lá na Justiça Eleitoral da minha zona eleitoral, que funciona das 12:00 às 18:00. Não tinha fila, as funcionárias pareciam simpáticas e eficientes. Dei o meu título pra moça no balcão e, antes que eu tivesse terminado de explicar que eu não sabia se tinha perdido alguma eleição porque estava fora do país, ela já me informou que eu tinha perdido a eleição de 2006. Sim, faz sentido. Fui pra Holanda em setembro de 2006 e as eleições costumam ser em outubro. E agora, o que eu faço? Paga uma multa. Quanto? R$ 3,51, mas não é aqui, é na Casa Lotérica ali do lado. Depois volta aqui e retira a certidão de quitação.

Todo o processo demorou 20 minutos no máximo. Saí de lá me perguntando por que insistem em obrigar os brasileiros a votar ou justificar o voto em dia de eleição. Deve ser para criar e manter um certo sentimento patriótico. Me pergunto por que os brasileiros se dão o trabalho de se deslocar de suas cidades para votar ou por que enfrentam filas pra votar ou justificar, se a multa por não votar é tão baixa. Deve ser falta de informação.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Pra me convencer

Eu estava guardando o aparelho de som no armário, quando uma outra professora me perguntou se eu não me interesso por cosméticos. Como eu sei que ela é americana e fala e entende mal português, achei que ela estivesse precisando de ajuda para comprar cosméticos.

Respondi que não uso cosméticos, ao que ela replicou: Why not? Expliquei que eu não tenho o costume de investir nisso. Oh, but you should! Ah, é? Então me diz por que eu deveria usar cosméticos. Porque toda mulher usa.

Se ela quisesse mesmo me convencer a usar cosméticos, ela precisaria usar outros argumentos. Dizer que eu devo fazer o que todo mundo faz 'porque todo mundo faz' não convence. Se ela me convencesse de que o uso de cosméticos é vantajoso para a minha pessoa, ela teria mais sucesso. Para demonstrar que os cosméticos me fariam bem, ela teria que provar que os produtos não provocam câncer a longo prazo, e isso é difícil de provar. Além de me convencer de que os cosméticos podem ser bons para mim e minha imagem, ela teria que me convencer de que os produtos não são miraculosos, mas naturais. E que a extração da matéria-prima não é predatória.

Respondi que não é toda mulher que usa, porque eu, que me encaixo no grupo das mulheres, não estou no grupo das mulheres que usam cosméticos. Ok, ok, eu acho que você deveria se interessar por cosméticos porque eu estou vendendo.

Esse argumento pessoal de 'pra me dar uma força' não me convence a fazer algumas coisas. Por exemplo comprar cosméticos, ou casar com o Esteves pra ele conseguir visto de permanência, ou ainda comprar uma jóia de 5 mil reais da vendedora mais simpática do mundo. Sinto muito. Entendo seu problema, mas não posso resolver.

Cheguei em casa com o folheto da Mary Kay, a tal linha de cosméticos. Não se trata de um catálogo, mas de um incentivo a você, dona de casa, que quer
(a) independência financeira,
(b) satisfazer a sua curiosidade e poder testar produtos de maquiagem e aprender sobre eles; e
(c) crescer na vida, trabalhando para uma empresa que coloca Deus em primeiro lugar, a família em segundo e a carreira profissional em terceiro.


Se aquela professora americana realmente quisesse me vender cosméticos, teria ao menos me dado o catálogo, pra eu secretamente saciar os olhos com todas aquelas coisas brilhantes e decorar os nomes dos produtos (não sei o que é rímel, onde passa delineador, que cor tem um corretivo).

Perguntei pra Monica se ela estava interessada em cosméticos, e mostrei o folheto. Ah, ela disse, ontem uma mulher tentou me vender esses cosméticos enquanto eu tava esperando na fila do banco.

Qual será o treinamento que essas vendedoras independetes recebem? Venda pelo menos 40 produtos por dia e para tanto aborde qualquer pessoa que tiver cromossomos xx?

sábado, 6 de junho de 2009

Televisão

Percebi que quando pessoas da minha geração se põem a rememorar a infância, lembram de nomes de marcas de produtos que usavam (Bamba, Pakalolo), brincadeiras de rua (bets, pipa), doces que a mãe/vó fazia, frutas que roubava do vizinho e desenhos que passavam na TV. Aí chegamos na parte em que eu me calo e não participo mais das reminiscências televisivas. Eu só fui assistir TV depois dos 7 anos de idade. Antes disso, eu não conseguia brincar com os meus amiguinhos porque não sabia as posições do Jaspion.

Nos tempos de escola, estudo, namorado, vestibular, entra na universidade, assisti muita TV. Quando mudamos pra Alemanha, tive o primeiro choque cultural diante da TV: todo mundo fala alemão na TV! Depois vieram os estranhamentos: os repórteres não são bonitos, estão lendo as notícias de uma folha de papel e falam numa curva entonacional bizarra.

Sou uma pessoa que não assiste televisão há anos, porque num dado momento percebi que estava perdendo tempo na frente daquela caixa que emitia sons, transmitia imagens e me mostrava como eu não era magra, loira, maquiada e desejável. Enquanto fonte de informações, a TV só reportava tragédias tão maiores que eu, em lugares tão remotos, que a sensação de impotência diante da catástrofe alheia vinha me visitar em sonhos escuros. Enquanto fonte de formação, ela me mostrava programas de divulgação científica de rigor duvidoso, programas sobre a natureza altamente sensacionalistas e descrições do mundo animal completamente antropomorfizadas. Enquanto fonte de entretenimento, ela me fazia rir. Fora a voz da Valéria Grilo, que narrava o Planeta Terra na TV Cultura, não consigo lembrar de nada que valesse a pena na TV.

Agora moro numa casa em que a TV fica ligada do meio-dia à hora de dormir. Essa presença constante da TV me assusta um pouco, mas não me incomoda quando passo as tardes no meu quarto ou no jardim. Já reparei que pessoas que moram sozinhas se sentem menos solitárias ouvindo o 'barulhinho da TV'. Então a televisão é sinônimo de companhia?

Notei que a televisão, que antes era reservada ao espaço privado, está invadindo o espaço público. Todos os vagões de metrô e trem têm uma televisão que transmite uma programação específica que se repete a cada 30 minutos. Horóscopo, dicas de culinária, videocassetadas, entrevistas com funcionários do transporte público, notícias, propagandas da Porto Seguro. Grande parte dos ônibus são equipados com televisões que passam uma programação semelhante. A função destas televisões instaladas em meios de transporte coletivo é distrair a população enquanto espera no trânsito?

