quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Perspectivismo em Mayombe

Mayombe, publicado pela primeira vez em 1971 pelo escritor africano Pepetela, tem a seguinte epígrafe:

Aos guerrilheiros do Mayombe, 
que ousaram desafiar os deuses
abrindo caminho na floresta obscura, 
Vou contar a história de Ogun,
o Prometeu africano. (p. 11)


O romance começa sendo contado por um narrador onisciente, que se transforma em narrador em terceira pessoa, a partir da perspectiva de um dos personagens. É como se, num primeiro momento, uma câmera filmasse a floresta tropical e os guerrilheiros angolandos dentro dela. Num segundo momento, essa câmera é colocada no ombro de Sem Medo. A figura de Prometeu, que do ponto de vista africano é Ogun, se veste de Comandante guerrilheiro que responde pela alcunha de Sem Medo. No entanto, homem e mata transformam-se:

A mata criou cordas nos pés dos homens, a mata gerou montanhas intransponíveis, feras, aguaceiros, rios caudalosos, lama, escuridão, Medo. A mata abriu valas camufladas e folhas sob os pés dos homens, barulhos imensos no silêncio da noite, derrubou árvores sobre os homens. E os homens avançaram. E os homens tornaram-se verdes, e dos seus braços folhas brotaram, e flores, e a mata curvou-se em abóbada, e a mata estendeu-lhes a sombra protectora, e os frutos. Zeus ajoelhado diante de Prometeu. (p. 80)


O perspectivismo não acaba aí. Cada seção de capítulo inicia-se com a fala de um narrador em primeira pessoa. Alguns dos revolucionários envolvidos no Movimento pela libertação de Angola (MPLA) têm o seu momento de fala: Teoria, Milagre, Mundo Novo, Muatiânvua, André, o Chefe de Depósito, o Chefe de Operações, Lutamos e o Comissário Político são narradores e têm sua narração marcada em itálico. Sem Medo não é narrador, mas a narrativa é praticamente toda contada de seu ponto de vista. Ondina, Vewê, Ingratidão, Ekuikui,Verdade e outros personagens não são promovidos a narrador. Nesse momento de narração em primeira pessoa, a paisagem dos acontecimentos é fixada pelo narrador, mesmo que ela não seja coerente com a grande narrativa. André, por exemplo, vê o cenário com outros olhos que os guerrilheiros.

O perspectivismo é ilustrado através de imagens. A primeira imagem deste post é a primeira imagem do livro. Logo depois do título, antes da epígrafe, Mayombe se apresenta. Cada início de capítulo é ilustrado por um recorte da parte esquerda inferior da primeira imagem. Cada narrador em primeira pessoa é precedido por um recorte menor da primeira imagem.

No perspectivismo, existe uma estrutura, um sistema em que as coisas estão em relação. Uma coisa é aquilo que a outra coisa não é. Teoria, no seu primeiro momento de narrador, exemplifica isso:

Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. (p. 16)

Outro tema caro ao perspectivismo é a ausência de absolutos, como por exemplo a Verdade (com V maiúsculo). 

Felizes os que crêem no absoluto, é deles a tranquilidade de espírito! (p. 150)

Muitas vezes tenho de fazer um esforço para evitar de engolir como verdade universal qualquer constatação particular. Uma pessoa está habituada a não discutir, a não pôr em questão uma série de ensinamentos que lhe vieram da infância. É preciso uma atenção constante para não cair na facilidade, não atirar com um rótulo para a frente e assim fugir a uma análise profunda do facto. Porque o esquematismo, o rotulismo, são o resultado duma preguiça intelectual. (p. 182)

Nessa onda pós-moderna de desconstrução dos absolutos, Flusser afirma, em Da religiosidade, que a humanidade perdeu a fé na igreja e na ciência. Restava-lhe a crença na linguagem: eu acredito que você e eu compartilhamos o mesmo código. Eu acredito que você está se esforçando para me entender e você acredita que eu estou querendo me comunicar. Nem a linguagem sobra em Mayombe:

-Temos de conversar, camarada Comandante. Noutra altura, mais calmamente. Acho que o que nos separa é a linguagem. Não temos a mesma linguagem.
- Há muito que deixei de acreditar nas palavras - disse Sem Medo. (p.236)

Desde que a Literatura e a Antropologia habitam os meus pensamentos, tenho feito o exercício de entender o pós-modernismo. A leitura de Mayombe me agarrou pelos olhos, rodopiou e jogou numa mata polifônica.

Um comentário:

Vivianne Pontes disse...

Moça, eu tenho que trabalhar, mas fiquei aqui lendo a sua conversa. Chorei com você por Shaoran. Fiquei imaginando o calor abafado que te fez cortar o cabelo. Agora tenho que trabalhar que já é tarde.