quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Antigamente

Aqui era só o lago de um hotel. Nem se chegava perto do laguinho, porque estava no terreno do hotel. Agora três tenores cantam acompanhados de efeitos de água e luz em jatos d'água. Fogos de artifício poluem o céu, multidões se aglomeram em volta do lago e muito dinheiro faz o turismo natalino valer a pena.
Aqui era a Carriere. A placa de trânsito ainda indica a Carriere. Talvez, em outros meses (longe do Natal) o espaço continue sendo o lugar de treino de cavalos. Agora é a "Fantástica Fábrica de Natal", vê se pode.
A estrutra é imensa. O lucro também há de ser.
Aqui começava a trilha pra bica que fica ao pé do Lago Negro. Agora enfiaram essa "tenda do Tapete Vermelho" - seja lá o que isso for - no meio da trilha.
Os pedalinhos no Lago Negro existem desde que me conheço por gente. Desconfio que não tenham existido na infância da minha mãe, mas eu lembro de pedalinhos do modelo "simprão". Daí surgiram os pedalinhos em formato de cisne e agora a nova onda são os pedalinhos tipo caravela.
Quando eu era pequena, meus primos chamavam pra ir na bica. Não lembro se a gente bebia água da bica, mas lembro que uma trilha escondida levava a ela. Agora tem plaquinha indicando um santuário.
Estou ficando velha. As novas construções de condomínios, os apartamentos à venda, a exuberância e o número crescente de restaurantes, hotéis e lojas de artesanato me apertam um pouco. Ainda tem muito verde, neblina, cheiro de pedra molhada, grama cortada, forno a lenha e de carne assando no sal grosso, vegetação europeia transplantada e gente da Colônia. Mas o evento que a cidade faz do Natal me mostra que tenho saudades da simplicidade dos cheiros da infância. O Natal de Gramado tem decoração de plástico e eventos-shows que cobram ingresso.

Gramado Garten

Entrei no avião às 03:00 de uma noite escura e fria em Porto Velho, permaneci sentada quando outros passageiros ao meu redor se revezaram em Cuiabá, desembarquei e embarquei em Guarulhos, saí do avião em Porto Alegre e dei um abraço no Antonio. Às 15:45 entrei num ônibus da Citral e depois de muitas curvas e paisagem verde, cheguei em Gramado.
Quando desembarquei em Guarulhos, me senti em casa. Só achei estranho que tive que dar uma voltona pra pegar a minha conexão. E quando cheguei no "embarque doméstico", o funcionário disse que eu deveria embarcar pelo outro portão. Dei truco: mas o outro portão é "embarque internacional". Ele retrucou: é isso mesmo. Botei as cartas na mesa: ué, os gaúchos se separaram do Brasil, então? Rindo dos meus trunfos baixos, ele explicou que o avião que eu ia pegar ia a Montevideo, com escala em POA.
O Antonio é um dos 32 autores que colaborou com aquele livro que Heloisa e eu organizamos. Como a Unir não tem verba pra enviar pelo menos 3 exemplares ao autor (já que as produções da Unir são predominantemente caseiras), eu levei os 3 exemplares de autor pro Antonio. Durante o café que tomamos, nossos assuntos eram de professor novo no departamento. Fico muito feliz por ele, que fez doutorado na mesma época que eu.
Eu ia do aeroporto de Porto Alegre pra rodoviária, pegar o ônibus pra Gramado. Fui no posto de informações. Táxi custava em torno de 20 pila, trem R$ 1,70. Disse pra moça que eu ia pra Gramado, e ela sorriu: então tu não precisas de trem nem de táxi. Podes ficar aqui, porque o ônibus pra Gramado que sai da rodoviária passa aqui.
Aqui no sul, o dia é claro até 20:00. Bem diferente do regime de claridade de 6 às 18:00. Quando o termômetro marcou 22°C, me desesperei de frio e calcei minhas meias de lã e um moletom.
A primeira coisa a que me atirei com a minha câmera fotográfica foi o jardim da Oma. A segunda foi o jardim dos vizinhos. Lá achei essa sementinha. Me iludi que fosse guaraná (mas eu sei que não é). Tirei de uma árvore, não de um arbusto. 

domingo, 19 de dezembro de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

Fim de semestre

O paciente chega pro médico e pede que ele altere o resultado do exame de colesterol, porque aquele número alto é muito preocupante. Se aquele número ficar lá no exame, outros médicos se sentirão no direito de pedir que o paciente faça dietas, exercícios e mais exames.

* * *

O candidato não comparece ao exame psicotécnico e insiste com o fiscal do Detran que é saudável, que não fez o exame psicotécnico porque aquele exame não faz sentido.

* * *

O paciente chega na sala de exames e pergunta se não pode fazer outro exame, qualquer um serve, porque tem muito medo de saber se tem HIV ou não. A enfermeira confere quais exames foram pedidos pelo médico e responde: aqui está pedindo só o teste de HIV.