Fiquei chocada quando vi uma televisão na fila única pros caixas de 10 unidades no supermercado. Passava dicas de culinária e promoções do supermercado. Qual é a função da televisão na fila do caixa? Informar sobre ofertas imperdíveis que forçarão o cliente a desistir de seu lugar na fila e voltar para o interior da loja à caça daquele produto supérfluo?

Estou convencida de que a televisão é o melhor meio de alienação que há. As pessoas são poupadas da difícil tarefa de pensar como preencher seu tempo. A TV ocupa seu tempo sem que precisem usar de sua criatividade. Ficam passivas, sentadas, absorvendo tudo. Manipulação de massas. Prefiro ficar alheia a isso.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Política de transporte cicloviário

A ANTP convida para participar do Seminário Nacional:

Política de Transporte Cicloviário

a ser realizado nos dias 18 e 19 de junho de 2009, na cidade de

Sorocaba/SP

O seminário tem por objetivo promover essa modalidade de

transporte individual e năo motorizado que tem um importante

papel a desempenhar na mobilidade urbana.

Os seguintes temas serăo abordados:

A bicicleta e a cidade;

Impacto do Transporte Cicloviário no Desenvolvimento Urbano;

Como implementar uma política cicloviária;

Mudanças de comportamento por meio da educaçăo e da legislaçăo;

Construçăo da Infra-Estrutura Cicloviária(ciclovia,tráfego compartilhado

e intersecçơes);

Oferta de estacionamento e bicicletas publicas (VELIB);

Perspectivas da indústria de bicicletas no Brasil.


Participe, aproveite a oportunidade de resgatar esse tema que năo

tem recebido a devida atençăo da nossa comunidade técnica.

Mais informaçơes sobre o evento

Programaçăo técnica

Ficha de inscriçăo

Site da ANTP

Associaçăo Nacional de Transportes Públicos

Alameda Santos, 1000 - 7º andar CEP 01418-100 Săo Paulo/SP

- Brasil

Tel. (11) 3371-2290 Fax (11) 3253-8095

E.mail: informa@antp.org.br

– Home page: www.antp.org.br


Reproduzindo convite.

Mapa na cabeça

Me disseram que as muheres têm uma percepção espacial diferente dos homens. Achei que fosse mais uma daquelas brilhantes conclusões pretensamente científicas que apenas reforçam os preconceitos dos homens. Preconceitos do tipo 'as mulheres não têm senso de orientação', 'os homens nunca pedem ajuda porque têm o mapa do lugar na cabeça', 'mulher dirige mal porque não sabe pra onde tem que ir'.

Continuei gostando de mapas e me aprofundando em suas leituras. Quando viajava, queria saber como se parecia a minha trajetória no papel. De certa forma, eu estava internalizando mapas de cidades e países, aprendendo a me orientar por certos marcos locais. Quando eu era turista, chegava a conhecer melhor a disposição da cidade que os nativos.

Os lugares que eu conhecia na prática, porque andava por ali, não eram conferidos no mapa. Foi assim que me virei por 15 anos em São Paulo, sem saber que eu morava ao sul do ponto final da linha azul do metrô, que a Marginal não é o caminho mais curto entre a zona sul e a zona norte, que o Ipiranga não é longe pra caramba. Eu conhecia alguns setores da cidade muito bem, mas não era capaz de juntar esses setores numa colcha de retalhos. Eu não tinha noção do todo e portanto tinha dificuldades para imaginar o caminho de A a B. Dar informações sobre caminhos longos em São Paulo era frustrante pra mim, se eu já não tivesse feito a rota milhares de vezes.

Pablares, o homem que sabe de tudo um pouco, me explicou que, segundo a pesquisa evolutiva, existe sim uma diferença de percepção espacial entre homens e mulheres. Se voltarmos na história da humanidade, podemos constatar que o homem desde sempre assumiu o papel do caçador, aquele que sai pra andar por aí e voltar com comida. Esse cara precisa percorrer terrenos diferentes à procura de alimento e saber voltar para a sua tribo. A mulher fica estacionada com a cria, portanto precisa entender o espaço em que vive em nível de detalhes para ser capaz de proteger sua prole.

Conversando com a minha coordenadora pedagógica sobre Gramado, cidade que eu visito todo ano e que ela só viu uma vez na vida, reparei que ela tinha a cidade na cabeça dela. Quando ela tentou localizar os portais de Gramado, fazia gestos esticando o braço para frente, numa linha horizontal, como se tivesse à sua frente uma maquete da cidade. Eu concordava com ela, sem ser capaz de desenhar um mapa nem mesmo em 2D. Reconhecia setores de Gramado pelo nome, não pela sua localização geográfica. Mas se estivéssemos falando de Amsterdam, cujo mapa estudei bastante, eu apontaria os lugares à minha frente, pontuando um espaço vertical, como se colocasse pinos num mapa 2D à minha frente.

Não cheguei a nenhuma conclusão sobre a percepção espacial de homens e mulheres, porque a Marlúcia foi a segunda exceção que encontrei. Olga é a primeira. Essa mulher podia ser taxista numa boa, porque tem um senso de direção apurado e porque entende o espaço de uma cidade em 3D, como se fosse uma maquete. Eu preciso de um mapa de papel para juntar os setores que internalizei.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

domingo, 31 de maio de 2009

Mandioca e a chuva

Mandioca, aipim, macaxeira. Olga me ensinou que não se pode comer mandioca nos meses que não têm 'r' no nome. Sobram maio, junho, julho e agosto. São os meses em que temos outono/inverno aqui no Brasil. Mais especificamente, são os meses em que chove menos.

Dei uma olhada no canaldotempo, e pude constatar que a regrinha do 'r' se confirma: a média de chuvas vai caindo nesses meses:

Maio: 74mm
Junho: 56mm
Julho: 43mm
Agosto 38mm

A partir de setembro chove mais, sendo o pico das chuvas em janeiro:

Setembro: 81mm
Outubro: 124mm
Novembro: 145mm
Dezembro: 201mm
Janeiro: 239mm

As 'chuvas de março' fecham o verão, e em abril chove quase metade do que tinha chovido em março e quase tanto quanto choverá em maio:

Fevereiro: 218mm
Março: 160mm
Abril: 76mm.

