domingo, 9 de dezembro de 2007

Jogo de cena

Pouco menos de um mês depois do lançamento, fiquei sabendo da existência deste filme através de um relato empolgado da Olga. Pois é, viver em Barão Geraldo, perto da natureza, tem suas desvantagens: a vida cultural é meio pasmaceirenta.

Mas enfim, fui à capital e me esbaldei de cinema - tanto indo à sala de cinema como conversando com a Carol noite e madrugada adentro sobre cinema.

Jogo de Cena não é nem documentário nem ficção, porque a fronteira é tênue. O que deu início à coisa foi um anúncio que o diretor (Eduardo Coutinho) botou no jornal, convocando mulheres cariocas, maiores de 18 a contarem sua história de vida. É com a imagem do anúncio que começa o filme. Não tem história (vieram 83 mulheres, 23 foram gravadas de fato e menos que isso apareceram no filme), tem encadeamento de histórias de vida. Não tem trilha sonora, tem as histórias, uma depois da outra. O espectador vê uma mulher, dá risada, depois vê outra, se emociona, depois vê a Andréa Beltrão falando as duas últimas frases da outra, depois volta pra segunda, a Beltrão continua, volta a mulher que viveu a história, que se alterna com a atriz famosa até a história terminar. Assim percebemos que algumas histórias são encenadas por atrizes famosas. O maior peso é dado às histórias trágicas (mãe solteira que não sabe ao certo como aquela criança veio parar em seu ventre, morte de filho, perda de laços com a filha), simplesmente porque são mais compridas e são as histórias que são encenadas pelas atrizes famosas.

O que pega são os comentários das atrizes famosas sobre as suas atuações. Marília Pêra fala sobre o choro. Ela chorou de verdade, nem precisou aplicar o coisinho que ela tinha trazido pro caso de precisar chorar e não ser capaz de verter suas lágrimas contidas. As outras duas confessam sua abismação com essa coisa louca de representar não um personagem fictício, mas uma pessoa comum, que o espectador viu na cena anterior. A mulher que vivenciou a história é o grau máximo de credibilidade, porque ela é personagem e autora da sua própria história. Então o desafio é manter o mesmo tom que a dona da história. O lance de representar a história de uma personagem real é que ela é real, de verdade, assim, e viveu tudo aquilo e sofreu tudo aquilo e está sofrendo tudo de novo, ao contar a história trágica que mais marcou sua vida.

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