* * *

O paciente passa um mês no hospital, vê o médico todo dia, observa como outros pacientes conversam com ele, mas é tímido demais para perguntar se pode seguir o tratamento com seus remédios caseiros. Sai do hospital, toma seus remédios caseiros e não melhora. Volta ao hospital dizendo que o médico não lhe deu atenção.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Despedida

O caminho que fizemos para o aeroporto passava pelo Parque Circuito. O parque é pequeno, mas seus arredores são verdes e doadores de sombra - o que me fez voltar do aeroporto pelo parque.
Não sei se isso é uma árvore que dá leite de seringa, mas muitas árvores com folhas e caules iguais tinham essas marcas.
Evelyn muito alto-astral.
Entrar num saguão de aeroporto com uma bicicleta é equivalente a caminhar com uma prancha de surf embaixo do braço na Av. Paulista. Sentimos a atenção de todos em nós. Quando a bicicleta foi dobrada, foi um espetáculo.
Quando cheguei em casa e vi a gata dormindo no canto do sofá, me dei conta que a casa está vazia. Muito bom hospedar uma pessoa tão alegre e conversadeira!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Pedalando em 2

Fui buscar a Evelyn no aeroporto de bicicleta. Na ida, eu voei no asfalto. Na volta, me liguei que a bicicleta dela não tinha marcha. Viemos mais devagar e conversando.

* * * 

No dia seguinte, voltando do rio Madeira, quis fazer um caminho bem óbvio, que ela pudesse refazer sozinha (muitas redações e alunos pedindo notícias de nota me impediram de acompanhar a minha hóspede pra todos os lugares). No meio da D. Pedro II, de frente pra catedral, tinha uma festa de Natal. Desmontamos, subimos na calçada e começamos a nos emaranhar pela rala multidão. Logo fomos interceptadas por um policial que dizia que bicicleta tem que andar na rua. E que a gente não podia passar por ali porque a rua tava interditada. Evelyn explicou que, segundo o Código de Trânsito Brasileiro, um ciclista desmontado se equipara ao pedestre. Não convenceu. Ele apontou pruma rua (que eu não sei onde vai) e disse que era pra gente pedalar por lá. Eu disse que se fôssemos obesas, teríamos que pedir licença do mesmo jeito que com as bicicletas. Ele apontou pra praça e disse que deveríamos passar por ali. Fomos, achando tudo aquilo muito maluco.

* * *

Tínhamos notado que a roda de trás da dobrável novinha da Evelyn fazia barulhos quando o pedal não girava. O som parecia vir do cubo. Na manhã seguinte, fomos à bicicletaria do Bezerra, afinal de contas, Evelyn ainda vai longe com essa bicicleta. O mecânico tava atrás do balcão, não debruçado sobre uma bicicleta. Bom sinal. Logo identificou o som e explicou que as esferas continuam girando quando o (contra)pedal pára. Levantou a roda traseira de uma speed, girou o pedal e nos fez ouvir um som similar. Concluímos que não conhecer a própria bicicleta pode gerar pânico.

* * *

Na mesma noite, depois do cineclube no Cine Rio, fomos pela Abunã (onde fica a bicicletaria) pra direção do Shopping. Uma moto emparelhou com a gente. Quando vi, era o Bezerra, todo sorridente:
- Vi as luzinhas da bicicleta piscando e pensei: até já sei quem é.

* * *

Corajosamente, Evelyn foi visitar o museu de presépios (totalmente desconhecido da maioria dos portovelhenses) lá na Zona Leste, onde a Mamoré cruza com a Rio de Janeiro. Eu fiquei em casa, corrigindo redações. Na hora do almoço, mandei mensagem pro celular dela, perguntando se íamos almoçar. A resposta veio com uma localização: "estou no Mercado". Peguei minha bicicleta e fui (voando). Não achei a Evelyn nem a dobrável no Mercado Central. Tentei ligar, mas não consegui. Mandei mensagem: "qual mercado?" Antecipando a resposta, subi até o Mercado Municipal, da Sete de Setembro. Nada de Evelyn. Telefone morto. Quando eu tava voltando pra casa, tocou o telefone. Trem Madeira-Mamoré. Ela estava sentada num banco de praça, conversando com um senhor bem-humorado. Enquanto ela me explicava que o celular dela tinha morrido temporariamente, um mendigo veio apertar a minha mão. Apontou pra Dahon e se riu todo: essa bicicleta aí dobra no meio!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ilustre visita

Evelyn me encontrou pelo Warm Showers e pediu dicas de hotéis baratos. Ofereci minha casa. Quando faltavam dois dias pra sua chegada, estávamos combinadas: eu a buscaria de bicicleta no aeroporto, já que ela trazia uma bicicleta dobrável na bagagem.

Saí de casa à meia-noite e fiz os quase 10km em 24 minutos. A noite estava fresca e o trânsito em direção ao aeroporto movimentado. Tinha gente embarcando e desembarcando, gente parada esperando e uns evangélicos lendo (mal, diga-se de passagem) passagens bíblicas no microfone, no fundo do corredor do aeroporto. Fiquei pensando que impressão seria essa, de chegar num aeroporto que parece uma igreja. Quase tive medo de não reconhecer a Evelyn, porque só lembro de tê-la visto uma vez, num Brooklin Fest. A caixa presa na bicicleta do namorado dela me era mais presente na memória do que os traços dela. Todavia, foi fácil identificá-la: não usava um vestido de gala, não abraçava ninguém e procurava por mim.