Como explicar o comportamento idiossincrático (em relação à sabedoria popular) de abril? Com outro dito popular!! Tive que recorrer a outra língua, mas funciona.
Aprilwetter: April, April, der macht was er will.

sábado, 30 de maio de 2009

A voz dela

Atendeu o telefone, apesar de ser um domingo de manhã. Desejou bom dia à voz que saía do telefone, apesar de já ter identificado que se tratava de uma ligação impessoal. O barulho de fundo era povoado de vozes forçosamente simpáticas. Mas aquela voz que tentava lhe vender um seguro de vida era muito agradável. Ele chegou mesmo a fazer perguntas à moça, para poder continuar a conversa e assim deleitar-se com o timbre escuro daquela voz envolvente. Quando ela perguntou se ele estava interessado no produto que ela queria vender, ele confessou tudo.

Estava completamente apaixonado por aquela voz. Será que ela poderia lhe dar o seu número, pra que ele pudesse ligar para ela de noite? Se ela preferisse não revelar o seu número, será que ela poderia, então, ligar para ele outra hora pra conversarem sobre outras coisas?

A moça ficou surpresa com a urgência dele, com essa obsessão pela sua voz. Mas ao mesmo tempo que se sentia assediada, sentia-se lisonjeada. Tentou lembrar quando tinha sido a última vez em que um homem tinha se interessado por ela assim. Sua voz tremeu um pouquinho quando revelou o seu número de telefone ao sujeito que lhe tomou uma hora de serviço e não fechou contrato.

Conversaram durante semanas pelo telefone. Ele a pressionava para um encontro, ela se esquivava sempre com uma desculpa diferente. Com o passar do tempo, as conversas se tornaram mais íntimas e mais longas. Começavam meio sem assunto, mas sempre terminavam com suspiros de ambos os lados da linha. Toda noite ele sonhava com uma mulher diferente, como se tentasse dar, em sonho, uma materialidade física àquela voz que o tinha enfeitiçado. Ela já não tinha mais desculpas plausíveis para não vê-lo, e para não se enredar ainda mais em mentiras, aceitou seu convite para jantar.

Ele chegou bem antes da hora combinada e sentou-se num lugar de onde podia monitorar a porta. A cada mulher que entrava, seu coração perdia uma passada. Ela sabia que ele era negro, alto, atlético, usava óculos e tinha rastas nos cabelos. Mas ele não sabia nada sobre ela. Conhecia a sua voz, sua risada, sabia adivinhar quando estava sorrindo e adorava ouvir os seus suspiros. Mas sobre sua aparência não sabia absolutamente nada.

Poucas mulheres entraram sozinhas. Ele temia que ela viesse com uma amiga, como por exemplo aquela loira ali, da mesa 5, que não tirava os olhos de cima dele. Chegou a flertar com uma morena de vestido cinza que estava esperando um moleque de andar gingado e gel no cabelo. Quando o relógio avisou que ela estava 2 minutos atrasada, sua ansiedade se transformou em tensão. Quando o relógio marcou 20 minutos de atraso, ela apareceu.

Seus olhos grandes imploravam desculpas pelo atraso, suas mãos nervosas se apertavam mutuamente no colo. Não foi preciso que ela abrisse a boca pra que ele a identificasse. Ela parecia ser a mulher mais medrosa, indefesa e desconfortável na própria pele que havia no recinto. Ela parou diante do degrau e olhou para ele. Ele entendeu que ela precisava de ajuda e foi até ela. Parou na frente dela, abaixou-se um pouco e perguntou:
- É você?
Tímida, ela respondeu com a voz falhando:
- Sim, Marco, sou eu.
Ele deu a volta nela, segurou a cadeira de rodas e a conduziu até a mesa.

Ela teve a sensação de estar conversando com um médico, porque ele só falava sobre a sua deficiência. Ele teve a sensação de ter sido enganado. Nem a voz não era mais a mesma! No telefone, a voz dela tinha uma aura mágica. Ali, ao vivo, não tinha nenhum poder sobre ele. Ambos fizeram questão de perder contato depois daquele primeiro encontro.

Devo a estória a Marco Esteves.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Pedalar é perigoso?

Tirinhas do Yehuda Moon

Qual é o problema? Vou pedalar pra escola. Como isso pode ser perigoso? Carai! Esse era o pai do Dave! Ei, ei, tem gente na calçada aqui! Ôu! Aquele era o pai da Sue. E aí, pronto pro teste? Depois do pedal pra cá, tô pronto pra qualquer coisa. Quer me ajudar a riscar portas de carros com chaves depois da escola?

Cada dia vejo mais ciclistas nas ruas. Talvez seja porque presto mais atenção neles hoje que quando eu não circulava tanto de bicicleta. Talvez seja porque o trânsito em São Paulo está cada vez mais lento, devido ao excessivo volume de carros nas ruas. É possível que alguns usuários de transporte coletivo tenham migrado para o modal bicicleta, porque se encheram de ficar em pé, apertados e suados em ônibus parados. Não está descartada a possibilidade que alguns motoristas tenham abandonado o carro em favor da bicicleta.

O grupo dos ciclistas nas ruas de São Paulo não é homogêneo. Alguns pedalam na calçada, outros na rua, poucos pedalam na minha contramão, outros me ultrapassam, uns usam capacete, outros não, poucos usam roupas esportivas, a maioria usa roupas de trabalho. De noite, percebo que muitos priorizam luzinhas vermelhas piscantes atrás de si e não têm farol branco na frente. Em dias de chuva, continuo vendo alguns gatos pingados pedalando com capa de chuva.

Mesmo que o número de ciclistas tenha aumentado, continua o mito de que pedalar na cidade é perigoso. Digo que é um mito, porque quem me alerta dos perigos de pedalar nas ruas não pedala e não sabe qual é a paisagem que eu vejo quando estou na Amarilda.


Certo, suba aqui. Como está o selim? Ele não devia estar usando capacete? Só estamos verificando a posição dele na bicicleta, minha senhora. Não vamos a lugar algum por enquanto. Ele vai ficar bem. Ele precisa do capacete. (suspiro) Ok. Tão pesado! Eu te disse! Bicicletas são perigosas!

