sábado, 4 de dezembro de 2010

Quando a chuva cai

Assim como o amor, as chuvas amazônicas são variadas: tem aquela que despenca de tarde, aquela que sussurra de noite e aquela que traumatiza. 

Ontem despencou uma chuva que levou ao chão meio jambeiro e muita manga. Eu, meus alunos e a Cynthia e seus alunos, todos vimos a árvore caindo e depois a galera juntando as mangas. Alguns amores são assim: invadem, depois se esvaem. Só é ruim quando se está trocando o telhado: a casa alaga, mas o casamento continua.

Quando a chuva sussurra de noite, normalmente estamos abrigados. A chuva cai em paralelo com as nossas atividades, não afeta diretamente. Um amor assim é um amor à distância. Cada qual tem a sua autonomia e não precisa nem mesmo haver reciprocidade.

Desde o meu terceiro alagamento de casa, sou traumatizada com chuvas torrenciais. Mudei de uma casa que alaga pruma casa que tem goteiras. O elemento traumático não é a chuva em si, mas o estrago que ela causa. E o estrago só acontece porque a estrutura que deveria resistir à chuva é frágil. Na Rua Venezuela, a fragilidade era do sistema de esgoto e escoamento de água. Aqui, na Eletronorte, as telhas é que são o problema. Nos amores traumáticos, o que sobra é a frustração, a decepção, a incompreensão. A intensidade do amor vivenciado é lembrada para justificar os estragos. Tentamos prever a chuva, construímos estruturas que sejam capazes de resisitir a chuvas fortes, temos a escolha de nos proteger dela ou mergulhar nela. O amor vem. Quando vai, não alivia.
Chuva é vida: alimenta o solo, faz crescer as plantas, limpa o ar, lava a alma. Amor também é vida: faz flutuar, oferece amparo, presentifica o futuro e transforma o momento num presente. Depois de uma boa chuva, agradecemos. Depois de um grande amor, padecemos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Profundo.

bill disse...

Que baita texto bonito.