Pedalamos em linha reta pra minha casa. No caminho, contei que a moça que dividia a casa comigo estava de mudança no dia seguinte, cedinho. Quando chegamos, a casa parecia mais vazia. Na manhã seguinte, quando quisemos tomar café da manhã, uma escada ocupava o espaço da mesa e os fios do ventilador de teto desinstalado saudavam um novo dia - quente. O caminhão foi carregado enquanto tomávamos café. Um sofá, telefone no chão, nada de tapete, minha geladeira pequena de volta, nenhuma TV enorme: a casa voltou a se parecer com o que era quando entrei.

A primeira coisa que Evelyn e eu fizemos em Porto Velho foi trocar o pneu do carro da Cynthia. Quem dava as orientações vitais (por exemplo, pra que lado desrosquear os 4 parafusos) era a Fran, por telefone.

Na esperança de ver o meu nome (e o do Renato, Pablo, Maria Luiza, Gilvan, Lígia, Mazé e Iara) escrito na parede do restaurante sob a rubrica de 'linguistas', fomos almoçar no Remanso do Tucunaré. Meu nome não tava na parede, mas o meu ex-chefe de departamento tava na mesa 13.

No fim da tarde do domingo, levei minha hóspede pras margens do Madeira. Pra minha surpresa, o parque perto da estação Madeira-Mamoré está bem atraente, cheio de sombra, bexigas, crianças, casais, roda de capoeira e enfeites de Natal. Fazia um ano que eu não ia lá. Revisitei um ponto turístico por causa da Evelyn, que fez do turismo um trabalho jornalístico.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Obrigado por tudo e tomara que eu passe

Estou corrigindo as resenhas  finais dos meus alunos. A turma de Arqueologia resenhou um conto de ficção científica do Isaac Asimov (A última pergunta), a turma de Letras resenhou um conto irlandês da Mary Lavin (O fundo da terra e o fundo do mar) e a turma de Medicina resenhou um ensaio da Susan Sontag (A doença como metáfora). Na turma de Medicina, a tendência foi mandar rascunhos da resenha por e-mail e pedir orientação (na verdade, pediam "uma luz"). Na turma de Letras, a tendência foi o diálogo ao vivo e a cores (inclusive na hora da entrega tinha gente pedindo orientação. Quando quis ir embora, tinha gente acampada na frente da minha bicicleta). Quando mandaram os frutos dessas conversas por e-mail, fiquei espantada com o salto qualitativo de algumas resenhas. Na turma de Arqueologia, houve orientação em sala de aula, mas fora dela, a tendência foi o silêncio. Minhas preocupações se confirmaram quando comecei a ler as resenhas.


"A história é constituída por 12 paginas cada uma delas sob a responsabilidade de um autor."


"O texto a ultima pergunta e escrita por Isasc Asimov retrata uma historia de robores e humanos."
"Quanto o ser humano passa a conviver com rubores que o mesmo tem comandos próprios e assim com os dinossauros, os seres humanos vão se exitiguindo."

"surgiu uma discurssão" 
"entram numa discutição"


"O conto de Isaac Asimov conduz o leitor a um universo além do futuro"


"A máquina era tão inteligente que alto se programava."
  
"computador muito inteligente"

"Boas férias ou até a repositiva!" 
"Seja o que AC quiser"

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mudanças

Em 2003, meu cabelo era comprido, meu passaporte era verde (e da República Federativa do Brasil), eu tinha acabado de entrar no Mestrado na Unicamp e morava numa república de 9 estudantes.
Em 2010, meu cabelo é curto e arrepiado pelo vento na cara, meu passaporte é azul escuro (e acima de República Federativa do Brasil está escrito Mercosul), faz um ano que sou professora universitária na Unir e moro numa república com uma colega de trabalho e uma gata sem rabo.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Internautas

Queimou o modem. De novo. Dessa vez, tinha tirado o fio do telefone, conforme instrução do técnico que diagnosticou um modem anterior queimado. Mas tava na tomada. E o raio caiu aqui do lado. Queimou o segundo modem.

Enquanto eu conversava por telefone com a moça da loja sobre os horários de atendimento, ouvi a vizinha lá fora contando quais coisas ela tinha conseguido tirar da tomada antes que queimassem. O vizinho e eu saímos juntos: ele de carro, eu de bicicleta.

Comprei um modem com wireless, pra me livrar do cabo azul quilométrico que herdei da Oca da Tapioca. Liguei no provedor pra configurar o modem. Inverti as pontas dos fios, liguei e desliguei o modem, o computador, os dois,  mas o modem não funcionava. A interação com a moça do suporte técnico era preenchida de silêncios. Pra saber se o raio tinha danificado a rede, usei um modem não-meu, encontrado numa gaveta. Internet ok e navegando. A moça decidiu que o problema era o modem.