Me alertam do perigo de assalto. Já fui vítima de tentativa de roubo da minha bicicleta amarela. Fiquei balançada por um tempo, sentia um frio na espinha quando passava pelo local onde o fato tinha acontecido, mas agora creio ter entendido que o objeto de desejo do outro é a minha bicicleta, não qualquer coisa pendurada em mim: bolsa, mochila, colar, brinco. E pra conseguir a minha bicicleta, o outro vai precisar usar de violência física. É muito diferente enfiar a mão numa janela aberta e arrancar um colar, relógio, celular ou brinco, ou mesmo quebrar o vidro de um carro e agarrar uma bolsa do que derrubar um ciclista pra pegar a bicicleta.
Meu campo de visão numa bicicleta é bem maior que num carro, e posso antecipar saias justas e ocupar outro espaço antes da corda apertar o pescoço.
Um dia eu estava pedalando na Água Espraiada. O farol estava fechado e me aproximei devagar da faixa de pedestres. Eu andava pela direita, entre a guia e uma fila de carros. Ouvi o barulinho de uma trava de porta descendo dentro do carro pelo qual estava passando. Dei risada: o passageiro daquele carro se trancou dentro do carro ao me ver chegando. Ter medo de ciclista beira os limites aceitáveis da paranóia de cidade grande.

Me alertam do perigo que são os motoristas. Isso eu acho impressionante. Motoristas me alertam do perigo que os motoristas representam. De fato, a falta de respeito dos motoristas é o maior complicador no trânsito. Motoristas de ônibus não têm paciência de trafegar atrás de um ciclista quando estão se aproximando do ponto de ônibus. Muitos preferem me ultrapassar pra me fechar logo em seguida, quando encostam no ponto. Outros motoristas não têm noção da minha velocidade e entram na via em que estou quase em cima de mim. Outros, ainda, entram sem olhar. Depois pedem desculpas.

Ok, agora resuma pra mim a essência do sentimento do motorista para com o ciclista. Na verdade não passa de esperanças e desejos. Metade dos motoristas espera não bater em ciclistas. E a outra metade deseja poder bater em ciclistas.


Thistle! O que você está fazendo? Você vai ser atropelada! Hein? Maureen? Ei, olha que legal! ... Espera - o que você disse? Nóis na bicicleta com caixa. Eu disse que você vai ser atropelada. Tem carros em todo lugar, não é seguro! Vamos ficar bem. Aqui não é Copenhagen, Thistle. Americanos não gostam de compartilhar a via. E como você sabe disso?


Eu me esforço para ser vista. Nos faróis, paro no campo de visão do motorista. Nas ruas, dou sinal de que vou mudar de direção e de que vou continuar seguindo reto numa bifurcação onde muitos viram à direita. Ocupo o meu espaço na faixa, forçando o motorista a me ultrapassar, não a me passar, tirando fina.

Me alertam do perigo que é pedalar de noite. Eu respondo que tenho luzinhas. Que piscam!

Agora um perigo que ninguém prevê - justamente porque não pedala em condições adversas - é a chuva torrencial. A visão de todo mundo fica embaçada pelo véu branco da chuva forte e eu fico menos visível. Usando a capa de chuva, meu campo de visão fica mais limitado, porque a visão periférica é obstruída pela capa. O vento transforma a capa numa vela. A água que não consegue se infiltrar na terra por causa do asfalto de junta e forma rios com correnteza e tudo. Nessas horas, é melhor parar num posto e esperar, ou continuar a pé, empurrando a bike.

Eu bem que avisei que hoje o vento estava forte demais pra usar a capa de chuva.

Viver é perigoso. Um trânsito em que as pessoas não conhecem as leis de trânsito, não sabem quais são as regras do jogo, é perigoso. Muitas pessoas encaram o trânsito como um campo de batalha, em que vale tudo pra chegar rápido. Espero que essa mentalidade mude.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Slick & slide: aprendendo

O pneu de cravos tava ressecado mesmo, pedindo pra ser trocado. Um espinho que se enfiou no pneu e furou a câmara foi a oportunidade pra botar um par de pneus slick (com faixas amarelas) na Amarilda. Agora ela tá altamente amarela.

No primeiro dia, pedalei feliz e contente pro trabalho. A bicicleta estava mais leve, como se eu estivesse pedalando numa marcha abaixo do que estava de fato. O pneu é mais fino que o cravejado, então tomei mais cuidado ao passar por cima das grades que tapam as valas pra escoamento de água dentro da garagem.

No segundo dia saí de casa toda faceira. Tinha chovido de noite e o chão estava molhado. Quando fui fazer a curva pra sair da Espraiada e entrar na Nova York tomei um chão que barbaridade, fui parar de costas no chão e não vi o chão chegar. Não entendo os movimentos que aconteceram ali. Ralei a mão direita, o bolso direto da calça e o joelho direito, mas tenho também um roxo na batata da perna esquerda e terminei com as costas no chão. Enfim. Ninguém veio conversar comigo, ver se estou bem, mas todos pararam. Tirei a bicicleta do chão, recolhi um negocinho que mais tarde se revelou ser a tampinha do bar-end e me instalei na calçada pra sentir as juntas e verificar a bicicleta. Não estava sangrando, mas a roupa estava suja. Nada, além da tampinha do bar-end, se desprendeu da bicicleta e o alforje protegeu o câmbio traseiro.

No mesmo dia, de noite, passei naquela mesma esquina numa velocidade bem tiazinha. O meu joelho estava inchado e doía quando era dobrado. Mas é com os erros que a gente aprende.

No terceiro dia, que coincide com o dia de hoje, choveu. Mudei os livros da mochila pro alforje à prova d´água, tirei a capa de chuva (um poncho, na verdade) do armário e lembrei que pneu slick escorrega. Usei os freios mais que normalmente, fui com calma e cheguei tranqüila no subsolo2. Pendurei a capa no bicicletário mesmo, porque eu apostava que ninguém além de mim viria pro trabalho de bike em dia de chuva. Ganhei a aposta. Lá na Samsung dei aula descalça. Próxima vez que chover levo um par de meias secas e um par de tênis no alforje. Outra coisa que aprendi.

A chuva de hoje e a consciência de que o pneu slick não segura a onda na curva como o pneu cravejado me fizeram pensar na velocidade em que eu costumo trafegar de bicicleta. Por motivos de força maior estou aprendendo a pedalar devagar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Instruções precisas

- Monica, como você faz purê de batata: com esse negócio aí?
- É, com isso aí.
- E aí como faz? Coloca a batata aqui dentro e bota esse lance aqui e aperta assim?
- Isso.
- Ah, legal.
- Uai, mas como é que você tá acostumada a fazer purê?
- Com um troço que aperta...
- Ah, já sei! Faz tchuqui, tchuqui!
- É (sorri) tchuqui tchuqui (desata a rir)
- Ah, vá! Você me entendeu!

domingo, 24 de maio de 2009

Linguagem própria

Enquanto seres humanos, somos contadores e consumidores de estórias. Contamos e absorvemos estórias em diferentes mídias: escrevemos/lemos livros, encenamos/assistimos peças de teatro, dirigimos/assistimos filmes no cinema, fazemos/lemos quadrinhos, lemos/ouvimos audiobooks.

