Mas enfim, fui à capital e me esbaldei de cinema - tanto indo à sala de cinema como conversando com a Carol noite e madrugada adentro sobre cinema.
Jogo de Cena não é nem documentário nem ficção, porque a fronteira é tênue. O que deu início à coisa foi um anúncio que o diretor (Eduardo Coutinho) botou no jornal, convocando mulheres cariocas, maiores de 18 a contarem sua história de vida. É com a imagem do anúncio que começa o filme. Não tem história (vieram 83 mulheres, 23 foram gravadas de fato e menos que isso apareceram no filme), tem encadeamento de histórias de vida. Não tem trilha sonora, tem as histórias, uma depois da outra. O espectador vê uma mulher, dá risada, depois vê outra, se emociona, depois vê a Andréa Beltrão falando as duas últimas frases da outra, depois volta pra segunda, a Beltrão continua, volta a mulher que viveu a história, que se alterna com a atriz famosa até a história terminar. Assim percebemos que algumas histórias são encenadas por atrizes famosas. O maior peso é dado às histórias trágicas (mãe solteira que não sabe ao certo como aquela criança veio parar em seu ventre, morte de filho, perda de laços com a filha), simplesmente porque são mais compridas e são as histórias que são encenadas pelas atrizes famosas.
O que pega são os comentários das atrizes famosas sobre as suas atuações. Marília Pêra fala sobre o choro. Ela chorou de verdade, nem precisou aplicar o coisinho que ela tinha trazido pro caso de precisar chorar e não ser capaz de verter suas lágrimas contidas. As outras duas confessam sua abismação com essa coisa louca de representar não um personagem fictício, mas uma pessoa comum, que o espectador viu na cena anterior. A mulher que vivenciou a história é o grau máximo de credibilidade, porque ela é personagem e autora da sua própria história. Então o desafio é manter o mesmo tom que a dona da história. O lance de representar a história de uma personagem real é que ela é real, de verdade, assim, e viveu tudo aquilo e sofreu tudo aquilo e está sofrendo tudo de novo, ao contar a história trágica que mais marcou sua vida.
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