No dia seguinte fui na loja, querendo trocar o modem. O vendedor me mandou pra assistência. André me provou que o modem funcionava. Voltei pra casa e voltei a ligar no suporte técnico do provedor. O atendente custou a localizar o manual referente ao meu modem modernoso. Conseguimos autenticar o sinal (?). Para instalar o wireless, ele entrou no meu computador. Muito bizarro ver o cursor se movendo na tela, daquele jeito frenético, telas abrindo e fechando; muito estranho não ter controle algum sobre esses movimentos todos. O wireless só funcionava com o cabo ligado. Se tirasse o cabo, o wireless caía. Paradoxal. O moço pediu pra eu desligar tudo e só ligar 3 minutos depois. Desligamos o telefone.

O problema se transformou: o sinal vinha forte, depois caía, depois estabilizava. Mas não havia acesso à internet. Conectada, mas sem acesso. Voltei a ligar no suporte. Depois de meia hora com a moça, percebi que ela interagia comigo, o meu computador e seus colegas, que imaginei em pé, olhando por cima do ombro dela pra minha tela de computador. Foi decidido que a placa do meu computador é que estava com problema. Não insisti que não pode ser isso, já que pego o sinal wireless do vizinho. Desligamos. Eu tenho internet, só não tenho mobilidade.

Enquanto o moço da assistência técnica da loja fazia o meu modem funcionar, uma cliente comentou com a recepcionista que hoje em dia estávamos viciados em computador. Disse que precisávamos estar conectados. Se ela tivesse aumentado a conversa com 'navegar é preciso' (navigare necesse est eu não esperava), eu teria me manifestado. Não é que somos viciados em computador e internet. O modus operandi é que mudou pra essa mídia. Metade dos meus alunos não me apresenta mais textos em papel. Chegam por e-mail. Não é mais preciso ir ao banco, à livraria, à reunião. Essa nova mídia possibilita novas conexões com as pessoas. Quanta gente não se conheceu pelos chats da vida? Já me aconteceu de pessoas se surpreenderem com a minha identidade: então você é a meninamalouca? - porque me liam, mas nunca tinha me visto. 

Pra mim, internet é dependência - no mesmo sentido que sou dependente de um meio de transporte. Sou dependente de um veículo motorizado pra chegar em Porto Alegre, por exemplo. Ir a pé seria uma baita aventura, mas daí o meu objetivo (chegar em Porto Alegre) se diluiria nessa aventura. Outra coisa é abusar de um meio de transporte: ir de carro até a banca de jornal quando dava muito bem pra ir a pé já configura como uma dependência voluntária do carro.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quando a chuva cai

Assim como o amor, as chuvas amazônicas são variadas: tem aquela que despenca de tarde, aquela que sussurra de noite e aquela que traumatiza. 

Ontem despencou uma chuva que levou ao chão meio jambeiro e muita manga. Eu, meus alunos e a Cynthia e seus alunos, todos vimos a árvore caindo e depois a galera juntando as mangas. Alguns amores são assim: invadem, depois se esvaem. Só é ruim quando se está trocando o telhado: a casa alaga, mas o casamento continua.

Quando a chuva sussurra de noite, normalmente estamos abrigados. A chuva cai em paralelo com as nossas atividades, não afeta diretamente. Um amor assim é um amor à distância. Cada qual tem a sua autonomia e não precisa nem mesmo haver reciprocidade.

Desde o meu terceiro alagamento de casa, sou traumatizada com chuvas torrenciais. Mudei de uma casa que alaga pruma casa que tem goteiras. O elemento traumático não é a chuva em si, mas o estrago que ela causa. E o estrago só acontece porque a estrutura que deveria resistir à chuva é frágil. Na Rua Venezuela, a fragilidade era do sistema de esgoto e escoamento de água. Aqui, na Eletronorte, as telhas é que são o problema. Nos amores traumáticos, o que sobra é a frustração, a decepção, a incompreensão. A intensidade do amor vivenciado é lembrada para justificar os estragos. Tentamos prever a chuva, construímos estruturas que sejam capazes de resisitir a chuvas fortes, temos a escolha de nos proteger dela ou mergulhar nela. O amor vem. Quando vai, não alivia.
Chuva é vida: alimenta o solo, faz crescer as plantas, limpa o ar, lava a alma. Amor também é vida: faz flutuar, oferece amparo, presentifica o futuro e transforma o momento num presente. Depois de uma boa chuva, agradecemos. Depois de um grande amor, padecemos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Perspectivismo em Mayombe

Mayombe, publicado pela primeira vez em 1971 pelo escritor africano Pepetela, tem a seguinte epígrafe:

Aos guerrilheiros do Mayombe, 
que ousaram desafiar os deuses
abrindo caminho na floresta obscura, 
Vou contar a história de Ogun,
o Prometeu africano. (p. 11)


O romance começa sendo contado por um narrador onisciente, que se transforma em narrador em terceira pessoa, a partir da perspectiva de um dos personagens. É como se, num primeiro momento, uma câmera filmasse a floresta tropical e os guerrilheiros angolandos dentro dela. Num segundo momento, essa câmera é colocada no ombro de Sem Medo. A figura de Prometeu, que do ponto de vista africano é Ogun, se veste de Comandante guerrilheiro que responde pela alcunha de Sem Medo. No entanto, homem e mata transformam-se:

A mata criou cordas nos pés dos homens, a mata gerou montanhas intransponíveis, feras, aguaceiros, rios caudalosos, lama, escuridão, Medo. A mata abriu valas camufladas e folhas sob os pés dos homens, barulhos imensos no silêncio da noite, derrubou árvores sobre os homens. E os homens avançaram. E os homens tornaram-se verdes, e dos seus braços folhas brotaram, e flores, e a mata curvou-se em abóbada, e a mata estendeu-lhes a sombra protectora, e os frutos. Zeus ajoelhado diante de Prometeu. (p. 80)


O perspectivismo não acaba aí. Cada seção de capítulo inicia-se com a fala de um narrador em primeira pessoa. Alguns dos revolucionários envolvidos no Movimento pela libertação de Angola (MPLA) têm o seu momento de fala: Teoria, Milagre, Mundo Novo, Muatiânvua, André, o Chefe de Depósito, o Chefe de Operações, Lutamos e o Comissário Político são narradores e têm sua narração marcada em itálico. Sem Medo não é narrador, mas a narrativa é praticamente toda contada de seu ponto de vista. Ondina, Vewê, Ingratidão, Ekuikui,Verdade e outros personagens não são promovidos a narrador. Nesse momento de narração em primeira pessoa, a paisagem dos acontecimentos é fixada pelo narrador, mesmo que ela não seja coerente com a grande narrativa. André, por exemplo, vê o cenário com outros olhos que os guerrilheiros.

O perspectivismo é ilustrado através de imagens. A primeira imagem deste post é a primeira imagem do livro. Logo depois do título, antes da epígrafe, Mayombe se apresenta. Cada início de capítulo é ilustrado por um recorte da parte esquerda inferior da primeira imagem. Cada narrador em primeira pessoa é precedido por um recorte menor da primeira imagem.

No perspectivismo, existe uma estrutura, um sistema em que as coisas estão em relação. Uma coisa é aquilo que a outra coisa não é. Teoria, no seu primeiro momento de narrador, exemplifica isso:

Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. (p. 16)

Outro tema caro ao perspectivismo é a ausência de absolutos, como por exemplo a Verdade (com V maiúsculo). 

Felizes os que crêem no absoluto, é deles a tranquilidade de espírito! (p. 150)

Muitas vezes tenho de fazer um esforço para evitar de engolir como verdade universal qualquer constatação particular. Uma pessoa está habituada a não discutir, a não pôr em questão uma série de ensinamentos que lhe vieram da infância. É preciso uma atenção constante para não cair na facilidade, não atirar com um rótulo para a frente e assim fugir a uma análise profunda do facto. Porque o esquematismo, o rotulismo, são o resultado duma preguiça intelectual. (p. 182)

Nessa onda pós-moderna de desconstrução dos absolutos, Flusser afirma, em Da religiosidade, que a humanidade perdeu a fé na igreja e na ciência. Restava-lhe a crença na linguagem: eu acredito que você e eu compartilhamos o mesmo código. Eu acredito que você está se esforçando para me entender e você acredita que eu estou querendo me comunicar. Nem a linguagem sobra em Mayombe:

-Temos de conversar, camarada Comandante. Noutra altura, mais calmamente. Acho que o que nos separa é a linguagem. Não temos a mesma linguagem.
- Há muito que deixei de acreditar nas palavras - disse Sem Medo. (p.236)

Desde que a Literatura e a Antropologia habitam os meus pensamentos, tenho feito o exercício de entender o pós-modernismo. A leitura de Mayombe me agarrou pelos olhos, rodopiou e jogou numa mata polifônica.

sábado, 27 de novembro de 2010

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Osso duro de roer

Apesar de ter saído do cinema verde e vomitando, eu achava que Cidade de Deus era mais filme de gente grande do que Tropa de elite. Em Cidade de Deus, a favela é o personagem. No Tropa de elite, o capitão Nascimento é o herói. Num filme hollywoodiano, cheio de adrenalina e testosterona, um policial é o herói. A trilha sonora e o narrador dão o tom do filme.

Acabo de ver Tropa de elite 2. Menos adrenalina, menos trilha sonora, mais palavrão, muito mais tiro e aquele narrador com cartas na manga continua lá. A primeira cena do filme é a emboscada que armaram pro herói. Como é o herói que narra e o público brasileiro ainda não está acostumado com narradores mortos, o público confia, desde a primeira cena, que toda a estória será contada até o momento da emboscada. A poucos minutos do final, chega a cena da emboscada. Se o filme tivesse chegado a essa cena na metade, o público sacaria que "é cedo pro narrador morrer". A poucos minutos do final, o público já suspira pelo herói e rejubila quando percebe que a vítima da emboscada tinha armado pra cima do inimigo. A força e o descontrole (físicos) do capitão Nascimento se transformaram, no andar do coronel Nascimento, numa postura de tartaruga puxada pelo rabo.