Cada um desses meios dispõe de diferentes recursos narrativos, exclusivos de cada forma de contar a mesma estória. Percebemos com clareza que esses meios dispõem de linguagem própria quando uma estória, contada num meio, passa a ser contada em outro meio. É nessa passagem de um gênero textual para outro que podem acontecer grandes saltos qualitativos.

Saltos escada abaixo. Olga e eu fomos ver uma peça de teatro chamada Por um fio. Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de Drauzio Varella. Nunca li nenhum livro do médico, mas aposto que ele seja um escritor no mínimo cuidadoso com as palavras. Em Por um fio, o médico reúne experiências, conversas e confissões de pacientes terminais. Mostra como vítimas de câncer e doenças decorrentes da Aids e seus parentes/amigos próximos lidam com a (iminência da) morte. Imagino um livro sóbrio e triste. A peça de teatro não passava do texto do livro, proferido por duas pessoas, alternadamente. O cenário se manteve o mesmo parque com ávores sem folhas e bancos demais pra ser verdadeiro. O figurino não mudou durante a peça. Além do texto não havia quase nada de cênico. A linguagem própria do teatro foi ignorada nessa peça teatral.

Pulinhos no mesmo degrau. A maioria dos best-sellers não passa de um roteiro. Dariam ótimos filmes de ação. Por isso Anjos & Demônios, ou o Código Da Vinci ou qualquer livro do John Grisham (só menciono aqui os que li) viram filme sem grandes mudanças no texto. O livro já era um roteiro. Acontece tanta coisa dramática, existe tanta grandiosidade nos atos, na tragédia das ações, que o livro prende. Mas ele não prende pela experiência literária, pelo sabor das palavras, pela textura do som, pela cor das metáforas. A linguagem própria da prosa literária é ignorada nesses livros que viram filme e vice-versa. Talvez por isso O Amor nos Tempos do Cólera em versão cinematográfica tenha decepcionado tanto: perdeu-se a poética e manteve-se a estória.

Saltos escada acima. Gosto muito de Neil Gaiman, um escritor/quadrinista inglês que passou alguns anos nos EUA. Além de transitar por diferentes sotaques, o homem também se move por diferentes gêneros: Sandman é sua mais consagrada série em quadrinhos; Neverwhere, Anansi Boys e American Gods são romances; Fragile Things é uma coletânea de short stories; Stardust é um conto de fadas para adultos; Coraline é um conto de fadas para crianças. Neverwhere, Coraline e Stardust viraram filme. Só posso comparar o livro com o filme no caso de Stardust, e percebo que a linguagem cinematográfica foi muito bem explorada na adaptação. A 20 minutos do fim do filme, a bruxa-rainha tem nas mãos um boneco de vudu que transmite as dores para Septimus, o último herdeiro do reino. Ela quebra um braço e uma perna do boneco, Septimus sente a dor dos ossos fraturados. Ela solta o boneco na água, e antes do boneco cair na água, Septimus enche os pulmões de ar. Assim que o boneco mergulha na água, Septimus começa a flutuar no meio do salão. Seu corpo bóia e ele se movimenta como se estivesse embaixo da água. A trilha sonora e o close nos cabelos que se movimentam lentamente na água dão relevo à cena. No livro, Septimus não morre afogado, nem não há nenhum boneco de vudu. A imagem que criaram para a morte do personagem no filme é genial, justamente porque lança mão da linguagem própria do cinema. Outra surpresa agradável foi ouvir o audiobook Anansi Boys, porque o leitor do livro soube imitar magistralmente os três sotaques predominantes no texto: britânico, americano e jamaicano. Ouvir os sotaques foi infinitamente mais divertido do que lê-los.

Minha mais recente fonte de curiosidade é Budapeste. Sei que se trata originalmente de um livro escrito por um músico. Não li este livro do Chico Buarque, mas vi o filme. No filme, há vários recursos cinematográficos que despertam a minha curiosidade: como é que isso tava no livro? A cena em que ele vê a majestosa estátua cortada de Lenin passando no navio é marcada pela trilha sonora. Tem uma cena em que a câmera fixa no rio e vira de ponta-cabeça. Na estória, o personagem principal aprende húngaro e a gente (que não sabe húngaro) tem que ler as legendas em português. Essas soluções cinematográficas correspondem a que problemas narrativos? Foram usadas cores de tinta diferentes, como acontece na História sem Fim, de Michael Ende? Foram usadas fontes diferentes ou foram inseridas imagens, como em Extremely loud and incredibly close, do Safran Foer? Minha curiosidade me diz que Budapeste será o meu próximo livro.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Pedal do silêncio

Foi o adjetivo 'silenciosa' que me seduziu para a bicicletada ontem de noite. Estava previsto um 'pedal do silêncio', uma manifestação internacional de luto pelos ciclistas mortos e feridos em acidentes de trânsito.

Eu me incluo no grupo dos acidentados, talvez até feridos (fui pro hospital pra que eu constasse como vítima no BO e depois fiquei mancando por um mês, fiz fisioterapia e tudo). Mas, fora as cicatrizes, não carrego as seqüelas dos meus acidentes de bicicleta no corpo. Não perdi a mobilidade, o emprego ou a validez por causa de um acidente de trânsito em que eu fosse o elo mais fraco. Mas sei que outros ciclistas perderam membros, auto-estima, seu lugar na sociedade, ou a vida em acidentes de trânsito. E sei que muitos destes acidentados não tiveram apoio médico/judicial e não entraram para as estatísticas de acidentes de trânsito.

Colisões de bicicletas com veículos motorizados eram (talvez ainda sejam, não queremos precipitar otimismo aqui) contabilizadas como 'atropelamentos', ou seja, o ciclista passa(va) a valer como pedestre. Quando a bicicleta era (talvez ainda seja, deixei de dialogar com o poder público faz um tempo, por isso não sei) considerada como veículo, então elas engrossavam os números de acidentes envolvendo motos. Isso acontecia (talvez ainda aconteça) porque a categoria 'bicicleta' não existe na contagem das concessionárias de rodovias.

No meu BO tem lá espaço pro policial rodoviário preencher a marca, modelo, ano de fabricação, cor e número de placa do veículo; como se o meu veículo tivesse isso tudo. Quanto à minha lesão, consta lá 'leve' (as opções são: fatal, grave, leve, ileso), mas não é especificado que eu tinha luxado o pé direito, que eu viria a quebrar 2 anos e 24 dias depois. O cenário do acidente recebe descrição detalhada, mas não é dada atenção ao tipo de ferimento da vítima. Se o ferimento tivesse sido grave, não haveria um campo de múltipla escolha para preencher que partes do corpo foram lesionadas - e de que maneira.
Quando é que acidentes envolvendo ciclistas serão contados de maneira separada? Quando é que as vítimas deixarão de ser enquadradas como 'passageiros' ou 'pedestres'? Quando é que os ciclistas acidentados serão acompanhados e usados como base de estudo para a prevenção de acidentes?

E no caso de mortes de ciclistas, o que acontece? Lembro de uma notícia de que haviam morrido vários ciclistas de uma vez. Pedalavam speed bikes pelo acostamento e foram varridos por um caminhão. A conseqüência das mortes foi a proibição da circulação de bicicletas pelo acostamento daquela via. Simples. Não lembramos que o motorista que colidiu com um ciclista e provocou sua morte responde por um crime.

Sei que a bicicletada não vai responder a essas perguntas, nem correr atrás de mudanças no status quo, porque não é uma ong ou oscip. Mas a idéia de simplesmente pedalar em silêncio com outras pessoas me atraiu pra Praça do Ciclista.

Havia dois pontos de saída: a bicicleta-fantasma da Márcia Prado e a Praça do Ciclista. Não creio que tenhamos somado muito mais de 100 pessoas. A maioria estava vestida de branco, eu estava usando roupas de frio que eu não tinha doado naquele meu surto de em-Rondônia-não-faz-frio.

Pedalamos devagar, ocupando 2 faixas na Paulista. A massa crítica não gritava, não pedia pra 'quem gosta de bike, buzina!' não apitava, não emanava nenhum funk dos infernos. Por pedalarem silenciosos, os integrantes da massa se sentiram mais unidos. Por pedalarmos em silêncio, pudemos ouvir com mas nitidez todas as buzinadas irritadas, os xingamentos raivosos e conselhos estúpidos dos motoristas. Desta vez não chamamos as pessoas às janelas, não arrancamos sorrisos de pedestres, não fomos atração de circo. Éramos apenas um grupo de ciclistas atrapalhando o trânsito em plena quarta-feira. Eu aproveitei pra olhar na cara das pessoas presas no trânsito. Ultimamente não tenho olhado pras pessoas no trânsito: vejo carros e espaços por onde a minha bicicleta passa.

Chegamos à bicicleta-fantasma e acendemos velas, colocamos flores na bicicleta branca e fizemos uma roda pra ouvir as palavras emocionadas de um palhaço. Havia no ar uma vibração de 'não vamos esquecer', mas ao mesmo tempo também um sentimento confortante de 'não estamos sozinhos'. Bem o tom que paira numa reunião de sobreviventes que se lembram de vítimas.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O que impressiona

Passo algumas horas, por quatro dias seguidos, dentro de uma empresa. Meus caminhos lá dentro não são longos: garagem, elevador, corredor, sala de beber água, banheiro, sala de reuniões, corredor, elevador e garagem.

Nos primeiros dias, algumas bicicletas no bicicletário me impressionavam: olha, o cara deixa todos os acessórios (luzinha, velocímetro, bolsinha) pendurados na bike dele; uau, uma Cannondale pendurada aqui; ahá, uma bike nova! Mas depois de 3 semanas já conheço todas as bicicletas e seus lugares de estimação. Algumas já juntam poeira de estacionamento e parecem ter sido esquecidas pelos seus donos.

Minha curiosidade era em relação aos ciclistas. Seriam eles guardas, faxineiros ou recepcionistas? Ou são os caras que perdem cabelo de tanto se estressar, ganham peso de tanto trabalhar sentados e não têm tempo para lembrar que a esposa, os filhos e o cachorro também querem um pouco de sua atenção? Um dia vi um ciclista chegando quando eu estava saindo de manhã. Todo suado, parecia intrigado ao ver uma mulher no bicicletário. Aproveitei o interesse dele e fui satisfazer a minha curiosidade: cê vem da onde? Mooca. Pedalei 20km. Cê faz isso todo dia? Não, todo dia não dá, mas 3 vezes por semana e venho pedalando. O cara era careca e barrigudo, portanto imagino que seu local de trabalho seja um escritório.

Quando reparo nas mulheres que trabalham em escritório, tenho a impressão de que elas se esforçam para chamar atenção através do som que os seus saltos altos fazem no chão. Quanto mais barulho, melhor. Não importa que andem de um jeito estacado, numa marcha dura, sem leveza e sem curvas. Compensam seu andar pouco feminino nos cabelos longos e sempre soltos, nas unhas pintadas e nos olhos maquiados.

Quando penso nos homens, lembro dos meus alunos me mostrando o novo modelo de celular que ganharam da empresa (Samsung), e que ainda não sabem usar. Lembro da alegria pueril nos seus olhos, quando um colega deles coloca o seu celular novo na mesa. Esticam a mão e tratam aquele aparelho como se fosse um brinquedo. O que parece impressioná-los é a tecnologia.

O que me impressiona é como essa tal tecnologia transforma o nosso mundo. Não só os prédios que brotam na Berrini, a Marginal parada, com um luminoso informando que são 180km de congestionamento às 18:30 de uma terça-feira, ou o espanto na cara das pessoas quando digo que não tenho nenhum telefone celular (agora a moda é ter 2). São também os nossos novos vícios de sempre receber mensagens, notícias, imagens, números. É o corpo da pessoa de escritório, deformado pelo sedentarismo, é a auto-afirmação das mulheres no barulho do salto alto. É a violência contra o próprio corpo que acorda antes do dia clarear e se deita moído. É o mito de que andar de bicicleta é perigoso, acampar não é mais pra minha idade, e que 'aproveitar a vida' só vai acontecer quando os filhos saírem de casa.

Sei que eu impressiono as pessoas por não usufruir dos últimos avanços da tecnologia e por não aparentar a idade que tenho. Demonstram sua admiração me chamando de 'crazy teacher'.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O pior banco do mundo

é o Santander. Não é só sua estrutura fragmentada que favorece a ocorrência de falhas e desencontros, mas é a incompetência dos funcionários que me atendem que faz com que eu eleja este e não outro banco como sendo o pior do mundo. Tenho bons motivos para tanto ódio.