Dos filmes que vi do José Padilha, fico com o Ônibus 174.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Música sem chão

Quando ouvi Mustapha, de Marisa Monte (disco Mais), pela primeira vez, me senti leve. Quando ouvi a música no fone de ouvido e de olhos fechados, tive a sensação da música não ter chão. Cada instrumento faz a sua parte, e todos são levemente desencontrados. Não são paralelos, são ilhazinhas. A voz feminina costura entre todos os instrumentos de percussão. Levante, (do disco Infinito particular, também da Marisa Monte), me parece o melhor exemplo de música sem chão: os sons viajam na música, atravessam seu mar, dão voltas nas ilhas e acenam pra voz que traça seu caminho na paisagem abstrata. A melhor imagem para concretizar esse tipo de sensação era um quadro do Kandisnky na sua fase Bauhaus.
Quando ouvi Vanessa da Mata pela primeira vez nos fones de ouvido e de olhos fechados, tive a mesma sensação de falta de chão (principalmente na Onde ir, do Planet Copacana). Cheguei à conclusão de que a escolha dos instrumentos leva a isso: não há uma bateria que cadencia o tempo, um baixo que ancora o ritmo, uma guitarra pé-no chão que acompanha a voz. A lógica rock n'roll não se fazia presente, por isso a sensação de flutuar no espaço abstrato. Mesmo os violões têm um papel de instrumentos de percussão que mais enfeitam do que sustentam a música. Mas eu não entendo nada de música.
Minha grande surpresa foi revisitar essa sensação de ouvir uma música sem chão ao ouvir Dire Straits. Nem precisou de fones de ouvido ou olhos fechados. A segunda parte de Why worry (do Brothers in arms) no volume 14 (nesse volume, os vizinhos acompanham bem) já me transportou prum espaço sem chão. Ora, Dire Straits é rock n' roll na veia! Então não são os instrumentos que criam a sensação, é o seu uso.
Não tenho ouvido musicalmente educado, nem nunca conversei com nenhum músico sobre essa sensação. Mas reconheço nos quadros de Kandinsky a organização dessas músicas que tentei descrever aqui. Ele mesmo corrobora a metáfora da imagem + som:

"Em geral, a cor é, pois, um meio para exercer influência directa sobre o espírito. A cor é a tecla. O olho é o martelo. O espírito é o piano com inúmeras cordas. O artista é a mão que oportunamente faz vibrar o espírito do homem segundo o seu capricho, através desta ou daquela tecla." (Düchting, H. Wassily Kandinsky, 2005, p. 17)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Paisagismo

Pentear o maracujá (que tava só no estrado da cama que eu perdi nos alagamentos da casa anterior) pra cima dos arames que puxei foi quase tão complexo quanto corrigir as redações dos meus alunos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O gesto de escrever

Escher

Lendo as redações dos meus alunos, aprendo muita coisa, inclusive sobre o gesto de escrever. Quem fala em 'gestos' é Flusser. Eu só tenho um xerox do Gesten: Versuch einer Phänomenologie, que eu tirei na USP, muitos anos atrás. Fiquei com preguiça de traduzir, então procurei na internet qualquer coisa sobre o gesto de escrever e topei com uma página verdona em que estava pendurado um texto do Gustavo Bernardo sobre Os gestos de Flusser. Recortei um trecho do Flusser sobre o gesto de escrever:

É falso dizer que a escritura fixa o pensamento. Escrever é antes uma maneira de pensar. Não há nenhum pensamento que não se articule através de um gesto. Antes de sua articulação o pensamento é somente uma virtualidade, vale dizer, nada. E se realiza através do gesto. Falando com propriedade, não se pode pensar antes de fazer certos gestos. O gesto de escrever é um gesto do trabalho, graças ao qual as idéias se realizam em forma de textos. Ter idéias não escritas significa na realidade não ter nada. Quem afirma que não pode expressar seus pensamentos, o que está dizendo é que não pensa. O que importa é o ato de escrever; tudo o mais é puro mito. No gesto de escrever o chamado problema estilístico não é nenhum apêndice: é o problema por antonomásia. Meu estilo é a maneira pela qual escrevo; ou, o que é o mesmo, é o meu gesto de escrever. Le style, c'est l'homme.


Especialmente em textos argumentativos sobre algum assunto polêmico, tenho a sensação de perceber como a opinião do escrevente se forma durante o ato de escrita.

Por incrível que pareça, aqueles que já tinham uma opinião formada sobre o assunto, não organizaram seu texto de maneira linear. Apresentavam sua posição, mas logo embarcavam em digressões, embaralhavam argumentos e quase nunca ilustravam seus argumentos com exemplos.

Aqueles que tinham uma intuição de que posição assumir, fizeram seu trabalho de pesquisa, coletaram dados, organizaram seus dados, articularam informações e as usaram para justificar sua opinião. Nesses casos, tive a sensação de que o gesto de escrever organizava seus pensamentos e que o texto resultante era uma opinião muito mais formada do que a intuição que tinham antes de começarem a escrever.

Tive a sensação de que aqueles que já tinham uma opinião formada, não chegaram a ela caminhando sobre as próprias pernas. Seus textos eram pouco argumentativos: mais esperneantes.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Vieram!