Em 9 e 10 de janeiro a minha conta (corrente e poupança) foi limpada por um estelionatário. Imediatamente notifiquei o banco, que bloqueou o meu cartão. Passei um mês dependendo da boa vontade de uma tal de Gabriele Morales, a analista que estornaria o dinheiro que me tinha sido roubado. O dinheiro da conta corrente foi estornado, o da poupança foi ignorado por mais umas semanas. Assim que todo o montante desviado me foi devolvido, fechei a conta.

No dia 4 de fevereiro o gerente da minha conta universitária em Barão Geraldo me aconselhou a cancelar o cartão. Apertando os olhos, explicou que cancelar é diferente de bloquear, e cancelamos um cartão bloqueado antes de encerrar a conta. Perguntei sobre a fatura do cartão de crédito que viria me cobrando as coisas que o estelionatário (que pagou o IPVA do seu carro com o meu dinheiro) tinha comprado com o meu cartão. Apertou mais uma vez os olhos e amaciou a voz: Desconsidere, fique tranqüila.

Fim de março recebo uma ligação na casa da Olga. Senhora Lou, verificamos aqui que a sua conta foi manipulada por terceiros, e que o banco fez um estorno pra senhora. Acontece que o banco estornou um valor de R$ 6,00 a mais do que devia. Maravilha!! Já encerrei a conta faz um mês, como faço pra pagar por esse erro de cálculo de vocês? Aguarde contato.

Liguei no SAC do Santander e pedi orientação. A moça sugeriu que eu fosse em qualquer agência pra pedir que me gerem um boleto de R$ 6,00 que eu possa pagar no caixa. Fui na agência mais próxima e contei a minha triste e estranha história com o banco Santander pro gerente que, quando criança, atravessou uma porta de vidro (seu rosto era cheio de cicatrizes vetricais). O gerente do rosto marcado consultou-se com o seu superior, pediu o meu extrato, não conseguiu localizar nenhuma dívida ou diferença de R$6,-, tirou a calculadora da gaveta e mergulhou num silêncio profundo. Quando levantou os olhos dos seus cálculos, anunciou que o banco me devia mais de mil reais. Fui eu quem teve a sacada de verificar o saldo antes da clonagem do cartão e depois do estorno. Havia uma diferença de seis reais entre os valores. Aliviado, o moço pegou o gancho do telefone e ligou no SAC pra abrir uma manifestação e pedir orientação.

Percebi que, com o meu número de CPF, qualquer funcionário do Santander que trabalha em frente a um computador pode acessar a minha conta, ver as milhares de manifestações que tenho aberto nos últimos meses, mesmo depois de eu ter encerrado a conta. Mas nem todos podem fazer alguma coisa, especialmente quando não são do setor certo.

Mudei de casa e continuei ligando no SAC do banco, pra saber como pagar os malditos R$ 6,00 que estavam me cobrando por incompetência deles. De tanto ligar e ser passada para setores diferentes, acabei conversando com a Viviane Marcolino, a moça que tinha me achado na casa da Olga e tinha descoberto os R$ 6,00. Ela quis saber quem tinha sido responsável pelo estorno que saiu a maior. Repare que eu sabia disso, mas ela não. Você também sabe: Gabriele Morales. Expliquei que eu tinha ojeriza a esse nome, porque passei um mês caçando essa mulher. Ah, é? - disse, em tom divertido - um momento, que eu vou ver se consigo localizar a Gabriele. Levantou e circulou pela sala dela. Voltou dizendo que a Gabriele não trabalhava mais no Santander. Uau, que novidade. Bom, senhora Lou. A senhora não consta como inadimplente na conta corrente. Para cobrar esse valor de R$ 6,- da senhora, o banco teria que abrir uma nova conta pra senhora, mas como isso custa mais que o valor que foi estornado a maior, vamos simplesmente perdoar essa dívida. Ótimo. Mas a senhora tem uma dívida no cartão de crédito.

Como assim, eu tenho uma dívida no cartão de crédito? Senhora Lou, ligue no SAC e converse com um de nossos especialistas em cartões. Liguei e a moça disse que haviam sido feitas duas compras em 9 e 10 de janeiro, que tinham sido canceladas por terem sido feitas por terceiros, mas depois foram reacionadas, por não terem sido contestadas. A senhora não foi informada que precisa escrever uma carta contestando as compras que não reconhece? O seu gerente não a informou? Então a senhora vai mandar uma carta por fax, esclarecendo que não reconhece as compras. Sim, o cartão já tinha sido cancelado, mas como a senhora não contestou as compras, elas foram relançadas. Sim, foi uma falha do seu gerente e um erro do banco, mas esse é o procedimento.

Bom dia senhora Lou, sou do SAC Santander e estou ligando para avisar que a senhora está com um cartão de crédito em aberto e uma fatura com 18 dias de atraso. Querida, vamos fazer as contas. Quantos dias temos entre o dia 9 de janeiro e hoje, dia 12 de maio? Um pouco mais que 18, né? O fax que eu mandei já chegou? Sim, e está sendo processado.

Bom dia, senhora Lou, sou do SAC Santander e estou ligando para informar à senhora que a sua situação com o cartão de crédito já está regularizada. Vamos estornar o valor que a senhora não reconheceu. Estornar?? Pessoa, eu não quero o dinheiro de vocês, eu não tenho conta nesse banco, não tem pra onde você devolver nada. Eu quero que essa dívida seja anulada, cancelada, perdoada. Entendeu? Perfeitamente, senhora. Sua dívida foi cancelada. Cê fez isso agora, enquanto conversava comigo? Sim. Cê apertou um botão aí e resolveu os meus problemas? Exatamente. Posso ajudar em mais alguma coisa?