Que surpresa boa, ver as primeiras flores de maracujá! É possível que eu consiga levar sementes de maracujá dessa casa (que será demolida no ano que vem). Já estou fantasiando com o cheiro de maracujá alegrando a minha vida.

domingo, 14 de novembro de 2010

Pequeno dicionário dos esfarelados

Com a palavra em lascas: lascado.
Com o coração em pandarecos: abandonado.
Com o corpo em frangalhos: coitado.
Com os restos: sobrando.
Com a memória aos pedaços: desencontrado.
Com a auto-estima em migalhas: esmigalhado.
Com a personalidade em cacos: doido.
Com a vida em retalhos: desalinhado.

sábado, 13 de novembro de 2010

Universidade pública, né?

Uma universidade pública tem compromisso com o ensino, a pesquisa e a extensão. Uma universidade particular tem compromisso com o ensino e o lucro gerado por essa mercadoria. 

Nesse sentido, imagino que a vida universitária de um aluno de universidade particular seja mais parecida com a vida de um aluno de escola do que com a vida de um aluno de universidade pública. Fazendo pesquisa, o aluno da pública aprende a refletir sobre os conceitos aprendidos, antes de aplicá-los. Imagino que o aluno da particular, que não tem contato com a pesquisa (porque seus professores não são pesquisadores e porque não alfabetizam seus alunos em procedimentos científicos), receba o ferramental teórico como uma Verdade aplicável aos fenômenos. O aluno da pública, iniciado na pesquisa, sabe que as teorias e os modelos não são completos ou suficientes para explicar os fenômenos: são, antes, óculos que se usa para analisar os fenômenos. Pena que se faz pouca pesquisa na Unir.

Um aluno da universidade pública (que oferece cursos de extensão) pode fazer vários cursos (pagos, mas os preços são menores que fora da universidade) que não estão relacionados com a sua graduação ou pós-graduação. A Unicamp, por exemplo, oferece cursos de línguas estrangeiras, esportes e circo, dentre outros. Oferece ainda eventos como cinema gratuito (3 sessões diárias durante a semana) e apresentações da orquestra (aos domingos) na Casa do Lago. A Unir não oferece cursos de línguas estrangeiras nem de esportes na extensão (porque não tem infra-estrutura: piscina de verdade, quadras - no plural, vestiários, ginásio etc.). A Unir oferece alguns poucos eventos de extensão, como por exemplo o cineclube deLírio.

O professor que entra na universidade pública passou por um concurso. O professor que entra na universidade particular assina um contrato. Um professor de universidade pública é funcionário público (ativo permanente). Um professor da particular pode ser despedido por inúmeros motivos, inclusive descontentamento dos alunos.

A universidade pública é aberta. A Unir fecha seu portão nos fins de semana. Na Unir, alguns prédios são administrados por pessoas que saem para almoçar e trancam o prédio entre 12:00 e 14:00. Isso significa muitos banheiros a menos no horário do almoço. Na Unir, alguns prédios e salas têm dono (o cineclube foi expulso de uma sala no ano passado por uma professora que se sentia dona de uma sala que não usava).

A universidade pública é gratuita. Fiquei chocada quando ouvi que há professores de Medicina cobrando pelo xerox das provas aplicadas (R$ 2,80 por aluno, sendo que a prova não tinha 28 páginas). Para ser coerente com a gratuidade, existem cotas para os professores fazerem xerox. No IEL, Unicamp, cada professor tinha direito a 150 cópias gratuitas. Na Unir, poucos sabem que isso existe.

Muitos alunos da universidade pública partem para a iniciativa privada depois de formados (estudantes de Medicina, por exemplo, aprendem sobre saúde pública, mas não se sentem chamados pelos hospitais públicos: preferem as clínicas particulares). 

Um dos candidatos a reitor falava em 'privatização da Unir'. Na prática, a Unir está mais parecida com uma particular do que com uma universidade pública: não oferece moradia estudantil, restaurante universitário, hospital universitário, apoio jurídico e psicológico, passe livre. Não é aberta, nem completamente gratuita (vide xerox de prova e a cobrança de taxa de inscrição nos Mestrados) e mal e mal oferece pesquisa e cursos de extensão. 

Não espanta que os recém-chegados à Unir tramem seus planos de fuga: alunos calouros prestaram o ENEM, alunos veteranos desistem e tentam a sorte em outras universidades, professores pedem transferência, redistribuição, ou prestam concurso em outros lugares.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Mais da mesma

Mais uma foto da Akari pra desviar o foco do processo seletivo do mestrado, das eleições pra reitor, do fim do semestre com 3 turmas escrevendo redações, da falta que fazem os que foram embora.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Distração

Foto da Akari pra eu evitar de reclamar da vida.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Sem teto

Acho que eu nunca tinha visto um morcego tão de perto. 
São peludinhos.
Esse tava dormindo ao relento.
Queria ter conseguido olhar pra cara dele, mas não deu.
Um morcego acordado me pareceu menos bonitinho que um morcego adormecido.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Modernity

Sua bicicleta anterior tinha sido batizada de Evolution. Não era mais uma bicicleta nacional, comprada em supermercado: era importada e tinha lhe custado quase todo um salário. Evolution era ágil, robusta e bonita. Talvez esses tenham sido os motivos que ocasionaram seu furto.