Oi, meu nome é Lou, e eu tô ligando só pra conferir se a minha situação foi regularizada. Sim, senhora Lou, o valor de R$ 257,52 foi estornado, o que gerou uma taxa de R$ 19,79, que a senhora precisa pagar. Mas eu não pedi pra estornar! Entendo, foi um erro, vou pedir pra cancelarem essa taxa de R$ 19,79, o que deve acontecer num prazo de cinco dias úteis. Meu, esse banco é muito confuso e incompetente! Eu cancelei o cartão em fevereiro e agora em abril e maio vem cobrança de uma fatura que o banco reconhece que não é minha, mas mesmo assim me cobra, depois essa dívida me é estornada - não sei pra onde, já que não tenho conta, o que gera uma cobrança de quase 20 reais! Alô? Alô? Viviane Amaral? Que puxa, tô falando sozinha. ODEEEEIO esse banco, só pro caso de a gravação dessa conversa ainda estar rolando.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Meio máquina




Me sinto meio máquina. Minhas pernas são o meu motor, o estômago o tanque, a cama a recarga de bateria. Já é a segunda semana em que pedalo até a Berrini todo dia (exceto sexta) de manhã. Ida e volta são 10km. Isso não é muito, mas duas vezes por semana dou aula de tarde/noite a 7km de casa. Nas outras duas noites (sexta continua fora) volto no mesmo prédio na Berrini pra dar aula, o que soma mais 10km. Por acordar às 5:30, tenho fome de almoço às 10:30. Como dou aula de noite nos dias em que dou aula de manhã, durmo de tarde. Acordo atordoada de tanta imagem que vi em sonho.

A cabeça não desliga nesses quatro dias de trabalho, o corpo não descansa, a língua que me habita não é português.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Show de graça

A informação veiculada no site oficial da banda era que haveria shows durante quase uma semana, às 20:00. A distribuição dos ingressos aconteceria meia hora antes do evento, mas para garantir a ordem na fila, era preciso pegar uma senha, que seria distribuída 2 horas antes do show.

Chego na Av. Paulista duas horas antes do show e na calçada eu vejo pessoas maquiadas de palhaço, manipulando materiais circenses, usando roupas coloridas. Esta é a fila pro show do Teatro Mágico. Perguntei para um grupo de pessoas se aquele era o fim da fila e eles disseram que era o começo, porque já estavam ali desde cedo. Descobri que a primeira pré-senha tinha sido distribuída pouco depois das 15:00 e que haveria 3 shows na mesma noite, mas a terceira pré-senha já tinha sido distribuída, o que diminuía pra quase zero as minhas chances de ver o show naquela noite. Um menino do grupo perguntou se eu estava sozinha, e logo ofereceu a pré-senha do amigo que estava esperando com eles desde às 6 da manhã, mas não poderia ver o show, porque ficava tarde pra ele. O tal amigo confirmou que teria que voltar pra casa e me deu a sua pré-senha. Surpresa, agradeci. Uma menina que estava na borda da roda fez uma cara de decepção e reclamou que estava esperando por esse ingressso a tarde toda. Sorri pra ela como quem pergunta: e aí, cê vem tirar esse papel da minha mão? O desconforto gerado foi grande, e a saída do grupo foi persuadir o cara a não ir pra casa, mas ficar pra ver o show. Devolvi o ingresso, mas não tenho certeza se ele ficou com o papel ou deu pra menina consternada. Fui embora achando que só adolescente mesmo pra achar que tanto sacrifício vale a pena.

Outro show de graça na minha programação tabajara era no Terraço Itália, às 21:00. Retirada dos ingressos gratuitos 1 hora antes para ver a apresentação do grupo de dança Cisne Negro. Gato escaldado, apareci na bilheteria às 19:00 e peguei o meu ingresso. Só tinha menos de 10 e a minha amiga, que chegou meia hora depois, ficou sem. Fomos no bar tomar um suco e botar a conversa em dia. Voltamos para o auditório, sacar a situação e ver se conseguíamos ingresso pra Sueli. Na frente da bilheteria havia muitas pessoas desanimadas, segurando uma senha na mão e uma moça histérica apontando pro cartaz: tá vendo essa daqui? Sou eu! Eu ensaiei o grupo, e vocês não vão me deixar entrar??? Enquanto isso, apareceu uma moça concentrada, distribuindo ingressos pras amigas. Sobrou um, que ela deu pro segurança, que olhou pra blusa vermelha da minha amiga e lhe estendeu o último ingresso. Como já não havia mais lugar marcado, pudemos sentar juntas e apreciar o espetáculo. Não sei se/como a coreógrafa conseguiu entrar.

Resumo da ópera: se for de graça, apareça bem antes do horário anunciado pra distribuição dos ingressos. Se for um lance adolescente, lembre-se que eles gostam de fila, se pá até dormem na fila pra depois se gabarem do sofrimento que foi a aventura de esperar pra ver sua banda preferida.

domingo, 10 de maio de 2009

Giz

No Centro Social Sal da Terra não tem mais quadro negro nem branco. Tem lousa e giz. Minha roupa, cheia de pegadas das minhas mãos engizadas, revela sobre a aula que dei. Às vezes eu volto pra casa com a marca da mão cheia na perna da calça, com a testa branca ou o cabelo polvilhado de giz que ficou dançando pelo ar.

Numa aula de alemão para os meus alunos pré-adolescentes, pedi que viessem à lousa e representassem através de um desenho na lousa o que estava escrito nos papelzinhos que eu lhes dava. A empolgação com a atividade foi tanta, que quase terminou em gerra de giz.

Na aula seguinte, quando chegaram, um reclamou para o outro que o risco de giz que o outro tinha feito na camiseta do primeiro não tinha saído. O menino que chegou atrasado na sala, passou pela caixinha de giz antes de sentar na cadeira. Reclamei: não, não pega giz, não, que senão eu fico sem, véio! Tá bom, véio - resmungou e devolveu o toco de giz. Durante essa aula, quando esse sujeito ficava desocupado, ele levantava, vinha até a lousa e desenhava qualquer objeto. Ficava triste quando eu apagava sua obra de arte, mas isso não o desencorajava a voltar para a lousa e traçar nela toda a sua criatividade.

Aula passada eu estava escrevendo os nomes dos meses na lousa e ninguém tava dando a mínima atenção pra mim enquanto eu escrevia os três últimos nomes em outra cor. Chamei a atenção deles para os meses e passei a falar das estações do ano, da neve, da festa da vida que é a primavera na Europa, das temperaturas máximas no verão, do tempo de claridade no inverno e verão. Eles me acompanhavam, mas estavam intrigados com uma coisa. Uma, super tímida, levantou o braço pra aliviar suas dúvidas numa pergunta: por que que Oktober, November e Dezember estão escritos em azul e o resto em branco, professora? Porque acabou o giz branco e eu continuei escrevendo com o primeiro giz que eu achei aqui na caixinha. Pronto! Resolvido o mistério, mas a situação precisava ser remediada. O desenhista voltou até a lousa, apagou os 3 meses em azul e rabiscou os mesmos nomes em giz branco. Agora sim, professora!