Luis não podia viver sem bicicleta, especialmente depois que descobriu que existem bicicletas boas. Endividou-se e comprou um novo meio de transporte. Modernity era veloz, leve e linda. Luis falava de sua mais nova aquisição como quem suspira de paixão. Em casa, guardava a Modernity na sala; no trabalho, prendia-a num poste de luz na frente da entrada. Não deixava a bicicleta na garagem porque queria vê-la sempre.

Modernity chamava atenção. Presa no poste de luz da torre de escritórios, a bicicleta estilosa personificava o contraste entre a simplicidade branca e a opulência do vidro-espelho escuro. No trânsito, Modernity só parava nos semáforos, nunca nos engarrafamentos. No escritório, somente Luis era ciclista.

Luis era visto pelos colegas sedentários e acima do peso como atleta, alternativo, ecologicamente correto. Por tabela, atribuíam-lhe hábitos coerentes com a visão que tinham dele: vegetariano, abstêmio, não-fumante e revolucionário. Por ser diferente dos outros e inspirar possibilidades, tinha um certo número de admiradoras. Enquanto elas fumavam seus cigarros na frente do prédio e ele destrancava as correntes que prendiam Modernity ao poste de luz, puxavam conversa sobre hábitos saudáveis, a natureza agradece, pedalar na chuva, no sol, na poluição, medo do trânsito e o capacete que ele não usava. Era educado, sorria sempre e concordava com tudo.

Numa sexta-feira, final de expediente, Ana anunciou que na semana seguinte viria ao escritório com ele - de bicicleta. Mesmo sendo mais alta que ele, olhava-o de baixo para cima. Disse que queria aprender a pedalar na cidade. Despediram-se com o evasivo "vamos conversando no fim de semana" e logo Luis apagou a conversa de sua memória. No domingo à noite, recebeu uma mensagem pelo celular. Era Ana, perguntando quando e onde se encontariam na manhã seguinte para irem ao trabalho de bicicleta. Luis apenas removeu Ana de sua gaveta mental destinada às 'colegas' e a alocou na gaveta mental das 'pretendentes'. Não respondeu, nem ligou, nem mesmo imaginou o encontro.

No escritório, se trataram como de costume, ignorando completamente o episódio da bicicleta. Naquela semana, o número de pretendentes de Luis aumentou. Dessa vez, tratava-se de um colega que tinha migrado da gaveta dos 'camaradas' para a gaveta dos 'pretendentes'. Não tinha certeza absoluta, mas sentia que o nervosismo nas mãos, as falhas na voz e os constantes contatos para manter contato confirmavam a nova condição do Oscar. Este não era o primeiro homem a manifestar interesse por ele.

Chovia no dia que acabou numa confraternização. Luis percebeu que Oscar orbitava à sua volta e que havia uma bicicleta vermelha presa no orelhão ao lado da Modernity. Justo num dia de chuva aparecia uma nova bicicleta na frente do escritório. Pediu carona pro gerente e saiu da festa à francesa.

Ana e Oscar foram os últimos a voltar pra casa naquele dia. Ana foi de táxi, Oscar esperou ao lado da Modernity até o frio penetrar seus ossos. No dia seguinte, Oscar faltou ao trabalho: avisou que estava constipado. Ana e Luis foram sobrecarregados de números e se trataram como camaradas. 

No fim do expediente daquele dia, quando o elevador parou no sétimo andar, Moira entrou e cumprimentou Luis toda sorridente e jovial. Perguntou da Modernity. Luis estranhou que uma moça que trabalhava no sétimo andar soubesse o nome de sua bicicleta, mas devolveu o sorriso e disse que a Modernity ia bem, obrigado. Moira tocou seu ombro e saiu do elevador no sexto andar.

Da entrada do prédio, reparou que havia algo colado no guidon da Modernity. Chegou perto e identificou um bilhete preso com fita crepe. A caligrafia redonda expressava um elogio. O bilhete de duas linhas não trazia assinatura. Mentalmente, Luis computou: pretendentes = n+3.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Saiu do prelo


Finalmente o livro que Heloisa e eu organizamos saiu da gráfica! O livro é fruto da Semana de Letras que ocorreu em novembro do ano passado na Unir e conta com artigos de 31 autores diferentes. Foi preciso exercer diversos papéis para conseguir esse resultado: autora, revisora, esperante, editora, organizadora, mensageira, insistente, negociadora, acompanhante de papéis, sorridente, carregadora de livros.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sofrendo com os textos

Textos ruins me sugam a energia vital, me corroem as entranhas, violentam a minha inteligência e abusam da minha formação. Enfim, me desanimam profundamente. 
Textos ruins não são só aqueles escritos por pessoas que não dominam a ortografia de sua língua materna. 
Textos ruins não são só aqueles em que não existe qualquer forma de planejamento, escolha das palavras, lapidação de ideias ou qualquer indício de prazer de escrever.
Textos ruins são também aqueles escritos por pessoas que não têm vida interna (como já dizia o meu amigo Paulo Punk). Os textos de autores que não têm individualidade própria repetem o discurso da televisão, da igreja, dos filmes e seriados americanos.
Textos ruins são também aqueles que não acertam a medida do tom poético na prosa e transbordam o significante a ponto de as frases ficarem sem sujeito, os verbos sem ação e o leitor sem orientação.

Os textos que ando lendo são drogas pesadas.